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Vida de um Cinéfilo

Vida de um Cinéfilo

Palpites para os Óscares 2018

     A cerimónia dos Óscares de 2018 está quase a chegar. Está na hora de analisar todos os vencedores de cerimónias recentes como os Globos de Ouro, os SAG e os BAFTA, que geralmente ditam os favoritos para receberem a tão desejada estatueta dourada. Como prevejo fazer nos próximos anos, dou o meu palpite do candidato possivelmente vencedor e daquele que eu acho que devia ser o vencedor. Apenas não comento sobre as categorias de Melhor Animação nem Melhor Filme Estrangeiro porque infelizmente não assisti a nenhum. Críticas futuras estão a caminho. Podem consultar a lista de nomeados novamente aqui. O que acham destes palpites? Bem pensados?

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Melhor Filme:

Quem vai ganhar – Three Billboards Outside Ebbing, Missouri (ler crítica)

Quem devia ganhar – Dunkirk (ler crítica)

 

Melhor Realizador:

Quem vai ganhar – Guillermo del Toro, The Shape of Water (ler crítica)

Quem devia ganhar – Christopher Nolan, Dunkirk (ler crítica)

 

Melhor Ator:

Quem vai/devia ganhar – Gary Oldman, Darkest Hour (ler crítica)

 

Melhor Atriz:

Quem vai/devia ganhar – Frances McDormand – Three Billboards Outside Ebbing Missouri (ler crítica)

 

Melhor Ator Secundário:

Quem vai/devia ganhar – Sam Rockwell - Three Billboards Outside Ebbing Missouri (ler crítica)

 

Melhor Atriz Secundária:

Quem vai/devia ganhar – Allison Janney, I, Tonya

 

Melhor Argumento Original:

Quem vai/devia ganhar – Martin McDonagh, Three Billboards Outside Ebbing, Missouri (ler crítica)

 

Melhor Argumento Adaptado:

Quem vai ganhar – James Ivory, Call Me by Your Name (ler crítica)

Quem devia ganhar – Aaron Sorkin, Molly’s Game (ler crítica)

 

Melhor Fotografia:

Quem vai/devia ganhar – Roger Deakins, Blade Runner 2049 (ler crítica)

 

Melhor Banda Sonora Original:

Quem vai ganhar – Alexandre Desplat, The Shape of Water (ler crítica)

Quem devia ganhar – Hans Zimmer, Dunkirk (ler crítica)

 

Melhor Canção Original:

Quem vai ganhar – “This Is Me”, The Greatest Showman

Quem devia ganhar – “Mighty River”, Mudbound

 

Melhor Efeitos Visuais:

Quem vai ganhar – Blade Runner 2049 (ler crítica)

Quem devia ganhar – War for the Planet of the Apes (ler crítica)

 

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The Shape of Water (A Forma da Água, 2017) - Crítica

   Durante a Guerra Fria, Elisa, uma funcionária muda recém-chegada a um centro de investigação americano, face a novas descobertas e perigos, desenvolve uma afetuosa relação com uma criatura anfibiana humanoide, disputada entre a América e a União Soviética.

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     O filme foi escrito e realizado pelo mexicano Guillermo del Toro, uma mente extremamente imaginativa que opta mais uma vez por desenvolver personagens e um conflito dentro do seu mundinho pessoal de monstros bizarros, porém acompanhado de um romantismo maravilhoso e uma força narrativa pouco vista nos romances de hoje, tanto literal como metaforicamente, e apesar deste ser o seu primeiro romance. Sim, The Shape of Water é uma fantástica história de amor entre uma mulher e um monstro aquático, uma relação inter-espécies que certamente desagradou e desagradará muita gente. Eu estava interessado depois dos comentários que forma feitos, declarando-o como o melhor filme do realizador até hoje. E no fim, apreciei e amei toda aquela magia. Se não se imaginam a ver um filme destes, nem se sequer se aproximem, para não estragar.

     Para além de uma história mágica, o filme conta ainda com uma belíssima recriação de época, a começar pela atenção na composição do apartamento da protagonista, desde as figurações cénicas, objetos, mobília e, claro, o ótimo guarda-roupa do português nomeado Luís Sequeira. A paleta visual é complementada pela fotografia do Dan Laustsen que desenvolve um universo sombrio, sujo, chuvoso, ainda assim como lindas estratégias de iluminação e de saturação de cor, oscilante entre tons acastanhados e acinzentados escuros do ambiente e o verde-água e azul tão típicos da criatura.

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    E por falar nela, o anfíbio humanoide é uma deslumbrante mistura de maquilhagem e efeitos visuais, mas não menos impressionantes que a fisicalidade e a enorme expressividade do Doug Jones, que se tornou no muso do Guillermo del Toro. Ele tem uma linda capacidade de transmitir emoções até com grunhidos, é um trabalho de deixar cair o queixo.

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    Quanto à história em si, há que reconhecer que se a produção optasse por outro poster, o filme podia ser menos previsível para quem o fosse ver às cegas, como eu geralmente prefiro fazer. Sabendo o que já sabia antes de o ver, foi-me ainda possível apreciar o filme como devia. Existem tantas coisas que se podem apreciar aqui que fica impossível reclamar. O Guillermo del Toro opta por não dar atenção a arcos que podiam ter se intrometido demais (com exceção de uma característica da protagonista que merecia mais atenção) enquanto desenvolve um retrato significativamente importante sobre aquele período. O filme fala sobre racismo, obsessão, a paranoia típica daquela época e maldade humana. Contudo, o foco principal é sem dúvida o amor, enquanto uma reflexão filosófica que, como vemos, pode surgir de várias maneiras. Assim, o filme aborda homofobia, a importância de assumir a identidade sexual, maus relacionamentos, casamentos falhados, falta de amor, e muito mais.

   E as interpretações são todas impecáveis. A Sally Hawkins dá facilmente a melhor performance da sua carreira. A Elisa é uma personagem fascinantemente apaixonada, tímida, atrapalhada, querida, suave, delicadamente provocadora, mas inocente, uma inocência que progressivamente morre. O público acompanha-a assim que a vê e apoia todas as suas decisões. O afeto pela criatura é instantâneo e a química entre ela o Doug Jones é uma das melhores do ano.

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  O Michael Shannon está impiedoso como um chefe de segurança completamente desequilibrado. Ele é essencialmente maldoso, é um dos personagens humanos mais assustadores de 2017, sem exagero. Apesar do carisma que o ator transmite normalmente, torna-se impossível não o odiar ou temer pela sua maldade, insensibilidade e desumanidade. O Michael Stuhlbarg está sensacional! É importante não revelar nada sobre a sua interpretação para evitar spoilers, mas ele trabalha muito bem a sua mudança de convicções e comportamentos, mantendo uma presença muito forte.

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    O Richard Jenkins não merecia uma nomeação ao Óscar mais que o Michael Shannon ou que o Michael Stuhlbarg, mas está ótimo como sempre. É um personagem mais comovente, amigável, atrapalhado, ingénuo, bem-intencionado e sofrido do que o ator costuma fazer.

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     A Octavia Spencer está hilariante como eu nunca a vi! A sala inteira ria com ela, graças ao seu carisma imediato, à sua postura calorosa e atenciosa e à sua personalidade forte. No entanto, também não merecia uma nomeação mais que outras atrizes.

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   A banda sonora do francês Alexandre Desplat é a delicadeza em forma de música. O compositor do The Grand Budapest Hotel mais uma vez compõe melodias suaves e charmosas que acompanham perfeitamente a magia do filme, juntamente com os seus momentos mais sombrios, tensos e negros.

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    The Shape of Water é uma maravilhosa e única história de amor. O Guillermo del Toro novamente afirma-se como um realizador autoral e apaixonado e utiliza o seu elenco e a bagagem técnica de maneira impecável. Corram para o cinema!

 

Nota: A

 

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Phantom Thread (Linha Fantasma, 2017) - Crítica

     Por falar em Daniel Day-Lewis, vamos falar sobre um dos mais elegantes filmes do ano e a sua oferta de despedida! Na década de 50, em Londres, Reynolds Woodcock, um costureiro de renome fundador de uma firma de vestidos direcionada à nobreza, vê a sua vida descarrilhada depois de se relacionar profissional e pessoalmente com uma jovem modelo.

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     O filme foi escrito e realizado pelo Paul Thomas Anderson, um dos homens em atividade que exerce a sua profissão de maneira mais reservada e autoral, no melhor sentido das palavras. Contudo, é ainda um dos mais subvalorizados. A sua recente nomeação para Melhor Realizador nos Óscares foi uma enorme e agradável surpresa, assim como todas as outras nomeações que arrecadou para este filme. Com isto, não quero dizer que Phantom Thread não merecia as mesmas, longe de mim. Estamos perante um dos filmes mais elegantes do ano! É gratificante ver os verdadeiros artistas a serem lembrados!

     Algo que o Paul Thomas Anderson consegue ser o único a alcançar é a extração de uma agressividade de uma cena tão mundana como um pequeno-almoço ou de uma pequena sequência que progressivamente torna-se mais frenética. Isto graças ao aglomerado de acertos técnicos como a banda sonora simultaneamente pesada e suave do Jonny Greenwood, a edição desnorteante do Dylan Tichenor e o brilhante trabalho de câmara do realizador americano que a cada filme se torna mais competente e impressionante. Planos sequência estáticos, close-ups na expressão do Daniel Day-Lewis, tracking shots pelos corredores e movimentos circulares maravilhosos em volta dos magníficos vestidos. Por falar em vestidos, o filme, para além de ser um dos trabalhos mais exigentes do PTA, consegue originar dentro de nós um súbito interesse pela arte da costura, que tem muitas mais camadas que do parece, como qualquer outra arte.

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    Visualmente falando, este filme é um espetáculo, é magia em movimento. Para além da esplêndida recriação de época, Phantom Thread tem uma magnífica construção dos próprios “bastidores” das oficinas de costura, desde as aulas introspetivas do protagonista até à dedicada turma de costureiras. O filme merece os Óscares de Melhor Guarda-Roupa e Melhor de Design de Produção, esta estética é uma joia rara! Desculpa, Luís Sequeira. Estava convencido que o diretor de fotografia Robert Elswit tinha trabalhado novamente com o PTA, depois de There Will Be Blood (ler crítica), até descobrir que o próprio realizador a compôs, o que foi uma grande surpresa!

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   E, apesar do esforço obsessivo pelo visual, o realizador toma o mesmo cuidado pelas interpretações, que são todas impecáveis. O Daniel Day-Lewis é claramente o grande destaque! Sendo ele um dos atores metódicos mais compromissados de sempre, o seu sacrifício mental e físico para o investimento numa personagem é quase paranoico (suponho). Reynolds Woodcock, mesmo não sendo o seu papel mais exigente, não deixa de ser uma personalidade riquíssima, cheia de camadas e com uma filosofia fascinante. É um homem com um sorriso contagioso e apaixonado pela sua arte, dedicado, sério, ambicioso, obsessivo, exigente, teimoso (muito), irracionalmente orgulhoso e extremamente profissional. Os olhos dele brilham ao pé da câmara!

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     A Vicky Krieps é uma interessante revelação e nunca se deixa ofuscar quando contracena com o Daniel Day-Lewis. A atriz tem a rara capacidade de o confrontar e de sair da sua sombra, especialmente durante as discussões e as cenas de costura, durante as quais os dois demonstram uma ótima química. Palmas para a luxemburguesa!

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     A Lesley Manville está sensacional e mereceu sem dúvida a sua nomeação ao Óscar! Ela está maravilhosamente arrogante e autoritária com a sua postura passivo-agressiva, os seus sorrisinhos forçados e maliciosos, os intermináveis revirares de olhos e as suas constantes provocações disfarçadas de elogios.

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     Mesmo não sendo biográfico, Phantom Thread sofre de um problema comum – usar um voice over de uma conversa que, mais tarde, revela-se ser uma cena do ato final. São raríssimas as frases que dizem algo de novo. A narração torna-se repetitiva e é complemente dispensável perante toda a informação transmitida apenas pelos silêncios que ocorrem entre algumas cenas e as expressões faciais dos personagens. Felizmente, este erro dura pouco.

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     Phantom Thread é um dos filmes mais elegantes, charmosos e deliciosamente demorados do ano. É ainda maravilhosamente interpretado e composto e uma fascinante história sobre obsessão profssional, paixão pela profissão, amor e os consequentes sacrifícios, provocações e consequências de uma relação tóxica.

 

Nota: A

 

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There Will Be Blood (Haverá Sangue, 2007) - Análise e Crítica

     Phantom Thread, o último trabalho do Daniel Day-Lewis, já chegou a Portugal. Falaremos sobre There Will Be Blood, que fez 10 anos e demonstra o ator na sua melhor forma. Atenção: Este texto contem SPOILERS!

   Baseado no livro Oil!, de Upton Sinclair, publicado em 1926, o filme começa em 1898 e segue Daniel Plainview, um pequeno, porém ascendente “homem do petróleo”, na sua tentativa de perfurar os terrenos de uma cidade pacata de Little Boston.

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  O filme foi escrito e realizado pelo Paul Thomas Anderson, responsável pelos ótimos Magnolia, de 1999, Inherent Vice, de 2014, e do próprio Phantom Thread (ler crítica). Ele é, e sempre foi, um dos realizadores mais originais e distintos dos últimos anos, sendo ainda assim surpreendentemente um dos mais subvalorizados. Melancolia, depressão, escuridão, solidão, remorsos e tensão são os elementos mais presentes em toda a sua filmografia. There Will Be Blood, em particular, não é um filme para todos. É uma daquelas obras-primas difíceis de recomendar, devido à sua dureza temática e realidade brutal do comentário sobre o capitalismo e o sonho americano.

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     Esteticamente falando, este é um dos melhores filmes do realizador americano. O cuidado narrativo é constantemente auxiliado pelos planos pacientes e detalhados. Planos sequência, panorâmicas sobre a vasta paisagem deserta, close-ups e, claro, alguns plongées espantosos das erupções de petróleo. A fotografia do Robert Elswit é deslumbrante. Somos transportados para uma atmosfera seca, suja, calorosa e cruel.

     A banda sonora complementa essa atmosfera como se de um filme de terror se tratasse. A cena da primeira erupção de petróleo não seria a mesma sem aquela percussão repetitiva e desconcertante. Toda a música do Jonny Greenwood é sensacional, quer nos momentos de tensão, quer nos momentos de maior abalo emocional. No entanto, a ausência de música é igualmente impactante, a cena da igreja é um exemplo perfeito, mas já falamos dela.

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   There Will Be Blood é um filme simbólico. No início, aborda o sonho americano. Faz comparações do petróleo ao sangue de Cristo e do protagonista moralmente questionável a uma figura sagrada. Mas, no fundo da sua crueza, é um filme sobre a colisão da Revolução Industrial do Século XX e o pensamento religioso fanático e retrógrado de uma aldeia pouco aberta a mudanças. A evolução de uma sociedade é inevitável. Face às personalidades ambiciosas e sedentas por poder e dinheiro, haverá sempre aquelas que, na teoria, defendem a humildade e a reserva financeira, enquanto lutam desesperadamente por poder.

     As interações agressivas do Daniel com o padre Eli são o retrato exemplar. O Daniel é ateu e cínico. Eli adota diariamente a identidade de um padre ambicioso por influência, contra a ideologia que segue. Ao pé das velhinhas pobres de espírito, este finge curar milagrosamente doenças através de um suposto ritual bastante duvidoso, antes de ameaçar o Daniel com constantes abordagens sobre dinheiro. A rivalidade tóxica destes dois define o filme e é impossível não desenvolver um ódio pelos dois. Sim, porque nenhum deles é santo.

“I have a compettition in me. I want no-one else to succed. I hate most people.”

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“What do you look so miserable about? There’s a whole ocean of oil under our feet!”

    O ator metódico inglês, Daniel Day-Lewis, deu performances extraordinárias em toda a sua carreira, mas encontra-se na sua melhor forma precisamente aqui. O Daniel Plainview é um homem aparentemente educado, religioso, atencioso e amigável. Na verdade, nada mais é que um trabalhador irracionalmente ambicioso e destrutivo. Ainda hoje permanecem diversas dúvidas sobre as suas reais intenções e afetos devido à sensacional interpretação do ator. Ele gostava mesmo do filho? Ele arrependeu-se de o ter abandonado? Será ele assim tão insensível e violento? Ou será essa apenas mais uma máscara? Na verdade, é um homem com uma fascinante capacidade de manipulação. E sim, o seu filho é somente uma cara bonita para acordar tudo aquilo que quiser. Mas ao longo de tantos anos, foi-lhe impossível não desenvolver um afeto por ele. No entanto, perante a surdez inesperada e a ambição crescente do H. W., já não lhe foi possível controlar as vontades ou os interesses do filho adotivo.

“You’re just a bastard from a basket!”

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“I’m finished.”

     Paul Dano deu uma performance certamente muito subvalorizada aqui. Depois de Swiss Army Man, do ano passado, este papel é claramente o que o melhor define como um ator versátil. Ele representa todo o pensamento hipócrita de um padre desrespeitoso para os seguidores “cegos”. A cena da igreja é o melhor exemplo da rivalidade dos dois personagens. O protagonista odeia-o de morte, mas, apesar de aceitar passar por aquela humilhação e “batismo”, consegue aquilo que quer: limpar a sua imagem, fingindo-se novamente de um crente e construir o seu tão desejado oleoduto.

“I’m going to bury you underground!”

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“I drink your milkshake! I drink it up! / Don’t bully me, Daniel!”

    Quando os dois se reencontram 16 anos depois, a sensação é no mínimo agridoce. De um lado, Eli é falso, malicioso e vive em constante negação com a sua profissão. Do outro lado, Daniel está nojento, velho, impiedoso e enraivecido como nunca. É o confronto de uma vida!

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   There Will Be Blood é um filme maldoso, infernal (literalmente), cínico, simbólico e brutalmente realista sobre a ainda presente colisão entre o avanço tecnológico e a Igreja. É um estudo de personagem como nenhum outro e o melhor trabalho que o Daniel Day-Lewis fez na carreira, o que não é dizer pouca coisa. Que Phantom Thread seja bom. Vamos ter saudades, Day-Lewis!

 

Nota: A+

 

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Darkest Hour (A Hora Mais Negra, 2017) - Crítica

     O filme começa em Maio de 1940, na Inglaterra, e segue os esforços desesperados do recente primeiro-ministro Winston Churchill que, depois da sua inesperada e indesejada eleição, mede forças com os membros do Parlamento Inglês, com a Alemanha e com ele próprio.

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   O filme foi realizado pelo inglês Joe Wright, responsável por Pride & Prejudice e Atonement. Ao contrário de muitas biopics que aparecem nestas awards seasons, o mais recente filme do realizador é um dos melhores exemplos de como conduzir uma importante história com um protagonista controverso e um tom fúnebre adequado para a pintura de uma realidade negra e da História. Juntamente com Dunkirk (ler crítica), Darkest Hour é uma belíssima aula de história sobre aquele período. Mas desengane-se quem pensar que esta é apenas mais uma obra esquecível que se veja na escola quando se fala na II Guerra Mundial. Quando se tem o Gary Oldman a interpretar o Winston Churchill é-se impossível esquecer do filme. Dito isto, as minhas expectativas estavam moderadas. Pois, posso afirmar que fui completamente surpreendido. Darkest Hour não é de todo um filme esquecível.

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     A começar pelo visual, a recriação da época é estupenda e estupidamente atenta a detalhes, tanto no que diz respeito ao guarda-roupa, ao design de produção e aos penteados e maquilhagem, que são todos impecáveis. Tal visual é também realçado pela música pesada com raros momentos que transmitam alívio para o público e pela estupenda fotografia do Bruno Delbonnel nomeada ao Óscar. A poeira, a escuridão, a iluminação precisa, o desconforto e a constante preocupação com as vidas dos soldados ingleses encurralados na França e com a tensão que paira sobre o Parlamento Britânico. Tudo é bem passado.

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     Estando o realismo histórico estabelecido, era muito importante dar a devida atenção aos conflitos políticos daquela era, fossem estes internos ou externos. O filme é muito fiel aos factos e, mesmo dentro da vida privada do protagonista, nunca surge aquela sensação de o guionista ter tido a vontade de enaltecer desnecessariamente o personagem. Há muita honestidade e respeito em retratar o Churchill, tanto como uma figura pública controversa, porém admirada, tanto como um pai e marido por vezes rude e irresponsável. Mas como todos nós vemos, as qualidades da sua personalidade pesam mais e é impossível não desenvolver uma admiração por ele. E é aqui que o Gary Oldman entra com a sua inesquecível interpretação que simultaneamente não seria a mesma sem as inúmeras próteses e mascaras e que não deve nada às mesmas. A presença do ator é incomparável! Pouquíssimas são as performances com o poder de fazer o ator em si desaparecer completamente e dar espaço a algo novo, não muito diferente do que o Heath Ledger fez. O Gary Oldman está perfeito! Não vou dizer mais para não estragar. Dêem-lhe o Óscar de uma vez!

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     Escusado será dizer que todo o elenco restante desaparece ao pé do Gary Oldman, mas há muito talento de sobra que também se destaca. O Ben Mendelsohn tinha uma tarefa difícil em interpretar o Rei George VI, pois a única imagem que temos do Rei inglês é o Colin Firth. Não foi o caso, o ator consegue desenvolver um Rei mais altivo, seguro, mas com intermináveis dúvidas disfarçadas.

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     A Kristin Scott Thomas é uma excelente presença feminina e, para além de muito sólida, tem os seus momentos de maior consolo e até humor. No entanto, ao invés de me darem cenas com os filhos do casal, tinha preferido que omitissem os mesmos e me tivessem dado mais cenas dela com o Gary Oldman que, mesmo sendo muito boas, souberam-me a pouco.

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     Já em relação à Lily James, que é uma boa atriz ascendente, recebeu uma personagem não muito bem escrita. Aliás, a personagem é bem escrita, mas o seu arco e interação com o Churchill não. Acho que aquela relação de primeiro-ministro e secretária devia ser abordada com mais frieza, mais apatia, e com menos daquele dinamismo que quase de certeza não nasceu assim tão rapidamente.

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     Como é de esperar, graças ao poderoso argumento e à espetacular interpretação do Gary Oldman, todas as cenas em que o Churchill discursa perante o Parlamento são algumas das mais inspiradoras que verão na vossa vida. Ele escrevia discursos como ninguém e é absolutamente incrível o que se podia fazer com palavras. A segurança e carisma que este transbordava, disfarçando as suas dúvidas e medos, são perfeitamente captadas neste filme. Para além disso, o filme acaba na nota perfeita. Eu não estava à espera, mas depressa percebi que um melhor fechamento que aquele era impossível.

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     Darkest Hour é um fiel filme aos factos históricos, à composição da sua época histórica e ao estudo do seu protagonista. O tom beneficia-se da própria história, é verdade, mas o filme em si é elevado sobretudo pela irretocável performance do Gary Oldman, que finalmente convencerá aqueles que ainda não o vêm como um dos melhores atores vivos.

 

Nota: A-

 

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