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Vida de um Cinéfilo

Vida de um Cinéfilo

Trespass Against Us (Código de Família, 2017) - Crítica

     Se há prova de que é possível, e fácil, elevar a trama de qualquer filme apenas contratando dois excelentes atores, por mais desinteressante que a história for, é o filme Trespass Against Us.

     O filme passa-se na Irlanda e segue uma família de criminosos que vive numa das zonas rurais mais ricas da Grã-Bretanha. Eis que Chad, interpretado pelo Michael Fassbender decide sair daquele ambiente contra a vontade do pai, interpretado pelo Brendan Glesson, e eis que Chad começa uma luta pela liberdade da sua família.

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     Não se deve esperar um grande thriller de ação quando se pensa nesta trama. Ao invés disso, deve se esperar um drama de família e crime, onde determinados assuntos são discutidos de maneira relevante, enquanto o resto do filme não passa do genérico e previsível.

     O filme é realizado pelo Adam Smith, um realizador que ainda não conseguiu achar o tom e a sua voz, não há nada de marcante no estilo dele, pelo contrário, nota-se que a sua inexperiência. Ele usa bastantes grandes planos dentro daquele ambiente claustrofóbico, que funcionam, e há cenas de ação muito bem orquestradas. O problema é que essas cenas caiem rapidamente quando o realizador decide apelar para a câmara tremida, que é uma praga nas cenas de ação de hoje em dia.

     O guião por acaso podia ser pior. Tem muitos buracos é verdade, mas quanto aos diálogos, ele acerta mais do que erra. Falando nos personagens, há um desenvolvimento bem pobre quando se referindo a alguns personagens.

     Algo que se sobressai é a banda sonora, composta pelo Tom Rowlands, um dos integrantes do duo de eletrónica The Chemical Brothers. É hipnotizante e avisa muito bem a luta que está para vir.

     O Michael Fassbender é o maior atrativo do filme. Ele cria um personagem até banal, mas o arco que o envolvia e o que dizia respeito ao conflito interno do personagem mostram um homem muito humano, é uma construção de personagem muito honesta. E o maior alívio é o seu sotaque irlandês convence e muito bem, principalmente junto do Brendan Gleeson, que é mesmo irlandês.

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     Falando nele, o Brendan Gleeson está excelente e é honestamente a melhor coisa do filme. É um ator ainda muito underrated, um dia que ele tenha a oportunidade de ter um papel principal de peso, é provável que um dia seja considerado um dos atores mais influentes do século. Ele cria um homem ignorante, manipulador e teimoso. É um homem que recebeu a educação errada, com pensamentos ilógicos e absurdos. Agora que ele é o chefe da família, ele finalmente tem mão em tudo e por causa disso, o personagem para além de ficar facilmente temível, fica imprevisível.

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     Saindo desse aspeto, o Adam Smith fez algo muito errado com o ator. Colocou-o numa cena numa igreja lá para o final do filme que não precisava de estar lá, o realizador não percebe o conceito “menos é mais”. Toda essa cena quase acabou e gozou com a essência do personagem.

     E o curioso é que não há absolutamente nada dito sobre a mãe do Chad. Nunca se sabe se ela se foi embora ou se se separou do marido. Absolutamente nada.

     Saindo desses dois personagens, o filme começa a cair bastante. A Lyndsey Marshal interpreta a mulher do Michael Fassbender. A atriz não é má, até tem uma ou duas cenas boas, o problema é que a mulher não dá qualquer empatia, não há desenvolvimento nenhum, ela nunca passa da mulher que dá na cabeça ao marido.

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     Os filhos do Michael Fassbender também me incomodaram. A dada altura parece que ele tem apenas um filho e as suas outras duas filhas desaparecem e aparecem do filme completamente. Bastava meter lá apenas um filho, era até benéfico para a história.

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     Os irmãos dele também são um problema. Primeiro eu nem me lembro de quantos eram. Segundo, eles são todos iguais, todos cospem para o chão, dizem palavrões e seguem ordens.

     Fora aquela ceninha ridícula do ato final que eu já falei, há uma bem específica. Eu pensei se falava ou não nela, mas visto que não é algo com muito peso no filme, eu falo. Há uma cena em que o Chad está a fugir da polícia. Aí há um cão que vai atrás e salta para cima dele. De alguma maneira, ele consegue matar o cão com apenas uma entorse no pescoço, algo que jamais aconteceria quando se lutava com um cão daquele tamanho. É um momento que faz mais rir do que outra coisa qualquer.

     O filme toca em temas de maneira eficiente como família, cooperação, amor e pensamentos de mentes fechadas. São coisas interessantes, mas quando havia uma oportunidade de se fazer algo significativo, o guião ficou pela calada. Felizmente o final é bem arrumado, simples e objetivo.

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     Trespass Against Us tenta ser mais do que aquilo que é e perde as hipóteses que tem quando podia fazer algo maior. Tem algumas cenas que prendem a atenção, mas é derivado, previsível, desinteressante e não é memorável.

 

Nota: C

Guardians of the Galaxy (Guardiões da Galáxia, 2014) - Crítica

 

     Guardians of the Galaxy já estreou há três anos, uau! A sequela tão aguardada de 2017 vai chegar a Portugal na próxima quinta dia 27 de abril. Que melhor altura para falar do original que esta?

    O filme passa-se na galáxia do Universo Cinematográfico da Marvel e acompanha a aventura de um grupo composto por um ladrão intergaláctico, uma alienígena em busca por redenção, dois caçadores de recompensas e um guerreiro em busca por vingança, que luta para impedir que um radical assuma o controlo total da galáxia, utilizando uma esfera metálica com o poder para dizimar um planeta inteiro.

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     Guardians of the Galaxy satisfez tanto os fãs da fórmula Marvel como aqueles espectadores que queriam mais do que era habitual. Alguns procuravam mais um filme de super-heróis, com bons personagens, excelentes efeitos visuais e criação de mundo, juntamente com uma estrutura narrativa eficiente, porém familiar. Para outros, a estrutura básica já fora utilizada até à exaustão. Um filme que apresentasse novos personagens para o Universo Cinematográfico Marvel teria uma estrutura simples de origem, em que o protagonista era apresentado, o público rapidamente sentia afeto por ele, este descobria os seus poderes e no ato final decorria um inevitável confronto deste contra o antagonista principal. Guardians of the Galaxy, para além de rejeitar esta forma de narrativa, apresentou novos caminhos por onde os filmes de super-heróis podiam ir, uma vez que começam a ficar cada vez mais previsível e familiares.

     O filme é muito mais que isso, é mais musical, mais cínico, mais imaturo, (uma imaturidade que se desenvolveria em outros filmes como Deadpool), e, o mais importante, diferente.

     James Gunn foi a escolha perfeita para a realização. Permiti-lo também escrever o filme foi uma decisão ainda melhor. Filmes da Marvel como Captain America: The First Avenger, Thor e Thor: The Dark World não tiveram essa sorte e, por isso, não corresponderam às consequências.

    Algo que o filme também fez diferente dos outros foi o excelente desenvolvimento dos personagens. E que personagens! O Chris Pratt dá provavelmente a melhor interpretação da carreira até aqui! Mesmo não sendo o papel que lhe dará um Óscar, Peter Quill é o papel que o definiu, juntamente com Emmet em The LEGO Movie no mesmo ano, como um dos atores mais influentes e carismáticos da nova geração. A sua capacidade de entreter o público e de construir um personagem muito divertido e humano ao mesmo tempo é de tirar o chapéu.

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     A Zoe Saldana nunca foi uma das atrizes com um maior alcance dramático. Em Avatar de James Cameron as coisas mudaram, mas fora disso, não se pode ver muitos outros filmes igualmente bons da atriz. Como Gamora, ela faz o contrário daquilo que era esperado. Ela cria uma espécie de um anti-alívio cómico, uma lutadora extremamente séria, que poucas vezes está lá para se rir, um perfeito contraste para a personalidade sabichona e divertida do Chris Pratt e uma nova faceta do talento da atriz.

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     O Dave Bautista é uma das mais promissoras transições de um desporto para o cinema. A carreira de acting do ex-wrestler promete, não ser das mais diversificadas, mas sim umas mais interessantes de qualquer maneira. A seriedade do Drax the Destroyer cai bem no filme. Ao mesmo tempo que este procura vingança por algo bem específico, ele não percebe maior parte das metáforas populares dos humanos, algo que consegue ser muito engraçado graças ao ator.

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    O Bradley Cooper está hilariante como Rocket Racoon! Ele é completamente sarcástico, sádico, cínico, maldisposto e, até mesmo, frustrado e infeliz. Mais do que um guaxinim divertido, ele é um dos recursos mais úteis que a Marvel criou para ajudar o filme a se diferenciar dos outros do género. Semelhantemente com Deadpool, que chegaria aos cinemas em 2016, Rocket satiriza os clichês dos géneros e ajuda a criar um significado extra dentro do filme, mas isso vai-se falar no fim.

     O Vin Diesel não é um bom ator, ponto final. Todos os filmes em que já esteve se resumem a corridas, tiros, mulheres e muito falta de lógica. The Iron Giant e Guardians of the Galaxy são exceções. O melhor que o ator tem para oferecer já se notou, a voz de Vin Diesel é muito boa. Groot é um personagem completamente oposto ao Rocket. Ele é doce, amigo, inocente e ingénuo. Debaixo de toda aquela casca de árvore dura e espessa, existe uma das personalidades mais amigáveis da Marvel.

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     Porém, a distribuição do elenco não foi muito justa. Atores como Djimon Hounsou, Glenn Close e John C. Reilly são ótimos atores, mas não um pouco desaproveitados. Cada um tem as suas características principais definidas e todos trazem uma energia ao ritmo do filme que é muito bem-vinda. Só o Benicio Del Toro tem um papel mais interessante e relevante, também por ser uma espécie de easter egg para os futuros filmes da Marvel. Mas estes são atores demasiado bons para performances tão pequenas.

     O vilão é outro problema. O Ronan, interpretado pelo Lee Pace, é um antagonista previsível e genérico. Não tem um desenvolvimento muito interessante e é desfavorecido pelo facto de ter sido posto por vezes em 2º plano, já que o James Gunn deu um tempinho ao Thanos, interpretado pelo Josh Brolin, para ser estabelecido antes do Infinity War.

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     Mas falando novamente de coisas boas. A música do filme é magistral! Fora o tema principal do Tyler Bates, que é um dos melhores da Marvel, a escolha de música clássica é a melhor desde Pulp Fiction, e isso não é dizer pouca coisa. Na verdade, em aspetos técnicos, filmes da Marvel dispensam comentários. Os efeitos visuais e maquilhagem são de última geração e todas as cenas gravadas em cenário ou de green screen são praticamente impercetíveis, o que é o melhor elogio que se pode dar.

     Guardians of the Galaxy foi, acima de tudo, um alívio para os fãs do género que procuravam outra coisa. O género tem-se tornado cada vez mais saturado e previsível, portanto é ótimo aparecerem mais adaptações diferentes deste universo de personagens que, pelos vistos, parece surpreender cada vez mais.

   Saindo do guião do filme, o significado alternativo é bastante óbvio. O debate que este assunto criará entre os espectadores não será algo grandioso. Na verdade, a mensagem que o filme transmite é bem casual, agradável e bonita.

     Guardias of the Galaxy é um filme sobre tragédias. Todos os personagens passaram por diferentes infortúnios: a mãe do Quill morreu quando ele era ainda uma criança e, logo de seguida, este é raptado da Terra sem ter tempo para processar tudo; os pais da Gamora foram mortos pelo Thanos; a família do Drax foi morta pelo Ronan e o Rocket vive com uma sensação de frustração e de que ninguém na galáxia o respeita. Até o próprio Ronan é uma vítima, a espécie dele fora toda extinta e este sente a necessidade de vingança, controlo e poder. Mesmo o filme tendo esta realidade tão bruta, ele consegue suavizar o tom graças principalmente à sua banda sonora, à base de músicas maioritariamente dos anos 70 e 80. Estas músicas transformaram a caverna, no início do filme, numa discoteca, e a sala de tortura da Nova Corps num clube de música. A cassete do Quill é o seu bem mais estimado, pois segundo ele, “dançar é melhor coisa do mundo”. Esta atitude também se manifesta na comédia do filme, ou seja, quando se inicia uma cena mais séria, esta é interrompida por um momento subtil de estupidez ou leveza.

     Quando o grupo finalmente encontra o Colecionador, interpretado pelo Benicio Del Toro, o Quill está prestes a entregar-lhe o Orbe, mas deixa-o cair, como se dissesse que aquilo não passava de uma bola metálica usada para pisar papéis. Mais tarde quando, todos decidem se unir para combater contra o Ronan, o Rocket dá uma gargalhada cínica e goza com os parceiros por estarem todos num círculo num suposto momento de inspiração. Mas se uma atitude cínica é a maneira do filme de retratar tragédias, a amizade é retratada como a solução. Durante a batalha final, as naves juntam-se numa espécie de um casulo para combater contra Ronan e os protagonistas juntam as mãos para partilharem a dor do outro durante o ato de fechar o Orbe.

     O que o filme nos diz é que há duas maneiras de se enfrentar as tragédias: ou se procura vingança ou simplesmente se deixa estar no mesmo sítio enquanto se ri com os amigos. Fácil, não é?

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     Eu não morro de amores por Guardians of the Galaxy. Não chega a ser um dos meus favoritos do género. Mas há que reconhecer que este filme foi uma grande inovação no que diz respeito ao desenvolvimento dos personagens do género e à maneira de como se aborda determinados temas. É um dos filmes mais originais da Marvel, é muito mais divertido do que a simples comédia pipoca e muito mais significativo do que apenas um blockbuster de ação. Merece ser visto por todos os fãs do género. Esperemos que o segundo volume corresponda às expectativas e que, quem sabe, seja melhor que o primeiro.

 

Nota: A-

In Dubious Battle (Batalha Incerta, 2017) - Crítica

     Baseado no livro fictício de 1936 escrito por John Steinbeck com o mesmo nome, In Dubious Battle conta a história de Mac McLeod e de Jim Nolan, interpretados por James Franco e Nat Wolff, que em 1933 na Califórnia, altura da Grande Depressão, começam a trabalhar numa plantação de maçãs quando decidem começar uma revolução para exigir melhorias nas condições de trabalho e salários decentes.

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     O filme é mais um trabalho de realização do James Franco, cujo debut foi The Ape de 2005, que é uma comédia bem tosca. Com uma carreira de realização de apenas 12 anos, o ator apenas conseguiu fazer um bom trabalho, The Disaster Artist em 2016, mas ainda é notável que ele ainda tem pouca habilidade de segurar um filme.

     Uma coisa que ele faz muito bem é segurar o ritmo do filme, que é bem consistente e enérgico. O guarda-roupa e a direção artística recriam muito bem a época suja dos anos 30 na América e o tema principal da banda sonora é bastante memorável. Algo bem feito é também o realismo daquela época. Toda a frustração e humilhação dos trabalhadores é genuína, assim também como a sua vontade de lutar pelos seus direitos. O filme logo me interessou devido ao elenco, que é enorme e cheio de bons atores. E um dos problemas centrais é esse, o James Franco não conseguiu desenvolver todos os personagens de maneira digna, há muito talento desperdiçado aqui.

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     O James Franco é um ótimo ator e é uma das melhores coisas do filme. Ele cria um personagem ao mesmo tempo carismático, porém aldrabão e mentiroso, alguém por quem as pessoas sentem empatia facilmente, mas também uma ligeira desconfiança.

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     O Nat Wolff, por outro lado, está bastante afetado. A performance dele é demasiado suave e calma, era para se ver um lutador, um rebelde. O ator faz cara de bonzinho, mas é pouco expressivo em algumas cenas e quando tenta se mostrar revoltado sai algo muito forçado. Foi o ator mal escolhido para o papel.

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     De resto no elenco estão Robert Duvall, que está ótimo como sempre a fazer um homem de negócios arrogante e que não olha a meios para ganhar. Vincent D’Onofrio, que está carismático como sempre e que sabe segurar bem cenas de discurso ou de rebelião. Josh Hutcherson como um jovem que representa perfeitamente o homem com o pensamento mais perverso do lado de uma revolução, foi uma performance que me impressionou. E Selena Gomez, que não incomoda, mas também não chama à atenção, não é desta que a atriz mostra os seus “dotes” de acting. O que me incomodou foi a relação dela com o Nat Wolff. É muito apressada e não permite que se forme qualquer química. Somando isso ao facto de o Nat Wolff não ter energia para carregar um filme destes.

     Depois temos Sam Shepard, Bryan Cranston e Ed Harris, três dos atores mais versáteis vivos e que são completamente desaproveitados.

     O filme tem alguns discursos, o que era algo que eu esperava vindo de um filme de revolução. Há 2 ou 3 bons e que impressionam, mas outros que se resumem a metáforas baratas, motivações forçadas e a gritos de protesto.

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     Outro problema é a exposição. Ouvir a voz do James Franco a narrar o filme até é agradável, mas nada do que ele diz é novidade. O filme mete umas quantas cenas vazias que só transmitem informações óbvias e repetitivas. O filme teria se beneficiado de alguns silêncios juntos com apenas algumas imagens para contar a história, já que também há muito diálogos. E por último, há um triângulo amoroso, cujos diálogos consequentes são ridículos e é a coisa mais inútil do filme.

     O filme tem quase duas horas e só precisava de uma hora e meia. Por outro lado, é uma história importante que merecia duas horas e pouco. O problema é que se deu espaço a tramas e elementos desnecessários, o que impediu que a história evoluísse com mais eficácia.

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     In Dubious Battle faz um bom trabalho a recriar a realidade da Grande Depressão na América. Tem uma boa trama, porém mal-executada. O elenco é enorme, o que não permite um desenvolvimento eficiente de todos os personagens e é gasto demasiado tempo com sub-tramas desnecessárias.

 

Nota: C-

The Devil's Candy (2017) - Crítica

     Sean Byrne promete ser um dos realizadores de terror mais promissores da sua geração, não só na Austrália, mas em todo o mundo! Em 2010 este lançou o seu primeiro longa-metragem de terror, The Loved Ones, que foi muito bem aceite pelos críticos e pelo público em geral. Após 7 anos, The Devil's Candy estreia nas salas de cinema americanas e, com este trabalho, Byrne supera-se.

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     Não convém dar muitos detalhes sobre o enredo do filme, este é um daqueles que são melhor apreciados às cegas. A única coisa que se pode dizer é que aborda temas sobre religião, o que já é algo delicado. The Witch foi um dos melhores filmes de 2016, é lúgubre, provocativo e assustador. Ambos os filmes abordam os mesmos temas, mas este de maneira bem mais diferente e original.

     Tudo no filme é usado a favor do horror da situação, incluindo a sua falsa previsibilidade. Alguns clichês são descontruídos de maneira muito inteligente. Somando isso à edição, à fotografia escura contudo com tons vivos de vermelho e à banda sonora quase toda à base de heavy metal, quem gostar de rock em geral terá um prato cheio aqui. E, claro, ao elenco que está dedicado para valer. Shiri Appleby e Kiara Glasco estão ambas impecáveis, mas o destaque é mais do Pruitt Taylor Vince e do Ethan Embry que conduzem o filme com uma onda de perturbação, agressividade, terror e drama muito mais inquietante!

     Tendo um título auto-explicativo, o filme podia ter evitado o uso do bode para fazer a história avançar, a presença do Diabo é óbvia desde o princípio, portanto esse recurso é desnecessário. Foi a única pequena coisa que eu não gostei de ver.

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     Convém também dizer que o filme é fisica e psicologicamente muito violento. Não é para toda a gente. A violência é um gosto adquirido do espetador. Há também muita simbologia, que requer um estudo prévio ou posterior. Quem não gostou de The Witch, em princípio não vai gostar deste filme, pois um determinado conhecimento é necessário.

     The Devil's Candy é agressivo, estiloso e enérgico. É um dos melhores filmes de terror da década. Ensina o que é o bom terror e a fazê-lo com um orçamento baixíssimo, com um bom desenvolvimento de personagens e com uma história simples, objetiva, mas executada impecavelmente. Um dos melhores filmes de 2017 até aqui!

 

Nota: A

Little Men (Homenzinhos, 2016) - Crítica

     Little Men foi um dos filmes presentes no Lisbon & Estoril Film Festival de 2016 e está entre os melhores dramas do ano. Eu nunca tinha ouvido falar do realizador Ira Sachs, mas a partir de hoje vou ficar de olho nele. Ele faz tudo certo aqui. Mesmo o filme não sendo perfeito, está perto disso, sendo uma história e um guião simples, o filme tem um movimento de câmara estático demais, talvez se teria beneficiado de mais alguns tracking shots, o que na verdade estão presentes mas em pouco número. Também há alguns planos sequência, a maior parte bem elaborados mas, outra vez, feitos com um plano geral estático demais. Mas outros pontos fortes do filme são a sua música tema e a sua fotografia, que consegue dar cor à cidade monótona de Brooklyn.

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     Fora os aspetos técnicos, as interpretações são muito boas, o elenco como um todo é a melhor coisa do filme. O Greg Kinnear está ótimo com um homem cansado e destroçado, é algo que o ator já fez mais do que uma vez  na carreira mas, por outro lado, isso é bom porque o ator também é. A Jennifer Ehle, ao invés de ficar reduzida apenas à mulher dele, também ajuda na história, ela é a voz da razão do Greg Kinnear e dá uma interpretação muito calculada e calma.

     As grandes revelações, no entanto, são o Theo Taplitz e o Michael Barbieri, que carregam o filme quase inteiro às costas. Há muita naturalidade e reserva aqui. A amizade que nasce entre os dois é muito genuína e bonita de se ver. O Jake, interpretado pelo Theo Taplitz, é o mais reservado, sofrido, introvertido e incompreendido. O Tony, interpretado pelo Michael Barbieri, é mais enégico e extrovertido, é sempre ele que puxa pelo amigo e que mais interesse tem em ouvi-lo. São duas personalidade muito opostas mas muito bem construídas. Os atores jamais querem mostrar as suas habilidades, em vez disso, eles estão mesmo lá.

     Mas o show é todo da Paulina Garcia. Ela é a personagem mais interessante do filme. A atriz desenvolve, em certas ocasiões, um caráter passivo-agressivo, porém amável e calmo noutras. A angústia que a mulher sente é muito verdadeira, logo de cara percebemos que esta tem alguma tristeza guardada. Já a Talia Balsam, que interpreta a irmã do Greg Kinnear, é um problema. Eu não conhecia a atriz e ela nem parece má, mas a sua personagem ficou reduzida ao diabinho do ombro do irmão, ela entra no filme só para o apressar a fazer algo sobre o qual ele tem dúvidas. A personagem é desnecessária, o conflito existente já estava presente na consciência dele mesmo, com algumas alterações no guião seria tudo mais simples e ele podia ser filho único. Felizmente a personagem não permance durante muito tempo.

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     Little Men é um ótimo retrato das relações entre jovens e adultos e sobre o impacto que as estupidezes do adultos têm sobre as amizades das crianças.

 

Nota: A-

Going in Style (Ladrões com muito Estilo, 2017) - Crítica

     Com tantos remakes que hoje em dia se fazem constantemente, era apenas uma questão de tempo até esta praga chegar às comédias dos anos 70. Provavelmente Annie Hall ainda terá um remake, o que será uma estupidez. Confesso que nunca vi, nem sabia da existência do filme Going in Style de 1979, coisa que não me fez odiar a versão de 2017. Fiquei logo interessado no filme por causa do elenco. Michael Caine, Morgan Freeman e Alan Arkin são uma equipa cómica digna de palmas. O mesmo não se pode dizer do resto do elenco, o que não é grande problema porque era o trio principal que eu queria ver.

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     Falando da história, o filme tem um guião com altos e baixos. Maior parte das batidas usadas são previsíveis, por outro lado, há cenas e diálogos que eu não esperava de todo, o que me fez ficar interessado. A química e a energia do elenco principal é o que movimenta melhor o filme, contudo o ritmo é um pouco irregular, há momentos bem divertidos e enérgicos mas também há outros um pouco parados.

     Felizmente, cada personagem do trio consegue ter o seu desenvolvimento. A relação do Michael Caine com a neta, interpretada pela Joey King, é algo bonito de se ver, o que não se pode dizer o mesmo com a filha dele, que é desaproveitada, ao invés disso, o filme decide meter o ex-genro dele no filme, o que, a meu ver, foi um erro. As saudades que o Morgan Freeman tem da neta e da filha são sentidas pelo público e o seu problema de saúde também. O Alan Arkin é o mais cínico, porém o mais engraçado, contudo a relação dele com a Ann-Margret incomodou-me um pouco, a personagem não acrescenta praticamente nada quando podia e é a coisa menos engraçada do filme. E o Matt Dillon também está bem, eu tinha medo que ele fosse apenas reduzido ao polícia da história, mas não acontece, ele é bom ator e faz um bom papel, porém nada de extraordinário.

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     Going in Style de 2017 é um feel-good movie, lá por ser remake não me incomodou, até por ter uma abordagem diferente da do original. Estou ansioso para ver o original pois se o tivesse visto antes de ver o remake, provavelmente a minha crítica seria diferente. Pode-se dizer que é um pouco formulaico e previsível, mas dentro daquilo que oferece, é possível se divertir a vê-lo se aquilo que se procura é uma comédia leve e eficiente.

 

Nota: B

Life (Vida Inteligente, 2017) - Crítica

     A sinopse oficial do novo filme de Daniel Espinosa, Life, não chama muito à atenção. Trata-se de apenas mais um filme regular sobre invasão/sobrevivência espacial. Depois de pegar muita inspiração de filmes clássicos como Alien, Life até ignora alguns clichês, mas a maior parte deles estam presentes.

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     Tecnicamente, Life é muito bom, no início abre com um plano sequência elaboradíssimo que, mesmo sendo CGI, me chamou à atenção e manteve-me a ansiar por mais. Na verdade, todo o CGI no filme é ótimo, mas só os efeitos visuais não chegam para sustentar o filme. O problema central está no elenco desaproveitado e nos personagens pouco desenvolvidos. Conseguimos ficar a saber o mínimo de cada um dos astronautas, mas as interpretações deixam a desejar. O único ator que convence mesmo como um cientista/astronauta é o Ariyon Bakare, ele sim passa todo o terror e medo da situação central, para além de ser o mais sofrido e pelo qual eu me importei mais. De resto, temos Ryan Reynolds, Jake Gyllenhaal, Rebecca Ferguson, Olga Dihovichnaya, no seu primeiro filme, e Hiroyuki Sanada, que são bons atores, porém são sub-utilizados, o que faz com que o público não tema pelas vidas deles.

     O que faz o público temer é o extra-terrestre que invade a nave, esse sim é uma ameaça assustadora e temível. Os efeitos sonoros e a banda sonora ajudam muito nos momentos mais tensos, que infelizmente caiem por vezes para os jumpscares baratos e previsíveis, e há também alguns momentos-chave previsíveis, que nada mais são que elementos apenas usados para fazer o filme ir para a frente.

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    No fim, eu sentia-me pior pela violência e maldade do antagonista e pelo sofrimento que este causava do que propriamente com os personagens. O problema é que o filme avança para o enredo principal muito cedo, não dando tempo para o espaço e os personagens se estabelecerem. Agora o final é o que mais surpreende, não pela sua originalidade, mas sim por optar ir noutro caminho. O filme ou ia para "aqui" ou para "ali". Indo para "ali" em vez de ir para "aqui" poderá fazer-me lembrar-me do filme durante algum tempo, devido à agitação que provocou na sala de cinema.

     Life é um filme "ok", não surpreende durante a maior parte do tempo, mas também não é mau. Dentro do oferecido, é possível se divertir, se aquilo que se procura for apenas um thriller bom para uma noite.

 

Nota: B

Filmes Nota A+

Aqui estão as críticas dos filmes que receberam a minha nota de classificação máxima:

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2001: A Space Odyssey (1968)

Blade Runner (1982)

Titanic (1997)

Unbreakable (2000)

No Country for Old Men (2007)

Sweeney Todd: The Demon Barber of Fleet Street (2007)

There Will Be Blood (2007)

The Dark Knight (2008)

Ah-ga-ssi (2016)

Dunkirk (2017)

São Jorge (2017)

War for the Planet of the Apes (2017)

 

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