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Vida de um Cinéfilo

Vida de um Cinéfilo

The Children Act - riqueza visual, potencial narrativo decadente

Já percebi que ainda vou ter de esperar pelos grandes e sérios candidatos aos Óscares. Mas bem que este certamente poderia ser um deles.

Baseado no romance homónimo do próprio guionista inglês Ian McEwan, publicado em 2014, o filme acompanha Fiona Maye, uma juíza inglesa que deve controlar o desmoronamento do seu casamento enquanto lida com o recente caso de um adolescente com leucemia e respetivos pais que recusam a transfusão de sangue necessária devido a princípios religiosos.

O filme foi realizado pelo (também) inglês Richard Eyre, responsável por “Iris”, de 2001, e pelo recente “King Lear”, da Amazon. Curiosamente, os trabalhos de Ian McEwan (responsável igualmente pelo recente “On Chesil Beach”, com a Saiorse Ronan) são quase todos consequentes adaptações das suas próprias obras literárias. Posto isto, há que admitir que talvez este devesse pensar em adaptar outro material qualquer futuramente.

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“The Children Act” não é um mau filme. É, na verdade, somente um exemplo perfeito de um que, particularmente, se perde a partir da metade do segundo ato, devido a escolhas incompreensivelmente incorretas. Por outro lado, há diverso talento em toda a oferta cinematográfica, nomeadamente na execução do texto, na estética e nos restantes aspetos técnicos.

A começar pela fotografia pelo Andrew Dunn, conhecido por “The Perks of Being a Wallflower”, outro filme distinto pelo seu visual. Guardadas as devidas proporções, “The Children Act” lembra ligeiramente “Phantom Thread”. O design de produção e o guarda-roupa são belíssimas virtudes – visualmente limpas, brilhantes e confortáveis. A câmara movimenta-se pela casa da protagonista e lentamente ficamos com a sensação de que a conhecemos, devido à sua modesta dimensão e simplicidade dentro da quase detalhadamente obsessiva organização. Principalmente nestes cenários, o realizador ostenta os seus melhores planos, entre eles alguns bem abertos na sala principal, cortando para alguns mais simétricos ou dispersos, tendo em conta o estado de espírito dos personagens.

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Sugerido: Phantom Thread (Linha Fantasma, 2017) - Crítica

Quando o filme sai da casa principal, entra nos corredores do tribunal. A estética mantém-se de maneira menos acentuada, mas igualmente agradável. Pode-se dizer o mesmo acerca das ruas londrinas e até do hospital. Também fotografando as salas de audiência de modo esplendoroso e imponente. Tudo isto, claro, sem aquela palheta mais sombria do Paul Thomas Anderson. Não dá para falar em cópia, também devido à estreia do filme no Festival de Toronto do ano passado.

E para um filme tão elegante como este, uma boa banda sonora é sempre um instrumento ainda melhor. Na verdade, esta não diverge muito de longas composições de piano, oscilantes entre momentos pesados, melancólicos e enternecedores. Esta é da autoria do inglês Stephen Warbeck, o compositor de “Billy Elliot”.

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O filme é também elevado graças às ótimas interpretações. A Emma Thompson desenvolve uma personagem em conflito e dúvida de modo não muito diferente como já fez no passado. Todavia, consegue criar uma mulher distinta das restantes da sua filmografia, mantendo o público cativado graças ao seu carisma e postura solidamente autoritária. Pelo menos enquanto membro superior da justiça, carregando o peso das suas declarações. A personagem tem, como é óbvio, o seu lado mais pessoal, que está constantemente com a cabeça a fervilhar devido ao stress profissional diário e aos recentes desentendimentos de peso com o marido.

Falando nele, o Stanley Tucci (para surpresa de ninguém) encontra-se novamente em grande forma. Difícil será encontrar o filme em que o americano não esteja bem. No entanto, ao contrário dos restantes da sua carreira, o personagem da vez consegue ser odiável. Este começa com um discurso totalmente compreensível, adotando posteriormente uma série de comportamentos puníveis e moralmente errados que revelam o quão pouco sabíamos sobre o mesmo. No entanto, não é difícil sentirmos uma certa empatia por ele. Somando às performances, tendo em conta todos os fortes choques e comentários trocados entre ambos, a química entre os dois atores é ótima. As cenas da dupla são as que deixam mais anseio e expectativa.

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O Jason Watkins tem um lado adoravelmente trapalhão e tímido. O personagem aparece quando necessário e gera risos fáceis, fornecendo um ótimo (e bem aplicado) alívio cómico. No entanto, não se pode falar virtuosamente do Ben Chaplin ou da Ellen Walsh. A dupla é completamente desperdiçada. Na verdade, não conheço os atores, mas nem lhes é dada uma oportunidade de aprofundar os personagens, deixando-os mais unidimensionais e à mercê de um argumento expositivo.

O estreante Fionn Whitehead claramente esforça-se bastante e o respetivo personagem é o mais interessante do filme. É muito fácil que o soldado principal de “Dunkirk” venha a ter sucesso no cinema futuramente. O Adam Henry é profundamente complexo moral e intelectualmente, revelando-se um jovem talentoso, culto e ambicioso. As cenas que partilha com a Emma Thompson são inicialmente as mais interessantes. Porém, tanto o ator como as respetivas cenas sofrem de um grave problema – o argumento.

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Sugerido: Dunkirk (2017) - Crítica

Como já disse, o Ian McEwan bem que se podia dedicar ao guionismo de outra maneira. O livro, com certeza, tem qualidade. Pelos menos, as avaliações online disponíveis deram-me esta impressão. Para começar, o filme consegue fazer bons comentários acerca de casamento, infidelidade, dependência, justiça, moral e um pouco de fanatismo religioso. O que acontece é que, para além de pequenas sub-tramas e cenas espontâneas absolutamente inúteis, o filme decide ocupar o seu tempo de outras maneiras. Com tamanha temática, dava para se fazer algo extraordinário, mas “The Children Act” peca a partir do final do segundo ato, começando a tomar outros caminhos narrativos, nomeadamente o melodrama e a filosofia barata. A expressão “encher chouriços” nunca foi tão apropriada.

De seguida, o filme opta por parecer involuntariamente um stalker movie genérico. Bem que podia ser tudo feito de outra maneira, mas devido ao desleixo do argumento a meio do caminho, foi difícil acompanhar a trama com um investimento idêntico ao inicial como era pretendido. Se no começo, estava perfeitamente investido nos personagens e à espera de um bom filme, lentamente observei as performances (ainda que ótimas) a serem prejudicadas, acabando numa conotação afetada e negativa.

“The Children Act” é simplesmente dececionante, devido àquilo que podia ter sido e que não aconteceu. Beneficia-se da sua linda estética e ótimo elenco, mas, de resto, é um filme que, na sua conclusão, caminha para o território de dramas esquecíveis e que se mantém inconsequente e indiferente na nossa experiência cinematográfica.

 

Nota: C+

 

 

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Jesse Pinkman - perda da inocência, martírio e ressurreição

Continuando os artigos dedicados ao 10º aniversário de “Breaking Bad”, este será uma análise do arco do Jesse Pinkman, o agarrado e traficante mais adorado da Televisão.

Para quem não sabe, isto será uma surpresa. O criador de “Breaking Bad”, Vince Gilligan, pensou séria e decididamente em matar o Jesse no final da 1ª temporada. Como podemos supor (e, de seguida, confirmar) a interpretação surpreendentemente reveladora e promissora do Aaron Paul demonstrou a fáceis possibilidades de explorar o personagem, tornando-o num dos mais carismáticos de toda a trama televisiva, cuja primeira temporada arrecadou precisamente 2 vitórias em 4 nomeações nos Emmys de 2008.

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Sugerido: Walter 'Heisenberg' White - violência e a perda da insignificância

Sendo assim, pensemos: De que maneira é que o Jesse Pinkman evoluiu de um reles traficante de droga para um jovem maturo, sério e moralmente inspirador? Assim como para um dos personagens mais fundamentais no programa em si, como no arco do próprio Walter White.

 

Criança num mundo imoral

 

Ao longo da série, fica claro que o Jesse é o personagem mais pacífico da mesma. Na verdade, se assistirem a vídeo-ensaios ou a artigos espalhados pela Internet fora, perceberão que a opinião não costuma estar dividida em relação ao sidekick do Walter White (ao contrário deste mesmo). O Jesse não passa essencialmente de uma criança. Usa uma linguagem especificamente infantil (bitch e yo), tem raciocínios divertidos e risíveis, veste roupas exageradamente grandes e, por vezes, age de maneira impulsivamente irresponsável. Talvez todo este lado jovem seja extremamente relevante para entendermos a razão pela qual o Jesse é também uma pessoa deslocada no mundo do narcotráfico e, principalmente, um miúdo abandonado. À procura de benefício financeiro fácil e rápido, mas também de fazer o mais correto sempre que possível.

“Yeah, Mr. White! Yeah, science!”

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“Yeah, it’s a disease on the Discovery Channel where all your intestines sort of just slip right of your butt.”

O Jesse tem um doce fascínio pelos mais fracos. Sente simpatia por uma mera barata, pelo puto desconhecido, indefeso e maltratado na casa dos dois agarrados que roubam o Skinny Pete, deixando-se também afeiçoar ao pequeno Brock. Para além disto, ama o irmão mais novo, sem se sentindo, de maneira nenhuma, ameaçado pela sua presença. Tem perfeita noção que os pais querem proteger o irmão e que se dedicam mais ao mesmo, precisamente para permitir o crescimento dos seus talentos artísticos e intelectuais, evitando que este tome o rumo do irmão mais velho. Apesar de ser o Jesse quem assume a culpa pela existência daquele inesperado charro. Esta atitude serve como um foreshadowing para o sofrimento que o Jesse teria futuramente. Sofrimento esse nem sempre da sua responsabilidade.

Por um outro lado, mesmo o Jesse entendendo melhor o cruel funcionamento das ruas, o Walter tem um papel mais importante e rapidamente acessível. Num mundo imoral, perigoso, sujo e violento como o de “Breaking Bad”, o Jesse é basicamente um intruso irritante, alguém injusta e tragicamente incapaz de se proteger e de fugir dos atos violentos que caiem sobre si. Lentamente, a sua inocência, que apenas existe precisamente neste show de horrores, é corrompida e destruída. Claro que os seus problemas da droga desfazem esta imagem pura. A verdade é que o Jesse é inicialmente um agarrado e que dificulta a sua própria produção e ascensão. Não é propriamente uma imagem inocente aos olhos de qualquer sociedade ocidental. Mas não nos esqueçamos das razões que levaram o jovem Pinkman a se afeiçoar ao melhor cozinheiro de metanfetaminas dos Estados Unidos, apesar de todos seus conflitos e divergências.

 

Toxicidade e disfuncionamento da relação paternal

 

Pensemos na situação do Walter – um homem diagnosticado inesperadamente com cancro do pulmão, cuja vida lhe passa à frente dos olhos, constantemente ridicularizado e financeiramente frustrado –, que conhece alguém igualmente necessitado. Jesse – um miúdo com uma mente ambiciosa e infantil, sem nunca ter recebido a atenção necessária dos pais –, acha no Walter a melhor (ou pior) figura paternal que alguém podia pedir. O Jesse é a primeira pessoa a reconhecer o génio adormecido e desvalorizado no Mr. White. “Arte” é o que chama à primeira metanfetamina do seu antigo professor. Para não falar no respeito enorme que existe desde o princípio. “Mr. White” é exatamente o nome que ouvimos em toda a série da boca do Jesse para se referir ao seu tutor. Não há apenas respeito, há dependência, admiração, inspiração e um amor progressivamente maior.

No entanto, por muito valor que o Walter dê ao seu parceiro, há que reconhecer um outro motivo de peso que o leva a trabalhar com o mesmo – o seu frágil ego. Devido ao seu orgulho e sentido de superioridade, Walter jamais pode receber ordens ou ser contrariado. As coisas devem ser feitas à sua maneira. Deste modo, todos os seus erros provenientes de atitudes impulsivas e consequentes efeitos caem em cima de ninguém mais, ninguém menos que Jesse. Basicamente, esta relação apenas existe para que todos os danos causados pelo Walter caiam sobre o Jesse. Este é espancado pelo Tuco depois de tentar expandir o território, é nova e fortemente espancado pelo Hank, iludido acerca da hospitalização da Marie; acorda ao lado da namorada morta depois da visita noturna do Walter e descobre que este envenenou o inocente Brock. Juntamente, ainda se sente culpado pela colisão dos aviões e é forçado a matar o excêntrico apaixonado por química Gale, o último responsável de todos os males da série. Posto isto, quando não está a sofrer pelos pecados dos outros, o Jesse está a se autodesvalorizar, martirizar e culpar. Deixando-se cair cada vez mais fundo, deixando de poder ver esperança em qualquer relação com o Mundo.

“You either run from things or you face them, Mr. White. It’s all about accepting who you really are. I accept who I am. I’m the bad guy.”

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“I’m not turning down the money. I’m turning down you! You get it? I want nothing to do with you. Ever since I met you, everything I’ve ever cared about … is gone. Ruined. Turned to shit. Dead. Ever since I hooked up with the Great Heisenberg. I’ve never been more alone. I have nothing!”

Há tanta coisa para dizer, que se podia fazer um artigo apenas dedicado à cena da morte da Jane, discutindo intermitentemente acerca da culpa do Walter. Devido à sua maliciosa transformação, este torna-se nocivo, deixando que o Jesse se torne numa figura apenas presente na série para sofrer. Claramente, os mais religiosos repararam na alegoria. Jesse nada mais é que uma figura semelhante a Cristo, um filho de um Deus, que veio à Terra para sofrer pelos pecados dos criminosos de “Breaking Bad”. Sendo assim, se o Jesse é praticamente um filho do Walter (ou do Heisenberg, no mundo da droga), fica claro que a intenção do Vince Gilligan era mostrar como seria Jesus se fosse filho de um Deus maldoso, de um Diabo, de um Ser glorificador de e glorificado pela violência. Há várias maneiras de sustentar esta teoria: o gosto de Jesse por carpintaria, o isolamento em cativeiro, o crescimento da barba e do cabelo, entre as outras já referidas.

 

Capturado, escravizado e renascido

 

Como acabo de dizer, o Jesse perde as razões para se agarrar à vida. “What’s the point”, questiona-se. Qual é o propósito na nossa vida se, façamos o que fizermos, saímos sempre física ou psicologicamente magoados? Com “Breaking Bad”, aprendemos que, por muito erradas que sejam determinadas atitudes realizadas para o bem da comunidade ou do meio familiar (ainda que na ilusão ou negação pessoal), as boas intenções, a inocência e a virtude são sempre castigadas mais severamente. Acabando no auge da decadência e da miséria, o Jesse é punido pela sua vontade de deixar o narcotráfico e de denunciar o antigo mentor à DEA. Nos seus últimos episódios, “Breaking Bad” acompanha a última vingança de Walter, em direção ao covil suprematista da escuridão, já sem nada para perder. Porém, o caso dos dois personagens não é idêntico. O espectador é desafiado a deliberar acerca da razão que levou Walter a salvar o Jesse. Depois de toda a maldade que este causou sobre o seu filho, porque é que o Heisenberg o salvou?

Primeiro, o Jesse não pode apenas sair da sua jaula, participar no assassinato do Todd ou do Tio Jack, pegar no carro e fugir por aquele mato fora. Sendo uma figura martirizada, é necessário que este renasça quase literalmente – das trevas em direção à luz. Semelhantemente como o Bruce Wayne fez em “The Dark Knight Rises”. No entanto, para isso, precisou de passar por mais uma prova, um teste … um desafio. O Universo deu a oportunidade ao Jesse de, pela primeira vez, se impor genuinamente contra a origem os seus males – a própria figura paternal. Depois de inúmeras regras bem ou mal cumpridas, teve de se libertar e revoltar contra o seu Pai diabólico, mostrando-lhe que jamais cederá novamente.

“Mr. White … he’s the Devil. You know, he’s smarter than you, he’s luckier than you. Whatever you think it’s supposed to happen, I’m telling you, the exact reverse opposite of that is gonna happen.”

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“-Say the words. Say you want this! Nothing happens until I hear you saying it!

-I want this.

-Then do it yourself.”

Contudo, há ainda outra discussão. Será que o Walter salvou o Jesse por, de facto, o amar incondicionalmente apesar de todo o mal que lhe causou? Ou, apesar de obter tudo aquilo que queria antes de morrer, pensou paralelamente de modo egoísta no futuro do seu nome, na possibilidade de manter o Heisenberg ainda mais vivo? Afinal, depois do Todd ser brutal (e feliz)mente assassinado pelo Jesse, apenas duas pessoas vivas conheciam a receita lendária de metanfetamina. Sendo que uma delas tinha acabado de ser alvejada e cujo cancro havia regressado. Será que o Heisenberg pensou em deixar o respetivo legado vivo através do seu filho, que o conhece melhor que ninguém? Não sabemos. Nunca saberemos, aliás. Mas esta é a dúvida permanente que dá tanta ternura ao último olhar trocado entre o Walter e o Jesse. Aqueles olhares compostos por lágrimas, sorrisos subtis e acenos de cabeça dizem muita coisa. Deixar a série com uma nota mais emocionante e ambígua que esta seria impossível. O Aaron Paul e o Bryan Cranston agarraram esta experiência com unhas e dentes. Tal que dificilmente a amizade entre os dois atores criará melhores memórias que as criadas no set de “Breaking Bad”.

 

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The Dark Knight - a frágil e falsa moralidade humana

Pergunto: O que torna um filme de super-heróis bom? O que o torna distinto dentro do género? Serão as cenas de ação? Será a caracterização traduzida da banda desenhada? Será o tipo de narrativa? Será o arco do protagonista? Será o vilão?

Qualquer que seja a resposta, podemos ter a certeza de uma coisa. Christopher Nolan cumpriu o requisito e acertou na mosca. “The Dark Knight” é uma obra-prima … por diversas razões. Primeiro, o inglês visionário responsável por toda a trilogia é um dos menores adeptos de efeitos visuais da indústria cinematográfica atual. Sempre que possível, Nolan prefere religiosamente o uso de efeitos práticos, ao invés de facilitar a criação de uma cena com recurso às imagens computorizadas. O uso de um set giratório em “Inception” é o melhor exemplo dessa qualidade.

Juntamente com uma edição extremamente precisa, com a magistral banda sonora pesadamente temática, perfeita e inesquecível do Hans Zimmer e com uma fluidez narrativa que exige mais que um visionamento, tal recurso transfere uma realidade indescritível de todas as sequências com adrenalina, imprimindo uma ação hipnotizante, palpável e que se mantém impecável até hoje. Todas as cenas de ação são esplendorosas. O combate entre os mafiosos e o Batman, o rapto do Lau, a perseguição do Batpod nos túneis e a investida do protagonista contra a equipa de SWATs. Cineastas de ação têm aqui uma aula.

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Em segundo lugar, são raríssimos os filmes de super-heróis que tiveram um real sucesso ao adotar uma narrativa de crime, como o próprio material-fonte pede. As histórias do Batman sempre exigiram uma abordagem mais séria. Podemos ir mais longe. Qual é a base do estilo cinematográfico de “The Dark Knight”? “The Dark Knight” é, para além de um filme de ação e de super-heróis, um filme noir. É um que reflete a era de medo que se sentia na América pós-11 de Setembro, enquanto retrata os seus personagens e respetivas ações com uma ambiguidade moral, com a ajuda de uma atmosfera obscura, opressora e pessimista. A verdade é que é o único filme deste “movimento” (visto que tal nunca aconteceu). Mas se foi responsável por algumas mudanças no cinema foi principalmente para o género. A explosão do mesmo em 2008 e que prossegue atualmente reflete o estado de espírito de uma sociedade inteira descontrolada e desprotegida, vivendo sob constantes dúvidas e medo de sair à rua. Claro que hoje, sim, nem todos conseguem ser idênticos, alguns são apenas comédias de ação divertidas. Então, como alcançar este status?

O noir pode não ser necessariamente considerado um género, mas sim um estilo. O visual assenta, sobretudo em escuridão. Há excelentes fortes contrastes de luz, usados para representar o conflito interno dos personagens. E o movimento de câmara é um dos mais inteligentes, bem calculados e simbólicos que podemos encontrar. O noir não procurava contar histórias otimistas como se fez nos Anos 30, durante a Grande Depressão. A missão era outra – retratar autenticamente o pessimismo daquela era. Filmes do Anos 40, como “The Big Sleep”, demonstravam a angústia da vida pós-II Guerra Mundial. Enquanto que os dos Anos 70, como “Taxi Driver”, retratavam crua e fielmente os danos e a desorientação moral provocada pela Guerra do Vietname. A população encontrava-se dividida, desiludida e desamparada. O cinema também precisava de mudança. As mensagens bonitas de esperança tiveram de ser substituídas por reflexões complexas sem qualquer conclusão reconfortante ou recompensadora. Posto isto, “The Dark Knight” é instrumental para entendermos o pensamento frágil de um país dominado pela ameaça no início do Século XXI.

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O arco do protagonista, para começar, mesmo não sendo tão profundo como o de “Batman Begins” ou de “The Dark Knight Rises”, estabelece as suas respetivas atitudes futuras. Bruce Wayne apercebe-se do seu papel. Vê-se destroçado tanto pela perda pessoal como pelos inúmeros atos de violência. Uma violência perversa e anárquica que não compreende, composta por atos horrendos de destruição e uma concretização levada ao extremo. Orquestrada por um terrorista misterioso, sádico, niilista, com tiques nervosos, claros antecedentes familiares e conjugais trágicos e um mórbido sentido de humor.

Batman não é um herói, nem o pode ser. A sua forma de justiça não é reconhecida devidamente. Mesmo com um clima de estabilidade relativamente superior, o público não gosta de ser condicionado por um vigilante, mesmo que este haja a seu favor. E, assim que este é abalroado pelos assaltos, assassinatos e atentados do Joker, desgosta ainda mais do Morcego. Bem, qual é a real diferença entre os dois para além do óbvio? A verdade é que as leis devem ser, por vezes, quebradas para que a justiça seja reposta. Mas o que dizer acerca do contrário? Os dois podem estar em lados opostos, mas sinceramente não há nenhuma diferença. Ambos operam fora da lei e lutam usando todos os meios necessários para obter aquilo que querem. São os dois lados da mesma moeda. Complementam-se.

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Para se contrapor, mas paralelamente apoiar o Batman, está Harvey Dent. Primeiramente, Bruce vê no procurador de Gotham o perfeito substituto. Alguém que consiga manter as ruas limpas de crime, alguém que consegue, tal como ele, inspirar o bem, mesmo que de outra maneira. Uma vez que nem toda a gente se sente segura com a personificação consequencialista da objetividade judicial que recorre à chantagem e à violência, a melhor hipótese é que a esperança de uma população seja mantida (ou restaurada) por um novo símbolo da mesma, mas que recorra à não-violência; que seja o carisma, a razão, a educação, o respeito e a ordem em pessoa; um herói justo; um soldado de armadura reluzente … um cavaleiro branco.

“You either die a hero or you live long enough to see yourself become the villain.”

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Apenas Joker impede que Harvey se torne no novo mayor. Pessoalmente, sou um cego adepto da teoria que defende que o Joker é um soldado do Iraque. Que seja alguém que veio diretamente de um inferno hostil e selvagem. Tal antecedente explica os inúmeros seguidores, a “maquilhagem de guerra” e, claro, a revolta. Assim como o seu vasto conhecimento sobre armas, hackeamento e as marchas do exército.

Mas acima de toda construção do personagem, o que é que o Joker quer? A sua intenção não consiste na obtenção de poder ou dinheiro, mas apenas na desconstrução das éticas e valores das ditas sociedades civilizadas, através da pura provocação de caos. Não somos tão nobres como afirmamos ser. Em situações de ameaça individual ou coletiva, todos somos capazes de nos tornar nos monstros que nos esforçamos para meter atrás das grades diariamente. De sacrificar uns para o bem da maioria. As tendências corruptas e homicidas de Gotham ficam à vista depois de qualquer capricho ou ameaça do palhaço. O Joker é a mais pura representação da anarquia e do niilismo no cinema. Afinal, não somos assim tão diferentes dele.

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A solidez dos nossos valores é uma certeza que tentamos manter diária e desnecessariamente. A facilidade de os ignorar em tempos de carência é grande. Estejamos a falar de um reles bandido de meia-tigela como do mais puro e exemplar cidadão. Depois de perder Rachel, Harvey Dent transforma-se e, depois de ficar dependente das escolhas alheias, entende que a única regra que deve obedecer é o puro acaso decidido por uma moeda. As escolhas do Batman e de Gordon colocaram a sua vida em questão. E, no final, o Joker ganha.

"I took Gotham's white knight and I brought him down to our level. It wasn't hard. See, madness, as you know, is like gravity. All it takes is a little push."

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"The world is cruel. And the only morality in a cruel world is chance. Unbiased. Unprejudiced. Fair!"

Escusado será dizer que “The Dark Knight” não seria o mesmo se Heath Ledger não tivesse sido escolhido. Juntamente com Daniel Day-Lewis em “There Will Be Blood”, o falecido ator australiano é um dos melhores exemplos de um artista que desapareceu totalmente e cedeu o corpo unicamente para o personagem. A construção do Palhaço Príncipe do Crime é perfeita em todos os aspetos: voz, fisicalidade, maquilhagem, timing cómico, ultra-violência e, claro, a insanidade. Heath deixa saudades.

Sugerido: There Will Be Blood (Haverá Sangue, 2007) - Crítica

O Joker, ao alterar deliberadamente as moradas, expõe mais uma fraqueza do Batman – o afeto. Com os minutos contados, entre salvar a mulher que ama e o salvador de Gotham, a escolha de um homem singular é óbvia. Mas antes havia outro objetivo – corromper A Regra do Batman. Nem que tivesse de dar o corpo às balas, o Joker queria que Batman decidisse matar. Colocar-se à frente do Batpod ou ser cruamente empurrado de um prédio pareciam boas (e engraçadas) opções na sua mente depravada. Mas enganou-se. O Batman demonstra-se incorruptível, para a sua insatisfação. Maior é a sua derrota quando os cidadãos se recusam a ceder semelhantemente.

Vejamos. Maior parte dos filmes do Christopher Nolan tendem a acabar com uma nota positiva, por muito negro que seja o comentário político-social feito. Falemos de “Dunkirk”. Por muito horrorosos que tenham sido os atos do ser humano durante a II Guerra, o espírito coletivo de solidariedade é maior que qualquer movimento de ódio, racismo ou medo. Debaixo de inúmeros aviões inimigos, milhares de ingleses decidiram atravessar o Canal da Mancha em pequenos barcos de pesca e vela para resgatar os indefesos 400 000 soldados. Se este não foi um dos maiores atos de coragem da História não sei o que foi. O lado bom do Ser Humano é, e será sempre, maior que o seu lado egoísta e maldoso.

Sugerido: Dunkirk (2017) - Crítica

Contudo, o Joker perde esta batalha, mas ganha a guerra. Apesar de tudo, viver na ilusão do martírio de Harvey Dent provoca um inevitável bode expiatório, que é sempre baseado numa mentira. Ainda assim, mesmo que curto, o período posterior de paz acontece. Bruce Wayne, o homem por debaixo da máscara, para além de demonstrar a sua firmeza moral, age como um verdadeiro herói.

"I'm whatever Gotham needs me to be."

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"Because he's the hero Gotham deserves, but not the one it needs right now. So we'll hunt him. Because he can take it. Because he's not our hero. He's a silent guardian, a watchful protector ... a dark knight.”

No fim de “The Dark Knight”, o verdadeiro herói não é necessariamente aquele que dá a cara pelo povo, mas aquele que demonstra o amor pela cidade da maneira mais altruísta possível. Aquele que habita nas sombras, nas trevas, aquele que dispensa qualquer forma de companheirismo, agradecimento ou engrandecimento. Aquele que não age por honra, mas sim para a prestação de um serviço público – a defesa nacional de um povo danificado pela tragédia e perda coletiva.

Em conclusão, “The Dark Knight” não só é o melhor filme de super-heróis já feito, mas também um dos melhores de sempre. Graças à sua narrativa de filme de crime, às impecáveis sequências de ação e à incomparável discussão filosófica, é o monumento de um género, aquele que todos tiveram com uma referência posteriormente. Tal como “The Godfather”, por muito profundas que as obras futuras do mesmo género sejam, dificilmente alcançarão a qualidade da obra-prima de Christopher Nolan.

 

Nota: A+

 

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American Animals - um pouco de filosofia animalesca

Artistas em expansão. Um quarteto (de atores e personagens) improvável. E um tenso thriller de crime contado como deve ser. Que venham mais destes!

Kentucky, 2003. O filme conta a história real de quatro amigos universitários que se juntam para assaltar uma biblioteca onde estão reunidos livros compostos por diversos quadros históricos e extremamente valiosos, iniciando aquele que se tornaria num dos roubos mais conhecidos dos Estados Unidos.

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O filme foi escrito e realizado pelo documentarista britânico Bart Layton. Na verdade, “American Animals” trata-se da sua primeira longa-metragem fora da respetiva zona de conforto. Este é responsável por diversos documentários em filme e série para a televisão. Desta vez, será lembrado por um dos filmes mais surpreendentes do ano. Tendo em conta que pessoalmente nada mais esperava que uma comédia de assalto apenas divertida.

Primeiramente, deve-se realçar o cuidado do realizador em dosar dois elementos fundamentais, porém, por vezes, incompreensivelmente, mal medidos: estilo e substância. O filme tem os perfeitos acertos no que toca à estética e ao desenvolvimento da narrativa. Perde o tempo necessário explorando a multidimensionalidade dos personagens, esperando e, de seguida, exibindo determinados planos, pelo que parece, bem autorais.

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Há jogadas muito inteligentes com planos sequências que migram para planos médios ou para os mais abertos. Alguns tracking shots são de deixar o queixo caído. Há mudanças na fotografia sem cortes, mas nunca nada de muito berrante. Aliás, há pequenos detalhes que devem ser vistos atentamente. A câmara consegue, por vezes, contar a história e, em casos distintos, mostrar todo o estado de espírito de um personagem simplesmente se enfiando na cara transpirada ou tremida deste, ou então colocando-o na ponta do plano, mantendo-o abstratamente afastado de todo o restante cenário, deixando à vista aquele simbolismo subtil. Há inclusive um plano que é simplesmente o ponto de vista do motor de busca do Google. Claro, todo o (grande) mérito também será igualmente do diretor de fotografia Ole Bratt Birkeland, que pelos vistos também é um novato. Ou era.

Sem esquecer a banda sonora. Há até algumas melodias que funcionam de modo operante nas cenas mais tensas (que ainda são algumas). Mas, claramente, nada se compara à escolha musical. Mérito da compositora Anne Nikitin e do Bart Layton. Quem gostou de “Baby Driver” poderá não receber a mesma diversidade, mas terá uma lista de faixas bastante memorável.

Sugerido: Baby Driver (Alta Velocidade, 2017) - Crítica

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Contudo, a verdade é que, mesmo com toda a sua originalidade, aqui, Bart Layton demonstra o seu amor pelo cinema e pela pintura da maneira mais simples. Caso não saibam, o cineasta optou pelo audiovisual, praticando os cargos de realizador, guionista e produtor, ao invés de investir na sua paixão pela pintura, proveniente de uma velha admiração a artistas como o pintor americano John James Audubon, responsável pelo livro de ilustrações The Birds of America, e a naturalistas/escritores como o Charles Darwin, autor de A Origem das Espécies. Ambas as obras são os principais McGuffins e, claramente, as bases da filosofia do filme. Assim como heist movies clássicos, nomeadamente “The Killing” e “Reservoir Dogs”, mas num tom mais leve.

Guardadas as imensas e devidas proporções, “American Animals” assemelha-se a “Fight Club”, no que diz respeito ao comentário sobre identidade, o consumismo contemporâneo e a tão necessitada quebra da rotina cansativamente quotidiana. E é aqui que as ótimas interpretações do Barry Keoghan (“The Killing of a Sacred Deer”) e do Evan Peters (“American Horror Story”) entram perfeitamente. Os respetivos personagens – Spencer e Warren – vivem cansados. Sendo que, por diferentes razões. Spencer vive deprimido entre a dificuldade em socializar e a falta de inspiração para pintar, acreditando progressivamente na perda de valor da sua arte e do seu talento. Warren tem a oportunidade de estar numa universidade unicamente graças a uma bolsa e delibera sobre a desilusão consequente das expectativas impostas pelos pais e pelos professores, vivendo em constante revolta, desacordo e infelicidade. O segundo é mais extremo que o primeiro. O que leva inevitavelmente à persuasão de Warren sob Spencer e ao grande assalto. Em busca de algo que os distinga e que os imortalize. Ninguém quer ser igual aos outros.

Sugerido: The Killing of a Sacred Deer (O Sacrifício de Um Cervo Sagrado, 2017) - Crítica

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Logo, enquanto que em “Fight Club”, o Narrador procura (ainda que inconscientemente) se libertar da toxicidade do sistema e das tendências controladoras do mesmo, em “American Animals”, Warren procura encarnar uma “diferente espécie”, o animal americano lindamente distinto e livre de condicionamentos que só levam à insatisfação e à amargura.

Já deu para perceber que temos aqui um belo filme. De resto, este continua com os seus prós. Os outros dois membros do grupo são interpretados pelo Blake Jenner (“Supergirl”) e pelo Jared Abrahamson (“Fear the Walking Dead”). Mesmo ofuscados pelo Evan Peters e pelo Barry Keoghan, eles estão totalmente operantes, têm personalidade, motivos bem definidos, arcos e, claro, carisma. O grupo funciona sobretudo nas montagens mais esmiuçadas sobre o plano em si e todo o elenco tem uma ótima química.

Mas é nos contras que o filme se perde gravemente. O Bart Layton (com as suas boas intenções) reúne, de facto, os quatro assaltantes reais, gravando-os declarando determinadas informações que, mais tarde, seriam eventualmente utilizadas para a formulação do argumento. Mas é tudo absolutamente desnecessário. Primeiro, mete inutilmente o público num lugar escusado – no de comparar as parecenças físicas ou comportamentais dos atores e com as pessoas reais, quando tal recurso é escrupulosamente irrelevante para refletir acerca da qualidade de uma interpretação. Mas o pior é, na verdade, toda a exposição. Sinceramente, não acho que a reflexão feita acima seja transcrita do próprio argumento. Toda a gente consegue chegar a determinadas conclusões. Mas é todo o relato do plano, do assalto, das relações entre os membros e até das transições que é inútil. Mesmo estando a gostar, tive a impressão de que estava a assistir um filme de 2 horas e 20 minutos, quando “American Animals” tem apenas 1 hora e 56 minutos. Sendo assim, cortando todos os depoimentos, este seria um filme para 1 hora e meia, 1 hora e quarenta minutos, no máximo.

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No entanto, não descarto a possibilidade de o filme ter uma linguagem mais ambígua ou introspetiva. O Bart Layton tem talento e ficarei decerto de olho nele. Mas diversas virtudes foram postas em cima da mesa que, com alguns ajustes no argumento, podiam perfeitamente ser feitas de uma maneira menos óbvia. Nomeadamente, o vaivém entre os diferentes pontos de vista de cada assaltante. São detalhes fornecidos nas entrevistas reais, é verdade, mas pensemos num Kubrick ou até num Yorgos Lanthimos e refletiremos acerca das hipóteses.

“American Animals” é um ótimo thriller de crime, com as doses certíssimas de seriedade, humor e filosofia. Os personagens são a sua melhor virtude, juntamente com aquilo que o drama tem a dizer sobre identidade, oportunidade e a inevitabilidade do fim da linha.

 

Nota: B+

 

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Woman Walks Ahead - injustamente inapreciado

Pensar naquilo que um filme deve ter antes sequer de o ver é mais prejudicial para o público do que para os artistas responsáveis.

Novamente concluo que acertar na mosca é mais fácil do que agradar os críticos americanos. Não é desgostando de todas obras que se avalie que um crítico se torna num sábio erudito de gaveta. Acontece isto com qualquer blockbuster, como o recente “Star Wars: The Last Jedi”, mas principalmente com obras modernas que toda a gente decide desgostar coletivamente.

Sugerido: Star Wars: The Last Jedi (Star Wars: Os Últimos Jedi, 2017) - Crítica

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O filme conta a história real de Caroline Weldon (Catherine no filme), uma pintora suíça recém-viúva e alegremente livre. Durante a última década do Século XIX, esta viaja de Nova Iorque para Dakota do Norte para pintar o (futuramente famoso) retrato do Touro Sentado, o infame chefe indígena da tribo dos sioux. Para além de se relacionar com o mesmo, vê-se envolvida num conflito territorial e político relacionado com o exército americano e o povo índio negligenciado.

A realização esteve a cabo da Susanna White, responsável pelos medianos “Nanny McPhee and the Big Bang” e “Our Kind of Traitor”, chegando aqui a um dos seus trabalhos mais interessantes. A inglesa serve-se do argumento do grande Steven Knight, a mente por detrás de “Eastern Promisses”, “Locke” e da série “Peaky Blinders”. A verdade é que a realizadora se supera e demonstra que o empoderamento feminino e as diversas histórias de mulheres de destaque têm cada vez mais um lugar assegurado e importante no cinema atual. Apesar de ser claramente inferior ao Paul Verhoeven e ao Kleber Mendonça Filho, Susanna White encontra-se mais que comprometida a desenvolver a sua protagonista com a devida honestidade e multidimensionalidade. Posto isto, porque é que “Woman Walks Ahead” foi tão desprezado?

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O filme estreou no Festival de Toronto do ano passado, tendo sido apenas lançado no passado mês de Junho nos Estados Unidos, arrecadando uns míseros 57 mil dólares contra um orçamento de 5 milhões. Não são estas as razões que levam à pobre receção crítica, mas a verdade é que a psicologia das avaliações dos críticos cinematográficos também funciona mal e tem podres. Para quê falar bem de um filme pelo qual ninguém espera, não é? Para além disso, “Woman Walks Ahead” tem o azar de ser um filme biográfico e, quer queiramos quer não, haverá sempre aquela fação que detesta incongruências com os factos verídicos. Por muito boa que seja a representação da evolução ativista e artística da Caroline Weldon e tendo em conta que vivemos na era das indignações online, não é difícil entender a razão por detrás da indiferença (ou raiva) para com o filme.

De qualquer maneira, comecemos pelos prós. A fotografia do Mike Eley invoca uma paz em todas as composições visuais. Existe um azul subtil presente em maior parte das vastas visões panorâmicas representativas as hostilidade e beleza do deserto americano, popularizado, claro, pela civilização indígena, e não pelas cabanas poeirentas do exército. As cenas noturnas são fotografadas maioritariamente com luz de uma fogueira ou de um pequeno lampião.

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Toda a estética (guarda-roupa, design de produção, cenários) é agradavelmente representativa da época, sendo também acompanhada por um bom trabalho de caracterização e de maquilhagem, auxiliando também as cenas mais violentas e gráficas. Há particularmente uma que ninguém é capaz de prever. O efeito sonoro foi suficiente para me doer a mim também. Já a banda sonora é composta quase apenas por uma viola profundamente agradável que consegue se inserir em cenas dramáticas sem estragar a ação em si.

O elenco e o argumento do filme formam um bonito casamento e praticamente todos os atores fazem um ótimo trabalho. Os diálogos são bons, conseguindo também transmitir leveza e dureza quando necessário. Porém, há inúmeras cenas que se teriam beneficiando de alguns silêncios. O diálogo estica-se em determinadas (e relevantes) cenas, deixando-as escassas de informação que avancem a narrativa. E, para dizer a verdade, faltou qualquer coisa naquele final.

A Jessica Chastain continua sólida, altiva e elegante como sempre. Todavia, podemos vê-la mais ingénua, inocente, indefesa e até romântica do que o costume. A partir do voice over inicial, é muito fácil ficar imediatamente do lado dela, sabendo apenas o básico acerca do seu passado. A personagem não é tão profunda como a Molly Bloom, mas a atriz demonstra novamente porque é que é uma das melhores profissionais atuais na sua área.

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O melhor personagem é, sem dúvida, o chefe Touro Sentado. O canadiano Michael Greyeyes rouba todas as suas cenas e tem alguns dos melhores momentos do filme, nomeadamente dois excelentes monólogos. O público repara no seu difícil conflito interior moral e social, sem o ator revelar muita coisa verbalmente. Fora os mencionados monólogos, este permanece reservado, carismático e introspetivamente inspirador, desenvolvendo coragem e autoridade no processo. Juntamente com ele, são expressos respeitosamente diversos conceitos e tradições indígenas que levantam o interesse do espectador. A partir daqui o filme demonstra o quão quer homenagear a cultura dos povos tribais dos Estados Unidos – dos “verdadeiros americanos”.

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O Sam Rockwell teve azar. O facto de “Woman Walks Ahead” estar pronto há mais de um ano, mas estrear poucos meses depois da sua vitória nos Óscares não é sinónimo de uma má interpretação, mas afeta-lhe a carreira. Acontece que o seu personagem é uma versão mais detestável, racista e seca do Jason Dixon em “Three Billboards Outside Ebbing, Missouri”, que sempre tinha um lado cómico e um arco muito mais significativo. Será difícil nos distanciarmos dessa ideia. De qualquer maneira, o ator é excelente e faz um trabalho à altura.

Sugerido: Three Billboards Outside Ebbing, Missouri (Três Cartazes à Beira da Estrada, 2017) - Crítica

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O Bill Camp tem uma presença autoritária e surpreendente. Inicialmente, parece-se apenas mais um político americano racista, incoerente e antagónico. No entanto, sem pintar muita coisa acerca da sua personalidade, a realizadora dá-lhe espaço para revelar as suas camadas e, de certa maneira, suavizar a tensão do público. No entanto, o Ciarán Hinds e o Chaske Spencer sofrem ambos de talento inutilizado e personagens diversificados e promissores que acabam desvalorizados e esquecidos.

“Woman Walks Ahead” não é, de todo, um mau filme. É um bom retrato cinematográfico dos conflitos entre as forças coloniais e os nativo-americanos, realçando as piores ações que o ser humano pode tomar. Tem boas interpretações, arcos e um final desagradavelmente realista, ainda que imperfeito.

 

Nota: B

 

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Fahrenheit 451 - um retrato distópico do conservadorismo

Geralmente, os filmes para televisão americanos costumam ser medianos ou medíocres. No entanto, mesmo com a oferta de “The Wizard of Lies”, uma péssima biografia de 2017 sobre o Bernard Madoff que nem o Robert De Niro conseguiu salvar, a HBO já provou que consegue produzir bons conteúdos. Vejamos “All the Way”, a biografia sobre o Lyndon Johnson de 2016 com o Bryan Cranston. Em que categoria será que “Fahrenheit 451” se insere?

Baseado no livro homónimo do americano Ray Bradbury, publicado em 1953, o filme decorre num futuro distópico numa América pós-Segunda Guerra Civil em que os bombeiros agem como membros do exército e vivem, em consequência da escrita automatizada, em função de queimar livros e outros tipos de informação que o governo e a sociedade consideram, de alguma maneira, prejudicial. Guy Montag é um bombeiro prestes a subir para o cargo de Capitão, mas a ascensão é interrompida quando este começa a duvidar de tudo.

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Antes de descrever qualquer aspeto que seja do filme, é preciso realçar que, como raramente acontece, estou completamente de desacordo com praticamente todos os críticos que acharam o filme medíocre. A verdade é que assisti a “Fahrenheit 451” sem as mínimas expectativas devido a tudo o que já tinha lido (mesmo estando ciente da qualidade do livro e da existência de uma adaptação de 1966 das mãos do François Truffaut).

Não se tratando de uma obra-prima, ainda assim fiquei bastante surpreendido e interessado. O filme foi escrito e realizado pelo americano de descendência iraniana, Ramin Bahrani, responsável pelos ótimos “Chop Shop”, de 2008, e “99 Casas”, de 2015. Ele é muito bom! Algo que ele faz de imediato aqui é realçar o aspeto futurista e até opressor do futuro apresentado.

Alguns planos são muito simétricos. Toda a restante fotografia faz questão de mostrar a evolução tecnológica que, discutivelmente, poderá um dia existir. Existe uma escuridão constante em todas as composições visuais, independentemente das cores usadas, que reforça a distopia. Estava totalmente imerso naquela realidade, pois o realizador sabia o que estava a fazer.

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Todo o filme é literal e metaforicamente opressor. Há um desconforto e tensão constantes e tudo é mantido graças à banda sonora sombria (mesmo esquecível), à premissa em si como ao elenco. No fundo, mesmo contando com uma exposição inicial excessiva, o filme é um comentário sobre os sistemas de censura atuais, o conservadorismo, os falsos valores do patriotismo americano, as excessivas normas de vigilância impostas e até sobre o comportamento da sociedade, digamos, na via virtual.

Atualmente, é recorrente ver discussões, temas tabus, ou até simplesmente palavras/conceitos, a serem deliberadamente ignorados para se evitar ferir suscetibilidades, ou dito por outras palavras, calar para não ofender ou incomodar. Tais costumes não são unicamente característicos de ditaduras, aliás, estão cada vez mais a serem praticados em qualquer sociedade ocidental. É esta discussão que torna o filme tematicamente rico.

As performances são impecáveis. O Michael B. Jordan prova novamente que é um ator promissor e que não vai parar tão cedo. O carisma é imediato, é verdade, mas o arco é mais importante. Todas as mudanças de crenças do personagem têm uma justificação e é muito fácil torcer por ele… Mesmo sabendo onde é que este começou e a maneira como o seu caráter foi moldado.

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O Michael Shannon demonstra mais uma vez como se desenvolve um antagonista. Mas ao contrário de alguns papéis anteriores, o personagem não é assim tão unidimensional como se pode esperar. O vilão tem uma motivação clara, tem razões que justificam a sua revolta, é manipulador, malicioso e tem até uma característica individual que repugna.

É difícil saber o que esperar da Sofia Boutella devido ao seu histórico como atriz, mas desta vez foi igualmente fácil ficar do lado dela, pois a sua personagem, mesmo não tendo um grande arco, representa o outro lado da moeda e tem os seus valores definidos. Ela e o Michael B. Jordan têm química, mas a ideia de um romance entre os dois, para além de ser abandonada a meio, é completamente inútil para a trama. Tudo o que muda entre os dois podia perfeitamente acontecer sem um arco amoroso.

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O Keir Dullea faz uma aparição, não há nada para comentar acerca da sua cena, mas é bom saber onde anda o David Bowman do “2001: Odisseia no Espaço”. Para além de aspetos negativos já mencionados, o filme tinha ainda uma questão relevante para resolver. O facto de diversos livros, de filósofos e romancistas da História, terem servido como inspiração para outros conteúdos, nomeadamente audiovisuais.

Gostaria de saber mais sobre os filmes e séries que seriam proibidos no futuro representado. Para fechar, como já disse, a tecnologia é muito visionária, talvez até demais. Eu aceitei até as coisas mais inacreditáveis que envolviam medicação, bem como o ADN humano. Mas há especificamente uma inovação que é simplesmente um tremendo exagero.

“Fahrenheit 451” precisava de uns acertos, porém é um bom retrato de uma possível distopia americana. Um comentário social relevante sobre a liberdade de expressão e a importância dos movimentos e obras literárias e artísticas de toda a Humanidade.

 

Nota: B

 

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Papillon - bons remakes podem acontecer

Remakes são a praga atual de Hollywood. Porém, raríssimas são as exceções que, não sendo, no entanto, obras-primas modernas, poderão ser colocadas nas prateleiras de bons filmes.

Ao serviço de criminosos de estatuto superior, Henri Charrière é um ladrão ativo em Paris. Em 1931, é enviado para a Guiana Francesa depois de ser injustamente acusado de assassinato. Ao conhecer o falsificador de arte Louis Dega, inicia diversos planos para fugir da cadeia.

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Para fazer jus à descrição inicial e, como alguém que nunca viu o filme original de 1973, devo salientar que a minha opinião acerca do remake de 2018 decerto não seria idêntica se conhecesse devidamente o clássico protagonizado pelo Steve McQueen e pelo Dustin Hoffman.

O remake é, na verdade, uma readaptação das autobiografias Papillon e Banco, publicadas em 1969 e 1973 (o ano da morte do criminoso), respetivamente. Para além disto, o argumento do americano Aaron Guzikowski (responsável pelo do excelente “Prisoners”), foi também baseado no da dupla Lorenzo Semple Jr. e Dalton Trumbo. Posto isto, não se poderá considerar o “Papillon” de 2018 uma inocente reimaginação da história já contada (e bem, suponho) nos Anos 70, ao contrário de “Murder on the Orient Express”, de 2017. A versão moderna é indiscutivelmente um remake declarado. Mas, para minha surpresa, nada disto foi sinónimo de um mau filme.

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O filme foi realizado pelo dinamarquês Michael Noer, cineasta que desconhecia totalmente. Se há coisa que este faz muito bem aqui (tal como a maioria dos remakes contemporâneos) é a boa utilização da devida estética e recriação do mundo representado. Toda a prisão tem uma atmosfera duramente áspera e opressora. Durante o tempo de viagem da França para a ilha, as cenas estabelecem que tipo de filme estamos prestes a assistir – um que inclui boas cenas violentas, com as doses certas de realismo, incómodo e sangue.

No entanto, ficou muito por contar acerca de Paris. O maior problema do filme é, sem dúvida, o pouco tempo que este perde a apresentar a premissa. Em outros filmes, tal podia até ser uma virtude. É grande a quantidade de filmes que se demoram para estabelecer a premissa básica. Em “Papillon”, acontece exatamente o oposto – a falta de desenvolvimento da cidade e das relações do protagonista com os envolventes da mesma dificultam o investimento no personagem. Não que esse problema afete o filme todo. Aliás, a interpretação do Charlie Hunnam consegue (e muito bem) transmitir o carisma certo para o público ficar vidrado no Papillon.

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Falando nele, o ator inglês dá certamente uma das melhores performances na carreira. Os momentos de maior revolta e desordem podem saltar rapidamente à vista, mas são os seus momentos mais introspetivos, rancorosos e silenciosos que percebemos o quanto lhe passa pela cabeça, enquanto este se encontra com o mínimo de saúde. Por muito pouca que seja a comida, a água, a higiene e até a luz do Sol, o personagem torna-se fascinante devido à sua quase irracional luta pela sobrevivência. Devo também realçar que a transformação física do ator é impressionante. Tal ajuda sempre a ofuscar a falta de caracterização e maquilhagem.

Como já referi, o filme perde muito a não desenvolver mais Paris no primeiro ato. O guarda-roupa e todo o design de produção no interior das casas de strip, bares e as ruas onde o crime vive são subvalorizados, pois nem há tempo sequer para desenvolver o núcleo criminoso do protagonista. Muito menos ainda a sua relação com a prostituta Nenette.

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Porém, dentro da prisão estão as melhores interpretações do filme. Sendo uma delas a do Rami Malek, que poderemos ver futuramente a protagonizar “Bohemian Rhapsody”. Desconhecendo absolutamente “Mr. Robot”, sei simplesmente que este é considerado o seu melhor trabalho. Tenho elevadas expectativas para a biopic dos Queen, devendo admitir que estou bastante interessado no ator americano. Louis Dega é, para além de comicamente indefeso, um personagem completamente inexperiente no verdadeiro mundo do crime, assim como um homem frágil, ingénuo, fraco e moralmente inocente. São raras as cenas em que este não se coloca atrás de Papillon. A amizade entre os dois é fulcral para o avanço da trama e é impossível não desenvolver uma espécie de ternura quando os vemos a demonstrar respeito e afeição um pelo outro.

Há também boas interpretações do Roland Møller, que tem camadas e um ligeiro sentido de humor; e do Ian Bettie, que traz uma autoridade governamental diferenciada do restante presidente das prisões no cinema. Já o personagem do Michael Socha está no filme com um único propósito. É um típico personagem do género de filmes de prisão e não tem muito a oferecer. Tendo em conta as intenções que se tinham com ele, podia se até o ter usado como um cínico e pessimista alívio cómico. Porém, nem isso acontece. Não por falta de tentativas, mas sim porque o bom humor do filme não vem dele.

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“Papillon” não é um mau filme. Para quem não viu o clássico de 1973, será a partir do segundo ato que as maiores surpresas mais facilmente chegarão. Dentro daquilo que oferece, é um filme mais que satisfatório e memorável. Pois é, porque, uma vez imerso na realidade apresentada, o espetador fica preso, vidrado, chocado e espantado. Tanto graças à extraordinária história como aos personagens.

 

Nota: B

 

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Deep State S1 - politicamente relevante, narrativamente esquecível

Há séries que imprimem parte da linguagem cinematográfica. São muitas outras entregues aos “fazendeiros” e que se tornam dececionantes, apesar do potencial.

“Deep State” é umas das mais recentes séries da Fox. Trata-se de uma criação dos ingleses Simon Maxwell e Matthew Parkhill, que, em conjunto com Steve Thompson (“Sherlock”“Doctor Who”), escreveram a maior parte dos episódios. O primeiro produziu as séries “Off the Hook” e “Odisseia de Risco”. E o segundo produziu “Rogue” e realizou parte dos episódios, juntamente com o australiano Robert Connoly.

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A série decorre alternadamente em várias localizações da Europa Ocidental, América e do Médio Oriente, e acompanha Max Easton, um agente retirado do MI6Max é, contra a sua vontade, chamado de volta e enviado para uma missão com o objetivo de controlar e punir ministros e ativistas iranianos que violaram acordos de paz destinados à prevenção da utilização de tecnologia nuclear. Mal o agente inglês sabe que ficará preso numa enorme rede de mentiras e conspirações.

Sem querer ser injusto, a Fox continua a produzir bom conteúdo. Porém, o seu problema está em raramente sair da sua zona de conforto. “Deep State”, mesmo com um bom valor de entretenimento e com um comentário político minimamente cativante, não agradará àqueles que procurarão uma série que pense fora da caixa, uma história nova e distinta. Vamos por partes.

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Os primeiros episódios são muito fracos. Não há um grande sentimento de presságio ou de consequência. Ocorrem muitas facilitações narrativas e diversos buracos na premissa que precisavam de acertos. As mortes conseguem ser risíveis e incompreensíveis no que diz respeito à sua duração e nexo. Há especificamente dois personagens antagónicos que aparecem e desaparecem esporádica e inexplicavelmente.

Há um personagem secundário relacionado com o protagonista cujo arco e personalidade parecem ser de outra série completamente diferente. E no último episódio, aparece mais um personagem completamente clichê, banal e desnecessário. A fotografia e a banda sonora são funcionais, mas completamente esquecíveis. São pouquíssimos os momentos visualmente apelativos ou memoráveis. Como se pode ver, os contras ainda são alguns.

Quer isto dizer que não existe qualidades? Não. A série comprometeu-se e soube lidar com temas relevantes. Há um comentário inteligente sobre espionagem, terrorismo, segurança, defesa, pátria, traições e cooperações políticas secretas, conspirações e sobre o choque dos distintos valores culturais e das éticas nacionais. A discussão principal consiste acerca no valor dado às vidas que se perdem no meio de conflitos militares e geopolíticos. O consequencialismo e a deontologia estão constantemente em choque e, realçando esse debate, está um grupo de personagens cativantes e com camadas.

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Mark Strong é a presença mais sólida de toda a série. É um homem que já dispensou tantos inimigos que não se sente minimamente incomodado em fazê-lo de novo. Há uma frieza compreensível, mas, vista de outro determinado ângulo, um pouco desumana. O personagem tem um charme elegante e ao mesmo tempo consegue ser robusto e violento, vendendo também o seu lado mais inteligente, cauteloso e experiente, assim como o seu amor pela família.

Falando nela, a Lyne Renée cumpre perfeitamente o seu papel, convencendo como uma mulher destroçada por causa da ausência do seu marido, vivendo simultaneamente amedrontada e ameaçada por aquilo que desconhece a seu respeito. Acompanhamos a sua personalidade a evoluir moralmente à medida que esta é obrigada a agir contra os seus princípios para proteger as suas duas filhas pequenas.

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Joe Dempsie está ótimo como um jovem extremamente habilitado para a sua idade e, por outro lado, descontrolado pela sua raiva e frustração que carregou durante toda a vida desde pequeno. Ao lado dele, está (melhor ainda) a Karima McAdams. A personagem é multidimensional. Envolve-se com diversos personagens, é persuasiva, carismática, agressiva, perspicaz, fala diversos idiomas e domina diversos sotaques. Sem falar na sua química com o Joe Dempsie, que torna o relacionamento muito credível. Acreditamos de imediato que existe história ali.

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Alistair Petrie e o Zubin Varla estão bem, mas têm pouco tempo em cena. No entanto, a atriz que se destaca mais depois do Mark Strong é a Anastasia Griffith.  Interpreta uma mulher igualmente autoritária, mas num conflito interno muito maior. A personagem convence-se e é convencida constantemente que aquilo que faz é necessário para proteger o futuro dos filhos, a sua segurança, mas vive numa dúvida inquietante. As suas incertezas e atitudes tomadas de cabeça quente preocupam o espectador.

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Em suma, "Deep State" apenas vale a pena se formos fãs de filmes ou séries de espionagem. Tem alguns debates necessários, algumas ótimas interpretações e cenas de perseguição e fuga memoráveis, com a dose certa de violência e que progressivamente melhoram conforme os episódios. Na verdade, a série acaba muito melhor do que começa. No entanto, são várias as suas características técnicas e narrativas que tornam difícil recomendá-la.

 

Nota: B-

 

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