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Vida de um Cinéfilo

Vida de um Cinéfilo

Jacinta (2017) - Crítica

     As formatações de séries para o cinema normalmente não costumam resultar. Bairro é um exemplo, somando isso ao facto que também é uma série da TVI. Mesmo este filme estar a ser mostrado no cinema antes de estar no formato de minissérie na televisão, já era de espera que houvessem muitos buracos no guião.

     A história passa-se em 1917, na Cova da Iria, em Fátima, e é contada do ponto de vista dos três pastorinhos, concentrando-se mais na Jacinta, a mais nova, que afirmavam ter visto a Nossa Senhora.

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     Sendo um filme produzido pelos maiores criadores de novelas em Portugal, era de esperar que o filme apresentasse determinadas características. Há muitas coisas que o filme faz bem e que impressionam. A começar pela fotografia, que é provavelmente ponto mais forte. O filme passa-se em dois períodos de tempo: quando Jacinta, Lúcia e Francisco falam com a Nossa Senhora e tentam convencer a aldeia que o que viram era verdade, e quando Jacinta se encontra no Hospital vítima da gripe espanhola. No passado, a fotografia é bem simples, mas eficiente. A palheta de cores acentua num tom bem sépia que se adapta perfeitamente à ruralidade do ambiente onde as crianças vivem. No hospital, as cores mais acentuadas são frias, maioritariamente azuis e brancas, o que cria um contraste muito bom. Há mudanças na fotografia sem cortes nas cenas que mais exigiam isso, e ver algo tão bem trabalho é muito gratificante. Saindo disso o filme começa a mostrar as suas maiores fraquezas.

     Os efeitos visuais do filme são eficientes. Fazer uma visão da Nossa Senhora não exigia efeitos visuais de Hollywood e algo que o filme optou por fazer foi não mostrar um retrato da Nossa Senhora mais detalhado, porque se o fizesse seria algo bem presunçoso. O filme põe o público na dúvida e disso eu gostei.

Há muito diálogos expositivos e/ou artificias, típicos das novelas da Plural e da TVI. São óbvios, chatos e desnecessários, mas já todos sabíamos que eles iriam estar lá de qualquer maneira.

     O elenco é bom, é verdade que em novelas, devido aos guiões fracos, os atores raramente têm a oportunidade de elevarem o seu papel. Mas existem atores conseguem-se destacar.

     A Dalila Carmo interpreta a mãe de Jacinta e do Francisco e a atriz está sempre bem. É uma das melhores atrizes em atividade e nunca desilude. Tal como a Rita Salema, que interpreta a mãe da Lúcia e está ótima como sempre, porém num papel bem diferente do costume. Enquanto a mãe da Jacinta sabia que os filhos não mentiam, ainda tendo dificuldade em acreditar em tudo o que estes diziam, a mãe da Lúcia era mais severa e não acreditava de modo nenhuma. Não santificar os aldeões foi uma boa escolha.

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     A Matilde Serrão é o que mais atrai o espectador para o filme. Ela é uma criança jogada numa situação extraordinária e isso traz doçura, simpatia e inocência à personagem. Não é uma simples criança chorona, a interpretação vai muito além disso. Para uma atriz tão nova, não é fácil elevar um filme para além daquilo que é.

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     A Renata Belo interpreta a Lúcia. Ela é um bom contraste para a personalidade da Jacinta. Verdade é que a atriz não está tão carismática como a Matilde Serrão, mas os pequenos momentos em que as duas mostram as suas divergências são interessantes.

     Porém, o Henrique Mello, que interpreta o Francisco é desajudado pelo guião. O personagem não faz praticamente nada e não tem grandes reações. Raramente se sente a presença dele e não há praticamente nenhum desenvolvimento. O ator para além de não ter nada para fazer, não é muito expressivo. E há um momento que o envolve que é bem lamentável, era a oportunidade que o ator tinha de fazer algo com mais peso, mas a cena torna-se ridícula e de um nível absurdo de conveniência.

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     Quando o filme apresenta o ponto de vista do padre do filme, o Prior Manuel, interpretado pelo Filipe Vargas, havia ali uma oportunidade de se fazer algo diferente. Não é uma má performance e o personagem não é assim tão unidimensional, mas se o objetivo era mostrar o lado mais severo dos padres, era mais interessante que o padre tivesse camadas, que ele fosse mais cínico. Assim, tudo o que dizia era mais imprevisível.

     A Paula Lobo Antunes interpreta a enfermeira da Jacinta está bem dentro daquilo que se pode esperar dela. A atriz é geralmente é escolhida para fazer personagens que passaram por uma tragédia. A atriz está bem, mas é feita uma decisão no final do filme com ela que estragou a construção da personagem e que também estragou um pouco o ato final, que é manipulativo e ilógico.

     Há muito outros atores no filme, mas é difícil dizer o que se esperava deles, visto que apenas vendo-os em novelas não se pode esperar grande coisa. Atores como João Didelet, António Pedro Cerdeira, Pedro Lamares e Graciano Dias são apenas secundários, mas felizmente cumprem o seu papel.

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     Jacinta é um bom filme para quem quer saber mais sobre o Milagre de Fátima. No entanto, se tivesse melhores desenvolvimentos de personagem e se fosse até mais longo, poderia ser um dos melhores filmes portugueses de 2017, um ano que apenas em março já nos deu São Jorge, que é muito superior.

 

Nota: B-

Hello, My Name is Doris (Olá, o Meu Nome é Doris, 2016) - Crítica

     Uma coisa é verdade. Todos nós nos cansamos de fazer sempre as mesmas coisas, de ver sempre as mesmas caras e ter sempre a mesma rotina. No caso dos atores mais respeitados de Hollywood, é normal alguns chegarem aos últimos anos da sua carreira e quererem levar o trabalho menos a sério. Dito isto, devo ser uma das poucas pessoas que não julga atores como o Robert DeNiro apenas por ter feito comédias nos últimos anos. Os atores apenas querem relaxar enquanto desfrutam do fim da carreira, não me importo nada com isso, até é giro de se ver.

     Sally Field interpreta Doris, uma mulher de 60 anos que, depois do falecimento da mãe, toma um rumo diferente para a sua vida, assim que se apaixona por um colega de trabalho 30 anos mais novo e começa a resistir à pressão do irmão e da cunhada para sair a casa onde viveu toda a vida.

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    O filme é escrito e realizado pelo Michael Showalter, um realizador que ainda não se superou em nenhum trabalho. The Big Sick foi um dos filmes presentes no Festival de Sundance em janeiro, e curiosamente é também dele. Costumo ficar de olho nos filmes destes festivais, independentemente do género. Tal como The Big Sick, Hello, My Name is Doris é também uma comédia romântica, ou pelo menos dá a entender que é. Quando a movimento de camara, não há nada que eu desgostei, mas nada de memorável, o realizador segue as regras mas consegue ter algumas ideias originais e facto de a protagonista ser uma sessentona com um vazio na sua vida e não uma jovem de 20 anos à procura do amor da sua vida, ajuda o filme a diferenciar-se muito facilmente das típicas comédias pastelonas.

    Temos aqui um filme fofinho, bonitinho e confortável, e isso é bom. É um filme muito agradável para se ver numa tarde no sofá. A fotografia ao mesmo tempo que capta o ambiente agitado e seco de Brooklyn consegue também meter muita cor, principalmente na casa e na roupa da Doris. É um filme muito colorido e isso serve de propósito perfeitamente para justificar o estado de espírito da personagem. Pode não ser um estudo tão profundo com Elle ou Aquarius, é sem dúvida mais leve, mas fica evidente que a protagonista se sente agoniada por ser um peixinho indefeso no aquário errado. E ao mesmo tempo que é angustiante, é bonito e divertido.

     A Sally Field está fantástica. É uma atriz que desaparece completamente nas personagens que faz e nota-se que a atriz se está a divertir, mas que também está muito compromissada. Sendo ela a personagem que está sempre em cena, era muito fácil para uma atriz inferior deixar que a experiência ficasse cansativa, mas claro que tal não acontece graças à experiência da atriz. Ela é engraçada, tímida, desajeitada, querida e muito carismática. E há algumas excelentes cenas que vão conseguir que o público se sinta tocado e incomodado até, tudo também devido à enorme capacidade da interpretação da Sally Field de elevar o material do filme, que na verdade sofre de alguns clichês.

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     O Max Greenfield interpreta o John, o crush da Doris. Não é uma performance extraordinária, é apenas carismática e funcional. A sorte do ator era que o personagem tem desenvolvimento suficiente para que haja material suficiente para se trabalhar.

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   A Tyne Daly está hilariante como a Roz, a melhor amiga da Doris. À partida, ela poderia ter ficado facilmente reduzida apenas a essa imagem, mas vê-la a contracenar com a Sally Field é um daqueles contrastes brilhantes. Enquanto a Doris é reservada, a Roz é sabichona, irónica e não tem medo de fazer ou dizer aquilo que lhe apetece.

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     A Vivian, a neta da Roz, interpretada pela Isabella Acres, para além de ajudar nalgumas cenas, está também muito à vontade com a personagem, mas há um momento que deixou uma ponta solta. O que acontece é que a Doris cria um perfil falso no Facebook para tentar saber coisas sobre o John. Mas foi a maneira de como esta aceitou meter-se nesta brincadeira. Acho que devia ficar, no mínimo, surpreendida ao ver que uma mulher de 60 anos ficava apanhada por um rapaz de 20, e praticamente nenhuma reação for mostrada.

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     Algo que eu odeio neste tipo de filmes é a imagem que certos sites têm. Sites como o Facebook e o Youtube tem sempre ali alguns detalhes ilógicos. Desta vez, o sistema operativo do Facebook é uma coisa completamente diferente e estranha. Eu não percebo porque é que os realizadores fazem isto de quererem mudar uma coisa tão básica.

     O filme toma certos caminhos que eu não estava à espera, mas como já disse antes, ele cai para muitos clichês no ato final. Pois é na verdade uma comédia que se vai tornando cada vez mais previsível. O filme começa com uma premissa até banal, mas diferente e saborosa, mas no último ato entram muitos clichês do género que me fizeram roer os dentes. No geral, mesmo sendo uma experiência muito divertida é também formulaica, é fácil saber como é que maior parte dos arcos vão terminar. Felizmente, há um momento no fim do filme que eu não estava mesmo à espera, o que de certa forma salvou o final.

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     Hello, My Name is Doris é uma comédia bem diferente, o que lhe permite sair do status de rom com’s chatas e genéricas. Porém, o filme não resiste a ceder para alguns atalhos e clichês do género, mas de certa forma isso é perdoável, visto que o filme acerta muito mais do que erra.

 

Nota: B

Get Out (Foge, 2017) - Crítica

    Quem diria que um dos criadores de Key & Peele seria um realizador cujo debut fosse tão provocante, satírico, engraçado e original. É provado mais uma vez que quando o género de terror é bem feito, pode resultar num dos filmes mais interessantes do ano.

     A história segue um casal inter-racial, em que Chris é negro e Rosie é branca, que viaja até à casa dos pais dela para passar um fim-de-semana. À medida que os dias passam, aquilo que parecia acolhedor e confortável vira uma série de revelações sinistras e perturbantes.

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    O filme é escrito e realizado pelo Jordan Peele, mais um realizador muito promissor que aparece em 2017 e se ascenderá muito facilmente ao fazer maiores e melhores filmes de terror. Depois de descobrir o Sean Byrne, estou cada vez mais dentro do género de terror, até agora Get Out é uma das experiencias mais originais do ano.

   O filme impressiona logo no início, a cena começa com um plano sequência muito impressionante, deu-me de imediato uma enorme pica e expectativa. E apesar da cena ser bem curta, ela consegue dar o mínimo para gerar um interesse.

    A fotografia varia também de maneira muito eficiente: nas cenas mais escuras em que um personagem é iluminado apenas por um poste de iluminação ou pela luz de um carro, há uma desorientação muito bem gerada apenas pelas sombras; depois todas as cenas ao ar livre e/ou de dia têm uma palheta de cores bem vivas, o que faz um contraste muito bem-vindo.

   Sendo o Jordan Peele um realizador de sketches, é muito notável o talento dele para meter humor em qualquer cena, seja de tensão, terror, descoberta ou numa simples conversa. Normalmente esse humor vem do Lil Rel Howery, que é um alívio cómico mais que hilariante, roubando cada cena em que está, uma cena mais engraçada que a anterior, toda a sala de cinema o adorou. Algumas pessoas podem reclamar do facto de algumas piadas são metidas um pouco abruptamente em cenas importantes. Eu discordo, uma vez que o filme pede leveza, e muita. O material tem uma sátira pesada e relevante até, e tendo um realizador habituado à comédia, era isso que eu também esperava e queria ver.

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    O Chris é interpretado pelo Daniel Kaluuya, um ator que eu praticamente desconhecia, mas que não vou esquecer tão cedo. O que ele faz com as suas expressões faciais é de tirar o chapéu. É a personagem que define perfeitamente aquela relação entre o protagonista e o público, em que cada um sabe exatamente o mesmo, o que é muito enervante.

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   A Allison Williams interpreta a Rosie, e graças à sua leveza e doçura permite à personagem ter uma presença carismática e agradável, isto é, cumpre muito bem o seu papel. E, assim como a interpretação dela, e relação deles é muito credível, eles gostam um do outro, é algo genuíno, o que é sempre bom ver em filmes destes.

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    O Bradley Whitford e a Catherine Keener interpretam os pais da Rosie e são uma dupla como nenhuma outra, não há grande coisa que se possa dizer sobre os personagens, visto que todo o arco principal do filme está à volta deles, mas fica aqui escrito que eles são atores ótimos e estão bem como sempre.

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   Agora já não gostei tanto do Caleb Landry Jones. Ele interpreta o irmão da Rosie, tem cenas boas e eu não conhecia o ator. O problema não está na interpretação, mas sim nas escolhas que foram feitas com o personagem. A sua cena de introdução é muito interessante, mas à medida que o filme progride, ele aparece com um cavaquinho e uma esfregona com cara de lunático, o que fez dele demasiado caricato para mim.

     De resto temos LaKeith Stanfield, Marcus Henderson e Betty Gabriel, todos ótimos e muito creepy.

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    O grande twist do filme não é revelado no ato final. O filme é muito paciente e, como qualquer bom filme de terror, vai dando pistas ao longo da história, o que permite que o protagonista tenha vários caminhos por onde seguir quando finalmente o último ato começa. Sendo assim, uma vez que já estava tudo arrumado, há duas frases bem específicas que eu dispensava completamente. São diálogos que ajudam o público a chegar mais longe, mas acabam por ser inúteis, visto que depois de muita teoria e reflexão, era bem fácil chegar àquelas conclusões que o realizador quera tanto que nós chegássemos.

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    Get Out é um dos filmes mais originais, provocantes, relevantes, satíricos e engraçados do ano. Ele desafia o público gradualmente e merece ser visto por espectadores que gostam do bom terror, um terror que assusta e que faz pensar.

 

Nota: A-

Billy Lynn's Long Halftime Walk (Billy Lynn: A Longa Caminhada, 2016) - Crítica

     É curioso que um filme do Ang Lee não estreie em Portugal. Ainda por mais quando falamos de um realizador tão elogiado e apreciado em todo o mundo. Mas há uma explicação. O filme chegou ao videoclube em Portugal e foi um absoluto flop no seu país (tanto financeiro como falando das críticas). O realizador tinha 40 milhões de dólares e decidiu gravar com uma tecnologia que permitia 120 frames por segundo, algo que existe apenas em 2 cinemas na América. No seu primeiro fim-de-semana, o filme fez menos de 1 milhão de dólares. Quando saiu acabou por fazer apenas 30 milhões.

     Baseado no livro fictício de 2012 com o mesmo nome de Ben Fountain, a história passa-se em 2004 em três períodos de tempo: o principal acompanha o protagonista Billy Lynn, interpretado por Joe Alwyn, que é considerado como um herói americano quando regressa do Iraque para o Texas; o segundo mostra as suas experiências na guerra e o terceiro mostra a sua relação com a família, especificamente com a irmã Kathryn, interpretada pela Kristen Stewart.

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     O filme é realizado pelo Ang Lee, responsável pelo ótimo Brokeback Mountain de 2005 e pelo extraordinário Life of Pi de 2012. Sendo este o seu debut no género guerra, ele até se sai bem. Eu esperava grandeza dele e consegui isso. Ele retrata bem um ambiente de guerra, faz um ótimo estudo do seu protagonista e abusa de close-ups na sua cara, mas quando quer ostentar a grandeza de uma situação, opta por planos gerais ou em conjunto, quase sempre revelando o corpo inteiro dos personagens. Agora falando do seu controlo sobre o ritmo e diálogos, o filme é bastante problemático, fazendo este um dos maiores Oscar Bait Movies de 2016.

     Há cenas e diálogos bem vazios e longos, chega a ponto de parecerem cenas de novelas. Tudo é muito, mas muito arrastado, por vezes o filme parece ser um daqueles sobre rotina, como Aquarius ou Paterson, que definitivamente não são maus filmes, mas estamos a falar de um filme sobre a propaganda da guerra na América, portanto fica no ar uma sensação de preguiça por parte do Ang Lee. Felizmente o filme vai melhorando gradualmente, mas a espera é grande. Felizmente há interpretações que salvaram tudo.

     Sendo o primeiro filme do Joe Alwyn nota-se ali uma grande ambição. Mas o ator é muito promissor e tem um dos olhares mais expressivos que eu vi em 2016. Ele acha um ótimo equilíbrio entre o soldado que toda a gente espera que ele seja e o homem em que ele verdadeiramente se tornou durante a guerra.

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     A Kristen Stewart está ótima mais uma vez, parece que 2016 foi o melhor ano da sua carreira. A atriz impressiona cada vez mais filme após filme e aqui ela dá uma das interpretações mais tristes da que eu vi dela. Ela está constantemente com uma lágrima no olho, mas a sua presença vai muito além disso. A preocupação que ela sente pelo irmão e o amor existente entre os dois é algo lindo, eu não me lembro de ver uma coisa tão bonita num filme de guerra.

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     O Garrett Hedlund recupera-se depois da péssima interpretação em Pan em 2015 com uma bem mais sólida e madura. Ele interpreta o sargento do Billy Lynn e nota-se ali uma grande ambição de orientar todos os soldados que o acompanham, uma ambição muito genuína.

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     O Vin Diesel impressionou-me mais uma vez naquele que poderá ser a performance mais dramática da sua carreira, é provável que afinal o ator tenha talento. O seu personagem correspondeu às minhas expectativas e àquelas que o próprio filme criou dele. A sua masculinidade adapta-se perfeitamente no seu papel e ele convence muito mais que como um simples homem grande e forte.

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     E a atriz Makenzie Leigh, também em ascensão, é usada a favor da história de maneira muito original. O Ang Lee felizmente reconhece a sátira que é retratada no livro do Ben Fountain. Tanto o livro e o filme não são cómicos, mas apresentam uma sátira muito eficiente sobre a projeção americana sobre a guerra do Iraque. Hipocrisia, interesse, cinismo, segundas intenções, propaganda mentirosa e uma exagerada proclamação dos “heróis americanos”, está tudo aqui, mas de maneira mais melancólica, melancolia é habitual na filmografia do realizador. Apenas não gostei do facto de a atriz levar a sátira a sério demais, era um arco que exigia mais leveza e gozo.

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     De resto no elenco, temos Chris Tucker e Steve Martin que mesmo bem como sempre e úteis, ficam reduzidos aos estereótipos que lhes são impostos, na verdade não tem muitas camadas. O mesmo acontece com o grupo de soldados, que têm todos personalidades bem genéricas e previsíveis, tudo em volta de diálogos típicos bem mais ou menos quando comparados aos desenvolvimentos dos ambientes de guerra de filmes como Full Metal Jacket e Saving Private Ryan.

     O filme tem apenas uma cena de ação, o que pode frustrar algumas pessoas. Mas ela é bem realizada e tal como outra cena da guerra do Iraque, esta é bem sangrenta, tensa e inquietante.

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     Billy Lynn’s Long Halftime Walk não chega a ser mau, uma vez que é do Ang Lee, mas ainda é muito melhor que os Transformers e os Fifty Shades da vida. Como um filme de guerra, é bom, mas como um estudo da propaganda da guerra na América, é estragado com diálogos de novela e tempo desperdiçado.

 

Nota: B-

The Circle (O Círculo, 2017) - Crítica

     A falta de originalidade é uma praga em Hollywood. Chega-nos mais um exemplo de um filme que pegou em várias ideias, juntou-as, mas não conseguiu fazer um bom filme no meio de uma bagunça tao grande.

     Baseado no livro de 2013 com o mesmo nome escrito por Dave Eggers, o filme conta a história de Mae, interpretada por Emma Watson, uma estagiária de uma empresa de tecnologia revolucionária, chamada Círculo. Á medida que investiga os reais objetivos da empresa e os planos dos fundadores Eamon Bailey e Tom Stenton, interpretados pelo Tom Hanks e pelo Patton Oswalt, depara-se com um perigoso cenário relacionado com vigilância e privacidade. Basicamente uma junção de Snowden com The Social Network.

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     O filme é realizado pelo James Ponsoldt, que mostrou o seu talento com o filme The Spectacular Now em 2013. Nota-se que aqui ele ficou demasiado agarrado às suas inspirações e ao elenco, ficando dependente demais deles.

     Este filme interessou-me desde a primeira vez que o trailer. É uma premissa não muito original como já disse, mas, ao contrário, de Snowden, este filme não é sombrio e não mostra a mesma paranoia, é um filme muito mais suave. Na verdade, ele consegue ser original dentro de uma trama previsível e vai por alguns caminhos diferentes, o que até é benéfico. Pelo menos no papel, porque na execução não é isso que acontece.

     O filme é um pouco arrastado. Sofre do mesmo problema do Snowden, que consiste em ter cenas bem frenéticas em que todo aquele mundo é apresentado, seguidas por cenas mais familiares que caiem para diálogos vazios e demorados.

     Porém, mesmo a edição não sendo a melhor ela consegue criar um estilo próprio para o filme. A banda sonora é operante, mas esquecível. A fotografia é brilhante, acentuando bem em tons de vermelho e branco, como era de esperar. Mas é no guião e no elenco que o filme cai bastante.

     A Emma Watson ainda é uma estrela em ascensão. Depois da série Harry Potter, ela convenceu-me como uma atriz mais madura no Noah, de 2014, mas ainda está longe de ganhar um Óscar. Aqui ela passa bem uma desconfiança e desconforto que crescem gradualmente no filme devido às coisas que vão acontecendo, nunca deixando isso óbvio para as pessoas à sua volta, é uma interpretação muito reservada, o que é bom.

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     O Tom Hanks dispensa comentários. É um ator com a capacidade de elevar qualquer material, por muito mau que ele seja. Ele não aparece tanto quanto eu estava à espera e isso pode frustrar algumas pessoas. Porém as cenas deles são muito boas, ele convence como um homem inspirador, mas com umas camadas, é um personagem bem cínico e egoísta. O Patton Oswalt mesmo não estando ao mesmo nível, consegue acompanhar o Tom Hanks, mesmo o seu personagem estar sempre em segundo plano.

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     Eu não comprei o Ellar Coltrane de maneira nenhuma. O ator ainda vai demorar para que eu pare de olhar para ele como o puto de Boyhood. Ele está bem medíocre e apenas debita texto, não é capaz de se expressar bem aqui, aliás, ele está sempre com a mesma cara. Era um personagem facilmente excluível ou substituível com apenas um ajuste no guião.

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     A Kerry Gillan está ótima como a amiga da Emma Watson. Ela é bem carismática e acompanha-a muito facilmente, mesmo ela sendo bem enérgica e a Mae bem mais reservada. Mas o que realizador fez com ela é inadmissível. Basicamente a personagem fica triste e passa da sua boa disposição para uma rapariga despenteada, desmaquilhada e a usar sweats a toda a hora. É um recurso preguiçoso. Eu queria ver a sua tristeza através da interpretação da atriz, e substituindo o Ellar Coltrane por ela seria uma decisão muito inteligente, quem assistir ao filme perceberá.

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     É bom ver o John Boyega aqui, ele parece à vontade com o seu papel, mas não interveio o suficiente quanto deveria na história, é um personagem bem mais relevante do o que seu tempo em filme sugere. Aliás a primeira vez que ele e a Emma Watson se conheceram foi bem esquisita, para não falar de forçada e conveniente.

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     Os pais da Mae são interpretados pela Glenne Headly e pelo Bill Paxton, no seu último filme. Eles estão ambos à vontade, mas os personagens são mais relevantes do que o tempo em cena de cada um sugere. Ambos mereciam mais interveniência na história.

     Quando o filme começa a fazer as tão esperadas perguntas sobre os temas propostos, ele acerta ao responder a umas, mas á maior parte delas não. Na verdade, pode-se apreciar o filme nesse aspeto, há algumas perguntas que, se fossem respondidas, tornar-se-iam em respostas presunçosas. Mesmo assim o ato final pode gerar algum debate, pode-se argumentar que ele não resolve nem conclui grande coisa, mas mesmo assim, houve ali alguma coragem que teve de ser tomada. Mas isso não salvou o filme de ser chato e dececionante.

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     The Circle tem uma boa criação de mundo e algumas ideias boas. Ainda assim, o filme tende a fazer mais perguntas do que a responde-las e erra feio no desenvolvimento e na resolução do seu arco principal, deixando um sentimento de desilusão e preguiça.

 

Nota: C

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