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Vida de um Cinéfilo

Vida de um Cinéfilo

Slender Man - sinistramente desnecessário, histérico e risível

Aconteceu com “The Amazing Spider-Man”. Aconteceu com “The Emoji Movie”. A Sony tem este sexto sentido de nos dar péssimos filmes que servem apenas para obter aquele cachê. Na última vez que verifiquei, “Indústria” não era sinónimo de “Cinema”.

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O mais recente filme de terror da Sony Pictures Releasing decorre numa pequena cidade em Massachusetts e acompanha quatro amigas do secundário que ficam fascinadas com o Slender Man, um espírito assassino pertencente a um mito urbano da Internet. Depois de realizarem o tutorial de evocação do mesmo, estas envolvem-se numa luta pela sobrevivência.

O filme foi realizado pelo francês Sylvain White, responsável por episódios de “Hawai Força Especial”“MacGyver” e “The Americans”. Curiosidade: se quiserem verificar a sua página no IMDB, repararão que este nunca permaneceu muito tempo num projeto televisivo singular. O que poderá isto significar? Considerando “Slender Man”, provavelmente indica que o talento que este tem para adaptar o argumento de terceiros é tão grande como o que tem para desenvolver personagens. Para além de tremer a câmara em sequências de perseguição e de não extrair boas interpretações do seu elenco, é ainda incompetente no que diz respeito a narrativa, manifestação de terror e a lógica.

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O filme foi escrito por David Birke, responsável por (preparem-se!) “Elle”, protagonizado pela Isabelle Huppert, de 2016. Se um guionista tão inteligente e perspicaz passa de um drama quase perfeito para uma atrocidade quase total, alguma coisa decerto correu mal. Isto porque as virtudes de “Slender Man” são quase nulas. A exposição parece interminável. Em vez de nos deixarem absorver a (suposta) atmosfera sinistra do filme, deixam-nos testamentos repletos de informação que podiam ser perfeitamente mostrados, em vez de dialogados. A determinado momento do filme surge um voice over cujo único propósito é deixar tudo arrumado, para não se correr o risco do público idiota não perceber.

Mas para falar de idiotice, podemos ficar pelos personagens, que tomam decisão estúpida atrás de decisão estúpida. Até é dado um arco inicialmente à protagonista que, para além de ser incompreensivelmente adicionado à trama, é completamente largado. Pelos vistos, na Sony, na produção de um filme de terror, todos se esquecem do comportamento de um ser humano em determinadas situações. Até a própria personalidade e as crenças dos personagens são, por vezes, ignoradas só para a trama andar para frente. Fazer o contrário, por difícil que pareça, não é impossível. Existem filmes em que os personagens (cautelosos como são) tomam decisões inteligentes e, mesmo assim, dão-se mal.

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O filme começa como o high school movie mais cliché possível: amigos a tirar fotos, a combinar festas, a largar insultos e a seduzirem-se uns aos outros. Posto isto, eis que chegamos ao elenco. Há atores completamente descartáveis, tal como os seus personagens. Mas justiça seja dita. O elenco faz o mínimo. As meninas lá fazem as suas caras de assustadas, choram e riem quando lhes é ordenado. Mas num filme deste nível nunca esse esforço é suficiente. Há muito melodrama e histeria forçada, que arruínam constantemente as cenas e que dão vontade de rir.

O melhor elemento do elenco é a Julia Goldani Telles, que tem um historial na televisão e que faz aqui o seu primeiro trabalho no cinema (poor her…). Ela tem um carisma diferenciado do restante grupo principal, mas escusado será dizer que, sendo protagonista, sofre exatamente de todos os problemas já mencionados acima. Inclusive aquele namorado que aparece e desaparece.

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Para além das suas diversas falhas, o realizador é ainda incapaz de captar planos mínima e visualmente cativantes. Quando a enorme e densa floresta é exibida em largos shots, funciona. Mas, de resto, o filme é demasiado escuro para se perceber alguma coisa. É incómodo de tão horroroso que é. Pode ser que tenha sido apenas obra do diretor de fotografia Luca Del Puppo. Estamos a falar de um filme da Sony, o realizador pode, afinal, ter tido pouca liberdade criativa. Porém, de qualquer maneira, é um péssimo trabalho. Alguém que diga a estas meninas para ligar as luzes de casa.

Falando das pequenas virtudes. O próprio Slender Man funciona. Não que a sua manifestação seja boa. Aliás, o suspense e posterior terror do filme são criados à base de silêncio repentino e de um enorme barulho estridente, pesado e (claro) previsível. No entanto, ao contrário do que eu esperava, não nos é revelada ao pormenor a fisicalidade do espírito. Todas as suas sombras e pequenas aparições conseguem levantar um arrepio. Como já vimos em bons filmes, o melhor terror está no medo do desconhecido. Por isso, esperar até ao momento certo e calculado no terceiro ato foi, pelo menos, bem pensado.

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A entidade tinha o suficiente para fazer parte de uma boa história. Eu comprei toda a paranoia por detrás dos desaparecimentos e o meu interesse pelo fenómeno surgiu naturalmente. Há conceitos visuais interessantes (elevados por efeitos visuais convincentes) e uma conotação sexualmente agressiva que devia ser explorada. O Slender Man podia ser um ótimo antagonista, caso o filme fosse melhor. Eu vi potencial. Mas também vi uma empresa desesperadamente sedenta por popularização e aquisição apressada de direitos autorais.

“Slender Man” é exatamente aquilo que se aguarda. Um filme de terror desnecessário e absolutamente esquecível, que se leva a sério demais e que, em momento algum, é assustador. O visionamento tem simplesmente a utilidade de ser realizado com amigos, com quem nos podemos rir de tão mau que é.

 

Nota: D-

 

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Cloverfield - o found footage ainda funciona

“Cloverfield” é um dos muitos filmes de 2008 que nos ficaram na memória. Por diversas razões, este diferencia-se das restantes ofertas do género. SEGUEM-SE SPOILERS!

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“Cloverfield” foi lançado no dia 24 de Janeiro de 2008 nas salas de cinema portuguesas. Foi realizado pelo Matt Reeves, responsável pelos últimos dois filmes da série reboot de “Planeta dos Macacos”. Foi escrito por Drew Goddard (“The Martian”) e produzido por ninguém menos que J. J. Abrams.

Primeiro, há que parabenizar o cuidado que toda a produção teve em esconder o filme. Em 2007, foi lançado um teaser antes das sessões de cinema de “Transformers” que despertou a atenção de todo o mundo. “Slusho” e “Cheese” foram os nomes falsos dados ao projeto. Nas ruas de Los Angeles, da Califórnia e de Nova Iorque, onde “Cloverfield” foi filmado, eram inúmeras as pessoas que podiam ser vistas com um telemóvel da década de 2000 a gravar aquilo que era a produção de um filme bastante diferente.

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E a verdade é que tal se verifcou. “Cloverfield” tem, ainda hoje, o chamado cult following. Não é muito conhecido, mas quem o conhece soube sempre apreciá-lo, devido à sua capacidade de causar sustos e pânico, deixando o seu público constantemente de queixo caído. Tal como toda a publicidade do filme, a narrativa mantém as surpresas calculadamente em espera, aguardando o melhor momento a partir da metade do segundo ato. Isto sim cria um antagonismo num filme de monstros. Por muito horrorosas que sejam as imagens que um filme mostre, nada é mais assustador que a sugestão daquilo que não vemos. Tal como “Alien”, o monstro aparece minimamente através de gigantescas ondas de fumo e camuflado entre os prédios nos quais entra e abalroa. É só passado mais de 1 hora que o conseguimos ver totalmente, através de planos aéreos e do espetacular contre plongée gravado no Central Park.

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E, claro, como qualquer bom filme, o que seria dele sem bons personagens? Eu sei que não são por estes que se assiste ao filme mais que uma vez, mas justiça seja dita: eles são bem construídos e, mesmo alguns não tendo muita personalidade, são carismáticos e envolventes o suficiente para nos podermos sentir mal quando morrem.

O melhor é, sem dúvida, o Hud, interpretado pelo T. J. Miller. Os seus dotes de humorista são perfeitos para o personagem. O cameraman da ação não podia ser outra pessoa. O mais curioso é que, mesmo quase nunca aparecendo à frente da câmara, este consegue ser engraçado, inseguro, inconveniente, tagarela e chato. Quando vi o filme pela primeira vez, percebi imediatamente como é que a escolha para o personagem Weasel, de “Deadpool”, tinha sido feita. De resto, o elenco é perfeitamente competente e os personagens são bem desenvolvidos, agindo consoante e respeitando a sua própria lógica. Riem e choram quando é preciso. Funciona. Acho que as palavras “Oh Meu Deus!” nunca foram pronunciadas tantas vezes seguidas num filme.

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O próprio found footage funciona esplendorosamente bem aqui. Pensando bem, hoje, tendo em conta o perfeito nível de realismo, o resultado final não seria inferior a uma adaptação casual. Pensemos desta maneira. J. J. Abrams declarou no making of que todas as sequências de pânico coletivo nas ruas de Nova Iorque se basearam, na verdade, nas imagens do 11 de Setembro. Coloquemos este excelente elemento lado a lado com efeitos sonoros agressivos e uma fotografia opressora e negra. O resultado é impecável. Estamos a falar de um filme que foi lançado apenas 7 após uma das maiores tragédias da História americana. Apesar de “Cloverfield” se revelar progressivamente um filme de terror com um gigantesco monstro a atacar a cidade, as primeiras reações do público nas salas de cinema foram idênticas às dos personagens – “Será outro ataque terrorista?!”.

Desta maneira, a publicidade reservada (ou quase totalmente inexistente) não podia ser um melhor instrumento. É irónico que um dos maiores problemas dos filmes atuais seja exatamente uma coisa tão fácil de precaver. Os twists em trailers são chatos. É esta a conclusão.

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E para quem se pergunta ainda o que raio significa o título do filme, eis uma curiosidade. Como é anunciado mesmo no princípio, “Cloverfield” é o nome dado ao acontecimento em si e à missão militar que foi a tentativa de matar a criatura. Acontece que “Cloverfied” é nome da rua principal que J. J. Abrams atravessa para chegar ao seu escritório em Santa Mónica. É isso. Fim de discussão.

Existem algumas conveniências e facilitações narrativas, nomeadamente um machado exatamente à mão quando é preciso e a aparição do exército e dos médicos no shopping assim que disseram em voz alta que a Marlena precisava de um médico depois de ser mordida no metro por uma daquelas pequenas criaturas. O aspeto que mais incomoda é a sobrevivência da Beth, a namorada do protagonista. Esta cai de costas em cima de um ferro grosso e fica horas à espera de salvamento. O ferro atravessa-lhe de uma ponta à outra. Passou dos limites.

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Falando em pequenas criaturas, há muito que dizer acerca do monstro. O Matt Reeves faz um ótimo trabalho, mas, como é óbvio, claramente inspirou-se no trabalho de ficção científica do J. J. Abrams. Os efeitos visuais são muito eficientes e o monstro é mostrado apenas quando necessário e ficamos com a sensação de que há toda uma história para contar acerca da sua natureza e até anatomia. O curioso é que receberemos futuramente uma sequela direta do filme de 2008, como o próprio Abrams já anunciou. Ainda assim, o desconhecimento ou a falta de desenvolvimento talvez seja uma das armas das boas obras cinematográficas. Se a franchise de “Alien” tivesse ficado pelo primeiro filme, talvez o respetivo sucesso fosse ainda maior. Por vezes, deixar o público se deliciar com aquilo que tem, em vez de receber continuações e explicações que fácil e possivelmente estragam toda a hype, seria uma melhor opção. As enormes marcas televisivas e cinematográficas atuais podem lucrar bastante e dar emprego a muita gente, mas, por vezes, é preciso saber parar e arranjar ideias originais, visionárias e incomensuráveis.

“Cloverfield” é, juntamente com “The Blair Witch Project”, de 1999, e “[REC]”, de 2007, uma prova que o subgénero dos filmes de monstros ainda se pode beneficiar do estilo found footage. Basta não modernizar demasiado a técnica e, tal como os bons clássicos, nos darem elementos fundamentais: surpresa, medo, bons personagens e bons novos conceitos.

 

Nota: B+

 

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Walter 'Heisenberg' White - violência e a perda da insignificância

Decidi preparar algo diferente. Comemorando o 10º aniversário de mais um conteúdo globalmente adorado, este será o 1º de 3 artigos relacionados com “Breaking Bad”, em vez da tradicional crítica. Cada um destes será direcionado a 1 dos 3 melhores personagens da série.

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São várias as razões pelas quais as pessoas ficaram agarradas a “Breaking Bad”: a trama em si; os aspetos particulares e refrescantes do seu piloto; o seu estilo dramático e tenso de neo-western; os desenlaces em cada season finale; a banda sonora … enfim, a lista é interminável. Mas poucas eram as cenas que não se tornavam memoráveis sem os personagens multidimensionais, que provocaram em nós diversos estados de apreciação e debates morais. O mais impactante era o protagonista: Walter Hartwell White, também conhecido pelo seu nome de traficante - Heisenberg.

Vince Gilligan anunciou que o seu objetivo inicial era “tornar o Mr. Chips no Scarface”. E conseguiu. Ao longo de “Breaking Bad” observamos a mudança radical de um homem bom, mas aparentemente incapaz de controlar as suas infelizes situações diárias, num homem poderosamente ativo sobre as suas ações e as dos outros, mas irremediavelmente mau e egocentricamente crente nas suas próprias mentiras. Posto isto, questionemos: De que modo é que esta mudança ocorreu?

 

"Chemistry is ... well, technically, chemistry is the study of matter. But I prefer to see it as the study of chanfe."

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“Growth, then decay, then transformation.”

 

Dever Familiar e Masculinidade

Walter tem dificuldade em assumir o papel de patriarca e, consequentemente, sente-se embaraçado quando esse papel pode ser tomado pela mulher, pelo cunhado ou por um casal amigo. Não se consegue reconciliar com a mulher. O seu cunhado, até então, o macho da família que constantemente o ridiculariza, está numa cama com as pernas debilitadas. Walter sente-se desprotegido. Simultaneamente, lida com a difícil questão moderna acerca da masculinidade. Afinal, o que define um homem? O que define o macho alpha? No entanto, o seu negócio cresce cada vez mais. De seguida, (unicamente a favor desta situação) conhecer Gustavo foi uma das melhores coisas que lhe podia ter acontecido. Gus ajuda … e ajuda bem. Um homem não é o típico mulherengo ou polícia durão. Um verdadeiro homem é aquele que sustenta a família. Ponto.

As questões familiares que “Breaking Bad” levanta são importantíssimas. Afinal, qualquer homem de família já se questionou sobre aquilo que alguma vez fará pelos que ama. Para Walter, nenhuma ação é injustificável se o seu propósito é defender ou beneficiar o bem-estar da mulher e dos filhos. No entanto, o protagonista não tece limites às suas atividades. Progressivamente, as suas ações tornam-se cada vez mais difíceis de justificar. Walter é muito bom a mentir, mas as melhores mentiras que conta são as que conta a si próprio. Na series finale, descobrimos que não só estava a cometer inúmeras atividades bárbaras e macabras para salvaguardar a saúde financeira da família, mas também para satisfazer o seu ego. (Já lá vamos)

 

“What I do I do for my family.”

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Paralelamente, deixa de se sentir preocupado sobre as características que a sociedade atual “exige” que um homem tenha. Masculinidade está muitas vezes ligada a sexo e ao impacto que os homens têm nas mulheres. Como percebemos ao longo da série, Walter não tem qualquer característica física ou intelectual que atraia as mulheres de “Breaking Bad”. O máximo que vemos são aqueles vaivéns tensos (e até desconfortáveis) entre ele e a vice-diretora do liceu. Todavia, assim que este tenta a sua sorte é imediatamente repreendido. Por isso, não é possuir as mulheres usando dinheiro ou good looks que Walter procura. Não é masculinidade que lhe dará a sensação de poder. (Já lá vamos também)

 

Superioridade e Egocentrismo

Inicialmente, é verdade, Walter queria apenas angariar 737 mil dólares para garantir estabilidade futura da família. No entanto, durante o seu crescimento no mundo da droga e das ruas, uma coisa fica clara: “Eu tenho talento e poder.”. Walter pode não conhecer as ruas tão bem como Jesse, mas fica óbvio que nasceu para agir nele. E, mais importante, Walter estava pela primeira vez a agir, a controlar a sua vida e não a deixar dependente das escolhas dos outros. Finalmente disse: “Eu tenho domínio. Eu ganhei …”. Walter simplesmente não passou de um homem bom para um homem mau, mas sim de inação para ação. Aprendeu a se impor, a exigir respeito, mas também a manipular e a meter medo. Ganhou a coragem que precisava para sair da sua vida urbana banal e frustrante e começar a correr riscos, conquistando um senso de chefia e autoaclamação. Deixou de estar em perigo. Tornou-se no perigo.

 

“So, chiral. Chirality. Mirrored images. Active, inactive. Good, Bad.”

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“You clearly don’t know who you’re talking to, so let me clue you in. I am not in dange, Skyler. I am the danger! A guy opens his doo and gets shot and you think that of me? No. I am the one who knocks!”

 

O que é importante reter daqui é o conjunto de falhas e defeitos consequentes deste poder. A verdade é que tais não o tornaram mais forte, mas sim menos cauteloso e mais dependente dos fracos, perdendo a capacidade de fazer frente aos mais fortes. Walter jamais conseguiu intimidar o Mike ou o Gus. Estes demonstram-se mais inteligentes, pois sabem sair de cena. Walter não quer trabalhar com um beto da ciência experiente em poesia e em café. Ao invés, quer trabalhar com alguém inferior, alguém que lhe permita encarnar aquela presença totalitária, abraçando o seu longo, porém frágil egocentrismo e superioridade.

O Hank jamais teve pouca consideração pelo Walt. Sempre adorou e teve um enorme respeito por ele. Simplesmente armava-se em engraçadinho como o alívio cómico que era, nunca sequer achando que este seria capaz alguma vez de se meter no mundo da droga, tanto devido à sua inexperiência e decência ética. Walter queria provar ao cunhado que este o subestimou. Não admitiu que o falecido Gale recebesse os louros pelo seu trabalho. É então que comete um dos seus maiores erros, impulsionado por uma irracional burrice, álcool e pela proteção do seu tão grande, mas tão fraco orgulho: “Esse teu génio … talvez, ele ainda esteja por aí”.

 

Legado, Nome e Morte

Ao longo da série, vários foram os simbolismos para demonstrar a transformação moral do protagonista: o urso de peluche rosa, o novo (e badass) visual e as cores da roupa. Alguns apontam para o facto de Walter vestir roupa cada vez mais escura no progresso da série. No entanto, aquilo que acho que tem mais impacto é sem dúvida o amarelo. Tal como “The Godfather” adota o laranja para demonstrar as iminentes situações de perigo, “Breaking Bad” utiliza o amarelo. O amarelo vivo está obviamente nas batas de produção de droga, nos dentes da prostituta, no prato partido, na mostarda na bata do oncologista, no carro do Krazy-8 e, claro, no casaco do Jesse e na camisa do Walter. A camisa, especificamente, pode ser vista, assim como outras, no decorrer da série. Mas, no caso do Walter, o único perigo que indica é ele próprio. Este tanto a usa no piloto como no episódio em que encomenda a morte dos prisioneiros. Assim, reforça-se o enorme e complexo arco. Walter adota o alter ego de Heisenberg: o Rei das Metanfetamina, o Pai da Crystal Blue. Os próprios nomes são extremamente simbólicos: Walter Francis White foi um ativista de direitos civis dos afro-americanos, enquanto que Werner Karl Heisenberg foi um físico teórico alemão envolvido na produção da tecnologia nuclear.

Walter transformou-se num monstro. Os membros iludidos da família descobrem-no. O Hank desenvolve um ódio pelo cunhado e, apesar dos seus esforços, é morto a sangue frio pelo Tio Jack. O gang dos supremacistas brancos toma controlo de toda a operação e rouba tudo. E o Jesse não se podia arrepender mais de o ter conhecido. Perdeu aqueles massivos barris de dinheiro e a família detesta-o. No fim, o Walter não tem nada. Ou terá? Se há coisa que aprendemos com “Breaking Bad” é que o verdadeiro poder não está no dinheiro, nem em enormes festas com mafiosos e mulheres em bikini, nem em tendências homicidas e psicopáticas … mas no nosso nome. Se o conseguimos tornar em algo absolutamente inquebrável, tornamo-nos imortais. Aí sim, somos poderosos. Walter cria um Império, cumprindo todos os seus objetivos: a brutal vingança pela morte de Hank; um negócio maior que o do Elliott e da Gretchen e o milhão de dólares que a família receberá quer queria quer não. Na sua morte, Walter sente-se totalmente satisfeito. Quer dizer, como não sentir? Conseguiu tudo aquilo que queria. Talvez a única tristeza que lhe passa pelo coração será a melancolia e saudades que tem pelos seus dias de glória - os dias em que ficava horas no deserto a cozinhar metanfetaminas.

 

“Jesse, you asked if I was in the meth business or the money business. Neither. I’m in the Empire business.”

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“-Are you ready? Now, say my name.

-Heisenberg …

-Your’re goddamn right!”

 

Durante os episódios finais da série, apercebemo-nos que escolhemos o lado moralmente errado. Escolhemos defender um injustificável assassino que ainda comete os erros de confiar nas pessoas erradas e de destratar quem menos merece. Mas não há problema. A culpa não é nossa. É do Vince Gilligan e do Bryan Cranston, que contribuíram com unhas e dentes para a criação de um dos melhores conteúdos televisivos já feitos. “Breaking Bad” é uma obra-prima da televisão americana e, tanto ela como o próprio Walter White, estarão eternamente nos nossos corações. Quer queiramos quer não.

 

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Iron Man - o recomeço expansionista de um género

Tal como festejámos a primeira década do Universo Cinematográfico da Marvel com a estreia de "Avengers: Infinity War", devemos também dar atenção ao filme pioneiro da franchise mais lucrativa da História do Cinema.

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Atualmente, é verdade que, em termos de argumento, filmes de super-heróis tendem a ser cada vez mais escassos, são cada vez menores as maneiras de se contarem as histórias de origem. "Iron Man", juntamente com "Spider-Man" e "Batman Begins", apresenta a fórmula mais básica de se apresentar um novo personagem: a descoberta de poderes, o progresso moral e psicológico e o inevitável confronto com o antagonista, que sai sempre derrotado. No entanto, quererá isto tudo dizer que a fórmula de "Iron Man" não funciona? Não, muito pelo contrário. A fórmula (mesma repetitiva) resulta ainda nestes dias, em filmes como "Ant-Man" e "Doctor Strange", e tendo em conta que "Iron Man" permitiu a aparição de todos estes novos personagens na grande tela, não se poderá dizer que, em 2018, a fórmula se terá tornado ineficiente.

Em Portugal, "Iron Man" foi lançado no dia 1 de Maio de 2008. Foi realizado pelo americano Jon Favreau (responsável pelos ótimos "Chef" e "The Jungle Book"), foi escrito por Art Marcum, Matt Holloway, Mark Fergus e Hawk Ostby e produzido por nada mais nada menos que Kevin Feige, o CEO da Marvel Studios.

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O Jon Favreau, para além de uma boa participação como Happy Hogan, o guarda-costas de Tony Stark, tem um ótimo olho para a ação. Toda ela auxiliada por uma emocionante banda sonora e um bom uso de efeitos práticos, sem o exagero atual de efeitos visuais. Esta é assente em ótimas sequências de combate mano a mano, cenas de perseguição aéreas, cenas explosivas em terra, assim como uma eficiente representação da opressão afegã inicial que aprisiona Stark. O terrorismo, mesmo subutilizado nos filmes seguintes, serviu (e servirá sempre) como um catalisador das questões geopolíticas mais importantes. Isto é, terrorismo existe no nosso mundo e é um elemento antagónico perfeito no que diz respeito ao comentário de "Iron Man" acerca da liberalização de armamento e de inovações tecnológicas, assim como as forçadas propagandas de guerra que tanto querem convencer a população americana de um falso patriotismo. O personagem do Jeff Bridges, o magnata de armas sedento por poder, Obadiah Stane, seria considerado genérico, caso apresentado nos dias atuais. Uma vez que surgiu primeiro e que as suas motivações são bem claras, devemos dar crédito ao ator pelo seu excelente trabalho (como de costume). O personagem é venenoso, manipulador, hipócrita, detestável e representa um lado nocivo do capitalismo.

"I built this company from nothing! And nothing is going to stand in my way."

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"How ironic, Tony! Trying to rid the world of weapons, you gave it its best one ever. And now, I'm going to kill you with it."

No lado oposto temos Tony Stark, um egocêntrico, narcisista, arrogante, sexista, porém extremamente carismático, talentoso e inteligente engenheiro/criador à frente da maior empresa de armas do Mundo. O arco do mesmo funciona esplendorosamente bem devido às experiências pelas quais este passa num dos ambientes mais hostis e selvagens possíveis. Ao ficar ciente dos danos colaterais do seu enriquecimento, este decide usar o seu conhecimento, riqueza e coragem para o bem, construindo uma arma pessoal estupidamente avançada e agindo como um vigilante. Posteriormente, aprende lições valiosas sobre amizade, dever e amor. Dentro de tudo isto, está a sensacional interpretação de Robert Downey Jr., cujo regresso a Hollywood, depois de “Kiss Kiss Bang Bang”, não podia ser mais glamoroso. É esta a definição de “casting perfeito”. Robert Downey Jr. é Tony Stark. Não é possível separar as duas personalidades.

“I am Iron Man.”

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O caso do Terrence Howard é uma pena. Se a situação com o Robert Downey Jr. e a Marvel Studios tivesse sido resolvida, poderíamos hoje ter um Coronel James Rhodes bem diferente (quem sabe melhor que o do Don Cheadle) e a carreira de Terrence podia estar atualmente no auge. No entanto, durante o tempo que teve, este tem uma boa química com Downey e, de facto, deu vontade de o ver na pele do Iron Patriot/War Machine.

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De resto, o Clark Gregg e o Samuel L. Jackson têm boas aparições, que serviram para satisfazer os fãs sedentos por um filme com os Vingadores. O Paul Bettany é cativante na pele (ou voz) do JARVIS. O Shaun Toub consegue construir o seu personagem perfeitamente com muito pouco tempo em cena. Porém, eu preferia que o careca afegão fosse excluído e que o seu lugar fosse tomado pelo gordo barbudo, que sempre tem mais personalidade e uma presença diferenciada da de um típico terrorista mauzão. Em vez de serem dois personagens, bastava que, com alguns ajustes no argumento, fosse apenas um. E, já que estamos a falar de contras, aproveito para dizer que acho a Gwyneth Paltrow uma péssima atriz e que o papel da Pepper Potts não podia ter sido pior aproveitado. O que a salva (minimamente) é a química com o Robert Downey Jr.. Simultânea e ironicamente, contracenar com qualquer ator é o que realça o quão inexpressiva, aborrecida e desinteressante é como atriz. Mesmo a personagem tendo sido bem escrita, não há qualquer carisma na execução.

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"Iron Man" é uma aventura de ação com as doses certas de humor, drama e violência. Ao fim de 10 anos, apercebemo-nos da sua importância dentro do Universo Cinematográfico da Marvel, assim como o seu significado geopolítico mais profundo. Pode (hoje) não estar na lista dos 10 melhores filmes de super-heróis já feitos, mas foi sem dúvida uma supressa para o público que, para além de duvidar da sua boa receção, não tinha a mesma afeição ao Homem de Ferro que tinha pelo Super-Homem, Batman ou Homem-Aranha.

 

Nota: A-

 

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