Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Vida de um Cinéfilo

Vida de um Cinéfilo

Pride & Prejudice (Orgulho e Preconceito, 2005) - Análise e Crítica

     Baseado no clássico homónimo da Jane Austen, publicado em 1813, o filme conta a história de Elizabeth “Lizzie” Bennet, uma das filhas de uma família da nobreza agrária, que se recusa a casar com alguém que não ame. Assim que a irmã mais velha, Jane, encontra um pretendente, Lizzie conhece Mr. Darcy, um nobre aparentemente arrogante. Enquanto se conhecem, ambos descobrem inúmeras características um do outro, revelando assim facetas que desconheciam e escondiam.

prideandprejudice-DI-1.jpg

     Há dias em que me apetece ver outros filmes. Há dias em que me apetece escrever. Já que os Óscares acabaram, vamos a isso. O filme foi realizado pelo Joe Wright, responsável por Atonement e pelo recente Darkest Hour (ler crítica), e assim como estes exemplos, ele demonstra a sua habilidade em reconstruir as respetivas épocas na Inglaterra com um rico guarda-roupa, design de produção e cenários, como se tudo fosse uma viagem no tempo até ao Século XIX. Darkest Hour (ler crítica), por acaso, tinha um visual mais evocativo de dramas políticos/de tribunais, um look mais opressivo e escuro. Pride & Prejudice, por outro lado, acha a maior tranquilidade até nas cenas mais escuras, graças ao visual, ao elenco compromissado, à iluminação, à fotografia celestial e brilhante do Roman Osin e à banda sonora melodiosa e lírica do Dario Marianelli, que curiosamente também trabalhou em Darkest Hour (ler crítica). O que só prova que, assim como o próprio Joe Wright, a sua equipa é composta por artistas talentosos e versáteis.

     Pride & Prejudice é um filme tranquilo, o ritmo é agradavelmente calmo e o realizador está mais preocupado em fazer o público apreciar aquilo que vê do que necessariamente acelerar o ritmo e perder maior parte dos detalhes presentes nas composições da mise en scène. No entanto, não é um filme isento de momentos mais tensos ou enérgicos. Tensos, não no sentido em que pensamos. As discussões entre personagens são importantes e desenvolvem quem está em cena. Já as cenas mais ágeis são, por exemplo, as cenas em bailes e festas com uma música popular e alegre ou algumas sequências mundanas com uma música mais agitada.

MV5BODk0NzAwNTI4MV5BMl5BanBnXkFtZTcwMzE1OTk0OQ@@._

     Em termos de riqueza temática, Pride & Prejudice é um dos romances mais diversificados que podemos encontrar. Mérito claro da Jane Austen. O comentário que a autora fez recorrentemente nas suas obras é reconhecível. As observações satíricas e irónicas repletas de humor da sociedade rural e nobre da Inglaterra são deliciosamente realistas, por muito ridículas que possam ser. O filme critica o comportamento das mulheres dependentes e desesperadas pelo casamento, o falso romantismo daquela época, a natureza arrogante das figuras públicas, toda a cultura cor-de-rosa de fofocas que meio surgiu nesta altura e o espírito feminino livre e sonhador que nem sempre é o melhor a se adotar. Com isto, é desenvolvida uma perfeita definição das consequências do orgulho excessivo e das ideias pré-feitas, concebidas por terceiros, que posteriormente nos levam a julgar alguém. Julgamentos de valores e de caráter são atitudes naturais do ser humano, como a Jane Austen faz questão de salientar. Intencionalmente alertando o seu público, ela destaca o importante aqui – perceber os perigos dessa mesma característica tão comum nas pessoas de qualquer classe social, tanto nos dias de hoje como no resto da História.

v1.jpg

   E é aqui que entram as sensacionais interpretações da Keira Knightley e do Matthew Macfadyen. Os dois fluem lindamente e a química que surge de imediato é fundamental para o estudo que o filme faz. Os dois personagens têm cenas fortíssimas, cheias de emoção, de reserva e de contradições. Ambos querem expressar os seus sentimentos, sem saber como não despedaçar o seu respetivo ego e orgulho, desfazendo assim as ideias que tinham um do outro.

DarcyEliz.jpg

   O Matthew Macfadyen está muito sólido. Inicialmente, lá está, dá a cara de um nobre tipicamente rude, passivo-agressivo, insolente e arrogante. Gradualmente, devido ao casamento indesejado imposto pela sua tia, Lady Katherine, e ao lhe cair a ficha depois de persuadir o amigo Mr. Bingley a não se casar com Jane, este revela o seu caráter frágil, inseguro e medroso, igualmente atormentado pelas expectativas postas nele.

MV5BMTMzYzE0NzMtMTNjOC00YzEzLTg4OGUtMGE0YWY5NDU1ZD

     Contudo, não sendo culpa dele, a verdade é que o ator some na sombra da Keira Knightley, que dá a melhor interpretação da sua carreira. A Elizabeth Bennet é uma das melhores personagens femininas da literatura inglesa clássica. Ao contrário da maioria das sonhadoras em busca de uma vida de aventuras e liberdade, esta apenas procura o casamento com amor verdadeiro, o que não acredita que possa acontecer. Ela recusa-se a corresponder às expectativas impostas pela mãe, demonstra um amor lindo pela irmã mais velha, tem uma personalidade forte, disfarçando também as suas fraquezas e dúvidas, um charme irresistivelmente cínico, irónico, divertido, bem-disposto, orgulho e com a dose certa de altivez, e uma habilidade fascinante de disfarçar insultos com elogios.

MV5BMjI5OTU4MDI0M15BMl5BanBnXkFtZTcwNDI1OTk0OQ@@._

     O elenco secundário faz um trabalho igualmente ótimo, tendo em conta que maior parte dele desaparece ao pé dos dois protagonistas. A Judi Dench, apesar de ter poucas cenas, é a melhor atriz secundária. A Lady Katherine tem uma presença maliciosa e temível, que confronta facilmente a Lizzie. A Rosamund Pike e o Simon Woods têm uma relação adoravelmente genuína. A Brenda Blethyn tem um humor de autoridade brilhante que casa muito bem com o seu amor maternal, a sua busca por pretendentes para as filhas e o stress constante. O Donald Sutherland tem uma presença paternal calorosa e mais compreensiva (diria até à frente do seu tempo), que contrasta muito bem com a personalidade da mulher. Também estão bem a Kelly Reiley e a Claudie Blakley. Infelizmente, as restantes irmãs Bennet não recebem o devido tratamento. Ou se reduzia o número de irmãs ou se aumentava a duração do filme para lhes dar mais traços que fossem além dos dados.

pride_and_prejudice_elizabeth_bennet_mr_darcy_matt

     Pride & Prejudice é um filme sobretudo inteligente, suave e delicado. É uma história fascinante que consegue simultaneamente ridicularizar o comportamento imoral e pretensioso de todas as classes sociais, enquanto desenvolve uma linda relação afetiva com recurso à apaixonante sentimentalidade e romantismo tão característicos da literatura clássica inglesa. Um texto impecável, conflitos imprevisíveis, personagens bem construídos e um elenco empenhadíssimo liderado por uma Keira Knightley na sua melhor forma.

 

Nota: A

 

Também podes ler críticas no Cinema Pla'net.

Aproveita para ver mais críticas de clássicos aqui.

 

Se estiveres a gostar do blog, não te esqueças de me seguir no Facebook, no Twitter e no Blogspot. Obrigado!