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Vida de um Cinéfilo

Vida de um Cinéfilo

Gustavo Fring – o Don do Frango, da Droga e da Lavandaria

Concluindo esta pequena coletânea de artigos dedicados ao décimo aniversário de “Breaking Bad”, eis que chegamos onde eu queria – falar de um dos melhores antagonistas da televisão. Tal como o químico Walter White e o traficante Jesse Pinkman, o mais genial criminoso da série da AMC merece igualmente um estudo, demonstrativo da sua profundidade enquanto personagem.

Se há coisa que distingue Gustavo Fring dos restantes antagonistas da Televisão ou até mesmo do Cinema (já que falamos de uma série com uma linguagem altamente cinematográfica), é toda a sua ambígua origem (que sofre comparações à misteriosa mala de “Pulp Fiction”, por parte do criador Vince Gilligan), composta por aquela interessante constituição moral, motivações incertas, fisicalidade e a inconfundível prática criminosa.

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Sugerido: Jesse Pinkman - perda da inocência, martírio e ressurreição

O arco do mafioso afro-chileno não nos informa apenas sobre este mesmo, mas também acerca do lado mais defeituoso do protagonista, assim como os padrões do crime organizado do violento e sujo mundo de “Breaking Bad”.

Vingança servida fria

Ao longo da série, para além de nos depararmos com a dura transformação de Walter, aprendemos cada vez mais sobre Gus e quão o próprio negócio molda a sua personalidade. Sob determinados pontos de vista, Gustavo Fring está ainda longe de ser o antagonista principal do neo-western televisivo. Depois de aparecerem figuras como o Krazy-8 e a Família Salamanca, composta por um tio destrutivo e os respetivos três sobrinhos psicopatas, conhecer o Gus em ação (ou antes, em inação), para além de narrativamente diferenciado, é uma lufada de ar fresco, tendo em conta que raramente observamos um personagem que consegue transmitir a exata conduta criminal diariamente, acompanhada por uma elegância característica e a dose certa de malícia, arrogância e, acima de tudo, autoridade.

Aliás, são os últimos traços descritos que tornam Gus no homem que conhecemos inicialmente. Quem sabe se não torceríamos se o tivéssemos conhecido antes de Walter? Se o tivéssemos acompanhado desde as pobres ruas do Chile durante o regime de Augusto Pinochet até à década de 80 no México. Como descobrimos posteriormente, em 1986, numa reunião com Don Eladio, o maestro do Cartel de Juárez, atingido por um ou outro comentário desagradável, ordena a morte do parceiro e amigo de longa data de Gus – o experiente químico Maximino Arciniega. Hector Salamanca prime o gatilho, dando à luz o ódio vitalício de Gustavo pelo mafioso mexicano. Fosse qual fosse o historial criminoso de Gus ou as possíveis ligações ao regime ditatorial chileno, Don Eladio estava ciente de tal, tatuando-lhe um dos seus piores dias.

"Don Eladio está muerto! Sus capos están muertos! Ustedes no tienen a nadie mas por quien pelear. Llenen sus bolsillos y váyanse en paz. O vengan a pelear conmigo y mueran!"

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“All of them, Hector. Don Eladio, Don Paco, Cesar, Reynaldo, Ortuno, Cisco and Luis Escalara. All dead.”

Posto isto, conhecendo o passado trágico de Gus, sabemos que existem claros motivos naquela misteriosa mente para uma longa jornada de vingança. Porém, ao contrário da Noiva em “Kill Bill”, por exemplo, a regra “sangre por sangre” aplica-se de forma bem mais paciente. Em vez de atacar desesperadamente no dia seguinte, Gus segue todos os passos aos quais é ordenado por Don Eladio até poder dispensar aquela parceria, alcançando o estatuto de máximo Lord da Droga do sul dos Estados Unidos. É então que, concretizado o assassinato de Eladio e os seus associados, com Hector altamente debilitado numa cadeira-de-rodas, Gustavo executa a definição de “vingança servida fria”. No entanto, como sabemos, não é isso que acontece. A explosão provocada por Walter e Hector naquele quarto é um dos raros momentos que me faz simultaneamente sentir euforia pela vitória do protagonista (derivado o ódio pelo antagonista), mas também pena por Gustavo não alcançar devidamente a vingança que pretendia.

Antónimo de Heisenberg

Perpetuado com demónios assustadores, Gustavo consolida-se e torna-se num dos homens mais apáticos do mundo do crime de “Breaking Bad”. Para além de se mostrar totalmente capaz de matar empregados para intimar quem deseja, é, acima de qualquer outra coisa, tudo o que Walter White deseja irracionalmente ser. Gustavo Fring não é muito mais que um Walter na sua melhor versão. Sendo, no entanto, o oposto do mesmo. Mesmo impressionado com o profissionalismo de Gus, aparte a lenda na qual Heisenberg se torna no fim da sua jornada, Walter White não tem (nunca teve, aliás) o que é necessário para se tornar num verdadeiro Lord da Droga. Por diversas razões. Como se pode confirmar pela sua ascensão (pessoal e criminosa), Walter é um homem involuntariamente jogado num mundo que desconhece por completo. Mas, apercebendo-se do poder que tem sobre o jovem discípulo e até o advogado, aumenta indescritivelmente a sua vontade de ter enormes pilhas de maços de notas gordos, cometendo atrocidades cada vez mais difíceis de justificar. Atrocidades estas apenas realizadas ou encomendadas para satisfazer o seu ego infinitamente faminto. Neste enorme processo de cinco temporadas, por muito que seja o nosso afeto pelo anti-herói, reconhecemos que a infantilidade que o leva a comprar grandes carros e um bonito apartamento num abrir e fechar de olhos é aquela que não permitiria a Gus ter o seu Império. Ao contrário do doente oncológico, Gustavo não tem a intenção de revelar à vizinhança quantos zeros tem a sua conta bancária.

Sugerido: Walter 'Heisenberg' White - violência e a perda da insignificância

Um homem fundador de uma linha de gigantes lavandarias e de uma cadeia de fast-food à base de uma receita caseiramente sul-americana de frangos tem o dinheiro que quiser. Existindo muito mais dinheiro a circular na conta de Gustavo Fring, é através do investimento em campanhas de reabilitação de agarrados e à semelhante dose de doações que a mínima suspeita criminosa é absolutamente eliminada.

“What does a man do, Walter? A man provides for his family. When you have children, you always have family. They will always be your piority, your responsability. And a man … a man provides. And he does it even when he’s not appreciated or respected … or even loved. He simply bears up and he does it. Because he’s a man."

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“If you try to interfere, this becomes a much simpler matter. I will kill your wife. I will kill your son. I will kill your infant daughter.”

Planeando ameaças ou dando definitivas lições de vida a Walter, Gus é quase como um indesejado mestre. Apesar de posteriormente ameaçar seriamente a família do químico careca, Gustavo foi fundamental para o estabelecimento do código moral do personagem principal, assente na regra siciliana tão presente em filmes clássicos de máfia - “Tudo pela Família. Nada contra a Família.”. Definindo o verdadeiro propósito da vida de um homem e assegurando a presença de Walter na sua organização, oferecendo uns irresistíveis 3 milhões de dólares por 3 meses do seu tempo.

Conduta profissional e Capitalismo

Fica mais que solidificado o restrito profissionalismo de Gustavo. Mas, como qualquer atividade excessivamente praticada, as consequências surgem inevitavelmente. Ou seja, como já disse, a maneira como Gus controla e dirige a sua vasta companhia é o total oposto da qual idiotas como o Badger ou psicopatas como o Tuco Salamanca fariam. O primeiro é motivado pela melhor moca que pode apanhar. O segundo é um maníaco motivado pelo estúpido impulso e constantes ameaças. Se há coisa que distingue ainda mais Gus dos restantes criminosos de “Breaking Bad” é todo o seu pensamento e ética profissional, também crítica ao corporativismo e capitalismo americano.

Pensemos desta maneira. O Gus aborda o tráfico de metanfetaminas como um negócio idêntico a qualquer outro. No entanto, o debate feito aqui não é o da legalização das drogas, mas sim do comportamento de um homem motivado cegamente pelo sucesso. Se uns reles traficantes apenas usam o medo como a sua melhor arma, o Gus, para além de utilizar o seu impecável disfarce, é a personificação da eficiência. Um homem que repugna os animais do mundo da droga, que “investiga todos com quem trabalha” e que “não usa o medo como uma motivação”. Bem, mais ou menos. Quando falamos em motivação, geralmente lembramo-nos de todas as vezes que o Walter comete horríveis atos, como envenenar o pequeno Brock. Justificando-as sempre com a segurança e bem-estar da família. Similarmente, Gustavo, através da sua dureza incomodamente reservada, aborda a morte de um empregado como um problema logístico que põe apenas em causa a funcionalidade do seu negócio. Não um moralmente voraz. Vestindo a bata vermelha com uma calma sinistra, cortando a garganta do seu guarda-costas com um x-ato unicamente para assustar quem o desobedece, e despindo a bata já ensanguentada com a mesma serenidade, Gus demonstra ser o líder mais radical de uma organização fundada no capitalismo – “o máximo lucro através de quaisquer meios necessários”.

“Este producto es la droga del futuro.”

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“Pollos Hermanos, where something delicious is always cooking.”

A conclusão é a seguinte. Mesmo Gus conseguindo concretizar o quase impossível na economia destrutiva de “Breaking Bad”, acontece o que já foi mencionado. Primeiro, percebemos facilmente que este se trata de um homem solitário, sem os entes queridos à sua volta. Provavelmente o que acontece entre Skyler e Walter na quinta temporada seja o mesmo que ocorreu muito antes entre Gus e a família. Segundo, observamos a decadência emocional de um homem apaixonado pelo seu negócio, tornando-se num que vive monotonamente a favor de uma satisfação capital insípida. Terceiro, mas não menos importante, estudamos a dualidade entre duas caras – o simpático, generoso e sorridente filantropo possuidor de clientes satisfeitos; e o criminoso impiedoso e incontornável que simplesmente perdeu a humanidade dentro de si. Nos seus últimos segundos, Gustavo Fring não é visto a chorar por não voltar a ver a mulher ou os filhos, mas sim a preocupar-se com o seu bonito fato e a endireitar a gravata desfeita.

 

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Sorry for Your Loss S1 – o Facebook sabe fazer séries

Fui, juntamente com metade do Mundo, uma das pessoas que torceu o nariz quando, em 2017, foi lançado o Facebook Watch – a plataforma da rede social de Mark Zuckerberg dedicada à produção de conteúdo televisivo original. Um total superior a 1 bilião de dólares foi o investimento, cujo 55% do lucro da publicidade seria para os criadores e os restantes 45% para a empresa. Não sendo nada disto relevante, a principal questão é: “A série é boa?”.

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“Sorry for Your Loss” trata-se de uma criação da guionista Kit Steinkellner. Entre os realizadores que trabalharam nos 10 episódios, o que se encarregou do maior número foi James Ponsoldt, lembrado recentemente pelo péssimo “The Circle”, de 2017. A série conta a história de Leigh Shaw, uma viúva com menos de 30 anos que simultaneamente recorda os momentos definitivos da sua relação com o marido e lida com problemas familiares. No decorrer, esta passa por um novo processo de autoavaliação.

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Sugerido: The Circle (O Círculo, 2017) - Crítica

Foi inicialmente descabido quando o Facebook decidiu iniciar a sua disputa contra a Netflix, tal como outras empresas. Mas a verdade é que, assim que saiu o trailer desta série, uma ligeira hype se formou na minha pessoa, que, curiosamente não vê tantas séries como maior parte da população global. No entanto, o que dizer de “Sorry for Your Loss”? Para já, a série é boa. A aposta de um dos bilionários mais jovens do mundo foi bem calculada. Sendo que o crédito vai inteiramente para a equipa por detrás de tudo. Com um elenco jovem e compromissado, um texto sincero e com algum ar fresco, realização competente, uma fotografia limpa e oportuna, uma banda sonora perspicaz e a ausência de necessidade de encher chouriços, “Sorry for Your Loss” foi uma agradável surpresa.

A começar pelos temas abordados. Para além de um honesto e inteligente retrato do luto individual (ou coletivo), o guião, mesmo transcrevendo exatamente aquilo que os criadores pensam sobre determinado assunto (suponha-se), nunca adota qualquer artificialidade. Os diálogos fluem bem com os respetivos personagens em diversas situações e aquela área moralmente cinzenta está presente, permitindo ao espectador desenvolver uma reflexão ou debate interior, uma vez distanciado dos conceitos do “branco” e “preto”, do “correto” e “errado”.

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Quando a trama não segue a protagonista no seu confronto contra a pesada tristeza provocada pela viuvez e na seguinte tentativa de se reinserir na vida social e profissional, navega entre a perspetiva dos personagens secundários sobre casamento, divórcio, família, alcoolismo, sexo, a falsa imagem que projetamos no meio social, a inútil necessidade de nos sentirmos universalmente apreciados, entre outros. A série é tematicamente rica não só graças ao guião, mas também, como é óbvio, às interpretações. A começar pela Elizabeth Olsen, que dá facilmente a melhor performance da carreira até agora.

Desta vez, com o protagonismo, a atriz revela o quão os seus dotes artísticos vão mais além do género dos super-heróis, exigindo que o público a leva a sério futuramente. Até porque o estudo de personagem é ótimo. Por muito desagradáveis, apáticas ou revoltadas que sejam as reações da personagem perante qualquer coisa, é difícil ficar contra ela, mesmo expostos todos os seus defeitos. Através de uma lágrima indesejada, um revirar de olhos provocador, um insulto repleto de ironia, um pequeno gesto corporal, um nó na garganta ou um simples silêncio, torcemos pela Leigh num dos processos mais duros da sua vida.

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O Mamoudou Athie devia ser considerado também protagonista da série, assim como a Elizabeth Olsen. Para além de muito talentoso e carismático, é ainda um dos personagens mais serenos, contrapondo-se à personalidade da Leigh. Devido à sua calorosa presença e à necessidade iminente do público de saber como e quando é que a sua morte ocorreu, a ausência deste nota-se muito facilmente. Para além disso, o personagem é igualmente um instrumento para se discutir um determinado assunto muitas vezes abordado de maneiras erradas na nossa praça.

Ao contrário do que a Internet esperava, a Kelly Marie Tran não é idêntica à sua prestação em “Star Wars: The Last Jedi”. Ao contrário da Rose Tico, a Jules Shaw é uma das personagens mais interessantes aqui presentes. Juntamente com uma genuína relação de irmãs, é através dos seus olhos que o público se consegue posicionar no lado de alguém que é constante e injustamente pisada pela miséria ou passiva-agressividade de terceiros. Uma pessoa bem-intencionada, um pouco azarada, mas sem o mínimo de ingenuidade, que acaba por ser consequentemente, por vezes, o alvo da chacota.

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Sugerido: Star Wars: The Last Jedi (Star Wars: Os Últimos Jedi, 2017) - Crítica

A Janet McTeer consegue simultaneamente injetar uma boa dose de humor, seriedade e uma das presenças maternais mais distintas dos últimos anos. Para além de uma mulher desesperadamente ansiosa por ver a filha feliz, é ainda uma mãe adepta de medicinas alternativas, tarot e consultas psíquicas, o que fornece um tom leve à série, proveniente dos diálogos mais ridículos. No entanto, no núcleo da personagem, algumas decisões estranhas forma tomadas, nomeadamente uma situação bem especifica e aleatória no sexto episódio. Para além disso, a atriz tem uma boa química com o Don McManus e com a Carmen Cusack, ambos competentes, mas subutilizados.

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Depois de “Fences” e de “The Leftovers”, o jovem Jovan Adepo continua a surpreender. Desta vez, com um pouco mais de tempo em cena, constrói um personagem muito de fácil de gostar. Compreendemos o seu lado, ouvimo-lo a discutir com a protagonista e esta interação é uma das mais interessantes da série, tendo podido muito bem dar para o torto, narrativamente falando.

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Os restantes problemas da série consistem principalmente noutros personagens. Primeiro, há um casal gay. Mas desenganem-se se acham que a série tenta fazer alguma coisa com eles tendo em conta alguns assuntos já mencionados. O casal gay amigo da protagonista apenas existe … porque sim. Porque aparentemente é sinal de homofobia não escrever nenhum personagem homossexual num filme ou numa série atualmente. Quero lá saber se tem ou não personalidade ou se contribui para alguma coisa na trama, desde que esteja lá. E, já que a série aborda as interações sociais por vezes difíceis dos personagens em questão, perdeu-se outra oportunidade – desenvolver uma amiga da protagonista que aparece no início e só volta no fim. É completamente desperdiçada. E digo isto como alguém que a desvalorizava quando a viu pela primeira vez e, assim que entendeu o propósito da sua existência, pensou imediatamente em 1001 formas de desenvolver ainda mais a personagem. Desperdício incompreensível.

Por fim, alguns podem se queixar dos últimos episódios, acusando-os de serem anti-climáticos, de não terem uma nota final diferenciada das demais. Mesmo inicialmente indeciso sobre o que recebi, eu acho que a série terminou exatamente onde devia. A história foi contada e deve acabar por aqui. Uma segunda temporada será irrelevante.

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“Sorry for Your Loss” está longe de ser uma das melhores séries do ano. Porém, com um elenco carismático e uma intimidade temática que capta a atenção e os demónios internos do público, consegue achar um lugar distinto na nossa memória.

 

Nota: B+

 

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A Simple Favor – fazer comédia é mais difícil que fazer drama

Citando um sábio chamado Luís Franco-Bastos: “A Internet é f*****.” Não há uma maior verdade que esta. “Gone Girl” é um dos filmes mais apreciados de 2014. David Fincher é um dos maiores realizadores da sua geração. Eu … nunca vi. Mas conheço-o perfeitamente. As comparações entre “A Simple Favor” e “Gone Girl” são claramente inevitáveis. Obrigado pelos spoilers, Internet.

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Mas falando do que interessa. Caros leitores, se são uma das três que leem o meu blog, já repararam que, em 2018, parei de cobrir as estreias. Simplesmente cansei-me de escrever apressadamente acerca de determinados produtos que ou não mereciam sequer crítica ou que mereciam uma reflexão mais demorada antes do seu conteúdo ser transcrito para um texto meramente opinativo. Por isso, serão cada vez mais raros textos de filmes recentes, tenha-os visto ou não. Pois bem, “A Simple Favor” merece definitivamente um.

Baseado no livro homónimo da americana Darcey Bell, “A Simple Favor” conta a história da amizade de Emily e Stephanie. Duas mães, duas personalidades, duas melhores amigas. Enquanto que Stephanie é uma mãe especialmente moderna – vlogger, cozinheira habilidosa e uma jovem mãe solteira aparentemente parola, púdica e ingénua -, Emily é uma mulher autoritária, sedutora, irreverente e extravagante. O mistério em volta do desaparecimento de Emily inicia em Stephanie uma jornada de investigação e reavaliação.

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O filme foi realizado pelo Paul Feig, responsável por enormes êxitos da comédia como “Bridesmaids”, de 2011, e “Spy”, de 2015. Desta vez, ele certamente se superou, iniciando aquele que pode ser considerado um estilo próprio. Digamos que, da mesma maneira que “Get Out”, do Jordan Peele, não se insere necessariamente em nenhum género em particular, sendo uma enorme mixórdia autoral de terror, ficção científica e humor negro, “A Simple Favor” emerge o potencial do seu realizador num território (até agora) explorado quase na perfeição apenas por ele.

Para além de incluir momentos mais dramáticos e graficamente violentos, “A Simple Favor” é um thriller cheio de reviravoltas que mantém o espectador a receber surpresas constantemente, devido à respetiva perceção anterior que tinha do mesmo, que morre pouco depois do início da segunda metade. “Deve ser apenas uma históriazeca com demasiado estilo e pouca substância – uma premissa demasiado genérica.”, pensava eu, juntamente com mais alguns membros da sala. Não foi o caso.

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Para já, falemos de style over substance em relação a outro filme qualquer, não com este. “A Simple Favor” é um dos filmes mais bem dosados de 2018. Primeiro, sim, o filme é altamente estilizado, desde o trabalho de câmara recente e visionário na própria filmografia do Paul Feig, assim como a edição maravilhosamente orquestrada a favor do visual e ações dos personagens, assim como da música. E que música! Devemos estar perante uma das melhores seleções musicais do ano, juntamente como “American Animals”. Desde à magistral coletânea de música francesa (demonstrativa provavelmente do amor do próprio realizador ou do compositor Theodore Shapiro pelo cinema francês) até It’s a Sunshine Day, da sitcom “The Brady Bunch”.

Sugerido: American Animals - um pouco de filosofia animalesca

A fotografia é um show à parte. O americano John Schwartzman enche o filme de cor e consequentes simbologias de modo simultaneamente calculado e excitantemente desordenado, construindo uma realidade visual que não se podia adaptar de melhor maneira à premissa inicial e prosseguistes twists e descobertas. Acumulado a todo o estilo distinto do filme, está um guião cheio de camadas, humor do mais engraçado e um dos comentários mais genuínos acerca da sociedade contemporânea e as expectativas impostas sobretudo às mulheres. Mérito este, claro, da Darcey Bell, mas igualmente da guionista Jessica Sharzer, conhecida por “American Horror Story”.

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Para os mais interessados em filmes pós-movimentos feministas modernos (#MeToo ou #Time’sUp), “A Simple Favor” não podia encaixar melhor. Pelos olhos de uma mãe que vive em função para preencher todas as expectativas impostas por uma sociedade à espera de ver uma mulher (de modo estereotipado) quase santificada e jamais dizendo palavrões, trocando ideias sobre sexo e casamentos consideradas nefastas ou (em última caso) manipulando os outros para dentro de esquemas criminosos descabidos e altamente perigosos, o filme convida o público a observar a transformação de uma mulher dos dias atuais naquilo que se pode considerar no modelo ideal do sexo feminino, ao invés do oposto – observar uma mulher moralmente fragmentada e duvidosa numa cidadã que satisfaça os olhos de terceiros, que “minta a todos”. Toda esta espetacular visão é propositadamente exaltada por uma violência (por vezes bem à vista, por vezes subentendida), diálogos lindamente longos e uma edição frenética dignos de um trabalho do Tarantino.

De resto, o elenco segura-se extremamente bem. A Anna Kendrick dá, no mínimo, a melhor interpretação da carreira. Apresentando-se como uma daquelas mães ridicularizadas constantemente pelos restantes pais e mães, enquanto se mantém quase obsessivamente atenta à imagem e ativa em qualquer meio (seja ele digital ou educacional, devido à extrema dedicação ao filho). Devido a todas as revelações, vaivéns tensos e passado trágico, Stephanie torna-se numa das protagonistas mais carismáticas do ano. Para além disso, é engraçada, inteligente, ousada e imperfeita, mantendo uma capacidade de se impor sem jamais levantar o tom da voz. É assim que se deve desenvolver um estudo de personagem.

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A Blake Lively é a força com maior identidade, extravagância e ambiguidade do filme. Independentemente de quem o público gostar mais entre estas duas, é inegável afirmar que a atriz tem um lado fundamental. Ou seja, apaixonamo-nos pela Emily (e pelo seu próprio e notável amor por martinis) umpara nos apaixonarmos pela Stephanie. Desde “The Shallows” que Blake Lively toma decisões na carreira que só a enriquecem mais como atriz. Venham mais papéis destes.

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O Henry Golding, mesmo inferior às duas protagonistas, traz mais carisma e faz tudo certinho aqui, deixando o público tecer as suas opiniões acerca do personagem, para depois se surpreender e desmistificar aquilo que de pouco sabia.

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Falando novamente do guião, os únicos elementos do guião que danificam o filme na sua segunda metade eram, de facto, evitáveis, perdendo-se a possibilidade de tornar “A Simple Favor” numa obra perfeita. São estes um diálogo excessivamente expositivo, cujo conteúdo podia ser simplesmente mostrado através de alguns flashbacks com uns voice overs moderados. Contudo, podia ser mais incómodo. Não se distancia do tom, pelo menos. De seguida, há uma personagem que podia ter uma participação bem mais importante. Tanto esta como a própria atriz tinham potencial. Ficou por onde ficou. Desperdício.

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“A Simple Favor” é um mistério engraçado, satírico, extravagante, sexy e diferente. Paul Feig e a dupla de atrizes elevam o seu jogo e dão-nos uma das peças de cinema mais originais de 2018.

 

Nota: A-

 

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2001: A Space Odyssey - uma epopeia pela existência

Se passado todas estas décadas, ainda se continua a discutir um determinado filme, é sinal que haverá sempre mais para ser explorado.

“2001: A Space Odyssey” foi lançado no dia 1 de Outubro de 1968 nas salas portuguesas. Foi realizado pelo génio incontestável americano Stanley Kubrick, tendo sido co-escrito pelo mesmo juntamente com o autor inglês Arthur C. Clarke. Ao contrário do que muitos pensam, o filme não foi baseado no livro homónimo. Stanley Kubrick propôs o desafio ao escritor assim que leu o seu conto “The Sentinel”. Sendo assim, o romance foi elaborado paralelamente ao argumento, tendo sido publicado após o lançamento do filme e cujos créditos ficaram unicamente na posse de Clarke.

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Mesmo com uma participação ativa mútua em ambos os projetos, o objetivo era simples: Kubrick empenhar-se-ia mais no argumento, enquanto que Clarke se dedicaria mais ao livro. O resultado não foi exatamente o previsto, visto que, deste planeamento, resultaram inevitáveis divergências. Ainda assim, ambos os artistas conseguiram o pretendido. Enquanto que o romance era uma complexa e informativa discussão científica, filosófica e existencialista, o filme era, basicamente, a respetiva tradução audiovisual, cuja trama avançava maioritariamente através de imagens, simbolismo, música e pouquíssimos diálogos. Não tendo qualquer conhecimento sobre o livro (com muita pena), apenas posso (e devo) afirmar que “2001: A Space Odyssey” é uma indubitável gema do Cinema.

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A começar pela já mencionada narrativa que, decerto, aborrecerá muita gente depois de recomendada. Muitos ainda se queixam do ritmo lento. Concordo, não é o filme de ficção científica mais ágil. Não é a minha primeira escolha quando me apetece relaxar num fim-de-semana. Outras pérolas cinematográficas como “Alien” e “Blade Runner” têm ritmos mais acessíveis e conseguem desenvolver conflitos, twists e antagonismos complexamente. No entanto, se, tal como o Ridley Scott, o Kubrick tivesse feito várias versões do filme, perder-se-ia o propósito. “2001: A Space Odyssey” não pretende ser um filme de terror nem um que seja lembrado pelos seus personagens.

Sugerido: Blade Runner (Perigo Iminente, 1982) - Análise e Crítica

Devemos antes olhá-lo como um ensaio existencialista, um exame detalhado quase ao microscópio (ou telescópio) da nossa própria natureza. É como se estivéssemos a ver um filme feito por extraterrestres que, depois de milhões de milénios, nos representassem fielmente num documentário. Ao longo de 50 anos, muitas têm sido as interpretações acerca do monólito (a sua origem, o seu propósito e o seu significado). Esta é a minha. Mais simples é impossível. Uma vida exterior à que conhecemos que nos observa desde o início de tudo, analisando cada pegada na areia até à mais complexa das invenções. Fora disso, seria bom demais acreditar que o monólito é responsável pelas ações da Humanidade. Isso queríamos nós.

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Quando começa, “2001: A Space Odyssey” não só faz justiça para com as nossas características tão intrinsecamente presentes e/ou disfarçadas, mas nos descreve tudo além disso. De início, vemos um simples, porém estupidamente vasto deserto, montanhas implacáveis e uma grandeza quase infinita para ser explorada. De um lado, estão esqueletos poeirentos, chitas à espera da mais fácil presa e porcos indefesos. Do outro, espalhado pela terra, pó e pedras, um grupo de macacos a procurar a sobrevivência no meio de pequenas, insípidas e cinzentas ervas.

Em diante, desde a caça dos predadores até ao confronto final entre os dois grupos de macacos, o que sucede é uma série de acontecimentos que listam todos os nossos defeitos e virtudes intemporais: a indiferença para com o outro e o consequente egoísmo instintivo de sobrevivência; o medo do desconhecido em união com o fascínio pelo mesmo; a primitividade e a perceção de domínio e de autoridade; o engenho e o olhar criativo, evolutivo e visionário; a gradual fome e procura por carne; o desenvolvimento de básicas emoções como o afeto, a dependência maternal, o ódio e o desejo de vingança. E finalmente (talvez com maior peso) a capacidade de matar. Tanto a outra espécie como a nossa própria. Tudo isto … sem diálogos.

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Kubrick transfere genialidade da sua própria simplicidade. Não é por acaso que o corte (provavelmente) mais icónico da Sétima Arte não seja um elemento mais elaborado que uma mera transição de um insignificante, destrutível, mas simbolicamente poderoso osso para uma majestosa nave espacial. Praticamente todos os lados apontam para uma evidente evolução da espécie humana. Parece evidente, não? Novamente discordo. Muitos se referem ao famoso corte como uma prova da nossa derradeira evolução física e intelectual. No entanto, como o próprio filme demonstra posteriormente, o macaco pré-histórico, sujo e descivilizado não é diferente do Homem limpo, elegante, admirável e inteligente.

A brusca e silenciosa transição não demonstra mais que o progresso científico. Pois, moral e eticamente falando, caímos no erro de nos esquecermos da impossibilidade de uma transformação absoluta do primata para o cidadão ideal, a inevitabilidade de nos julgarmos superiores aos nossos antepassados. Tal como o macaco, o astronauta decidiu sacrificar a própria espécie para garantir a respetiva (e singular) sobrevivência. Portanto, o que estará dentro destas camadas? Vamos por partes.

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Quando chegamos ao espaço (milénios depois de aprendermos como os macacos ocupavam o tempo dos seus longos, mudos e tediosos dias no deserto), através de sensacionais planos simétricos e abertos e uma fotografia progressivamente mais eclética, colorida e louca, observamos um bailado de elaboradas naves, sondas e satélites que, para além de evidenciarem a nossa capacidade de manipular a natureza a nosso favor, construindo o nosso próprio futuro benevolentemente tecnológico, provam, inclusive, que a ambição do bicho conhecido por Homem é interminável e incontrolável. Uma sequência magistralmente contada através da precisa filmagem de maquetes lindamente detalhadas. Ao som de Danúbio Azul, do austríaco Johann Strauss II. Já em 1968, o perfecionismo obsessivo de Kubrick levou à construção de uma realidade desejada por toda a comunidade científica.

Tal como “Blade Runner” (cujo ano de 2019 se aproxima), fora todas as questões que levanta, “2001: A Space Odyssey” imprime uma admiração pela vontade e capacidade de evolução do ser humano. No entanto, depois de toda uma ostentação que deixa permanente em nós a vontade de viajar pelo espaço, são altamente subtis (e brilhantes) os pequenos detalhes que Kubrick semeia por toda a narrativa que demonstram, melhor que outro filme qualquer, por que razão a nossa própria ambição tecnológica, científica e expansionista é o nosso maior perigo.

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Desde a caneta fora de mão, às instruções de uso na casa de banho sem gravidade, às papinhas e compotas de bebé do David Bowman e do Frank Poole, aos respetivos ritmos respiratórios pesados e incomodados e à mixórdia de todos os comportamentos do Homem que subestimam a sua própria máquina e a vontade imprevisível do Universo, o Ser Humano, dentro do extraordinário e desconhecido meio espacial, nada mais é que um peixe fora de água. Se, no início do Tempo, observámos o monólito com um tremendo medo, mas seguinte admiração, louvor e fascínio, em 2001 (o ano do futuro), aterrando na Lua, abraçamos uma descoberta e conquista que não nos pertence, abordando o grande paralelepípedo negro e apático de modo arrogante e colonial. Tal que somos castigados.

Não somos capazes de controlar as próprias relações conflituosas que mantemos durante séculos entre nós. Como é que queremos (ou sequer pensamos conseguir) controlar o que vai além do nosso planeta. Em “Paths of Glory”, de 1957, observamos diálogos odiosos e odiáveis dentro do meio militar da Segunda Guerra Mundial, disfarçados com o vocábulo mais simpático entre personagens passivo-agressivos. A oferta de “2001: A Space Odyssey” foi semelhante. Colocar astronautas russos e americanos na mesma mesa não podia ser mais acertado. Pequenos gestos, olhares e palavras são trocados de modo a expressar um contacto que ambas as nações permanecem em evitar.

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Fora disto tudo, temos uma narrativa que nos leva ao infinito de maneira simultaneamente elaborada e cuidadosa e agressivamente aleatória. Pegando em dois astronautas que, para além de não revelarem qualquer emoção interior paralela às declarações que dão, são postos totalmente na sombra de HAL 9000, o restrito e passivo-agressivo sistema operativo da Discovery One. O maestro de uma das conclusões mais frequentes do cinema de ficção científica: “Não há nada mais humano que a vontade de sobreviver e o livre-arbítrio.”. Num filme definitivo sobre a passagem do Homem no Universo, o personagem mais reconhecível, citável e até mais carismático trata-se de um robô, uma consciência moralmente independente, autoritária e absolutamente artificial. Cuja assustadora presença se deve claramente também ao trabalho simplista e espetacular do canadiano Douglas Rain. As pessoas nunca tiveram tanto medo de um computador.

“-Hello, HAL. Do you read me, HAL?”

-Affirmative, Dave. I read you.”

-Open the pod bay doors, HAL.”

-I’m sorry, Dave. I’m afraid I can’t do that.”

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“I’m afraid. I’m afraid, Dave. Dave, my mind is going. I can feel it.”

Contudo, para além do significado do monólito, da real capacidade de compreensão do HAL, do subtexto correspondente à Guerra Fria e à insana viagem do David Bowman pelo infinito exterior às condições espaço-tempo, o que mais prende o espectador depois de inúmeros visionamentos é o final. E que final.

No fundo, não posso acrescentar nada que não tenha já sido dito. Supostamente, “2001: A Space Odyssey” contém um dos finais mais ambíguos do Cinema. Mas será assim tanto? Talvez não. Simplesmente deve ser interpretado como o fechar de um ciclo. Nascemos, crescemos, envelhecemos, morremos e … renascemos? Quem sabe? Nos olhos do realizador, a nossa morte é apenas a porta para a fase seguinte, seja ela um eterno e negro vazio ou um brilhante casulo ao lado das estrelas. Para além de David Bowman chegar precisamente a essa fase observando obras de arte historicamente importantes, apreciando a sua última refeição, dormindo o seu último sono e se encontrando com o misterioso monólito com o qual partilha o seu último suspiro, transforma-se na arrepiante Starchild. Novamente sob a melodia maravilhosa de Also Sprach Zarathustra, do alemão Richard Strauss. A música que presencia primeiramente a luz do Sol e a dimensão da Lua. A música que (depois de uma escuridão inicial de 40 segundos) abre … e fecha o filme.

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“2001: A Space Odyssey” é uma genuína obra de arte. Uma das mais puras e umas das mais importantes. Depois da música clássica, do trabalho de câmara estupidamente à frente do seu tempo e das questões intemporalmente relevantes abordadas, ficará para a memória de qualquer verdadeiro cinéfilo que oiça e veja com muita atenção.

 

Nota: A+

 

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