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Vida de um Cinéfilo

Vida de um Cinéfilo

Ghost in the Shell (Agente do Futuro, 2017) - Crítica

     Como já disse antes, eu não sou totalmente contra os remakes. Se um filme quer transmitir nostalgia ou reinventar alguma coisa, tudo bem, mas se for feita uma versão cash graber, desrespeitosa e sem graça, de certeza que haverá coisas melhores para se fazer com o nosso dinheiro.

     Baseado no manga Ghost in the Shell escrito por Masamune Shirow, lançado em 1989 e, na posterior adaptação cinematográfica de 1995 com o mesmo nome (ler crítica), o remake live-action de 2017 revisita a história da Hanka Robotics e a sua luta contra o cibercrime.

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     Não consegui arranjar uma “sinopse” melhor do que esta. As distribuidoras afirmam que este remake é baseado no manga e no filme original, mas há muitas modificações (umas boas, outras nem por isso) que não me deixam revelar a verdadeira sinopse.

     O filme foi realizado pelo Rupert Sanders. Esta é apenas a sua segunda longa-metragem. Ele fez algumas curtas, mas o primeiro filme que realizou foi Snow White and the Huntsman, de 2012, que é também um remake. Este eu não vi, mas Ghost in the Shell (ler crítica), de 1995, entrou na lista das minhas animações preferidas já há algum tempo e, atenção, eu não sou lá grande fã de anime. Algo que ele fez muito bem foi recriar certos e determinados shots do filme original, shots muito icónicos e bonitos, por acaso. Maior parte deles têm praticamente o estilo visual idêntico e alguns até funcionam melhor em live-action do que em anime. Nesse aspeto, ele surpreendeu-me. Agora, houve alterações bem drásticas no material fonte. Algumas ideias levaram o filme num caminho interessante, outras nem tanto. Devemos respeitar filmes como este, que revolucionou o género da ficção cientifica.

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     Como já disse, o realizador presta uma satisfatória homenagem ao visual do filme original. Tanto a fotografia, os cenários, o guarda-roupa e os restantes elementos da produção são mais que eficientes para recriar o mundo distópico da animação. É uma cidade cinzenta, mas viva ao mesmo tempo. O mesmo se pode dizer das cenas de ação, que são o segundo ponto mais atrativo deste filme. A ação é frenética e a edição é eficiente, nada de cortes excessivos à la Michael Bay. Há sequências em câmara lenta lindíssimas e o CGI é igualmente bom, sem nunca engolir a história, e isso graças também à inclusão de efeitos práticos. Porém, a banda sonora fica muito aquém. É exatamente igual à original, só que má, se é que me faço entender.

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     Agora vou falar daquilo que queria. O filme muda bastante a história. O antagonista é diferente, as circunstâncias que levam os personagens a determinado sítio são outras e até a filosofia é diferente. O anime falava de humanidade, tecnologia e a evolução posterior de um indivíduo quando este se beneficia da junça destas duas “coisas”. Desta vez, os temas abordados são opressão, rebelião contra o sistema e a perda do individualismo. Não me vou alongar mais acerca disto.

     A Scarlett Johansson tem dado boas performances nesta década e esta não é exceção. Dentro da nova história de origem da personagem, ela está bem. Porém o whitewashing é um problema. Ela é uma boa atriz dramática e uma boa estrela de ação, mas o papel teria ficado muito mais convincente se a atriz fosse japonesa. Por exemplo, a Rinko Kikuchi seria uma ótima escolha. Isso resolveria o whitewashing e ainda outra coisa bem específica.

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     A Juliette Binoche é bem desaproveitada e sofre umas decisões bem toscas do guião. Não é uma personagem tão interessante assim, mas a atriz era capaz de elevar o seu material se tivesse mais tempo em cena.

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    Eu gostei muito do Pilou Asbæk. Foi uma ótima escolha para o Batou. Para além de ser fisicamente muito parecido com o personagem, ele ainda demonstra um afeto muito verdadeiro pelos seus colegas e a sua dinâmica com a Scarlett Johansson também é ótima.

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     O Takeshi Kitano surpreendeu-me. Eu estava à espera de um Chief Aramaki desaproveitado e sem graça, mas, a partir de um certo momento da história, ele tem um ligeiro twist e torna-se um badass autêntico.

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     Só não percebi o porquê de ele não falar inglês. Ele fala japonês o filme todo e toda a gente que fala inglês percebe. Ambos trocam diálogos, mas nunca no mesmo idioma. Eu sei que todos eles têm algum tipo de artificialidade, mas não resultou muito bem, ficou estranho.

     Agora o antagonista deste filme é fraco, assim como a sua motivação. O Puppet Master, do anime, pode nem ser um dos melhores vilões do cinema, mas ele foi bem capaz de obrigar o público a pensar e desenvolver uma luta de consciência. Amanhã não me vou lembrar deste … acho que já me esqueci.

     Outra coisa que me incomodou foi que o filme decidiu acabar com uma narração da Scarlett Johansson bem sem graça. Foi apenas um momento de exposição. Felizmente o ato final foi provavelmente o mais gratificante, tirando essa narração, o filme terminou numa nota alta.

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     Ghost in the Shell não desrespeita totalmente a versão original e até consegue extrair um novo ponto de vista sobre temas anteriormente abordados. O problema é que, como maior parte dos remakes, este é “americanizado” demais e resulta de uma produção preocupada demais com estilo, esquecendo-se da substância.

 

Nota: C

The Great Wall (A Grande Muralha, 2016) - Crítica

     É tramado quando acho que não preciso de fazer mais reviews de 2016 e aparece um filme da China que apenas estreou em 2017 na América e em Portugal. Vou é tirar este da lista e acabar com isto … mesmo este filme não valer a pena.

     Dois mercenários europeus em busca de pólvora negra são aprisionados na Grande Muralha da China durante a Dinastia Song e acabam por defenda-la de uma horda de monstros que a invadem.

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     Trata-se de uma mega produção sino-americana realizada pelo chinês Yimou Zhang. Eu não o conhecia, para ser sincero. Depois de uma pequena pesquisa, reparei que é um realizador já experiente e bastante aclamado. Vou tentar ver algum trabalho dele, pois The Great Wall não me deixou lá muito surpreendido.

     O filme é baseado em várias lendas chinesas sobre batalhas do exército chinês contra criaturas monstruosas que atacavam a Grande Muralha da China durante a mesma época histórica em que o filme decorre. São histórias interessantes, não acham? Ainda que estas lendas prendam a atenção do público, o resto do filme é um storytelling básico e sem muita chama. Não chega a ser um filme horroroso, mas com um orçamento de 150 milhões de dólares, era possível fazer-se uma história muito mais interessante do que esta.

     Ainda assim, o filme funciona minimamente como um blockbuster. O valor de entretenimento é constante, há um ou dois bons momentos de tensão e a ação, para um público mais casual, vai ser satisfatória. Agora, pelos padrões respeitáveis de um blockbuster, The Great Wall deixa muito a desejar. A começar pelos aspetos técnicos.

     O CGI do filme começou bem. Os monstros (os chamados Tao Tei), no princípio funcionam, nós sabemos que aquelas imagens são efeitos visuais, mas não chegam a incomodar. Mas isto quando os monstros interagem entre si. Agora quando eles se atiram contra os humanos e interagem com eles e com as correntes, com as espadas, com as flechas e tudo mais, o CGI vira um espetáculo visual mal feito e mais notável que os javalis em The Legend of Tarzan, de 2016. O mesmo pode-se dizer da sequência de abertura. Os créditos iniciais são introduzidos no meio de supostos “planos aéreos” da própria Muralha. Mesmo que fossem CGI, podiam ser bons, há casos em que isso acontece, só que aqui aquela sequência mais parece uma abertura de um jogo mal feito para a PS2.

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     E a fotografia é a mesma coisa. Quando os personagens conversam, as paisagens daquela gigantesca muralha são bonitas, o céu é vistoso. Agora, nas cenas de ação, a fotografia contribui para o lado enjoativo do filme. O cenário até é sujo e escuro, mas depressa vira um cenário de videojogo outra vez. O filme usa bastante green screen e, até certo ponto, isso torna-se tolerável, mas mais lá para o ato final, ele torna-se bastante notável. É pena que as produções chinesas tenham caído tanto desta vez.

     O que salva o visual do filme é o fantástico guarda-roupa e as armas do exército. Graças a esse valor de produção, o filme convence perfeitamente como uma ficção histórica.

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     Um elemento que também gostei foi a banda sonora. Há alguns instrumentos de sopro e muita percussão à mistura. Principalmente aqueles tambores de guerra que são sempre cativantes.

    O elenco (uma pequena parte dele) é esforçado, mas foi muito difícil gostar do filme apenas dando atenção às performances. O Matt Damon está carismático como sempre e tem muita presença enquanto a boa estrela de ação que é. O personagem dele é perspicaz, generoso e mais lúcido do que os habituais papéis do ator. Ele carrega a ação às costas muito facilmente e é graças a ele que o filme se torna interessante. Porém a sua performance foi um pouco estragada quando o personagem toma uma decisão no ato final oposta àquela que devia tomar consequente das ações que sofreu.

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     O Pedro Pascal não está tão bem como o Matt Damon, o que já era difícil, por isso devo dar-lhe um desconto, visto que ele se esforça. Eles funcionam bem como uma dupla de mercenários e convencem rapidamente como dois homens duros que se querem defender.

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     Eu gostei do Willem Dafoe. O ator tem feito cada vez mais papéis que não o deixam ter uma participação digna do seu talento, mas desta vez foi uma exceção. Ele é um ocidental preso na Muralha há 25 anos e transmite muito bem a sua vontade de fugir daquele sítio o mais depressa possível. A sua sub-trama era uma das mais interessantes.

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     A Tian Jing é convidativa e tem uma presença simpática, mas ela não convence como uma comandante de um exército daquele tamanho. Falta-lhe transmitir mais liderança e admiração e assumir uma postura mais séria, mais sólida. Há um subtexto muito desinteressante sobre confiança que a envolve juntamente com o Matt Damon que caiu um pouco para uma filosofia pobre. A química entre eles é minimamente boa, mas os diálogos são muito maus.

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     Inclusive, há outra sub-trama de um soldado chinês com o Matt Damon muito artificial e desnecessária. O soldado considera-se fraco e medroso e o Matt Damon tenta encoraja-lo … é basicamente isso.

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     The Great Wall tem uma criação de mundo muito boa e um valor de entretenimento satisfatório. Mas no que diz respeito aos diálogos e ao desenvolvimento da própria história, o filme dececiona e larga aquilo que podia ser o material de um bom blockbuster.

 

Nota: C-

Spider-Man: Homecoming (Homem-Aranha: Regresso a Casa, 2017) - Crítica

   Como já disse antes, os sites americanos são uns oficiais engraxadores dos filmes de super-heróis recentes. Plataformas como Rotten Tomatoes ou IMDB adoram sobrevalorizar filmes que não são necessariamente tão espetaculares assim. Ainda não vi o Logan, o GOTG Vol. 2, nem o Wonder Woman, e tenho evitado ver trailers já há muito tempo. Mas … será Spider-Man: Homecoming um filme digno para apresentar mais uma vez o aranhiço ao público?

   Meses após os acontecimentos em Captain America: Civil War, Peter Parker tenta equilibrar sua vida como estudante ordinário de Queens, enquanto luta contra o crime disfarçado de Spider-Man.

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     Que filme fixe! Posso não parecer muito profissional ao usar esta palavra, mas este filme foi fixe, muito fixe.

    O filme foi realizado e co-escrito pelo Jon Watts. Esta é apenas a sua terceira longa-metragem, anteriormente ele realizou um filme de terror independente chamado Clown e um filme com o Kevin Bacon chamado Cop Car. Não vi nenhum deles, mas admito que fiquei bastante interessado. Algo que ele fez de diferente e que eu gostei muito foi a abordagem mais minimalista que fez com o protagonista. Primeiro, ele tinha de esclarecer uma coisa. O público já conhece a história do Homem-Aranha. O Sam Raimi iniciou uma boa história de origem em 2002, embora que em 2012, apareceu, digamos, um remake pobre. Desta vez, o Peter Parker não precisa de ser apresentado. Ele já é o Homem-Aranha que todos conhecemos, o Tio Ben já não precisa de ser mencionado e, desde o Captain America: Civil War, o personagem demonstra uma enorme ambição em se tornar um Avenger. É bom ver que ainda há realizadores que confiam no público e que não enchem os seus filmes com diálogos justificativos ou expositivos.

     Segundo, depois das primeiras versões deste personagem, que eram bem mais dramáticas, o tom é mais leve. O humor é bem Marvel, especialmente quando se tem um protagonista tão carismático e divertido como este e, claro, há uma atmosfera consequente muito mais acolhedora desta vez.

     O que o Jon Watts fez muito bem foi usar takes mais longos em cenas casuais e mesmo em algumas de ação, ao contrário dos restantes filmes da Marvel. Com certeza, não é uma realização completamente distinta, aliás, depressa percebemos que estamos a ver um produto da Marvel, mas eu gostei de algumas mudanças que foram tomadas. Tanto tecnicamente como em relação à história. A banda sonora tem uma seleção de músicas muito boa, nota-se que é um filme para jovens que gostam destes personagens, mas também para pessoal mais velho que conhece o Homem-Aranha já há muitos anos.

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     Por falar na ação, é um filme mais minimalista que os anteriores do MCU. Há CGI e explosões, como era de esperar, mas é algo em menor escala do que em The Avengers. A fotografia é bem habitual, é bonita, é bem azul, a cidade, inclusive a Avengers Tower, fica bem realçada, mas já vimos isto antes, não é muito distinta das restantes da Marvel. Ok, deixemo-nos disto, eu quero falar do elenco!

     O Tom Holland está espetacular aqui! Ele é disparado ambos o Spider-Man e o Peter Parker mais cartoonescos do cinema. Com isto, não quero dizer que é a melhor versão já feita. Ele está ótimo? Está, sem dúvida. Ele é tudo o que os comic fans vão querer ver. Ele é engraçado, ágil, bem-disposto, despreocupado e, às vezes, acelerado demais. A minha versão favorita continua a ser a do Tobey Maguire. Foi uma abordagem mais dramática e que desiludiu muita gente, mas eu não sou um comic lover, por isso não era a versão “tradicional” que me interessava. Agora, o Tom Holland merece muitas palmas.

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     Só quem viu (e adorou) o Birdman, de 2014, sabe o quão interessante é ver o Michael Keaton vestido de pássaro a fazer “coisas”. Aliás, é uma performance excelente e que servirá como uma chapada de luva branca àquelas pessoas que dizem que o único bom vilão da Marvel é o Loki. O Vulture é um ótimo antagonista, principalmente graças à sua motivação, que foi diferente e inesperada. Talvez o Vulture não esteja ao mesmo nível do Loki, o que era difícil, mas há um carisma inegável e uma presença arrebatadora. É um daqueles vilões que adoramos odiar, os meus olhos não saíram dele.

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     O Ned, interpretado pelo Jacob Batalon, é um dos personagens mais engraçados da Marvel até hoje! As reações dele são impagáveis e o melhor humor do filme veio dele. Ele o Tom Holland têm uma química excelente e ambos convencem perfeitamente como dois estudantes extremamente inteligentes e até um pouco geeks, talvez mais o Ned do que o Peter.

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     A Marisa Tomei é uma boa atriz. Ela é querida, simpática e convidativa, mas é uma Tia May com potencial desperdiçado. Era oportunidade de mostrar uma May mais moderna e jovem, mas ela aparece muito pouco, tendo apenas uma boa cena. No tempo restante, apenas é representada como uma cinquentona jeitosa, o que não é mau, mas não serve de nada.

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     A Zendaya surpreendeu-me muito pela positiva. Eu já gostava de a ver em Shake It Up! quando era pequeno, mas não a esperava ver tão bem aqui. É uma personagem interessante e muito engraçada. A sua ironia e desprezo pelos outros divertiu-me bastante. E mesmo que a personagem Michelle tenha sido reservada para uma futura sequela, deixou-me uma enorme vontade de ver mais, por um bom motivo.

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     O Robert Downey Jr., a Gwyneth Paltrow e o Jon Favreau voltam a interpretar os seus papéis do MCU. Eles continuam ótimos, mas não fazem muita coisa, o que é normal e apropriado, visto que não precisavam.

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     Agora eu não gostei da Laura Harrier nem do Tony Revolori. São personagens genéricos e aborrecidos. A personagem Liz é uma “socialona” gira da escola sem graça, mas, pelo menos, tem um propósito. Agora é uma pena ver o Tony Revolori tão desaproveitado depois do seu papelão em The Grand Budapest Hotel, de 2014. O Flash Thompson da vez, para além de ser desinteressante, ainda teve um “arco” por resolver. Parece que a sua “briguinha” com o Peter Parker ficou em águas de bacalhau.

     A cena a meio dos créditos é ok, mas a última é … fenomenal! É muito simples, algumas pessoas não vão achar graça nenhuma, mas a piada está na sua intenção. É provavelmente a melhor cena pós-créditos que a Marvel alguma vez fez.

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     O meu filme preferido continua a ser Spider-Man 2, de 2004. Mas se Spider-Man: Homecoming não estiver ao mesmo nível do primeiro Spider-Man, de 2002 … ele está perto. É um rumo mais que eficiente para conduzir o personagem na sua nova jornada, num novo universo.

 

Nota: B+

The Boss Baby (2017) - Crítica

     Mais uma vez temos um filme injustamente desprezado pelos “críticos”. Tudo bem que isto das críticas é tudo muito subjetivo, mas é preciso ter senso comum. Há filmes que não precisam de ser levados a sério, isso compromete tudo.

     Baseado no livro infantil The Boss Baby de 2010 escrito pela Marla Frazee, o filme conta a história de Tim, um rapaz de 7 anos que, juntamente com o irmão recém-nascido estranhamente inteligente, decide planear uma missão para impedir que o amor dado aos bebés se extinga para sempre.

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     Não liguem muito à trama. Lida desta maneira não faz sentido algum. Mais uma vez a Dreamworks dá-nos uma animação non-sense e familiar, mas não é esse o meu foco. A realização é do Tom McGrath, responsável pelo hilariante Megamind e pela trilogia Madagascar. Ambos estes filmes fizeram a minha infância, por isso eu tinha de ver o último trabalho deste realizador, mesmo que reviver a minha infância fosse um bocado difícil. Ou talvez não. Como eu já disse, este filme não é para ser levado a sério, de maneira nenhuma. Agora, se tu que estás a ler isto, foste uma criança feliz, que brincava sozinha, que imaginava muito, se tiveste irmãos, se tiveste perguntas … este filme vai te satisfazer, embora que já tenhamos maior parte das respostas que queríamos. Se é que me faço entender.

     O estilo de animação não é dos mais impressionantes da Dreamworks, parece que desta vez eles optaram por um visual mais minimalista, menos elaborado. Na verdade, não impressiona, mas algumas cenas frenéticas de ação cheias de cor e com uma edição mais que eficiente permitiram que esse facto fosse facilmente superado. Há cenas bem divertidas e criativas, especialmente quando o personagem Tim está no seu mundinho de criança em que imagina tudo o que for possível e mais além. Essas cenas são divertidas e qualquer um que brincou (com brinquedos, não com iPads), facilmente vai se identificar.

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     O filme é bastante engraçado, mais do que eu esperava, e essa surpresa proveio do humor adulto do filme. Por exemplo, tal como em Shrek, mas não igualmente bom, há muitas piadas que apenas o pessoal mais velho vai perceber. Mas claro, há muito humor non-sense, bronco e apenas espontâneo (para além de piadas sobre cocó) que as crianças vão adorar. Porém, houve certas piadas que caíram para a infantilidade e são um pouco cringe, aí o humor cai bastante.

     Algo que o Tom McGrath faz muito bem é achar o tom certo de um filme, especialmente numa animação, que pode, por vezes, se tornar difícil. Aqui, o tom fica definido, é um filme para miúdos e graúdos, mas houve momentos demasiado chorões e sentimentalistas. Há certas ocasiões que não pediam ao personagem X para chorar ou para reclamar de maneira excessiva. Eu percebo o que o filme queria fazer, mas houve cenas exageradas.

     Aí e quando o Boss Baby decide reunir a sua “equipa de trabalho”. Eu apenas me ri com uma personagem, com o Jimbo, o bebé gordo. De resto, a team não faz grande coisa e, mesmo oferecendo algumas gargalhadas, não contribui muito para avançar com a história.

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     O Tobey Maguire é um bom narrador, não chega a ser uma voz inconfundível, mas nota-se imediatamente a sua capacidade de virar jovem e acolhedor. Interpretar o Spider-Man já com 27 anos é prova disso. O ator tem hoje 42 anos e tem cara de bebé na mesma.

     O Alec Baldwin foi a escolha perfeita para este papel. A arrogância, a ironia, a altivez, a insegurança e aquela voz de snob e de gentleman. Era tudo o que o personagem precisava de ser, sem parecer uma imitação barata do Stewie. Isso e o comportamento de um bebé autêntico. É muito engraçado quando o bebé está numa “reunião” e do nada faz uma sesta. Eu gosto muito do Fernando Luís, mas Alec Baldwin is the Man!

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     Eu gostei muito do Miles Bakshi. Ele é destemido, aventureiro, alegre, agitado e muito precipitado, como qualquer criança costuma ser, não é? Ele tem uma imaginação enorme, daí eu rapidamente me identificar com ele. No que diz respeito a brincadeira, eu era igual a ele.

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   O Jimmy Kimmel e a Lisa Kudrow dão voz aos pais, mas podiam ter a voz de quaisquer atores. Eles são importantes, são personagens fácies de gostar, mas não têm muito desenvolvimento. Não que isso seja mau, aliás, eu não queria ver uma história de origem dos pais, mas, outra vez, não nos importamos assim tanto com eles, principalmente quando a nossa atenção nunca sai dos personagens principais.

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   O Steve Buscemi dá uma ótima dose de insanidade cartoonesca ao seu personagem e resulta. É um ator inegavelmente carismático e ele sabe carregar a sua trama muito bem, especialmente quando aparecem certas cenas, momentos que só ele podia interpretar.

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     Eu adorei o personagem Eugene, não pela voz, ele nem fala muito, mas sim pela sua postura. Ele é hilariante, bronco e completamente troll. Eu adoro trolls em filmes de animação. Confesso que é já um gosto pessoal antigo, não são todos os que gostam de personagens assim. Eu ri muito com as suas expressões e com os seus grunhidos.

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     Por outro lado, uma coisa que não fez muito sentido foi o Boss Baby estar sempre de fato e gravata. Claro que serve como um propósito mais ambíguo, mas para o bem do filme e da sua própria teoria (bastante óbvia na verdade), era melhor de vez em quando ele aparecer mesmo só com uma t-shirt de bebé, ou até mesmo com um babygrow, porque não?

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     The Boss Baby pode não ser uma das melhores animações do ano, mas é uma boa metáfora, é inteligente, divertido, engraçado e oferece um eficiente comentário sobre família e a importância da amizade entre irmãos.

 

Nota: B

Beauty and the Beast (A Bela e o Monstro, 2017) - Crítica

     Eu sei que não é muito justo comparar filmes diferentes, mas The Jungle Book, de 2016, é um remake revisionista sem sombra de dúvida. Não só consegue respeitar o material fonte, como também adaptá-lo numa história melhor e desenvolver um comentário mais adulto. Será este remake o mesmo caso? Bem …

     O novo remake live-action da Disney revisita a clássica história francesa La Belle et la Bête, originalmente escrita por Gabrielle-Suzanne Barbot de Villeneuve, publicada em 1740 e adaptada na famosa animação de 1991.

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     O filme foi realizado pelo Bill Condon, que fez os bons filmes Gods and Monsters e Mr. Holmes, ambos com o Ian McKellen. Por outro lado, é também responsável por Dreamgirls e os últimos dois filmes da saga Twilight. Porém, nada disto importa, o Bill Condon teve um orçamento de 160 milhões de dólares … basicamente podia fazer o que quisesse, que a vasta produção da Disney trataria do resto. Ele não é mau realizador, mas estamos a falar de um remake da Disney como outros que já se fizeram. Este também consiste num enorme valor de produção lindamente atento a detalhes e, claro, uma criação de mundo eficiente, assim como um bom uso de CGI … quer dizer, já lá vamos.

     Vamos começar pelos aspetos técnicos. Verdade seja dita, a Disney não falha. Tanto o guarda-roupa, os penteados, a maquilhagem, os cenários e os pequenos utensílios são lindíssimos. Como já disse, há uma atenção absurda a detalhes e o universo que se cria facilmente convence como um reino dos contos de fadas aos quais estamos habituados. Agora, há muito mais que esperar de um remake de uma animação tão apreciada como A Bela e o Monstro. Dito isto, não quero fazer parecer que fiquei desiludido. O filme tem 2 horas e 10 minutos e, como era de esperar, acrescenta e retira muita coisa. Bastantes pormenores foram alterados aqui: decisões e desenvolvimento de algumas personagens, abordagens de certas cenas, assim como certos erros (embora inofensivos) da versão original. Maior parte da banda sonora original foi mantida, enquanto alguns (bons) novos temas são apresentados. Eu “perdoei” exclusões de certas músicas, mas aquela que eu não posso ignorar é a da “Human Again”, quando os objetos decidem limpar o castelo. Era a oportunidade perfeita de a Disney mostrar mais uma vez como é possível transformar uma linda sequência musical de uma animação num espetáculo visual. Provavelmente, não aconteceu devido a problemas de orçamento. Quem sabe? Falemos do elenco.

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     A Emma Watson é uma atriz linda, ninguém pode negar isso. Mas sejamos sinceros, ela não é uma grandíssima atriz, a única vez que me convenceu num papel mais maduro foi em Noah, de 2014. Fisicamente, ela foi uma escolha adequada para interpretar a Bela, só que mesmo sendo uma performance boa, é vulgar. Na minha opinião, ela é melhor cantora do que atriz, eu gostei muito da voz dela, mesmo não sendo possível ela ter superado a Paige O’Hara.

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     O Dan Stevens, por outro lado, foi uma surpresa. Ele é muito expressivo e dá uma igualmente boa performance física. Mas confesso que achei o visual do Monstro na versão animada mais tenebroso. Mea culpa, eu cresci com Beauty and the Beast, é um dos meus filmes preferidos. Tanto a versão do Henrique Feist como a cara do Monstro metiam-me medo em criança. Isto leva-nos ao seu visual nesta versão. Não é tão assustador, é verdade, parece que a Disney perdeu a coragem de assustar as crianças. Mas ainda assim, consegue respeitar o look clássico. O seu problema é o CGI, há uma considerada necessidade e falta de maquilhagem aqui, pareceu muito pouco real.

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     Mais que uma vez, o CGI é notável, ora na interação do Monstro com a Bela, ora com os lobos, ora (mais no princípio) com os objetos vivos. Vá lá, Disney, és capaz …

     O Kevin Kline é um ótimo ator e está bem como Maurice. Agora, para mim, aquele não é o Maurice. Ele está mais lúcido e controlado, o que, por outro lado, serve a história. Mas faltou-me um lado mais pateta, mais desastrado.

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     O Luke Evans foi a escolha perfeita para o Gaston! Ele é egocêntrico, narcisista, arrogante, cruel (óbvio), mas, ao mesmo tempo, carismático. Era exatamente esse o objetivo. Muito bem, Luke Evans! Pena é não teres o cabelo no peito necessário para o Gaston.

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     O Josh Gad está muito engraçado como o LeFou! O LeFou sempre foi gay, isso é inegável, mas desta vez a Disney assumiu isso e finalmente respondeu aos fãs honestamente. Para além da sua enorme obsessão pelo Gaston, há ainda um desenvolvimento surpreendente, assim como um novo rumo para o personagem. Funcionou.

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     Eu adorei o Ewan McGregor! O Lumière é uma das minhas personagens favoritas da Disney, daí o meu receio. Felizmente o ator mostrou-se mais que capaz de cumprir a sua tarefa e não me desiludiu.

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     Eu não fazia ideia que o Ian McKellen estava no filme. Demorei ainda um pouco a reconhecer a sua voz. Ele é um ótimo Cogsworth, pareceu que nasceu para fazer este personagem. E melhor, a sua química com o Ewan McGregor é espantosa, aliás, tinha de ser, senão estes dois fracassariam.

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     E a Emma Thompson foi outra surpresa. A atriz tem uma voz inconfundível e não havia nenhuma melhor para dar à Mrs. Potts. Ela é muito doce e gentil, mas desta vez, o público sabe que é ela, daí a sua prestação ser possivelmente melhor do que a da Angela Lansbury.

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     Algo que eu gostei muito igualmente foi a inclusão de atores não brancos no filme. Tanto na aldeia como no castelo do príncipe, há cidadãos negros de diferentes classes, não só da baixa, não há só negros camponeses. É bom ver que a Disney está finalmente a abrir os olhos.

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     Beauty and the Beast não é melhor que a animação clássica, isso é claro. Mas se aceitarmos ver este remake apenas para desfrutar novamente de uma história linda e nostálgica como esta, é um filme mais que eficiente. Eu passei maior parte do filme arrepiado e não podia pedir melhor. Na verdade, podia, mas, come on, toda a gente gosta da Disney. Talvez um dia ainda faça uma crítica da versão original.

 

Nota: B

John Wick: Chapter 2 (John Wick 2, 2017) - Crítica

     Porquê Portugal? Qual é a dificuldade de chamar Capítulo 2 a este filme? Não era difícil. Bem, mudando de assunto, devia começar por criar a minha lista dos cinquentões mais badass do cinema. Harry Hart, Robert McCall, Bryan Mills e, claro, John Wick entrariam. Bem, vamos a isto.

    Depois de retornar ao submundo criminoso para pagar uma dívida, Jonathan Wick descobre que uma grande recompensa foi colocada pela sua vida e assim começa uma nova luta enorme por sobrevivência.

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   O filme é novamente realizado pelo Chad Stahelski e este (mais uma vez) mostra como o seu talento de coordenador de duplos pode ser tão útil num filme de ação. Tal como o primeiro filme, a este tem estilo, violência e um excelente trabalho de câmara (takes mais longos desta vez), de edição e de duplos. Apenas a banda sonora não mudou, há apenas uns novos temas pequenos, mas quem reconheceu os temas originais vai ficar contente por ouvi-los novamente. Vamos começar pelo estilo. O filme é radiosamente bonito, é brilhante, é colorido e a sua fotografia continua a surpreender, mesmo não tanto como o primeiro, mas isso era de esperar.

      Eu não sou fanboy, mas há que reconhecer quando uma sequela consegue estar ao nível do original. Desta vez a história é mais elaborada, mesmo não criando um thriller de mistério absolutamente quebra-cabeças. O filme continua simples, mas requer um conhecimento prévio desse universo. E, claro, continua muito violento, talvez até se tornou mais violento. Não podia pedir melhor! O John Wick mata mais gente, prepara-se mais cuidadosamente e há um número absurdo de corpos, de golpes sangrentos e de efeitos sonoros incómodos. São esses os headshots e os ossos a partir. Pode não ser ao nível do Tarantino, mas é bom.

    O que uma sequela deve fazer é desenvolver arcos do filme original. O primeiro John Wick, de 2014, era uma história relativamente simples, sendo assim, não pedia um grande desenvolvimento nem do seu arco principal nem dos seus personagens. O Lance Reddick continua excêntrico e, mais uma vez, sente-se confortável interpretando o elemento leve e “cómico” do filme.

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     Apenas o Ian McShane é que merecia mais desenvolvimento e, quem sabe, algumas camadas de surpresa. Depois do Viggo, no primeiro filme, era o personagem que mais me interessava. O ator continua ótima como sempre, mas faltou-me qualquer coisa. Esta franchise vende-se muito igualmente pelos diálogos antes dos confrontos, eu não considero o guião uma obra-prima, mas acho que o Derek Kolstad, mais uma vez, foi na direção certa. Só se o John Wick tivesse mais cenas com o Winston é que eu me sentiria satisfeito. O conflito que surge nesta sequela foi guardado para um terceiro filme, mas eu queria ver o princípio desse conflito aqui, eu queria mais do Ian McShane.

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     Mas verdade seja dita, o Keanu Reeves continua ótimo. Digam o que quiserem, ele é bom ator. Não é dos grandes, mas é bom. Algo que eu queria ver desta vez era mais vulnerabilidade, mais fraqueza, queria ver aquele assassino implacável com dificuldades extremas. Para além de ter a dose perfeita daquilo que queria, ainda assisti a mortes sangrentas e impiedosas. Principalmente quando falamos da sua química nas cenas com o Common.

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     O Common ainda é um ator em ascensão, mas provou mais uma vez que tem potencial. Ele tem muita presença e a sua capacidade de se inserir nas cenas de ação com o Keanu Reeves, tanto com armas, tanto mano a mano, é excelente. As cenas de ação entre os dois são as mais interessantes e mais tensas.

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     O Riccardo Scamarcio, na sua primeira cena, deu a entender que ia ser um vilão bom e diferente. Inclusive, eu gostei do seu olhar expressivo na sua primeira conversa com o John Wick. Mas, à medida que a sua “personalidade” vem ao de cima, ele torna-se genérico e esquecível. Definitivamente, tentou ser o novo Michael Nyqvist e falhou, o Viggo Tarasov está a anos-luz do Santino.

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     A Ruby Rose mesmo não sendo tão interessante, prende o público com a sua postura. Eu gostei muito do facto de o capanga indestrutível ser uma mulher. É muito refrescante, principalmente comparando com os filmes do James Bond.

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     E o Laurence Fishburne, como o bom ator que é, volta a ser muito convidativo. Tal como aconteceu com o Ian McShane e com o John Leguizamo, o seu arco ficou pendurado para uma futura sequela. Percebo onde o Chad Stahelski queria ir. Ainda assim, foi um pouco frustrante, mas vamos ter de esperar. Houve apenas um pequeno detalhe do submundo dele que não gostei, um ligeiro pormenor apressado demais.

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    Eu tenho de referir também que o último ato é o melhor de todos. Para além da sequência dos espelhos ser espetacular, o final … é daqueles, não dá para dizer muito mais. Não é ambíguo nem nada disso, mas é aflitivo e cruel, dependendo do ponto de vista de cada um.

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     John Wick: Chapter 2 pode não ser melhor que o seu antecessor nem se beneficiar do fator surpresa da mesma maneira. Mas é uma boa sequela, continua violento, divertido, tenso e os fãs da franchise vão ficar mais que satisfeitos.

 

Nota: B+

All Eyez on Me (2017) - Crítica

     É por estas coisas que o Rotten Tomatoes me desilude. Quando aparece um Guardians of the Galaxy Vol. 2 ou um Spider-Man: Homecoming, aqueles cromos decidem sobrevalorizar filmes que as pessoas são quase obrigadas a gostar. Quando aparecem filmes menores como este, decidem simplesmente desprezá-los a um nível extremo. All Eyez on Me não é perfeito, mas o que o site faz é uma falta de respeito.

     O filme narra a vida e o legado de Tupac Shakur, incluindo sua ascensão à fama, bem como a prisão e o tempo prolífico e controverso na Death Row Records.

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     A realização é do Benny Boom e esta é apenas a sua segunda longa. Nota-se bastante que ele é conhecedor e apreciador do histórico do Tupac, tanto na música como na sua figura icónica e política. Algo que os filmes biográficos tendem a fazer de mal, é santificar a sua figura central, metê-la num patamar superior e não ser honestos em relação aos seus defeitos. All Eyez on Me foi impressionante nesse e noutros muitos aspetos.

     Primeiro, é um filme extremamente honesto. A começar pela interpretação do Demetrius Shipp Jr., cuja qual eu já falarei. Depois, o realizador não teve problemas em mostrar a crueldade, a hipocrisia e o ódio existente no mundo do gangsta rap, neste caso, nos anos 90.

    O principal problema foi a clássica entrevista das biopics tradicionais. Os realizadores decidem encher as entrevistas de exposição barata. Por acaso, esta entrevista não foi tão má como a de Jackie, os diálogos são ligeiramente melhores. Mas tudo o que é dito não tem qualquer utilidade. Das duas uma: ou a informação dada foi dada apenas porque sim sem qualquer intenção de fazer a história avançar, ou foi dada por preguiça em mostra-la numa cena coerente. A lei do cinema é “Show, don’t tell!”. Devido ao relato da vida do Tupac, era óbvio que a entrevista na prisão devia ser mencionada … mas apenas mencionada e não ocupar metade do filme, uma metade que dava tempo a muita mais coisa.

     Outro motivo para se retirar a entrevista é a duração do filme. Mesmo as 2 horas e 20 passarem rápido, podiam ser reduzidas para apenas 1 hora e 50 minutos no máximo. Um desperdício de tempo destes levou algumas partes iniciais a serem apressadas e algumas cenas foram tão curtas e picotadas que pareciam imagens de um trailer.

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     Bem, falemos de pontos fortes. Eu nunca tinha ouvido Tupac, aliás gangsta rap não é género que me atraia muito, gosto de poucos rappers. Agora a seleção de músicas é muito boa. Todas as músicas e letras do Tupac fizeram a banda sonora aquilo que é, se decidirmos excluir os temas originais, a banda sonora no total ainda fica espetacular. O rap tem energia, tem ritmo, é perfeito para conduzir um filme destes.

     As próprias atuações do filme são ótimas. Essas sequências têm cores vibrantes, uma boa ambientação de espaço e dos figurantes e claro, boas performances. E isso leva-nos às interpretações.

     O Demetrius Shipp Jr. está sensacional aqui. Cedo o público esquece o facto de o ator ser parecidíssimo com o rapper e tem a sensação de estar a ver um documentário. Os maneirismos, a postura, a voz, está tudo aqui. Ele tem carisma, um orgulho excessivo e uma enorme insegurança disfarçada. Sem ele, o filme fracassaria. É um retrato extremamente honesto. O ator não quer exaltar a figura do Tupac, mas representá-la como foi, ao mesmo tempo que faz o público ter admiração por ele. O Tupac não era de todo um santo. Como outra figura importante do rap, ele fumava, bebia, drogava-se, era mulherengo, tinha armas, era conflituoso (com outras figuras importantes como Dr. Dre e Snoop Dogg), burro e extremamente precipitado. É uma performance digna de prémios, até porque o filme está mais interessado em mostrar o Tupac como uma figura do ativismo proveniente da música do que um ícone da música.

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     Quanto às acusações de violação, todos nós temos uma opinião, mas o filme decide dar a sua própria perspetiva, sem nunca ficar a sensação de o filme nos estar a obrigar a acreditar naquilo que nos dá, eu gostei disso.

     A Danai Gurira também está ótima como a mãe do Tupac. As cenas dela com o Demetrius Shipp Jr. são as melhores do filme e ela sim passa uma verdadeira preocupação pelo filho e um medo por aquilo que lhe pode acontecer por ser meter no mesmo caminho de ativismo que ela (o caso dos Black Panthers nos Anos 70).

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     A Kat Graham, mesmo não aparecendo muito, faz uma Jada Pinkett direitinha. A amizade dela com o Tupac é genuína e todos os momentos são bonitos. O filme retrata-os como grandes amigos, e é assim que devia fazer.

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     Mas um destaque também para o Dominic L. Santana, ele está assustadoramente calmo. Apesar de ter 2 metros, ao princípio, ficamos com uma boa impressão dele, ele parece amigável. Mas lá para o fim ficamos a par da real pessoa violenta, perversa e interesseira que ele é, não é de todo uma interpretação a imitar o Ice Cube, por exemplo.

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     Porém, o Mutulu Shakur, o padrasto do Tupac, desapareceu na trama, a sua última cena é na prisão a falar com o enteado e ninguém decidiu fazer uma atualização dele, simplesmente esqueceram-se dele.

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     All Eyez on Me é uma biopic positivamente surpreendente. Sinceramente, eu esperava pior, e tive uma surpresa. O filme foi facilmente elevado por uma performance espetacular do seu ator principal, mas como uma obra que pretende retratar uma figura importante da música, são 2 horas mais que suficientemente boas.

 

Nota: B

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