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Vida de um Cinéfilo

Vida de um Cinéfilo

Beautiful Boy – doses silenciosas de paternalismo

Mesmo com um texto acentuadamente real, “Beautiful Boy” é principalmente segurado pelas suas interpretações centrais, que elevam o mesmo além de um drama medianamente carregado.

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Baseado nos livros de memórias dos próprios protagonistas ‘Beautiful Boy: A Father's Journey Through His Son's Addiction’ e ‘Tweak: Growing Up on Methamphetamines’, o filme acompanha um pai divorciado que lida com o recente e pesado vício em drogas do filho adolescente.

Depois de deixar a sua marca com “The Broken Circle Breakdown”, o belga Felix van Groeningen aventura-se por um território não muito distante do seu cinema de autor, enquanto alcança o público americano (apesar do falhanço de bilheteira) e conta uma história comovente. Numa rápida análise externa, “Beautiful Boy” acha a sua particularidade sobretudo na bonita fusão entre edição e banda sonora.

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Para além de uma estrutura narrativa bem organizada com flashbacks que não presumem a incapacidade compreensiva do público no geral (como costuma acontecer com típicos filmes sobre danificações familiares), o filme acha ainda uma imagem de marca com a sua música. Algumas mudanças de tom, mesmo abruptas à primeira vista, são seguradas graças ao encaixe precisamente que as músicas selecionadas conseguem encontrar quando colocadas em cena. Formar uma mixórdia musical que inclua diversos géneros desde heavy metal a música clássica de modo a que esta se torne fluidamente agradável junto com todo o tipo de sequências é algo que já outros realizadores tentaram (sem sucesso).

E não só com a edição. A música forma um eficiente casamento igualmente com o trabalho de câmara. A fotografia harmoniosa e moderada do belga Ruben Impens (“Grave”) desenvolve uma tranquilidade que destoa da própria história, achando um equilíbrio constante. O realizador orquestra alguns planos sequência estáticos muito bem, optando quando necessário por tradicionais over the shoulder que progressivamente se transformam em close-ups, devidamente enfiando a câmara na cara dos atores (ou de frente ou num ligeiro contre-plongée).

Sugerido: Grave (Raw, 2017) - Crítica

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E, mesmo com alguns prejuízos no guião (da autoria do próprio realizador e do australiano Luke Davies, responsável pela mediana biopic “Lion”), “Beautiful Boy” consegue causar um impacto (emotivo e reflexivo) no público, sem (salvo uma infeliz exceção) recorrer à exposição barata demonstrativa do estado de espírito dos personagens. Claramente que o filme não seria o mesmo se não se beneficiasse da química e dotes dramáticos do Steve Carell e do Timothée Chalamet, cuja relação entre pai e filho convence não apenas graças aos genuínos momentos de choque entre uma parentalidade ingénua, silenciosa e excessivamente paciente de um desorientado progenitor com o temperamento explosivo e previsivelmente dramático de um adolescente com falta de chapada. O que é acrescentado aqui é a pureza das cenas mais vazias (no melhor sentido da palavra). O filme não procura preencher os espaços mais calados e reservados com artifícios que já estragaram outras biografias. Ao invés, Groeningen deixa a câmara a filmar e exibe os momentos de maior ternura falarem por si, muitas vezes praticamente com o uso de palavras mundanas. Sabe-se que um filme é bom quando parece que estamos a ver pessoas reais na tela e temos a vontade de berrar dois sermões nos ouvidos dos personagens que não agem corretamente.

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E é aqui que entram as interpretações. O Steve Carell já provou mais que uma vez que é um ator com uma enorme bagagem dramática. No que toca ao tom e até à fisicalidade, o seu personagem não diverge muito do que este fez em “Little Miss Sunshine”. É mais um retrato de uma figura carismaticamente passiva, mas (como já referi) em demasia. O personagem tem um óbvio amor incondicional pelo filho, mas nunca faz um esforço para fazer frente ao mesmo. É um pai sem quaisquer armas de afirmação, credibilidade ou imposição de respeito. Por outras palavras, é tolo, ingénuo e extremamente otimista… logo imperfeito, como qualquer pai acaba por ser.

O Timothée Chalamet consegue, com um estável carisma, fazer o estereótipo do adolescente revoltado, infantil e vitimizado funcionar muito bem. Até certa medida, ao contrário do que se costuma ver nos filmes coming of age, o personagem consegue ser mesmo detestável, demonstrando-se egoísta e indiferente face ao sofrimento na sua família provocado por si. A interpretação definitiva da sua carreira vai continuar a ser a em “Call Me by Your Name”, mas o jovem ator certamente acumulará futuras excelentes performances como esta.

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No entanto, o mesmo não se pode dizer do restante elenco. Na sombra das duas fortes interpretações centrais, diversos elementos do elenco são reduzidos (aí sim) a estereótipos do género. A Maura Tierney tinha um potencial para desenvolver a sua personagem além da madrasta tipicamente compreensiva e calma, sobretudo porque, ao fim de um arco inteiro de inatividade, esta tem uma cena aleatória e inútil (na falta de melhores termos). A Kaitlyn Dever é absolutamente desinteressante, vazia e inútil. Esta serve apenas para demonstrar exteriormente os efeitos noviços da droga, depois de contar (bem, por sinal) a versão do personagem do Timothée Chalamet. As cenas mais impactantes são indiscutivelmente as nas clínicas de reabilitação e as que envolvem droga de alguma maneira (metanfetaminas, heroína, cocaína, erva). Não é um filme tão pesado como “Requiem for a Dream”, com certeza, mas consegue fazer um bom retrato de um jovem em negação e com vícios graves e de um pai desesperadamente preocupado e à procura de ajuda.

O par infantil Christian Convery e Oakley Bull, mesmo competente, podia deixar uma maior marca que fosse além das pequenas cenas ternurentas do núcleo familiar. E a Amy Ryan foi o maior desperdício. Trata-se apenas da ex-mulher inconveniente. As cenas dela que apelam para um maior sentimentalismo são completamente inconsequentes. Se um personagem masculino em específico fosse retirado, dar-se-ia mais espaço e propósito para a personagem. Resolvia-se dois problemas em um. Aliás, espaço foi um problema. O filme tem exatamente duas horas e parece mais longo. Verificar o relógio numa sala de cinema nunca é bom sinal. Excluindo-se personagens e algumas cenas vazias, encurtar o filme para 90 minutos (ou mesmo menos) era simples.

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Graças a diversos momentos de amor paternal, “Beautiful Boy” dá-nos duas excelentes interpretações principais e uma eficiente e empática maneira de nos investirmos nos personagens e naquilo que está a ser transmitido com pura genuinidade. Como qualquer obra sobre laços familiar fragilizados, o potencial do filme para se tornar num ótimo drama era considerável. Devido aos significativos desvaneios narrativos, este perde algum impacto sobretudo perto do seu ato final, mesmo terminado numa nota benevolente.

 

Nota: B-

 

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Sara T1 - a monumental e definitiva sátira televisiva portuguesa

Depois de brindar a Europa com “São Jorge”, Marco Martins trabalha pela primeira vez na televisão… E foi assim que nasceu “Sara”, a melhor série de 2018.

Sara Moreno, uma atriz recém-quarentona conhecida pelos papéis em filmes de autor e pela particular capacidade de chorar vê-se num descarrilamento profissional e emocional quando perde precisamente a sua maior arma dramática. Na tentativa de se manter em atividade, aceita protagonizar uma novela e inserir-se nas mais caprichosas tendências sociais.

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Marco Martins não conquistou a minha eterna admiração somente com o drama de 2017. No início do ano, a peça ‘Actores’ passou por diversos teatros. O estudo autoral, protagonizado pelo quinteto Nuno Lopes, Bruno Nogueira, Miguel Guilherme, Carolina Amaral e Rita Cabaço e que explorou a “máquina emocional que é o ator”, apresentou, para além da escritura em pedra da qualidade do trabalho do cineasta português, uma premissa excecional que, juntamente com dezenas de outras, seria eventualmente explorada num dos projetos televisivos mais ambiciosos da tela nacional. Estreando meses depois e deixando um sabor amargo proveniente da ausência futura de uma continuação.

Sugerido: Uma Reflexão sobre "Actores", de Marco Martins

Quando se pensava em “Sara” como em mais uma ótima obra da RTP, muito pouco era sabido sobre o real potencial e profundidade temática da ideia original de Bruno Nogueira (quem mais?). Com um guião da autoria do ator e humorista e da dupla responsável por “São Jorge”Ricardo Adolfo e o próprio Marco Martins“Sara” é uma coletânea de todos os podres de Portugal, deambulando sobre qualquer parâmetro da nossa fútil, desinstruída, invejosa e dividida sociedade. Sem jamais apelar à exposição tão característica do audiovisual português. Quem diria que a história de uma atriz que não consegue mais chorar conseguia abranger tudo e mais alguma coisa. É só pedir.

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Temos tudo: um ator do Instagram (como o próprio Nuno Lopes gosta de descrever); um realizador de novelas excitantemente iludido; uma genérica atriz ostentadora com o sonho de alcançar os palcos e o cinema; um guru da autoajuda/life coach cheio de costumes inusitados; um realizador autoral pretensioso, autocongratulador, dependente de subsídios e “armado em Tarkovsky”; um Bob Dylan wannabe talentoso, desvalorizado e solitário; um pai distante, debilitado e em sofrimento; um agente obcecado pelas massas e cheio de tiques nervosos e intenções nefastas e uma enfermeira simultaneamente característica de doces falinhas mansas e uma apatia ética e moralmente contraditória. A lista de personagens-tipo é quase interminável, estendendo-se igualmente por membros de uma equipa de publicidade, de filmagens, de uma moderna revista de “entrevistas” e de sessões fotográficas. E, mesmo com uma construção magnífica para cada estereótipo dos meios social, audiovisual e comunicacional, todos os personagens têm camadas, fornecem momentos singularmente engraçados, dramáticos e reflexivos. Tudo isto incluído nuns 8 episódios extremamente bem resumidos.

E, estabelecido cada personagem, a série comenta também o comportamento agressivamente oportunista dos média (entenda-se revistas cor-de-rosa), as constantes e inacreditáveis indignações sociais provocadas por um mero post na Internet, o desdém diariamente presente num ambiente disfarçado de Disney World perante os holofotes e, claro, a artificialidade de produtos cinematográficos e televisivos.

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Como não ficar agarrado a uma maravilha destas sabendo que, casado à brilhante sátira, está uma magnífica linguagem cinematográfica, cheia de simbólicos e estimulantes trabalhos de câmara? Somem uma fotografia e uma banda sonora no ponto e têm aqui uma magistralidade técnica. Um cumprimento total da mise-en-scène, uma coleção que inclui desde música clássica até Xutos & Pontapés e autênticas pérolas originais como a percussão do Nuno Malo, presente no genérico. Sem nada que supere, no entanto, a seleção musical daquele final. Quem viu a peça em Janeiro sabe perfeitamente do que estou a falar.

E, sem quaisquer surpresas, o elenco é a cereja no topo do bolo. Marco Martins conta com suspeitos do costume e com novos colaboradores, todos com o devido tempo para causarem um impacto. Falemos da irretocável Beatriz Batarda… Uau! A Sara Moreno é uma personagem clássica instantânea da cultura audiovisual portuguesa. Depois de trabalharem nas três longas-metragens do cineasta (um número injustamente reduzido, se me perguntarem), fica solidificada uma dinâmica realizador-atriz que lembra estudos de personagem comos os feitos em “Elle” e “Aquarius” (não, estas comparações não são descabidas). Cheia de quebras, esgotamentos, demónios, preconceitos, oportunidades pessoais e profissionais perdidas e um total desajuste nos campos sobrevalorizados por um país, a personagem ganha o afeto imediato do público, provocando uma necessidade de partilhar aquela jornada de reavaliação e descoberta. Estudantes de representação têm aqui uma aula.

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O Albano Jerónimo está sensacional! Tudo aquilo que o personagem transmite é venenoso. É um exemplo perfeito de uma perversidade sofisticada, auxiliada por uma natureza irritadiça, esquisita e levemente monstruosa (para além de um elegante guarda-roupa negro). É um pequeno suspiro maléfico no ombro da Sara, um diabinho que se aproveita da ausência de um anjo no outro ouvido da sua vítima. O maldito corvo.

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A Rita Blanco está novamente sólida com uma personagem divertida, amiga da protagonista e com diversos pontos de vista contrários aos daquela, originando alguns debates convenientes nestes dias na nossa praça. A atriz está ótima porque está sempre ótima.

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O Nuno Lopes voltou à comédia mais declarada e está-se a divertir bastante a interpretar um ator (digamos) totalmente oposto a si na vida real. Aquele sem qualquer tipo de noção artística que simplesmente quer ganhar o seu cachê protegendo uma imagem fútil, reciclável e inexistente.

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O Bruno Nogueira dificilmente será catalogado além de um alívio cómico. A verdade é que, sendo um enorme fã da sua carreira de stand-up comedian e desconhecendo o seu histórico de ator, foi apenas vendo ‘Actores’ que notei o lado mais negro do artista. Aqui, este interpreta um típico life coach da maneira mais brunonogueiresca possível, mostrando gradualmente a sua única faceta – a de um homem genuinamente fragilizado.

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O António Durães, sem uma única palavra (para além das presentes nas tristes declarações existencialistas do livro narrado lindamente pela Beatriz Batarda), consegue transmitir todo o cansaço e vontade de partir. A relação com a filha, ainda que silenciosamente atribulada, é responsável por diversas cenas comoventes e pelas reflexões da série mais profundas sobre vida, tempo, família, amor e morte.

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Sugerido: Madre Paula T1 (2017) - Crítica

E há ainda ótimas participações de Tonan Quito, Cristóvão Campos, Inês Aires Pereira, Teresa Faria, Filomena Cautela, Leonor Silveira e do gigante José Raposo. O único que merecia mais tempo era o Miguel Guilherme. A sua química com o José Raposo é perfeita e originária de cenas genialmente engraçadas, mas o personagem acaba por ser indiferente e o ator é demasiado talentoso para ficar reduzido àquele.

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“Sara” é, juntamente com maior parte das recentes séries nacionais, uma prova da qualidade e do talento existente em Portugal. Se não foi por outras obras, será por esta que o público se apaixonará e perceber o quão bom é ver boas histórias, boas personagens e uma boa equipa por trás a falar uma língua tão bonita que é a portuguesa. Desliguem a Netflix e liguem a RTP.

 

Nota: A

 

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Lodge 49 S1 – epicurismo contemporâneo

O AMC já se provou capaz de desenvolver excelentes séries. Curiosamente, a maioria delas apenas atingiu a fama global depois de 1 ou 2 temporadas do mínimo reconhecimento. O progresso pode ser definitivo. “Lodge 49” pode ainda ter muita coisa para contar.

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Jim Gavin será certamente um nome que não cairá no esquecimento. O criador da nova série original do AMC é um completo desconhecido e embarcou (suponhamos) no seu projeto mais ambicioso. Guardadas as devidas proporções, trata-se de um pequeno e faminto Vince Gilligan à procura da melhor maneira de simultaneamente se expressar nas pequenas telas e colocar as transcrições interrogativas das mesmas na cabeça do espectador.

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“Lodge 49” acompanha o jovem ex-surfista, inválido e desempregado Sean ‘Dud’ Dudley no seu triste quotidiano após a morte do pai. Procurando o mais conveniente meio imediato de sustento, este descobre uma fraternidade local, na qual se insere e inicia um processo de autodescoberta.

Se há coisa que a série faz bem é satirizar a tão instável coletânea de normas pseudo-complexas que as sociedades atuais tendem a priorizar para o cumprimento da felicidade (ou lá o que isso for). É exatamente isso que “Lodge 49” se trata – uma viagem simultaneamente leve e dura pelos caminhos individuais dos seus personagens, enquanto estes lutam contra intermináveis dívidas, problemas conjugais, profissionais e as suas próprias éticas, esmiuçando a validade das mesmas e o fator de responsabilidade que nelas se integram, divagando sobre as consequentes causas do rumo indesejado e inexplicavelmente imparável. Tanto o protagonista tanto os personagens secundários tendem a procurar na mais mundana ação ou na mais excitante e ridícula surpresa a luz que lhes dará algo ao qual se poderão agarrar eternamente, lutando pela maior tranquilidade possível.

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Parece que é de propósito. Já tendo visto “The Big Lebowski” inúmeras vezes (e de curiosamente ter escrito sobre o mesmo há pouco tempo), o AMC dá-me uma série deliciosamente semelhante, mas com inúmeros traços de originalidade. Para todos os efeitos, o protagonista é uma imitação fácil do personagem do Jeff Bridges no filme de 1998. Física e ideologicamente falando, o Dud é um sucessor do Dude. Um sucessor mais agressivamente deprimido, inconsequente, carente, vítima das recentes infelicidades tragicómicas da sua vida, mas um jovem-adulto preso às suas próprias ilusões e que constantemente evita o cumprimento das inevitáveis responsabilidades da vida. Quando, por alguma razão, é atraído pelo chamamento humilde e despretensioso de uma paróquia, sem exatamente saber porquê, Dud acha novas vocações diárias, compondo uma lista de inúmeras boas intenções. Boas intenções que geralmente convertem em acontecimentos embaraçosos.

A série decorre com o dito comentário social e com o estudo do personagem central, assim como as respetivas interações com os personagens secundários, entre estes destacando-se a irmã e dois recentes amigos. Enquanto ameniza o espectador através de uma banda sonora repleta de serenidade e ecleticismo e uma fotografia suavemente dourada, respetiva às perspetivas religiosas do criador e dos personagens. É muito satisfatório ver uma série cuja premissa assenta numa filosofia tremendamente desconhecida, mas extremamente profunda, significativa e convidativa. Sobretudo para quem não se identifica com os ideais da Igreja Católica, cuja crescente impopularidade atual é resultante das suas próprias hipocrisias, coisa que a série satiriza de modo impecável. Assim como a sua abordagem a temas como o destino e a imprevisibilidade do Universo.

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E as interpretações são a cereja no topo do bolo. O Wyatt Russell pode demonstrar muitas heranças físicas e comportamentais do pai, mas o ator de 32 anos terá certamente uma carreira cheia de diversidade. Como já o descrevi, acrescento apenas que o Dud não é um protagonista, por vezes, totalmente defensável. Muitos são os momentos em que desculpamos uma maior inconveniência ou um comentário antipático, pois conhecemos perfeitamente aquilo pelo qual o personagem está a passar. Porém, são também progressivos os egoísmos em que este age somente de cabeça (muito) quente, esquecendo-se dos dramas pessoais alheios. A sua personalidade é uma toda linda imperfeição.

Não gostei do que fizeram com a Jocelyn Towne. Mal se dá de caras com a personagem, apercebe-se imediatamente que há ali um enorme conflito interior, uma solidão, um constante desconforto, embaraço e vergonha. O arco da personagem tem peso e podia acompanhar o deslocado protagonista pelo resto da história. Infelizmente, esta é largada a meio da série, quando podia ter muito ainda por dizer.

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A Sonya Cassidy está excelente. Mesmo nunca ter visto “Humans”, facilmente fiquei fã da atriz, graças à sua interpretação rígida, cínica, deprimida, apática e simultaneamente explosiva e passivo-agressiva. A personagem é geralmente a voz da razão na vida do irmão e paralelamente uma ótima presença antagónica, dissipando um humor insolente, provocador, revoltado e temperamental tão único. Há apenas uma cena que a envolve no início da série que achei absolutamente aleatória e ridícula. Mas nada que tenha posto a sua identidade em causa.

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O Brent Jennings é uma presença fraternal extremamente carismática. Depois de testemunharmos inúmeras inacreditáveis injustiças na sua vida, o personagem parece estar constantemente à beira de um colapso nervoso. E é muito satisfatório vê-lo a ter sucesso, mesmo que até lá tenha sido necessário muitos constrangimentos e diversos pensamentos típicos de um anti-alívio cómico. Acompanhar o crescimento da sua relação com o Dud é muito divertido e envolvente. Temos aqui mais uma amizade televisiva muito bonita. Mas o que prende mais o espectador é a sua amizade com o Kenneth Welsh, cuja personagem é a personificação de “primeiro estranha-se e depois estranha-se”. Inicialmente, não achava propósito no seu arco e nas suas quebras insanas. No decorrer de “Lodge 49”, fica exposta a sua fragmentação consequente de uma vida repleta de fracassos e momentos perdidos. E o resultado narrativo é um conjunto de cenas bastante comoventes e até tristes.

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“Why would anyone want to live forever? I just want to live for real. For a little while, right here.”

Fora um personagem que não passa de um irritante cliffhanger, todo o elenco está bem. O Brian Doyle-Murray, o Joe Grifasi, o Hayden Szeto e a Linda Emond estão todos competentes. O Eric Allen Kramer está ótimo, assumindo um papel exigente e líder do comentário que a série faz sobre masculinidade. O Bruce Campbell articula o seu texto com uma eloquência muito particular. O Tom Nowicki aparece pouco, mas regista a sua presença eficazmente e sentimos a sua falta depois dos poucos flashbacks. O Adam Goldey está engraçado, dentro da condição nervosa, parola e fraca do personagem. E o David Pasquesi está sensacional! Cheio de personalidade e cheio de conflitos. Elencos televisivos diversificados em 2018 não ficam muito melhores do que este.

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“Lodge 49” é uma agradável, divertida e melancólica viagem moral e filosófica pelos mais verdadeiros e importantes ensinamentos quotidianos. Aguardo pela segunda temporada!

 

Nota: B+

 

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The Big Lebowski – banalidade inusitada

“The Big Lebowski” é um dos grandes filmes dos Irmãos Coen. Foi lançado no dia 6 de Março de 1998 nos Estados Unidos, chegando a Portugal no dia 30 de Outubro. 20 anos depois, o filme permanece engraçado, satírico e socialmente relevante. Vejamos porquê.

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Para além de uma gema importantíssima na filmografia dos Irmãos Coen, chamativa não só para percebermos todas as imagens de marca da dupla de realizadores americana, mas também como uma contextualização histórica do seu país e das perspetivas quotidianas associadas pelos seus criadores. “The Big Lebowski” acompanha o Dude, um hippie quarentão desempregado, despreocupado e um adepto de bowling e do mais básico convívio. Quando é confundido por um milionário e sofre a trágica perda do seu tapete, vê-se inserido num gigante mistério envolvendo dinheiro, corrupção, niilistas alemães, pornógrafos e uma hilariante falta de nexo.

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Existem diversas razões para que a multidimensionalidade do clássico de culto dos Irmãos Coen tenha provocado uma enorme legião de fás que, desde 1998, vestem diariamente um robe bege, uns confortáveis calções, um par de sandálias, uns óculos escuros que, quando singularmente acompanhados ao lado de uma barbicha despenteada e um cabelo comprido e encaracolado, perpetuam o visual de alguém que permanece para sempre nas memórias de uma pequena comunidade local e ignorantemente pacata ou de um enorme país obcecado por conflitos e preso no dia de ontem. “The Big Lebowski” acompanha o seu sossegado e altamente carismático protagonista na sua demanda epicurista, ignorando quaisquer fenómenos prejudicais.

“-Would you just take it easy, man?

-You know, that’s your answer for everything, Dude. Let me point out something. Pacifism is not… look at our current situation with that camel fucker in Iraq. Pacifism isn’t something to hide behind.”

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Setembro de 1991. Os Estados Unidos, juntamente com a França, o Kuwait, o Reino Unido e a Arábia Saudita, saíram há 7 meses de uma guerra contra o Iraque. O “melhor país do mundo” é governado por um confiante George H. W. Bush. Os que voltaram da Segunda Guerra e do Vietname observam no pequeno ecrã o relato jornalístico de eventos massivamente violentos a se repetirem, como se os seus companheiros estivessem de novo a morrer e nada pudesse ser feito para os salvar. O Estranho inicia aquele voice over deliciosamente denso, relatando as peculiaridades e banalidades de uma Los Angeles sossegada e indiferente. Mais ou menos.

Portanto, quem é o Dude nisto tudo? Qual é a razão da sua existência numa cidade que constantemente o julga com base no seu dia-a-dia? Para todos os efeitos, o adorável jogador de bowling é um desempregado inconsequente e indiferente para o sistema. Em qualquer sociedade ocidental como a norte-americana ou a portuguesa, trata-se um homem que merece ser vítima de escárnio e de todos os comentários desdenhativos. Por isso, pergunto: Porque é que gostamos tanto do Dude? O discurso divagante conclusivo do Estranho sugere que a personagem de Jeff Bridges se trata quase de uma figura de martírio (mas crenças religiosas à parte). Para quê, não é? Para quê acompanhar uma pessoa que, no fim do dia, depois de ser enganada por um milionário fraudulento, usada por uma irresistível femme fatale, agredida por um policia corrupto, expulsa injustificavelmente de um táxi e testemunha da morte de um amigo, ainda é capaz de servir de exemplo para os ditos cidadãos superiores? Parece despropositado, certo? Mas não.

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“I only mention it because sometimes there's a man... I won't say a hero, because, what's a hero? But sometimes, there's a man. And I'm talking about the Dude here. Sometimes, there's a man, well, he's the man for his time and place. He fits right in there.”

O Dude não é uma figura sacramental, mas sim o membro negligenciado, irresponsável, preguiçoso, indiferente e despreocupadamente feliz de uma sociedade presa nos horrendos atos do historial tragicómico de um país desregulado. O canto essencial das humildes ou excêntricas comunidades que merece mais atenção nos devidos momentos. O pilar dos valores (ou a pacífica inexistência deles) que sustentam o controlo coletivo, distanciando a probabilidade de uma inevitável explosão. O derradeiro exemplo inconscientemente sábio que nos ensina sobre o sentido da vida (seja lá o que isso for). E, tal como as bolas de bowling e as rodas secas de palha dos vastos desertos californianos, “o Dude aguenta-se”, procurando continuar a andar em diante, de modo repetitivo e desinteressado por excitantes aprendizagens diárias, derrubando os eventuais e chatos pinos pelo caminho. Voltando tudo ao mesmo – àquela busca de felicidade relativa. Dude é um Buda dos Anos 90 para o seu país. Não é à toa que o Dudeísmo tem um aglomerado atual de 455 505 seguidores.

Qual a conclusão mais fácil de obter? Os Irmãos Coen sabiam exatamente o que estavam a fazer – escrever e realizar um filme aparentemente sobre nada que acaba por dizer muita coisa. Não só “The Big Lebowski” é o evento cinematográfico responsável pelo nascimento de um novo género – o slacker noir (respeitosamente inspirado nos filmes dos Anos 40 e coletor de imensas referências cénicas) –, que mais tarde se popularizaria em filmes como “Inherent Vice”, do Paul Thomas Anderson, mas o filme é também uma joia exemplar de desenvolvimento de ambiente e de personagens, graças a uma das mais ricas bandas sonoras de década, a diversas composições visuais simplistas e eficientes e sequências psicadélicas fascinantes. E, derivada a complexidade, surge uma urgência quase irracional de procurar as fontes de construção do protagonista do filme de 1998. Juntamente com uma origem semi-ambígua, somado àquele estranhamente apetitoso White Russian, um gosto significativo por Bob Dylan e uma personalidade recorrente sobretudo em filmes de hippies, conclui-se que o Dude não se trata mais do que um envelhecido e ultrapassado ativista dos Anos 70 que se terá eventualmente revoltado contra a permanência americana na Guerra do Vietname. E que, por alguma razão, mantém na parede da sua sala-de-estar um curioso poster do Richard Nixon. Aparte desta fascinante identidade, Jeff Lebowski foi inspirado em Jeff Dowd, membro e líder dos Seattle Seven. Se se recordam, o nome deste grupo era também o de uma das muitas aventuras do protagonista no meio musical. Google it!

“Your revolution is over, Mr. Lebowski. Concolences. The bums lost. My advice to you is to do what your parents did. Get a job, sir. The bums will always lose. Do you hear me, Lebowski?”

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“Has the whole world gone crazy?! Am I the only one around here who gives a shit about the rules? Mark it 0!”

No meio de tanto desenvolvimento temático graças a um dos textos mais absurdamente engraçados dos Anos 90, bem que podemos afirmar que “The Big Lebowski” é tudo menos um filme pretensioso. Sobretudo graças à sua massiva quantidade de personagens caricatos, propositadamente afetados e constantemente ridicularizados. Desconstruindo o típico modelo do solitariamente esbelto protagonista americano, focando-se, ao invés, em carecas, barbudos, sebosos, obesos, predadores sexuais e presenças masculinas tóxicas no geral.

Precisamente por se inserirem na descrição de pessoas comuns (ou não) afetadas pela incapacidade de olhar para a vida de frente, matando as (baixas ou elevadas) expectativas sobre aquilo que esta lhes espera: um veterano de guerra cegamente descontrolado e aparentemente à beira de uma rutura nervosa, provocada também pela negação do fim de um casamento; uma misteriosa e excêntrica artista presa à sua arte fechada, opiniões incontornáveis e costumes bizarros; niilistas alemães que, para além de não largarem aquele sotaque ridículo, não veem outro método de afirmação senão a manifestação de ódio em território terceiro; um milionário ignorante e extremamente gabarola isolado com as próprias mentiras e autoelogios e… um Donny. Sendo este último o único ponto fraco desta pérola da comédia negra americana. Mesmo a justificada (porém injusta) indiferença dada ao personagem de Steve Buscemi, quando chegamos àquele momento em específico, o impacto é praticamente nulo. Se, tal como o Dude e o Walter, o público ficasse igualmente entristecido e/ou perturbado depois daquele infeliz encontro, “The Big Lebowski” seria um filme perfeito. Pois, de resto, pontos negativos são inexistentes.

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“-Fuck, Walter.

-Come on, Dude. Fuck it, man. Let’s go bowling.”

“The Big Lebowski” é um filme altamente citável, engraçado, satírico e, dentro da sua inexplicavelmente envolvente e elétrica jornada de um homem vulgar em acontecimentos extraordinários, consegue transmitir-nos o significado da mais pacífica norma de vida, sem jamais ser moralista ou contraproducente. Para não falar da riqueza do elenco, que se trata de um dos melhores alguma vez reunidos para uma comédia. Dificilmente, o John Goodman e o Jeff Bridges serão lembrados por outros personagens. No fim, não há uma lição aprendida. A história é espetacular, mas não tem uma moral. Mesmo com todos os eventos estranhos, não se registam consequências de um duro processo psicológico no Dude ou no Walter, nem muito menos num Jesus Quintana ou num cowboy de bigode farfalhudo e de chapéu cerrado. A única lição é: “A vida continua. Vamos jogar bowling. Vamos ao cinema. Vamos para casa tomar um banho de imersão ao som de baleias. Vamos simplesmente viver.”

 

Nota: A

 

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Bohemian Rhapsody – perdurabilidade audiovisual

Passando por um indesejado bloqueio mental e irritante falta de inspiração que não me permitem escrever críticas como deve ser, os Deuses do Cinema dão-me um filme que recuperou o meu bicho pela escrita que, por pouco, não se perdeu. Assistindo a “Bohemian Rhapsody” numa sala de cinema quase cheia, a única coisa que me desalegrou foi não poder expressar a minha euforia cantando com Freddie Mercury no Estádio de Wembley.

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“Olha o que o Cinema consegue fazer …”, pensei quando saí. E é verdade. Muito sinceramente não sei o que os críticos do Rotten Tomatoes ou do Metacritic esperavam. Sei que é importante nos mantermos reticentes quando é anunciada uma biografia de uma figura historicamente pesada. Sinto que seja os movimentos modernistas a falar mais alto. Já lá vamos, darlings.

O filme foi realizado pelo Bryan Singer, responsável por 4 filmes dos X-Men e pelo sensacional “The Usual Suspects”. Em Dezembro do ano passado, “Bohemian Rhapsody” estava a 2 semanas de filmagens de estar concluído e (segundo declarações do próprio) o americano teve de deixar temporariamente a produção para se dedicar a um dos seus pais, que se encontrava doente. A Fox aparentemente não gostou do respetivo tempo de ausência e, não só o retirou do projeto, mas também o despediu do seu posto mantido há longos anos no estúdio. Foi dito igualmente que o realizador e o elenco terão partilhado diversos momentos de tensão e divergências criativas. Poucos dias depois do despedimento de Singer, Dexter Fletcher, que realizou “Eddie, the Eagle”, foi o escolhido para concluir o último terço inacabado. Segundo os critérios da Directors Guild of America, o nome do realizador de “X-Men” acabou por ficar nos créditos. Em Outubro de 2018… aqui está ela – a tão desejada biografia dos Queen.

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Aliás, será um erro dizer que “Bohemian Rhapsody” se trata de uma biografia integral da banda de rock. É incorreto dizer que o John Deacon, o Brian May ou o Roger Taylor terão marcado tanta gente como o Freddie Mercury. Estar aos pés do magnetismo e ecletismo do cantor do Zanzibar é um feito que pouquíssimos vocalistas terão conseguido concretizar. O filme foca-se atentamente na vida pessoal e profissional do Freddie Mercury e, sinceramente, para realizar e escrever, poucas escolhas poderiam ser melhores que o Bryan Singer e o Anthony McCarten, respetivamente.

Primeiro, porque, se uma biografia do Freddie tivesse sido feita há 10 ou 15 anos, certamente o retrato da sua sexualidade não seria tão honesto como o obtido hoje. Como qualquer cidadão decente, sou a favor da inclusão das mulheres e dos homossexuais em qualquer posto do Cinema ou Televisão, mas não sou adepto destas novas tendências histericamente puritanas e contraproducentes. No entanto, acho que contratar um realizador assumidamente gay foi provavelmente a melhor decisão. Ao acompanhar o jovem Farrokh Bulsara à procura de uma oportunidade na música e uma parceira para a vida, posteriormente assumindo a sua natureza, é com pequenos momentos, olhares e comentários que o verdadeiro Freddie vem ao de cima. O realizador mostra um cantor no seu quarto a escrever um poema profundamente pessoal que futuramente permaneceria considerado uma das melhores músicas da História.

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Segundo, sendo o Anthony McCarten um guionista neozelandês e um peso pesado na sua área (com “Darkest Hour” no currículo), o guião de “Bohemian Rhapsody”, claramente não sendo um ataque ao incompreensível puritanismo americano, consegue representar fielmente um ícone da música dos Anos 70 e 80 que, por acaso, era gay, enquanto manda umas bocas merecidas a um dos países mais hipócritas do mundo.

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De resto, “Bohemain Rhapsody” é exatamente aquilo que uma biografia musical deve ser e beneficia-se de tudo o que pode – excelentes interpretações; uma fotografia adequada ao tom, às cores e à energia transcritos na tela; um trabalho de câmara invocativo e ostentador das recriações gritantes dos grandes concertos, plateias e festas; uma estrutura narrativa convencional elevada por uma história conhecida por todos e demasiado boa para ser verdade; cenas serenas repletas de emoção e sinceridade e montagens conduzidas por autênticas pérolas musicais. Um receio que tinha, na verdade, era que o filme incluísse somente o áudio original do Freddie Mercury, o que diminuiria a prestação do Rami Malek. No entanto, parece que o design sonoro inclui as gravações de ambos os artistas, demonstrando um excecional trabalho de impercetibilidade.

Falando nele, o que dizer do Rami Malek? Não há Rami Malek. O trabalho dele aqui é um dos melhores exemplos dos últimos anos de um ator desaparecido dentro de um personagem. O americano de descendência egípcia beneficia-se facilmente das suas parecenças físicas com o cantor, claro, mas ser-se parecido nunca é sinónimo de uma boa interpretação. O que acontece aqui não é uma imitação, mas sim uma total imersão crua e magistral numa figura tão importante, tão ousada, tão excêntrica, tão original e tão icónica que dificilmente outro ator conseguiria encarnar de modo similar. Eu nunca vi “Mr. Robot” e, do seu histórico, somente vi o recente “Papillon”, mas afirmo que o Rami Malek merece um Óscar pelo que fez aqui!

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O Gwilym Lee é assustadoramente idêntico ao Brian May. Graças a isto, é imediato ficar convencidos que estamos, de facto, a ver os Queen à nossa frente com tenras idades. O guitarrista ganha o merecido destaque e é representado como o membro da banda mais rendido à genialidade do vocalista principal, apreciando qualquer letra ou composição do mesmo ou aceitando as suas exigências perfecionistas no estúdio.

O Ben Hardy é um carismático, mulherengo e explosivo Roger Taylor, captando perfeitamente o seu lado mais sentimental por debaixo daquela falsa postura de baterista duro. Porém, tive pena do Joseph Mazzello, que sofre uma típica falta de personalidade numa biografia que idolatra uma figura maior. O baixista é olhado de lado, transmitindo uma vibe descontraída e, maior parte das vezes, inconsequente. O facto do Brian May e do Roger Taylor terem sido os produtores executivos do filme é claramente a causa deste problema.

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A Lucy Boynton está adoravelmente suave e natural. Mesmo a Mary Austin ter sido também uma figura publicamente impactante, o que é realmente bonito de observar é qualquer conversa casual dos dois nos seus primeiros anos de paixão, enquanto esperamos pela decadência da relação (infelizmente). A cena em que finalmente é dito aquilo que estamos todos à espera é simultaneamente uma das mais duras e mais tocantes. O Mike Myers está no filme por pouco tempo, mas tendo em conta que, aos olhos de Hollywood, o canadiano tem de recuperar a sua credibilidade como ator, é satisfatório vê-lo novamente num papel exigente do seu toque humorístico. E o Allen Leech merece um enorme destaque, o seu personagem é tóxico e gradualmente detestável.

Muitos se queixaram da falta de coerência temporal envolvendo o ano de lançamento das músicas e dos próprios acontecimentos. O que mais me incomodou, no entanto, foi particularmente o contrato solo do Freddie. Todos sabemos que não foi só o vocalista que gravou álbuns solo. Quem conhece a entrevista Musical Prostitute, gravada em 1984 depois de um concerto dos Queen em Munique, sabe que não só Freddie estava a trabalhar em ‘Mr. Bad Guy’ (que seria lançado um ano depois), mas também o Roger Taylor e o John Deacon já se tinham lançado numa carreira a solo, em 1981 e 1983, respetivamente. Brian May começaria nos Anos 90. A chegada ao Live Aid é vista como a reunião da banda depois de uma disputa de egos. Tensões semelhantes claramente aconteceram, mas não devido ao lançamento do Freddie numa carreira solo. Esta é a única incoerência que eu corrigiria.

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Com uma interpretação principal definitiva da década, uma excitação contagiante e o melhor terceiro ato de 2018, “Bohemian Rhapsody” é uma celebração da banda que marcou o mundo, das músicas tatuadas na memória coletiva mundial e de uma personalidade imortalizada na História da Música.

 

Nota: A-

 

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