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Vida de um Cinéfilo

Vida de um Cinéfilo

Wind River (2017) - Crítica

     Cory, um caçador, e Jane, uma agente do FBI, unem forças para investigar um homicídio ocorrente nas largas e misteriosas montanhas de neves de Wind River, no Wyoming.

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    O filme foi escrito e realizado pelo Taylor Sheridan, aliás, este é apenas o seu segundo trabalho como realizador depois de escrever ótimos filmes de crime como Sicario e Hell or High Water. O seu talento para desenvolver um mistério e escrever bons diálogos é inegável. Os seus dois últimos guiões são ótimos e têm ambos algo importante a dizer. Se Sicario e Hell or High Water faziam comentários sobre o mundo do crime e a moralidade (ou a falta dela) dentro de um país ou comunidade financeira ou espiritualmente limitada, Wind River tem maior parte dos mesmos elementos, mas num contexto mais triste e deprimente. Sobretudo, é um filme sobre o comportamento humano dentro de uma cidade isolada e os seus respetivos anseios por “não conhecer mais nada”, o medo de estar desconexo do resto do mundo e não poder ter o mesmo que os outros têm. Nada é mais humano do que a nossa inveja ou falta de humanidade. Regularmente, são feitas algumas piadas sobre Las Vegas e Los Angeles, comparando as duas cidades quentes à terra selvagem, inóspita e gelada que é o Wyoming. E eu que pensava que um filme igualmente frio ao The Revenant era impossível.

     Wind River lida também com a questão da ainda atual e forte rivalidade entre a população nativo-americana e os ditos “verdadeiros americanos”. A visão que o Taylor Sheridan imprime é um pouco pessimista, mas apropriadamente alarmante. O Gil Birmingham é o principal motor de emoção. A sua angústia é muito humana e comovente. Conhecemos um homem injustiçado e consequentemente amargurado.

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     O destaque do realizador consegue se espalhar por diversos temas. O cuidado narrativo é mantido constantemente apesar da riqueza temática que nunca parece mal equilibrada. O Taylor Sheridan sabia perfeitamente o que estava a fazer. O estilo de câmara dele não foge muito dos planos médios usados para diálogos, típicos de um filme investigativo. Mas quando o filme vai para as montanhas, os shots capturados são alguns dos mais belos de todo o ano. A fotografia fria e limpa do Ben Richardson é sensacional! As vastas capturas horizontais raramente precisam de planos ao nível do olho dos personagens, captando a dimensão selvagem e assustadora daquelas solitárias e silenciosas montanhas de neve.

     A banda sonora é um show à parte. Imaginem uma melodia de um filme de terror: um violino aparentemente estragado, uma inesperada e desconfortável subida de tom ligeiramente estridente e uma forte percussão alpha nas cenas de maior tensão. Tudo isto torna Wind River num filme frenético com uma forte aderência à ação blockbuster, sem nunca deixar o tom abrupto. As cenas de ação são inesperadas e extremamente tensas, muito graças à impecável edição.

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     No entanto, como já disse, Wind River é um filme triste. É uma história emocionalmente pesada e irá facilmente comover ou magoar o seu público. A frieza tanto literal como metafórica está sempre presente e caracteriza todos os personagens.

     O Jeremy Renner está irretocável. É uma performance muito reservada e introspetiva, assim como o próprio personagem. A dor e o compromisso que este carrega são muito verdadeiros, logo ficamos imediatamente do seu lado. Ele tem um lado de caçador impiedoso extremamente inteligente e experiente, enquanto mostra ocasionalmente o seu verdadeiro lado do homem cansado, pessimista e quebrado pela enorme perda que sofreu injustamente. Esta interpretação certamente estará no topo da sua carreira.

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   A Elizabeth Olsen evidencia muito bem o lado inexperiente, ignorante, ingénuo e amedrontado da personagem que tenta a toda a hora ser a agente mais badass do ambiente, sem se aperceber que a cidade onde está tem limitações fora do seu controlo. E essas mesmas limitações são regularmente caricaturadas e criticadas pelo Graham Greene, que tem um humor rude e cínico muito engraçado. É um polícia muito seguro de si que, no entanto, se sente desiludido por viver numa cidade limitada quanto aos seus recursos de justiça.

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     O Jon Bernthal está também no filme, mas, na verdade, não faz muita coisa. Mesmo sendo um bom ator, o personagem podia ser interpretado por outro qualquer. Quanto ao mistério e à investigação em sim … não há nada que eu possa dizer, a melhor maneira de se apreciar um bom filme destes é completamente às cegas.

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    Wind River elabora uma discussão importante sobre o seu país para os dias de hoje, enquanto consegue ter leveza e momentos engraçados graças ao excelente guião de um excelente guionista que se estabeleceu como um excelente realizador. É triste, emotivo, tenso, tem uma criação de ambiente impecável, ótimos personagens e um ótimo mistério central.

 

Nota: A

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It Comes at Night (Ele Vem à Noite, 2017) - Crítica

     Num cenário pós-apocalíptico, uma família luta pela sobrevivência face a um vírus altamente contagioso. Quando outra família desconhecida pede refúgio, estranhos fenómenos começam a acontecer.

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     O filme foi escrito e realizado pelo americano Trey Edward Shults e esta é apenas a sua segunda longa metragem, depois do ótimo directorial debut que foi Krisha, de 2016 (disponível na Netflix). E, tal como Krisha, It Comes at Night é um filme subjetivo, é uma visão pessoal do realizador sobre diversos assuntos. Depois de assistir a algumas entrevistas e declarações do próprio, soube que este começou a escrever o filme durante o adoecimento do seu falecido pai. Por isso, nota-se o enorme interesse em explorar determinados temas mórbidos aqui. O filme foi desprezado por grande parte do seu público devido aos posters e trailers, que prometiam algo que o realizador nunca esteve disposto a mostrar ou sequer a perder tempo a desenvolver. It Comes at Night vai desiludir e irritar muita gente por causa disso, enquanto deslumbrará cinéfilos sedentos por algo diferente e mais original. Lembram-se de The Witch, do ano passado? Pois é, o caso foi exatamente o mesmo.

     Por muito bons que filmes como The Conjuring, do James Wan, possam ser, é sempre preferível que filmes de terror coloquem perguntas sem respostas certas e que mantenham o mistério após o seu visionamento ou depois de se discutirem teorias. O Trey Edward Shults desenvolve os seus personagens, o seu conflito e os diversos plot holes que não recebem conclusão alguma. Este afirmou que omitiu deliberadamente muita informação que apenas ficou na sua cabeça. Mas porquê?

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     Fundamentalmente, It Comes at Night é um filme sobre medo, sobre a paranoia coletiva, sobre o pânico surgente dos pesadelos que “vêm à noite”, sobre mentiras, desconfianças crescentes no meio de desconhecidos e, claro, sobre o desespero de uma família e a sua respetiva luta pela sobrevivência. É verdade, já muitos filmes abordaram estes temas, mas nenhum desta maneira. O realizador enfia a câmara na cara dos atores e usa diversas resoluções de planos para tornar o filme o mais claustrofóbico possível. Há até uma ligeiramente plausível discussão sobre a realidade em que acreditamos, à lá Inception. No entanto, o engenho técnico do realizador não é nada limitado. Face aos inúmeros planos fechados, existem muitos outros largos planos da densa, áspera e assustadora floresta. Os planos apertados são novamente usados dentro daquela casa cheia de camadas e revelações. Os corredores são estreitos e, devido à quase ausente iluminação, o medo gerado é ainda maior.

     A fotografia do estreante Drew Daniels é impressionante. As composições capturadas são memoráveis e, dentro de toda a falta de vivacidade daquela atmosfera pós-apocalíptica, o vermelho é chocante e muito interessante. E a banda sonora do também estreante Brian McOmber, mesmo não muito memorável, contribuiu para aquela rápida sensação de desconforto praticamente sempre presente.

     O elenco está impecável! O maior destaque é o Joel Edgerton, que se tem superado em cada filme que faz. Não será com este, mas o ator ainda vai ganhar um Óscar! Esta, sem dúvida, é uma das suas melhores interpretações até hoje. O seu personagem é um rígido e extremamente cauteloso homem de família preocupadíssimo com a manifestação da desconhecida peste/doença e que, posteriormente, segue as suas regras religiosamente. E por muitas atitudes imorais que este tome, é impossível ficarmos 100% contra ele, pois sabemos que este quer somente proteger quem ama.

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     O Kelvin Harrison Jr. está ótimo! O personagem lembrou-me muito o do Daniel Kaluuya, no filme Get Out (ler crítica), deste ano. É o olho do público, este sabe exatamente tudo aquilo que sabemos e é impossível não criar um senso de jornada com ele. As suas incertezas e surpresas são iguais às do público.

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     Já a Carmen Ejogo podia ter uma participação mais significativa. Ela tinha potencial para se tornar numa personagem com mais peso, mas infelizmente recebe pouco tempo face ao seu talento. Felizmente, a Riley Keough e o Christopher Abbott fornecem uma maior carga de mistério muito bem-vinda à trama e são uma excelente dupla, contribuindo assim para o estudo proposto.

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     It Comes at Night é um exemplo perfeito de como se deve fazer um bom e independente filme de terror sem apelar aos clichês mais baratos do género. Tem ótimas interpretações, um bom estudo central e um terceiro ato irretocável.

 

Nota: A

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American Made (Barry Seal: Traficante Americano, 2017) - Crítica

     O filme conta a história real de Barry Seal, um piloto comercial que, em 1978 começou a trabalhar para a CIA e, no futuro, para Pablo Escobar, numa relação de trocas de armas e droga.

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     O filme foi realizado pelo Doug Liman, responsável pelo ótimo Edge of Tomorrow, de 2014, e pelo apenas “ok” The Wall, deste ano. Perdoem-me, nunca vi nada do Jason Bourne. Algo que este consegue fazer facilmente aqui é injetar o mínimo de interesse numa história pouco conhecida e, escusado será dizer, pouco interessante, apesar de escandalosa e alarmante. American Made é um daqueles filmes esquecíveis e sem muita substância, mas com estilo e energia suficiente para superar os seus problemas narrativos e técnicos. A começar pela exposição. Há um sério problema sobre o fornecimento de informação nos guiões de Hollywood. Atualmente parece que é impossível escrever um guião para uma história biográfica sem apelar à secante e repetitiva lista de cassetes, entrevistas ou narrações intermináveis, somente para fornecer sem qualquer incómodo os inúmeros flashbacks. Isso elimina qualquer sensação de surpresa. Estamos a ver uma gravação do protagonista, logo sabemos que este não irá estar numa situação de risco de morte. Aliás, se estiver, sabemos que se vai safar. Bastava o público apenas saber as datas.

     Quanto ao trabalho de câmara, o Doug Liman faz novamente um trabalho competente, mas nota-se uma ambição (que possivelmente terá sido intervenção do estúdio) em adotar o estilo de um documentário. Há alguns zooms extremamente bruscos usados durante diálogos casuais que certamente não casam nada bem com o restante estilo de biopic usual americana. Assim como um uso excessivo de câmara tremida nas cenas de perseguição ou de maior tensão durante as pilotagens ou as interações com o Pablo Escobar.

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     Por falar nisso, há um problema sério que envolve o Pablo Escobar. O tão conhecido criminoso é reduzido a um mero personagem secundário que nada mais parece do que o braço direito do mexicano com quem o Tom Cruise mais convive na realidade. Se não me dissessem nada, eu nunca chegaria à conclusão de que aquele gigante que estava sempre no cantinho calado era o Pablo Escobar.

     Aliás, no que diz respeito aos personagens restantes, o filme apresenta outros problemas. A começar pela Sarah Wright que não tem absolutamente nada para fazer. A sua única função é existir e chatear o Tom Cruise quando lhe é pedido. Não sabemos nada sobre a personagem e a atriz não faz sequer questão em gerar interesse nela. O Jesse Plemons está no filme durante uns 5 segundos. Achei até uma falta de respeito para com o seu talento. Até agora ainda não percebi porque é que ele está aqui.

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     Por sorte, temos como protagonista um dos atores vivos mais carismáticos. O Tom Cruise agarra o potencial da trama e faz aquilo que quer dentro do que pode. Como seria de esperar, a sua personagem é a mais favorecida e não existem dúvidas quanto ao seu desenvolvimento (origem, receios, motivações, talentos, etc.). O ator não está a tentar fazer nada de novo, é um retrato bem simples, mas é funcional. O foco dele foi apenas divertir-se provavelmente e, claro, receber o seu cachê.

     O Domhnall Gleeson está igualmente competente dentro daquilo que o seu personagem oferece. Ele tem camadas, carisma e acerta no ritmo no que diz respeito às suas interações com o Tom Cruise, ou seja, aparece e desaparece quando é necessário com o mínimo de fluidez.

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     A fotografia do uruguaio César Charlone é impecável. O destaque maioritariamente esteve na atmosfera tropical e suja da América Latina, revelando fortemente as cores que insinuam perigo e calor. A banda sonora do Christophe Beck é totalmente descartável e esquecível. Nunca se notou alguma diferença que a música podia fazer numa cena.

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     American Made é um filme muito problemático narrativamente, esquecível e sem muita originalidade, mas graças ao carisma e humor do Tom Cruise e à agilidade da realização do Doug Liman, é possível que, durante quase 2 horas, se passe minimamente bem, sem deixar ausente alguns momentos de sono.

 

Nota: B-

 

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Star Wars: The Last Jedi (Star Wars: Os Últimos Jedi, 2017) - Crítica

     As pessoas têm de se decidir. Hoje em dia ou se odeia sem hesitação ou se ama cegamente seja o que for. Há quem exageradamente pense que Star Wars (ler crítica) são os melhores filmes já feitos enquanto há quem desdenhe esta franchise. Eu cá gosto de ficar no meio termo.

     Depois dos acontecimentos do filme anterior, Rey deve unir forças com Luke e se reencontrar com os parceiros da Resistência para travar as intenções maldosas de Kylo Ren e do misterioso Snoke.

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    O filme foi escrito e realizado pelo Rian Johnson. Não conhecia a sua filmografia, mas admito que fiquei bastante impressionado com este seu trabalho por uma simples razão: a sua capacidade e facilidade em elaborar uma rica história em termos técnicos e narrativos, homenageando a clássica iconografia da trilogia Star Wars, enquanto desenvolve uma visão autoral e pessoal que se distinguirá para sempre dos restantes filmes da franchise. Por outras palavras, quem não gostou de The Force Awakens, de 2015, por achar que o J. J. Abrams pegou em demasiado conteúdo emprestado do original de 1977 (ler crítica), vai ficar minimamente satisfeito com a ambição distinta do Rian Johnson.

    O próprio realizador estreante neste universo é um enorme fã e presta uma bonita homenagem ao material. Este sabe orquestrar belíssimos planos sequência com algumas mudanças de fotografia inesperadas e tem um olho muito apurado para cenas de ação com um controlo muito seguro e confiante do excelente CGI. Não é um estilo tão explosivo como o do J. J. Abrams, mas funciona perfeitamente devido à sua unicidade.

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     The Last Jedi não foi dececionante como os americanos andam a dizer, na verdade, foi uma das experiências mais satisfatórias do ano e, apesar de não ser tão bom como o seu antecessor de 2015, consegue andar pelas próprias pernas, pois desenvolve novos personagens e outros pré-estabelecidos. No entanto, o problema que mais se fez sentir no Episódio VIII foi, sem dúvida, o excesso personagens e arcos. Vamos por partes.

     A Daisy Ridley continua maravilhosa! O desenvolvimento da Rey evolui de maneira mais que satisfatória e as inúmeras perguntas que surgiram na sua primeira participação são respondidas de maneira credível, enquanto a atriz e o guião permitem que novas questões ganhem destaque. É uma atriz fantástica e tem uma enorme carreira à sua frente.

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    O Mark Hamill é tudo aquilo que os fãs querem, basta não exceder as expectativas em demasia. O ator nunca esteve tão confiante ou dedicado ao clássico personagem e está em modo furious Luke, num caminho bem mais sério e comprometido com os seus demónios, inseguranças, arrependimentos e negações. É um excelente olhar mais maduro e melancólico de um personagem que acompanhou a infância de muita gente há precisamente 40 anos.

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    O Oscar Isaac, como o ator carismático que é, continua muito seguro e tem uma posição mais importante para assumir aqui, em parte graças à sua rivalidade com a Laura Dern que, apesar de ser bastante desinteressante, cumpre o seu propósito minimamente e tem uma reviravolta inesperada. No entanto, o Poe podia passar pelo mesmo processo sem ela. O BB-8 continua muito engraçado e relevante para a jornada, assim como R2-D2, o Chewbacca e o C-3PO, que sempre foi o meu preferido. Deve-se também mencionar os Porgs, que são uma doçura!

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    Já o John Boyega, apesar do seu empenho e humor, foi muito prejudicado por contracenar com a Kelly Marie Tran. A Rose é uma personagem desnecessária e chata. O arco dos dois é muito forçado e durante todo o filme estive com aquela vontade de ver a personagem morrer o mais cedo possível. Até porque, ao excluí-la, dava para se fazer mais com o DJ, interpretado pelo Benicio del Toro. O personagem não é mal desenvolvido, aliás, é um dos mais interessantes personagens novos O DJ é um ladrão, um malandro, para ele não existe o lado dos bons ou dos maus, não existe qualquer moralidade, em vez disso, está uma imoralidade ambígua. É um engraçadinho que apenas se quer beneficiar com quem seja, não sendo totalmente insensível às emoções dos outros. Eu estava à espera de um personagem vazio e inútil, mas recebi um bastante divertido.

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     A Captain Phasma é um problema antigo. Ela não precisava de estar no filme anterior nem neste. É uma personagem completamente vazia e sem qualquer capacidade de ser badass. O Snoke, infelizmente, é um vilão com demasiadas características genéricas. Ele tem um visual ameaçador e o Andy Serkis, como o sensacional motion capture performer que é, faz o melhor que consegue com a expressividade e voz temível. No entanto, o CGI é horroroso e as suas motivação e origem não conseguem desfocar o tão genérico que ele é. É mais um vilão que se quer apoderar do Luke e da Rey. O personagem termina numa determinada nota, mas suspeito que querem fazer mais qualquer coisa com ele. Mas para ser sincero, nem sei o que pensar.

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     Porém, o que verdadeiramente chama o espectador é o Kylo Ren, interpretado novamente pelo fantástico Adam Driver. O personagem está ainda mais hesitante, instável e inseguro. As suas dúvidas e medos continuam surpreendentemente humanos e, talvez para sempre, vão distingui-lo dos restantes vilões contemporâneos. As suas conexões constantes com a Rey constituem o arco mais importante e interessante de toda esta nova trilogia e certamente ficarão mais ricas. Vale também mencionar a sua rivalidade cómica com o Domhnall Gleeson, que está furiosamente mais engraçado.

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     Por fim, é muito triste ver a Carrie Fisher e saber que a Princesa Leia nunca mais voltará na sua melhor forma, especialmente por receber neste filme alguns dos melhores momentos da personagem. Por muito CGI que usem, nada se compará à atriz que esta foi.

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     A fotografia poeirenta do Steve Yedlin é belíssima, principalmente por ostentar todo um lado mais sombrio do universo Star Wars. Há uma atmosfera simultaneamente fantasiosa e escura, mais característica de um filme melancólico, destacando lindos tons de branco, preto e vermelho. Já a banda sonora do John Williams escusa comentários. Os novos temas são muito competentes e a música clássica continua a arrepiar o público instantaneamente.

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     Star Wars: The Last Jedi continua aquilo que Star Wars deve ser: divertido, envolvente e rico narrativa e tecnicamente, tanto no que diz respeito ao desenvolvimento temático, à estética e ao valor de produção. A viagem emocional dos personagens continua no ponto ideal e, apesar da necessidade de alguns acertos, o filme é ótimo para os fãs casuais e para os fãs hardcore.

 

Nota: B+

 

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Sweeney Todd: The Demon Barber of Fleet Street (Sweeney Todd: O Terrível Barbeiro de Fleet Street, 2007) - Análise e Crítica

     Hoje, dia 21 de Dezembro, o filme Sweeney Todd comemora 10 anos! Vamos celebrar este único musical!

     Baseado na peça musical homónima de Stephen Sondheim e de Hugh Wheeler, lançada em 1979, o filme conta a história de Sweeney Todd, outrora Benjamin Barker, um barbeiro londrino injustamente condenado, que regressa à sua cidade pela primeira vez em 15 anos sedento por vingança e em busca da sua família.

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     O filme foi realizado pelo Tim Burton, um realizador extremamente original e dedicado ao seu mundinho autoral e romântico de personagens e histórias amarguradas. Nos Anos 80, este viu pela primeira vez a peça em Londres e ficou obcecado. Aliás, viu-a 3 vezes seguidas. Só ao ver o filme uma vez nota-se a dedicação e paixão do realizador pelo projeto. Talvez seja daí que se possa concluir que Sweeney Todd talvez seja o último grande filme do Tim Burton, antes deste se meter em tantos blockbusters de fantasia falhados.

     Narrativa, musical e tecnicamente, o filme é absolutamente impecável. Os planos não variam muito, é verdade, mas quando o realizador quer, é capaz de orquestrar alguns dos melhores planos sequência vistos num musical violento e grotesco como este. Planos sequência já são difíceis de se fazer, agora num musical são muito mais. Mas funcionam perfeitamente, graças ao empenho e talento do elenco, à engenhosidade das letras das canções, à brilhante sincronização e coreografia das cenas musicais e, claro, à fantástica caracterização do mundo bizarro, poético e estupidamente detalhado do Tim Burton.

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     É acima de tudo, uma história de vingança apresentada na forma de um musical, mas é também um dos filmes mais marcantes, dramáticos, violentos e românticos (no verdadeiro sentido da palavra) de 2007. Tem elementos mais que suficientes para representar uma boa perspetiva trágica sobre a vida e morte, uma comédia negra (negríssima, aliás), e um slasher de terror brutal como nenhum antes (ou depois) visto. É um estudo sobre a longa e azeda vida e a esperada e aliviante morte dos desgraçados, dos injustiçados que vivem naquela cidade suja e tenebrosa, que lutam desesperada e diariamente contra a vigarice, malícia e hipocrisia dos advogados, militares, padres, reis e, especificamente, juízes. Na verdade, contra a natureza maldosa, cruel e invejosa do ser humano. Sweeney Todd é um daqueles exemplos perfeitos do equilíbrio narrativo dentro de uma história facilmente incluível em vários géneros cinematográficos.

“At the top of the hole sit the privileged few, making mock of the vermin in the lonely zoo, turning beauty to filth and greed …”

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“It’s man devouring man, my dear! / And who are we to deny it in here?”

     Falemos do elenco! Como já se falou neste site, esta é uma das melhores coisas que o Johnny Depp alguma vez fez na carreira. Ele é o espírito do filme. Sweeney Todd é, acima de tudo, uma alma perturbada e desesperada, à procura primeiramente de vingança em vez de salvação pela sua ingenuidade passada. Daí este abandonar a sua identidade de Benjamin Barker e assumir a persona genuinamente humana (agressiva, apática e indiferente) que lhe dará a última felicidade em forma da morte daqueles que lhe destruíram a vida e que o perseguem (Adolfo Pirelli, por exemplo, interpretado hilariantemente pelo Sacha Baron Cohen). São inúmeros os retratos no cinema de homens transformados pelo desmoronamento da sua família. No entanto, neste caso, não deixa de ser chocante a sua barbaridade para com os inocentes que visitam a sua barbearia. É toda esta imoralidade ambígua, desgraça e sentimento de pena que acompanham este rico personagem. É um arco envolvente, tocante e uma jornada minimamente compreensível, tendo em conta tudo aquilo pelo qual ele passou.

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“At last … my arm is complete again!”

     A Helena Bonham Carter está encantadora! Enquanto durou, a sua parceria com o ex-marido foi uma das melhores do Século XXI. Ela está absolutamente doce, querida e apaixonada pelo material, mas não menos bizarra ou emocionalmente abalada como de costume. É uma mulher vazia, infeliz, mas com diversos sonhos sobre uma casa e uma família bonita. A atriz prova-se muito versátil novamente, ela e o Johnny Depp têm uma química sensacional e inigualável e a Mrs. Lovett é uma das melhores personagens da sua carreira.

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“By the sea! Don’tcha love the weather? By the sea! We’ll grow old together!”

     Todo o elenco está impecável! É, de facto, um dos mais talentosos alguma vez reunidos para um musical! Escusado será dizer que todos cantam belissimamente! O Ed Sanders, o Jamie Campbell Bower e a Jayne Wisener são ótimos talentos ascendentes. O Timothy Spall está ótimo como de costume. A Laura Michelle Kelly tem uma pequena, porém marcante participação. E o Alan Rickman, como o ator espetacular que foi, construiu um homem simultaneamente cruel e indiferente ao sofrimento humano, mas extremamente charmoso e sedutor nas cenas musicais, graças àquela voz invejável.

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“How they make a man sing! Proof of heaven as you’re living. Pretty women!”

     Quanto à maquilhagem, aos penteados, à produção artística e ao guarda-roupa, o filme não podia ser melhor! Há um contraste muito interessante entre a palidez e morbidade dos dois protagonistas e o resto da cidade, realçando-os como almas perdidas. Escusado será dizer que a banda sonora composta pelo Danny Elfman é uma das melhores da sua carreira! Já as músicas, como já disse, são brilhantemente escritas e interpretadas. A fluidez entre as sequências musicais e cenas normais não podia ser mais simples e adequada. No topo do bolo, está a fotografia desconfortável do Dariusz Wolski, composta à base de tons mortos e apáticos, que realçam na perfeição a dureza e tristeza daquela Londres poluída e visualmente violenta. Deve-se também destacar as extraordinárias mudanças de fotografia em planos longos sem cortes.

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   Sweeney Todd: The Demon Barber of Fleet Street é um dos melhores musicais contemporâneos e um dos melhores alguma vez feitos, exaltado pela sua unicidade, por um Johnny Depp inspirado como nunca, pela estética de luxo e pela magia negra e singular do cinema típico do Tim Burton. É também uma obra provocadora, violenta e sangrenta (muito, aliás) com discussões sobre temas humanos e filosóficos que poucos musicais conseguem desenvolver.

 

Nota: A+

 

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Titanic (1997) - Análise e Crítica

     Hoje, dia 19 de Dezembro, o filme Titanic comemora 20 anos! Que melhor dia haverá para comemorar esta obra?

     Todos nós conhecemos esta história. O recente navio Titanic parte de Liverpool no dia 10 de Abril de 1912, com destino a Nova Iorque. Apenas 4 dias depois, depois de colidir contra um iceberg, o navio afunda tragicamente. Abordo viajam dois jovens de classes sociais opostas que se apaixonam perdidamente. Perante o desastre, os dois devem lutar pela sobrevivência ao mesmo tempo que persistem contra as proibições impostas contra a sua relação.

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    O filme foi realizado, escrito e co-editado pelo canadiano James Cameron, que se estabeleceu bastante cedo como um dos realizadores mais experientes e exigentes da sua geração. Aqui ele faz algo bastante difícil e que pouquíssimos profissionais conseguem fazer ainda hoje: relatar com um perfeito equilíbrio o desenrolar de um trágico acontecimento histórico responsável por milhares de mortes, enquanto desenvolve ótimos personagens e arcos. O próprio James Cameron é muito interessado pelo Titanic e pela ainda incerta origem do seu afundamento, tendo dado a sua contribuição no documentário de 2012, Titanic: The Final Word with James Cameron.

     Mas pondo todo desse assunto de parte, há que reconhecer que, independentemente das teorias desenvolvidas sobre a origem desta tragédia, Titanic é um dos filmes mais épicos de toda a História. Normalmente, prefiro não defender a qualidade de uma obra referindo os prémios que a mesma ganhou, mas quando um filme é 1 dos únicos 3 a ganhar o número recorde de 11 Óscares, é quase impossível por em causa a sua importância na cultura cinematográfica. Titanic é uma das melhores histórias de desastre e de amor do cinema! Tudo é espetacular aqui, tudo! Comecemos pelo básico.

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    O filme tem 3 horas. Nem toda gente gosta de filmes longos. O difícil em escrever argumentos com uma longa duração é correr o risco de não conseguir sustentar o ritmo, deixando assim o filme arrastado, aborrecido e lento. Não é o caso aqui. A atenção surge da interação entre os personagens, da criação do ambiente e da época, da posterior caracterização do comportamento da sociedade daquela década e, claro, do inevitável presságio da catástrofe futura. Ainda assim, ao longo da primeira hora e meia, o foco do James Cameron nunca foi anunciar que algo de mau estava prestes a acontecer, mesmo dando justificações adequadas para tal tragédia ter sucedido. O realizador foca-se no mais importante e desenvolve o que quiser sem preça.

     Juntamente com Terminator 2: Judgment Day (realizado também pelo James Cameron), Jurassic Park e The Matrix, Titanic foi um dos grandes impulsionadores da arte CGI durante os Anos 90. A ascensão do green screen e dos diversos efeitos visuais fazem deste filme um marco do cinema digital. E desde cedo que o realizador se mostrou muito pragmático e experiente no uso também de efeitos práticos. O realismo da situação é palpável e, apesar da estética notável dos efeitos especiais e visuais dos Anos 90, nunca surge aquela sensação de um mau trabalho técnico. Vi o filme pela primeira vez em 2012, em 3D, e foi uma experiência no mínimo desconcertante. São poucos os filmes de desastre que conseguem verdadeiramente perturbar o público.

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     No entanto, o sentimento de perda ou de tragédia não é transmitido totalmente pela violência da água ou pela sua capacidade animalesca de “engolir” as pessoas como se tudo acontecesse num pesadelo, mas sim pelo elemento humano. Tudo bem que todos nós ficamos preocupados com o Jack e com a Rose, mas o que realmente dói na alma é ver aquele casal de velhinhos deitados na cama, aquela mãe a contar uma história aos filhos, os violinistas que decidem continuar a tocar e, claro, a comunidade dos estrangeiros de classe baixa ambiciosos por alcançar o sonho americano, representada por jovens como o Fabrizio, que muitos dizem ser o mais inútil personagem do cinema. Em certa parte, é, mas cumpre o seu propósito.

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“I’m the King of the World!!!”

     Vamos falar finalmente das interpretações. Leonardo DiCaprio e Kate Winslet é uma das melhoras duplas românticas do cinema. O que é que se pode dizer mais? É um amor credível, imediato, um amor que consome e comove juntamente o público. O duo não podia estar mais dedicado aos personagens. Depois da química espetacular que nasceu aqui, ambas as carreiras forma lançadas em força e nunca mais pararam. O Leonardo DiCaprio tem um sorriso altamente amigável e carismático, um charme, uma vivacidade e uma mente sonhadora e ambiciosa muito contagiosos e que permanecem hoje na sua filmografia toda. É impossível não gostar dele só de cara. A Kate Winslet é alma do filme e, ao contrário do DiCaprio, tem um arco muito mais rico, pois sofre de uma mudança radical na sua perceção acerca da vida e nos seus valores. Primeiro, é uma jovem destroçada, infeliz e injustiçada pela vida que não escolheu, mas que foi escolhida para ela. Graças ao Jack, começa a ver o mundo com outros olhos e, daí, facilmente examinamos o choque das duas classes sociais. De um lado estão os fúteis e hipócritas nobres e aristocratas na festa do chá ao som de leves violinos, do outro está o povo a beber cerveja artesanal enquanto dança alegremente ao som de música popular como se fosse o último dia. Quando a Rose se apaixona, vira aquela rapariga audaciosa que possivelmente tinha desaparecido há muitos anos, que eventualmente “abriria as asas e voaria pelo oceano” e, que mais tarde, se haveria de tornar na mulher quebrada e cansada que recorda a sua longa vida com muito prazer. É um arco extremamente bem construído.

“I’m flying, Jack!”

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“Never let go! / I will never let go, Jack. I’ll never let go!”

    Quando a ação não decorre no Titanic, corta para a maravilhosa Gloria Stuart, que torna cada segundo seu em magia audiovisual. Também a interpretar a Rose, ela não podia ser mais querida, nostálgica, melancólica e doce. É um retrato impecavelmente comovente, envolvente e tocante. O que dói mais é saber que em 84 anos, ela nunca teve oportunidade de falar com ninguém sobre o Jack. Os seus olhos falam por ela e sente-se uma inocência no seu discurso que pouquíssimas atrizes conseguiram reproduzir.

“Titanic was called “The Ship of Dreams”!”

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“I don’t even have a picture of him. He exists now only in my memory.”

     Merecem também destaque o Bill Paxton (descanse em paz), o Victor Garber, o Bernard Hill, a Kathy Bates, que está fantástica como a Molly Brown, a Frances Fisher, que interpreta perfeitamente aquela mulher conformista mais interessada na sua condição financeira do que na felicidade da filha, e o Billy Zane, que interpreta um dos homens mais nojentos das histórias românticas. Um homem arrogante, malicioso, invejoso e, sobretudo, desumano.

     O filme é também um dos mais melodiosos e vistosos já feitos. Tanto a impecável produção artística, a banda sonora monumental que inclui a letra inconfundível escrita pelo James Horner e pelo Will Jennings, e interpretada pela fantástica Céline Dion, “My Heart Will Go On”, e a cereja no topo do bolo em forma da estonteante e limpa fotografia contribuem para, em conjunto, darem a esta obra uma riqueza técnica que poucas conseguiram alcançar.

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     Titanic é um marco do cinema e um clássico gigantesco! Por muito deprimente, realista, brutal e trágico que seja, é uma das mais belas e tocantes histórias de amor alguma vez contadas. Merece ser visto por toda a gente, pois é uma obra única, belíssima, inspiradora e magnifica.

 

Nota: A+

 

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Parceria com o site Cinema Pla'net

     Hoje, decidi finalmente anunciar a primeira parceria que este blog iniciou. Em Novembro, o blogger que vos escreve começou a colaborar com os seus textos para o site português de cinema e televisão Cinema Pla’net, um site de críticas, notícias, entrevistas e outras variadas formas de conteúdo audiovisual.

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Site: https://cinemaplanet.pt/

Facebook: https://www.facebook.com/cinemaplanettv

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Instagram: https://www.instagram.com/cinema_planet/

 

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The Mountain Between Us (A Montanha Entre Nós, 2017) - Crítica

     Baseado no best-seller homónimo de Charles Martin, lançado em 2010, o filme conta a história de Alex, uma fotógrafa, e de Ben, um neurocirurgião. Estes não se conhecem, mas decidem alugar um avião depois do seu voo ser cancelado. O avião despista-se e os dois devem lutar para sobreviver nas montanhas de neve.

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     O filme foi realizado pelo israelita Hany Abu-Assad. Não conhecia o seu trabalho e não foi com The Mountain Between Us que este deixou uma boa impressão. Descobri que dois filmes dele (Paradise Now, de 2005, e Omar, de 2013) foram nomeados nos Óscares, por isso vou ficar de olho nele. Talvez não ter tido mão nem na produção nem no argumento sejam razões por este não ter conseguido injetar uma possível visão autoral dos seus últimos trabalhos que superassem a artificialidade e genericidade desta história. The Mountain Between Us, apesar de alguns bons momentos de tensão e de interpretações, é um romance genérico e previsível.

   A começar pela própria situação dos protagonistas. Há uma tempestade, os voos são cancelados. Os dois desconhecidos decidem alugar um avião pilotado por um mero mecânico. Porque é que o avião cai? Por causa da tempestade, presumo. Nada disso, o piloto tem um enfarte aleatório. É isto que não percebo, não há justificação para esta escolha. Fora isso, tudo começava bem. Os personagens estabeleciam-se e gerava-se um interesse, sobretudo graças ao talento de um duo carismático e empenhado.

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   O Idris Elba tem o carisma de sempre, é um homem aparentemente seguro de si, introspetivo, reservado, altruísta e muito inteligente. É basicamente uma representação do “homem de sonho” das mulheres, pelo menos é essa a posição em que este se estabelece rapidamente. Já a Kate Winslet interpreta uma mulher não muito comum na sua filmografia. A personagem é sarcástica e brincalhona, tenta encontrar o humor das situações e, ainda assim, tem os seus momentos de maior desabalo emocional e tristeza devido à situação em que se encontra. Por alguma razão também há um cão. Sim, parece que agora todos os filmes têm de ter um cão aleatório e desnecessário que aparece e desaparece apenas para gerar momentos fofos.

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     Os dois atores têm uma boa química e tentam salvar o filme da mediocridade do guião. Sim, mediocridade. O romance que nasce não funciona por vários motivos. Aliás, ele meio que funciona, o problema é que há artifícios desnecessários que constantemente prejudicam aquilo que podiam ser um arco bem construído. Os dois têm pessoas fora dali que os prende e os “proíbe” de entrar numa relação com um desconhecido. Este pormenor podia ser perfeitamente excluído. Era muito mais benéfico que os dois fossem pessoas solitárias e infelizes, sem qualquer medo de se relacionarem com alguém. A relação ainda seria apressada, mas minimamente mais realista. Outro problema são os diálogos, que oscilam entre fracos, a artificias, a expositivos, a puramente medíocres, a lamechas e piegas. Os guionistas optam por mostrar os personagens a dizer há quanto tempo estão perdidos em vez de usar qualquer método de visual storytelling ou alguma montagem mais frenética.

     Para não falar dos típicos clichês sempre presentes nos romances e filmes de sobrevivência de hoje. Sempre vão haver filmes cobertos de clichês mal trabalhados. Não há nenhuma tentativa de construir algum atalho original para determinadas cenas, o caminho é exatamente aquele que se espera. Isto torna The Mountain Between Us num filme sem ambição.

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     O ato final é igualmente medíocre e/ou razoável e parece coisa de uma comédia romântica barata. Não vou dizer de que maneira é que acaba, mas nada nas últimas cenas nos faz saltar da cadeira. O filme acaba exatamente como todos nós esperamos. Mas o que mais incomoda é o melodrama, é a ausência de leveza e humor que esteve presente na maior parte do filme, vindo das piadas e da ironia da personagem da Kate Winslet.

     No entanto, nada é assim tão mau. O filme tem qualidades que poucos romances atuais têm preocupação em ostentar. Todo o voo (e queda) do avião é filmado com um ótimo plano sequência circular e inesperado. Infelizmente, o realizador não teve preocupação em elaborar planos cinematograficamente mais ricos. Nunca mais há nenhum plano surpreendente, o filme resume-se a close-ups e a panorâmicas. A maquilhagem das feridas e cortes é funcional. A fotografia da Mandy Walker, que trabalhou em Hidden Figures, do ano passado, realça muito bem a natureza simultaneamente selvagem, intimidante e bela daquelas montanhas. Nota-se que maior parte das filmagens evitaram os estúdios e foram feitas no local. O frio dos personagens e da paisagem é muito contagiosa. A banda sonora do Ramin Djawadi, que trabalhou em Pacific Rim, de 2013, mesmo com alguns momentos um pouco manipuladores e arrastados, acompanha bem o estado de espírito dos personagens e é agradável, graças àquele piano bem smooth.

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    The Mountain Between Us tem dois atores talentosos e dedicados, porém mal-aproveitados, uma fotografia muito bonita, e alguns bons momentos de tensão. No entanto, não resiste a apelar para alguns clichês do género e sofre de problemas que condicionam facilmente toda a história.

 

Nota: C+

 

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Justice League (Liga da Justiça, 2017) - Crítica

     Depois da morte do Superman, o Batman e a Wonder Woman juntam-se para reunir uma equipa de super-heróis dispostos a combater para derrotar uma nova ameaça.

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   O filme foi realizado pelo Zack Snyder, mas devido à sua inesperada saída passou por inúmeras refilmagens e alterações na pós-produção a cabo do Joss Whedon, que co-escreveu o guião final. Como se pode imaginar, a produção e pós-produção de Justice League foi um inferno e, nos dias de hoje, são raros os blockbusters que não sofrem significativamente com produções atribuladas. No entanto, a mão mais notável é a do Zack Snyder. O seu estilo visual, musical e de ação continua a funcionar, apesar deste ainda não ter acertado a sua nota no DCEU, depois do mediano Man of Steel e do medíocre Batman v Superman. Este volta-se a esquecer do mais importante - o desenvolvimento dos novos personagens e a cautela necessária para se construir aos poucos um universo cinematográfico.

     Porque é que o MCU começou tão bem? Talvez porque a Marvel teve paciência e dedicação para estabelecer os seus personagens em filmes solo e, só depois, juntá-los num mega blockbuster de duas horas e meia. Justice League, juntamente com The Mummy (ler crítica), deste ano, é o reflexo de um cinema pobre, apressado, desesperado e intimidado pelo sucesso da Marvel. Não há espaço num só filme para se elaborar um universo inteiro. Agora, será tudo isto sinónimo de um filme horroroso? Não. Justice League é surpreendentemente um dos filmes mais divertidos do DCEU e com um maior valor de entretenimento. Mesmo estando ciente dos inúmeros problemas, consegui gostar do conflito e de outros aspetos inovadores.

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     Agora, por muita química que o grupo tivesse, era impossível que todos recebessem o mesmo cuidado. Primeiro, falemos do principal problema: novos personagens e mundos apresentados de maneira desordenada e apressada. O novo trio Aquaman, Cyborg e Flash era a maior das preocupações. Comecemos por aí. Eu adorei o Aquaman! Não é o membro mais poderoso ou importante, mas é certamente o mais badass! O visual inovador, o tema musical e o estilo de combate são espetaculares. Para além disso, o Jason Momoa fez um trabalho impecável. Até agora, é o meu personagem favorito do DCEU.

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     O Flash é outro acerto. O Ezra Miller é muito carismático, engraçado, inseguro, infantil e inexperiente. Ele tem uma ótima química com todos os elementos do grupo e algumas das cenas mais fixes do filme.

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     Já o Cyborg é o mais desfavorecido. Apesar do CGI ser bom, o Ray Fisher parece não saber o que está a fazer. O seu arco era o qual menos me puxava e nunca me vi investido nele. É o caso que mais precisava de um filme solo.

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     A Gal Gadot, como a atriz fraca que é, faz as suas caras básicas de heroína e de assustada. No entanto, esta consegue se integrar melhor como uma personagem neste filme do que em Wonder Woman (ler crítica). Já as suas cenas de ação continuam impressionantes.

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    O Ben Affleck é um problema antigo. Eu nunca gostei dele como ator, sempre o achei fraquíssimo. Não se vê nenhum Bruce Wayne nem um Batman, mas um ator mascarado. Acho-o desinteressante, aborrecido e, sobretudo, incapacitado. O que o salva são as cenas com o Jeremy Irons, que faz um bom Alfred.

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    No elenco, estão novamente a Amy Adams e a Diane Lane, durante uns míseros dois segundos em que não fazem nada. Já o Billy Crudup e o J.K. Simmons são dois atores talentosos completamente desperdiçados e desrespeitados por um guião medíocre que não lhes dá absolutamente nada.

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    O Steppenwolf é um vilão risível. Tanto a horrível interpretação do Ciarán Hinds, o CGI nojento e a sua motivação básica fazem dele um péssimo antagonista. Por falar em CGI, o terceiro ato, que nos oferece uma enorme e divertida sequência de ação, infelizmente sofre do mesmo mal do Batman v Superman – um exagero enjoativo de green screen e CGI escuros e feios. Aliás, há um exagero considerável de CGI no geral, o que já é típico de uma realização do Zack Snyder.

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    As cenas de ação são, de facto, a maior atração. No meio de um guião desfocado e despropositado, era importante que o filme não fosse um tédio. Eu estava tenso durante várias cenas e gostei de algumas decisões criativas.

     A fotografia típica da filmografia do Zack Snyder ajuda a pintar um mundo mais sombrio e voltado para adultos que gostam da DC do que para jovens. A banda sonora, mesmo não incluindo os temas dos clássicos Superman e Batman, dá uma vivacidade a um mundo fúnebre. O Danny Elfman, para além de ainda compor muito bem, tem uma boa mão para escolher músicas.

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     Justice League não é horrível. Para os fãs sedentos da DC, tem mais que suficiente – caras adoradas, cenas de ação com um enorme valor de entretenimento e de produção. No entanto, para quem quer acompanhar um universo cinematográfico competente e promissor, com arcos e personagens bem desenvolvidos e um controlo moderado sobre os CGI e green screen excessivos, é apenas um mais blockbuster divertido sem muito mais para oferecer para o género.

 

Nota: C

 

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First They Killed My Father (Primeiro, Mataram o Meu Pai, 2017) - Crítica

  Baseado na autobiografia First They Killed My Father: A Daughter of Cambodia Remembers, publicado em 2000 pela ativista Loung Ung, o filme decorre no Camboja, em 1975, e conta a sua história enquanto uma menina cambojana de 7 anos, que se vê mergulhada dentro da revolução comunista no sudeste asiático.

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     O filme foi realizado pela Angelina Jolie que, juntamente com a autora, também adaptou o material para o guião. Como se pode comprovar, a atriz finalmente se estabeleceu como uma realizadora de qualidade, depois de filmes medianos ou fracos como Unbroken e By the Sea. A realizadora foi uma escolha perfeita, já que era importante uma ativista contar a história pessoal de outra ativista. Sendo assim, o retrato de uma guerra vista pelos olhos de uma criança e do lado mais corrosivo e violento do ser humano está bem presente e não podia ser mais cru, sensível ou realista, tornando-se digno de comparação com clássicos como Empire of the Sun, do Spielberg, de 1987. Contudo, ao contrário deste, First They Killed My Father tem raríssimos momentos de leveza e é conduzido sobretudo pela interpretação central movida quase sem diálogos. Aliás, este é um dos poucos filmes de guerra que já vi que consegue causar verdadeiramente aquela extrema sensação de revolta e ódio. Tal como os outros, também nos faz chorar, também comove e tem momentos aliviantes. Mas, como alguém que gosta muito de filmes de guerra, admito que fui completamente apanhado de surpresa e nunca me senti tão sujo ou desconfortado ao ver apenas um filme.

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     A Angelina Jolie é severa, mas ganhou a minha admiração. O seu trabalho de câmara é, tal como a maior parte dos restantes aspetos técnicos, muito competente, calmo e introspetivo. Ela tem uma perspicácia e um sossego um pouco incómodos, com um forte recurso a close-ups, a panorâmicas e a shots aéreos. A qualquer momento parece que tudo à volta dos personagens vai descambar. Para isso, contribui também a violenta, poluída e vasta fotografia do Anthony Dod Mantle, complementada perfeitamente com a banda sonora inquieta do Marco Beltrami.

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    Porém, quem esperar um filme de guerra composto maioritariamente por sequências de destruição e carnificina vai-se desiludir. É verdade, há cenas dessas, aliás, muito bem trabalhadas e com momentos genuinamente perturbadores. Contudo, o foco esteve totalmente no olho inocente e inofensivo de uma criança jogada numa situação horrenda. É aqui que a excelente interpretação da jovem Sareum Srey Moch se torna num dos elementos mais positivos do filme. É uma performance muito introspetiva, reservada e apática, mas simultaneamente muito expressiva, comovente e cheia de receios, carregada também de momentos mais tristes e emocionalmente abaláveis. É uma simples criança sem a maturidade necessária para compreender determinadas situações. O trabalho forçado, a fome e a militarização desumana são experiências lamentáveis e injustas, mas observá-la a amadurecer dentro daquilo contribui para o desenvolvimento do caráter inteligente, perspicaz e forte na qual esta eventualmente se tornaria no futuro. Acompanhá-la até ao fim daquela horrenda jornada é um desgosto, mas bastante inspirador.

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    O conjunto de arcos bem trabalhados inclui ainda toda a hipocrisia, insensibilidade e crueldade humana que define o grupo dos Khmers Vermelhos. Independentemente das crenças políticas de cada um, podemos todos concordar que um processo de lavagem cerebral e tortura mais nojento ou odiável que aquele dificilmente pode existir.

     O título é autoexplicativo, por isso tenho de referir algo que não gostei sobre a morte do pai da Loung. Já que toda a história é vista pelos olhos dela, não faz muito sentido que lhe apareçam imagens na cabeça do pai a ser morto. O que vemos não deixa de ser chocante, mas não ver absolutamente nada seria muito mais irritante e desconcertante. Aparecem também algumas montagens espirituais que a Angelina Jolie decidiu fazer, que nada mais são do que uma ligeira americanização dentro do cinema asiático. Mas não desrespeita nada, uma vez que a realizadora se revelou mais que competente em adotar o estilo cinematográfico com o qual trabalha. No entanto, há uma específica sequência dessas que me arrepiou. Não é só triste, é perturbadora e imerecida, ninguém merece ver uma coisa daquelas.

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     First They Killed My Father é um retrato agressivo, pesado e perturbador da natureza da guerra vista pelos olhos de uma criança. Apesar da sua enorme qualidade temática e técnica, não é um filme “bom”, não dá gosto de assistir e não é fácil de recomendar. Demorei três noites para o ver, porque não aguentava ver constantemente uma população inteira a ser controlada injustamente por gente que mais valia estar morta. No entanto, tudo isto prova que o filme é digno de ser visto, pois cumpre o seu propósito. Além disso, consegue ainda acabar numa curta nota positiva. Eu recomendo, mas devem saber onde se estão a meter.

 

Nota: A-

 

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