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Vida de um Cinéfilo

Vida de um Cinéfilo

Pirates of the Caribbean: Dead Men Tell No Tales (Piratas das Caraíbas: Homens Mortos Não Contam Histórias, 2017) - Crítica

     Eu adoro os Piratas das Caraíbas e adoro o Jack Sparrow, a sério, acho o uma das personagens mais originais e divertidas do cinema. É verdade que a franchise foi perdendo as suas virtudes. The Curse of the Black Pearl, de 2003, é sem dúvida o melhor, Dead Man’s Chest e At World’s End são mais ou menos, mas continuam divertidos, já On Stranger Tides é apenas horrível. Para tirar teimas, estas seriam as minhas notas para os filmes anteriores:

  • The Curse of the Black Pearl – B+
  • Dead Man’s Chest – B-
  • At World’s End – B-
  • On Stranger Tides – D+

      Será o quinto pior ou será que está ao mesmo nível do primeiro. Será esta a reforma de Jack Sparrow? Vamos ver.

     Desta vez, Jack Sparrow, acompanhado por uma nova equipa, decide procurar o Tridente de Poseidon enquanto foge do capitão espanhol Salazar, que persegue Jack em busca de vingança.

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     O filme é realizado pelos noruegueses Espen Sandberg e Joachim Rønning, a mesma dupla responsável pelo bom filme também norueguês Kon Tiki de 2012. Foi uma escolha acertada, primeiro porque ambos são bons com sequências de aventura e, segundo, porque depois de o Gore Verbinski realizar os primeiros 3, é compreensível que precisasse um descanso, porém escolher outra vez o Rob Marshall seria um erro muito lamentável. Verdade é que independentemente do realizador que se escolha, esta franchise terá sempre aquilo que propôs ao público: um universo único, sequências de ação bem feitas suportadas com efeitos visuais no mínimo eficientes e, sem esquecer, uma aventura frenética e divertida. Contudo as coisas que mais facilmente comprometem um filme (personagens, guião, arcos e história) devem ser tratadas com um cuidado maior, pois esses são os elementos que devem compor um bom filme. Aqui não houve esse problema. Yey!

     Para ser sincero, eu achava que este seria pior que o anterior, mesmo tendo uma esperança pequenina. Saí da sala de cinema mais que satisfeito e não posso parar de afirmar o quanto gostei desta sequela. É estranho dizer isto. Vamos por partes. O tema principal do Hans Zimmer continua presente e monumental, mesmo sendo acompanhado por outros novos bons temas do Geoff Zanelli. A fotografia continua colorida e escura ao mesmo tempo, funciona perfeitamente dentro daquele universo e consegue criar um ambiente simultaneamente acolhedor, convidativo, mas também tenebroso e por vezes sombrio.

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     Mesmo com todos os efeitos visuais que a Disney consegue oferecer, é inegável dizer que o filme tem substância para dar e vender. É verdade, há algumas cenas de ação absolutamente espetaculares e cheias de energia, todas orquestradas de maneira brilhante e algumas completamente diferentes de outra qualquer da franchise inteira. Mas desta vez temos bons personagens, nem todos são perfeitos claro, mas comparando aos seus antecessores, Dead Men Tell No Tales, para além de bom, é um grande alívio. Não compreendo o hate que o filme tem andado a receber, é extremamente underrated, parece que está na moda os ditos críticos rejeitarem séries como estas.

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     O elenco continua dedicado, é impossível não gostar destas figuras. O Johnny Depp convenceu-me mais neste filme do que no anterior. No quarto ele parecia mais cansado, era aqui que eu esperava vê-lo completamente entediado e sem energia. Foi precisa uma pausa enorme. Graças a ele, este filme foi mais engraçado do que eu estava à espera, há muito mais humor vindo dele. O Jack Sparrow sempre foi chico-esperto e malandro, mas a diferença está na vontade do Johnny Depp de querer estar aqui, eu acredito que ele não veio apenas buscar o cheque. Portanto, deve-se esperar um Jack Sparrow inspirado, empolgado, divertido, sabichão e no meio de montes de sarilhos.

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     O Javier Bardem é um dos melhores atores vivos e foi uma escolha que me deixou logo interessado. O Skyfall demonstrou-me a sua capacidade de ser um bom vilão, e que vilão. Claro que o Mr. Silva é anos-luz melhor que o Salazar, mas este não deixa de ser temível de imponente. Tanto o passado como o seu desenvolvimento posterior são críveis, e isso faz dele também carismático.

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     O Geoffrey Rush é também um dos melhores atores em atividade e mais uma vez ele está divertido e diverte. Eu já tinha saudades do Barbossa e gostei da adição de um arco mais emocional na vida pessoal do personagem, era altura de fazer mais qualquer coisa, sair do habitual.

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   O Brenton Thwaites cria um personagem muito normal muito terra-a-terra. Mesmo estando numa aventura grandiosa, convence como um jovem desastrado e, ao mesmo tempo, muito corajoso e determinado.

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     A Kaya Scodelario é boa atriz e tem a sua personalidade. Depois da Keira Knightley, cabe-lhe a ela ter o papel da figura feminina forte e desprezada pela sociedade que não “aprova a inteligência e independência” das mulheres naquele século, mesmo não estando ao nível da Elizabeth Swann e de estas serem bem diferentes. A personagem é boa e cativante, eu não a vi como a típica feminista chata, mas há mesmo ali um diálogo ou outro que podia ter sido excluído. À medida que o filme vai para além de metade e continua esse recurso, torna-se um nadinha cansativo.

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     Eu gostei muito da Golshifteh Farahani no filme Paterson do ano passado, mas ela aqui faz uma personagem vergonhosamente imitada. É uma cópia barata e mal feita da Tia Dalma, interpretada pela Naomie Harris nos primeiros filmes da série, e ela na altura mesmo tendo o seu carisma, tinha um sotaque horrível, por isso esta reciclagem não foi muito bem pensada, felizmente a personagem aparece pouco.

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     De resto temos Kevin McNally e Orlando Bloom com pequenas participações, ambos competentes, confortáveis e dedicados aos seus papéis.

     Como disse antes, as cenas de ação são extremamente boas e ao mais alto nível de aventura, talvez tendo o dobro do escapismo do primeiro filme. Houve apenas uma cena de perseguição que foi um pouco apressada e o espaço geográfico parecia muito pequeno, parecia um daqueles momentos The Walking Dead, em que eles percorrem a floresta, neste caso o oceano, em muito pouco tempo. Tem a sua piada, mas falta lógica ali algures. Felizmente, o último ato, especificamente a última cena, é consideravelmente o melhor e foi ótimo para tudo acabar, quem conhece este universo vai sentir uma satisfação enorme como nenhuma outra que já teve a ver estes filmes, foi uma conclusão muito boa. Vale a pena também ficar para ver a cena pós-créditos.

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     Pirates of the Caribbean: Dead Men Tell No Tales é uma boa sequela, e uma das poucas. É o melhor filme deste universo desde The Curse of the Black Pearl e um grande passo na direção certa para que o género de aventura no cinema volte a reviver os seus tempos de glória, afinal, é um género prestes a morrer e que quase não conseguimos ver nos dias de hoje.

 

Nota: B+

In a Valley of Violence (2016) - Crítica

   The time for begging is over … Now’s the time for praying …”. Se eu pudesse escolher deixas do cinema contemporâneo que se iriam imortalizar tanto como o “I’ll be Back!”, esta seria uma delas.

    Um forasteiro misterioso conduzido por um ato violento e com sede de vingança vai para a uma cidade pacata no Velho Oeste.

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    É verdade que maior parte dos westerns clássicos ou modernos têm a mesma estrutura se forem típicos filmes de vingança, mas este toma certos caminhos que me surpreenderam e ainda por ter ido vê-lo sem assistir a algum trailer ou outra referência qualquer, fez-me apreciar esta aventura muito mais.

    O filme é escrito e realizado pelo Ti West, que fez os filmes razoáveis de terror The Innkeepers de 2011 e V/H/S de 2012. In a Valley of Violence deve ser o seu trabalho mais competente e original até aqui. Dito que este trata-se de um western moderno, há várias coisas que se deve ter em consideração. Primeiro, música, tensão e ação são os ingredientes para um bom western. Segundo, era também relevante se o filme tivesse o mínimo de originalidade. Maior parte dos planos são os típicos, mas mesmo assim muito bem trabalhados. Quando o protagonista cavalga em direção do seu destino há belíssimos planos gerais, mas o filme opta também por close-ups bem específicos em confrontos por exemplo. Sem me esquecer dos brilhantes créditos inicias e finais que são bem anos 60. A fotografia varia entre tons bem esbranquiçados do próprio ambiente onde o filme se decorre e cenas bem escuras apenas iluminadas por velas ou por uma fogueira. Dito isto, a fórmula dos westerns é respeitada.

    Agora, a banda sonora do Jeff Grace é espetacular, meso não estando ao nível das do Ennio Morricone. A verdade é que maior parte dos temas são inspirados em alguns trabalhos dele, mas o que eu penso que seja o tema principal ainda está na minha cabeça. A guitarra sedutora e a percussão são impecáveis.

    Porém, nunca se poderá comparar Ti West a Sergio Leone. Há algumas escolhas estranhas, personagens não totalmente bem construídos e sobretudo um ambiente cénico que não me convenceu. Vou explicar melhor, o protagonista inicia a sua estadia numa pequena cidade que supostamente é quase deserta. Ora para a cidade ter um Marshall é preciso que existam cidadãos, só que o problema é que os personagens que interagem na história são os únicos que se vêm na cidade totalmente. Não há crianças nem mulheres, o movimento da cidade é quase nulo e a vila não me convenceu como um personagem. Por sorte, o filme tem uma ação violenta espetacular. Chega a parecer algo que o Tarantino faria. Principalmente o confronto final, que tem sangue, tensão, reviravoltas e claro, muita tiroteio, sem parecer cartoonesco. Mas agora falando do elenco.

     O Ethan Hawke faz basicamente o mesmo fora-da-lei do Clint Eastwood e do Charles Bronson, aquele forasteiro que não fala muito, mas quando é preciso que um conflito seja travado ele está sempre lá. Mas claro que o Ethan Hawke tem um alcance dramático muito maior do que o do Charles Bronson, por exemplo. A diferença está no seu desenvolvimento. Ele está sempre acompanhado pelo seu cão e isso também cria uma certa empatia com o público, principalmente se contarmos com a excelente química que ele tem com todos os atores. É uma performance cheia de presença, carisma e energia.

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      O John Travolta faz o Marshall da vila e, para dizer a verdade, já há algum tempo que eu não o via tão à vontade num filme. Não é desta que o ator voltará a ter a atenção ou o brilho que teve, por exemplo, no Grease ou no Pulp Fiction. Mas tudo bem, o ator está-se a divertir com o personagem e consegue transmitir verdadeiramente uma imponência, mas também uma onda serena de compreensão, ele não é um vilão terrificamente malvado, ele conversa, tenta arranjar soluções para a situação central, mas também tem um ou dois momentos em que explode e isso é divertido.

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      Eu sempre gostei do Burn Gorman, acho que ele consegue se diferenciar do alívio cómico aparvalhado e quase ter um estilo próprio de humor. Por acaso, este filme para um western tem bons momentos cómicos. Ele mais uma vez está confortável no seu papel, fora um pequeno efeito sonoro mal escolhido usado quando ele cai do cavalo que apenas não funcionou naquele contexto, quem vir o filme saberá do que estou a falar.

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     O James Ransone é completamente maluco e ele sim é um bom antagonista. Não é um dos maiores psicopatas que já vi no cinema, mas ele assusta, é imprevisível e, acima de tudo, um bom vilão. Consegue fazer frente e acompanhar o Ethan Hawke. Houve apenas uma cena no ato final que me desiludiu um pouco, não por culpa do ator, mas o personagem toma uma certa medida que só o tornaria mais malvado e de seguida reage de uma forma completamente oposta daquilo que devia ser a sua reação. Estragou um pouco aquele que podia ser um grande twist.

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      E a Taissa Farmiga não é má atriz, mas em algumas cenas ela cai para um melodrama e as coisas que diz podiam perfeitamente ser ditas sem aquele teatro todo. Estraga até a seriedade de alguns momentos importantes.

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    In a Valley of Violence, mesmo com todas as suas virtudes, não é o melhor western da década, mas é bom o suficiente para divertir o seu público e para, sobretudo, incentivar o público a não deixar de amar um género que lentamente está a morrer.

 

Nota: B

Miss Sloane (Uma Mulher de Armas, 2016) - Crítica

     De vez em quando conseguem aparecer filmes que simultaneamente exaltam o sistema político americano enquanto o criticam. Eu não teria imaginado o John Madden para este filme, mas tudo bem, vamos ver como ficou o resultado final.

    Jessica Chastain é Elizabeth Sloane, uma lobista do ramo de negócio das armas que se move pelo desejo de ganhar a qualquer custo. Perante a coreografia da "lobista" profissional face a diversos grupos de pressão, esta vai desfilando a realidade menos aparente do Congresso dos Estados Unidos.

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     O filme é realizado pelo John Madden, conhecido nos anos 90 por fazer Mrs. Brown e Shakespeare in Love. Não é um dos grandes, mas também não se pode considerá-lo como um mau realizador. O que ele faz aqui não difere muito do esperado. É um drama político sobre a natureza da política nos Estados Unidos e, essencialmente, do lobbying, eu estava dentro, é um tema que me interessa. Agora eu não sou capaz de identificar o estilo do John Madden de imediato, ele pega muita coisa emprestada do Oliver Stone, sem parecer uma autêntica cópia, mesmo tendo uma estrutura narrativa de 3 atos semelhante à do filme Snowden de 2016. Mas isso não quer dizer que ele fez um mau trabalho. Embora que o ritmo seja por vezes inconsistente (o mesmo problema do Snowden), os personagens e as revelações mantêm o interesse ativo, o filme nunca perde tempo, não há momentos arrastados. Agora no que toca ao ritmo, ele é mesmo irregular, umas vezes há diálogos com longos takes muito bem feitos e frenéticos, mas de seguida há conversas à mesa que não tem a mesma agilidade. Algo que o John Madden devia aprender com o Danny Boyle era precisamente equilibrar diálogos agressivos seguidos de cenas mais calmas, uma coisa que este conseguiu fazer muito bem no filme Steve Jobs de 2015, que é bem consistente pois não tem músicas inspiradoras demais. E isso é outra coisa, há cenas de tribunal e de debates que são muito bem escritos, mas o realizador optou por pôr uma música demasiado alta que para mim, tirou parte da seriedade do que foi dito, algumas delas teriam funcionado melhor se fossem mais secas e duras, ou seja, retirar qualquer tema da banda sonora nesse momento.

     Felizmente os diálogos e as fortes interpretações salvam o filme, não há nenhuma performance má e todos os personagens são aproveitados de maneira inteligente. A Jessica Chastain é a melhor coisa do filme inteiro e o seu enorme talento tem uma capacidade impressionante de elevar qualquer material, a grande razão de eu ter gostado do filme foi ela mesmo. Ela é calculista, perspicaz, solitária, teimosa, sedutora e até um pouco precipitada. A personagem personifica perfeitamente o conceito da política de se ter de fazer o que for preciso para se ganhar. É essa a essência de lutas políticas e a atriz transmite uma liderança e uma admiração enorme. Ela está super à vontade e foi uma excelente escolha para o papel.

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     O Mark Strong transmite carisma e uma igual liderança e inspiração, mas era o único personagem secundário que eu desejava que tivesse um desenvolvimento mais pessoal, desta maneira o conflito entre ele e a Sloane podia ser mais melhor.

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     O resto das performances são todas sólidas e cheias de presença: Allison Pill, Gugu Mbatha-Raw, Jake Lacy, Chuck Shamata e Sam Waterson. Todo o grupo que envolve a campanha da Sloane é bom, todos eles interpretam o texto muito bem e têm química entre si. Mas um pequeno destaque para o Michael Stuhlbarg e para o John Lithgow, que transmitem um real senso de raiva, frustração e imponência.

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     Eu sei que falei mal da banda sonora ainda agora. De vez em quando, ela entra quando não precisava, mas nas cenas em que mais é indispensável, ela é boa. Há uma onda de medo, insegurança, desconfiança e tensão que está presente no ar em quase todo o filme. Isso devido mais uma vez à Jessica Chastain que casa lindamente com o tema principal do Max Richter e com o guião do Jonathan Perera.

   A fotografia do Sebastian Blenkov, que fez a cinematografia do Adam’s Apples de 2005, mais uma vez complementa-se perfeitamente com o guarda-roupa e com os cenários, todos representantes de um glamour e uma luxúria, porém também um clima de agitação e medo dos movimentos do adversário.

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     O primeiro ato é definitivamente o mais fraco, sem querer dizer que é necessariamente mau. O segundo é sem dúvida o melhor, surgem informações e revelações, há pequenos bons twists e há novos arcos que, gratificantemente, não são arrastados. Essa é provavelmente a maior virtude de todo o filme, ele não perde o foco. E o terceiro é uma boa conclusão, porém tem um pequeno deslize. O plot twist do final envolve uma cena de tribunal e o problema foi o envolvimento de uma determinada personagem e o arco dela foi terminado não de forma abrupta, mas de forma uma pouco sentimentalista, manipulativa e pirosa. Basicamente há uma montagem em câmara lenta em que o público revisita os seus momentos, mas nenhuma daquelas imagens era necessária, bastava a personagem tomar a atitude que tomou e sair de cena, sem excessos.

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     Miss Sloane não é o melhor drama político da década, mas é razoavelmente bom. É interessante, informativo e frenético e tem na interpretação da Jessica Chastain o seu ponto mais forte e atrativo. Alguns aspetos que envolvem o guião e o ritmo podiam ter melhores, mas no fim, o filme é bem feito e uma tarde bem passada.

 

Nota: B

Southside with You (2016) - Crítica

     Filmes biográficos sobre figuras americanas contemporâneas importantes são quase uma praga. Com muita sorte, aparece um filme verdadeiramente honesto e o resto (ou seja, a maioria) tendem a glorificar e exaltar exageradamente as suas figuras. Será este filme uma grata exceção? Talvez sim, vamos descobrir.

    O filme acompanha os jovens Michelle Robinson e Barack Obama enquanto estes se conhecem ao passearem numa tarde juntos e discutem as suas opiniões sobre assuntos profissionais e pessoais.

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     O filme é escrito e realizado pelo Richard Tanne e ele é um completo desconhecido em Hollywood. Trata-se da sua primeira longa, depois de apenas trabalhar como ator e produtor na televisão ou em filmes independentes. Mais uma vez ele obtém um orçamento baixíssimo para Hollywood (1 milhão de dólares), mas de maneira muito simples e perspicaz, ele cria um filme surpreendente e agradável, sobretudo para quem estiver interessado. É um filme que consiste em pessoas a andar e a conversar, ou seja, quem gostou da trilogia Before do Richard Linklater, vai gostar de Southside with You. Dois elementos que tinham obrigatoriamente de funcionar eram o guião e o elenco. Primeiro, os diálogos estão ao nível da trilogia Before. Tudo bem que o filme é mais honesto em relação às virtudes e aos defeitos das suas figuras principais e há menos romantismo e poesia. Mesmo assim, o Richard Tanne acha um ótimo equilíbrio entre seriedade e brincadeira nas palavras. Algo que era impossível não fazer era retratar o Obama e a Michelle sem ter em atenção nas pessoas em que eles se tornariam nos dias de hoje. Alguns críticos ficaram insatisfeitos com essa portrayal, mas eu achei importante, interessante e fundamental num filme deste género.

     Segundo, as interpretações são ótimas também. O elenco é praticamente composto por só dois atores, sendo o resto quase só figurantes das suas cenas, e ainda bem, com uma produção tão pequena era muito complicado meter os dois personagens a ir almoçar a casa dos pais ou assim. Ainda bem que apenas vemos somente o Parker Sawyers e a Tika Sumpter. Sem as belamente calculadas interpretações deles, o filme fracassaria. Era também muito fácil cair para o cosplay de Michelle e Obama, mas felizmente não foi esse o caso. E outra qualidade é que o casting não feito apenas a pensar na aparência e nas parecenças dos atores com as pessoas, há de facto muito talento aqui.

     O Parker Sawyers dá uma performance muito bem antecipada e calculada. Ele capta muito bem os maneirismos do Obama, jamais nunca parecer uma imitação de sketch. Ele é brincalhão, por vezes provocador e malandro, mas nota-se uma bondade genuína, liderança e admiração que todos nós conhecemos.

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     A Tika Sumpter, ao mesmo tempo que é séria, é muito engraçada. Ela consegue achar no profissionalismo e na seriedade da Michelle uma maneira tanto de informar o público sobre a sua pessoa como de servir de contraste ao Obama. É muito divertido vê-los a terem mini brigas e a divertirem-se enquanto almoçam, passeiam ou partilham um silêncio.

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     Ambos interpretam o texto muito bem, felizmente não há nenhuma sub-trama desnecessária e tola que do nada aparece para mudar o foco da história, o foco está sempre neles os dois, e é interessante assisti-los a partilhar as suas ideias sobre igualdade de género, racismo, educação, carreira profissional e até mesmo de propaganda social. O problema é que o filme cai quando começa a exaltar principalmente o Obama. Não é algo ao nível de Birth of a Nation, não é assim tão mau. A verdade é que há momentos em que personagens secundárias falam dele e dos seus atos enquanto um pequeno ativista pelos direitos dos negros, e logo a seguir há um discurso (que é bom até) onde este fala de assuntos importantes para serem discutidos na sua comunidade, mesmo nem toda a gente concordando com ele, mas depois entra uma musiquinha e um shot da cara dele contra a luz enquanto ele pede justiça e patriotismo americano. Foi uma glorificação com demasiado ênfase e destaque. Não era preciso isso para eu ter uma enorme admiração por ele. O filme estava a ir num bom caminho e decide tomar aquele que eu menos queria. Sem querer falar mal da banda sonora do Stephen James Taylor, que é extremamente harmoniosa, calma e bonita, juntamente com a fotografia, que torna as paisagens deste filmes quase num álbum de fotografias.

     Os defeitos deles são também postos na mesa, porém os dos Obama aparecem quase logo de cara, os da Michelle apenas lá para o ato final. Não era preciso esperar tanto, a solução era soltar pequenos comentários dela da mesma maneira que se fizeram os do Obama, simples como isso, mas tudo bem, nada que comprometa muito.

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     No final das contas, Southside with You é um dos filmes biográficos mais leves e agradáveis do ano. É honesto, sereno e relaxante, mas ao mesmo tempo informativo. É uma ótima escolha para quem quer saber mais sobre como estes dois jovens se apaixonaram sem ter de passar uma tarde na Wikipédia.

 

Nota: B+

Ma vie de Courgette (A Minha Vida de Courgette, 2016) - Crítica

    Cada vez mais aparecem filmes de animação que desafiam o estilo Pixar, a verdade é que estes cada vez são melhores, mas não têm o reconhecimento merecido. O stop-motion é um estilo pouco reconhecido, está na altura de isto mudar.

     Baseado no livro publicado em 2002, Autobiographie d'une Courgette, de Gilles Paris, que co-escreveu o guião, o filme conta a história de Courgette que, depois de perder a mãe, é enviado para um orfanato. Assim que faz novas amizades, começa a aprender o significado de confiança e amor verdadeiro.

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    O filme é co-escrito e realizado por Claude Barras, que já fez dezenas de curtas e cuja especialidade é stop-motion, mas este é apenas o sua primeira longa-metragem. Vai definitivamente para o meu caderninho. Eu adorei a sua perspicácia, é um trabalho muito preciso e cuidado, a animação é uma das melhores do género que já vi. O realizador cria também atalhos para escapar às convenções do género, houve muitas cenas que dão a entender que o filme ia por um certo caminho, mesmo nós mais ou menos sabermos onde a história vai acabar. Ou seja, eu sabia por onde a trama ia, mas não sabia como. Mindblowned! Caroline e Kubo and the Two Strings podem ter histórias mais elaboradas e precisaram de mais CGI, mas Ma vie de Courgette consegue estar ao mesmo nível, devido à sua simplicidade. Aliás simplicidade é o que define o filme. As cores, os efeitos sonoros e claro, a criação do mundo e dos personagens. Todos os elementos são trabalhados com imensos detalhes e, por estranho que possa parecer, eles são críveis dentro daquele universo. Destaque para os olhos dos personagens, que são lindamente expressivos.

     A banda sonora é um show à parte, para além de ser suavíssima, consegue ao mesmo tempo destacar o peso de algumas cenas. Mas é tudo muito harmonioso e simples. Aliás a primeira cena deste filme ficou me marcada na cabeça e eu não a vou esquecer tão cedo. Nesta crítica parece até que me estou a contradizer, ora digo que a simplicidade é linda, mas depois digo que o filme é cheio de detalhes complexos, pois a verdade é que, mesmo com algumas comparações, Ma vie de Courgette é diferente de tudo o que vi em 2016.

      Agora falando dos personagens. Uau! Temos no Courgette um dos meninos mais doces, inocentes e genuinamente bons que o cinema contemporâneo já ofereceu. O Gaspard Schlatter fez um trabalho sensacional, um dos melhores trabalhos de voz do ano. Ele passa perfeitamente o drama que um orfão constantemente sente por não saber absolutamente nada. Ele quer voltar para a mãe, mas não compreende que ela já não cá está, é gozado no orfanato e não se consegue expressar.

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     E por falar em ser gozado, o Paulin Jaccoud não ficou muito atrás. À partida, o Simon parece um personagem previsível, o típico bully humilhado pela sua vida e que chateia toda a gente, mas que acabará por se arrepender do que faz. Felizmente não é isso que acontece aqui. O Courgette e ele lá vão tendo as suas brigas, conseguem se entender, mas a amizade deles nunca fica óbvia. Os diálogos são muito verdadeiros. Um é tímido, o outro é sabichão, resulta perfeitamente.

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    O Michel Vuillermoz interpreta o Raymond, um polícia que fica encarregue de tomar conta do Courgette. Na verdade, o personagem lembrou-me muito o David Oyelowo em Queen of Katwe. É um homem que logo deixa a impressão de que tem alguma coisa na sua vida que o afeta todos os dias e que procura uma solução para a sua solidão, sem nunca deixar isso óbvio. Assim que ele aparece, entra de imediato uma onda calorosa de doçura e carinho que não se vê regularmente no cinema de hoje.

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     E a Sixtine Murat fazendo a Camille, juntamente com todos os atores que formam o grupo de órfãos, completa o filme com chave de ouro. Para além de ser outro excelente contraste para o Courgette, ela é brincalhona, chica-esperta, alegre, mas também leva a crer que precisa da ajuda dos amigos, devido à sua situação.

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     Agora fiquei triste quando percebi esta viagem apenas teria 66 minutos, o filme é curto demais. Na verdade, não há buracos na história, todas as cenas são bem organizadas e a edição é boa, ela corta nos momentos precisos e não dá informação desnecessária. Agora eu estava a gostar tanto que acho que via na boa mais uns 20 a 30 minutos dos órfãos a brincarem ou apenas a conversarem,1 hora é muito pouco e passou demasiado rápido.

     Por outro lado, o que o filme faz muito é não se focar sem propósito em personagens secundários. Todo o grupo é bem estabelecido assim como as suas personalidades, os seus hábitos e os seus defeitos. Mas houve uma cena em que um determinado órfão recebe demasiada atenção e foi estranho. A cena era bem alegre e engraçada como todo o filme é, mas do nada a cena vira bastante dramática e, no fundo, nada do que foi dito foi relevante para o progresso da história, felizmente esse momento não se prolongou muito.

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     Ma vie de Courgette não é um filme convencional, mesmo sendo quase perfeito nem todos gostam do estilo de stop-motion. Mas se recusarem assisti-lo, arriscam-se a perder uma das obras mais comoventes sobre amor, amizade e infância de 2016. É uma viagem doce, alegre, engraçada, envolvente, mas que nunca se esquece das tristezas nas vidas do órfãos. Merece ser visto por toda a gente … toda a gente!

 

Nota: A-

Perdidos (2017) - Crítica

     A verdade é que maior parte dos remakes que surgem hoje são simples cash grabers e raramente são planeados para fazer alguma coisa nova com o material que têm. Vemos isto a acontecer com mais frequência em Hollywood e nem tanto na Europa nem muito menos em Portugal. Portugal apenas aderiu também a esta modinha em 2015 quando começou a fazer aqueles remakes de comédias clássicas. Será que este é uma exceção? Vamos descobrir.

    Um grupo de amigos juntam-se em Porto Santo para passar um fim-de-semana em alto-mar para recordar os velhos tempos. Porém, a viagem torna-se numa luta por sobrevivência e estes ficam encurralados no mar pois não conseguem voltar ao barco.

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    Trata-se de um remake de Open Water 2: Adrift produzido na Alemanha. Nunca ouvi falar dele, mas depois de alguma pesquisa apercebi-me que, pelo o que parece, também não foi muito bem-recebido. A versão portuguesa está também a ser demasiado mal criticada. Mesmo não sendo uma nova pérola do cinema nacional, eu gostei. A discussão dos remakes fica para outra altura.

     O filme é realizado pelo Sérgio Graciano, responsável por Assim Assim de 2012 e Njinga Rainha de Angola de 2013. É um realizador surpreendente, porém sem um estilo próprio, na verdade qualquer realizador conseguia fazer o que ele fez. Pelo menos aqui ele usa muitos close-ups muitos shots escuros para não mostrar demasiados detalhes ou para causar uma sensação maior de inquietação no público que funcionou muito bem. Devo dizer que esta foi uma das experiências mais aflitivas que eu tive numa sala de cinema este ano. O terror da situação é crescente, há imprevisibilidade na maior parte dos atos dos personagens e o mais importante é que todo o processo é envolvente. Eu preocupei-me pelas pessoas porque os meus próprios maiores medos estão relacionados com água, por isso foi fácil me identificar.

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    Os diálogos são bons e bastante surpreendentes para um filme nacional, já que maior parte dos que aparecem contém exposição necessária e observações óbvias. Parece que Jacinta sofreu na pele o que é ser produzido pelos mesmo que escrevem as novelas. Apenas no início é que eles caíram um pouco para a obviedade. Não é algo assim tão grave, mas antes de certos personagens aparecem, há outros que comentam sobre a vida dos que ainda não apareceram só para o público ficar alerta, são pequenos detalhes que facilmente chegar-se-ia lá. Houve até um que me fez questionar se alguém o diria mesmo, é uma daquelas coisas que aparecem em filmes e nos fazem questionar, “Mas como é que ele tem certezas disso?”. É até um pouco risível.

    Todos os shots aéreos são lindos, maior parte do mérito vai exclusivamente para a ilha de Porto Santo que é absolutamente belíssima. Tanto a fotografia como o drone fazem o seu trabalho.

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    E o elenco é ótimo, diria até que funciona melhor como um todo do que propriamente que as performances individuais, porque a química entre todos é muita boa. A Dânia Neto foi a maior surpresa. Ela desenvolve uma mulher não muito incomum, mas por ser a única com um enorme pavor da água à volta dela, existe um carisma fácil que se desenvolve entre ela e o público. É muito fácil torcer por ela, mesmo sendo uma mulher constantemente amedrontada e que raramente tem coragem para tomar alguma medida. É um trabalho de atriz muito bom e gratificante! O Diogo Amaral é o mesmo caso. É ator inegavelmente carismático e o que vou dizer até pode ser tolo, mas desde Morangos com Açúcar que ele mostrou ter talento. Tal como a Dânia Neto, é muito fácil ficar do lado dele, pois é muito amigável, sossegado, mas ingénuo não.

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     Sou suspeito por falar, uma vez que a Dalila Carmo é uma das minhas atrizes preferidas, mas ela está ótima como sempre. Tem uma enorme presença em cena, é brincalhona, irónica, provocadora e muito sorridente. Não há muitos comentários para serem feitos. Destaque também para o Afonso Pimentel, ele está bem passivo-agressivo aqui. Ele sorri, tem dinheiro e tem cerveja para os amigos, mas por debaixo da máscara está um homem arrogante, cobarde e odiável, é até um pouco previsível, mas bem feito. De resto temos Lourenço Ortigão e Catarina Gouveia, ambos muito bem e com o desenvolvimento bem feito, mas o show foi todo dos primeiros atores que falei.

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    Agora como outro filme qualquer de sobrevivência há momentos em a lógica é completamente abandonada. Momentos ridículos e hilariantes na verdade. Não forma assim tão graves pois não resultaram em nada na história, ou seja, foram medidas que os personagens usaram para se tentar salvar, mas que abaram por não resultar em nada, por isso, eu desculpo. Revelá-los incluiria spoilers, mas digo que são momentos que nos faz pensar “Como é que isto é possível?”. Tanto pode ser resultante do mau trabalho do realizador como do editor, mas de qualquer maneira são coisas que jamais aconteceriam na “vida real”.

     Se excluirmos momentos desses, Perdidos é um ótimo thriller de sobrevivência. O filme conseguiu aproveitar o bom material que a “versão original” tinha e que desaproveitou. Tem algumas coisas que com um arranje ou outro, consertariam o filme totalmente, mas a sua função era inquietar e entristecer o público, e essa missão foi cumprida. Não é tão mau como dizem e até pode não ser tão poderoso quanto São Jorge deste ano, nem como outros thrillers do mesmo subgénero tipo 127 Hours de 2010, mas é muito melhor do que aquilo que eu estava à espera.

 

Nota: B

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