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Vida de um Cinéfilo

Vida de um Cinéfilo

Creed II – a sequela do prelúdio para mais sequelas

Quando “Creed” foi anunciado, mais de meio mundo torceu o nariz. Para grande surpresa coletiva, o sétimo filme de uma franchise com (na altura) quase quarenta anos revelou ser um dos seus melhores. Por isso, como será daqui para a frente?

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“Rocky IV” era pouco mais que uma propaganda da suposta exemplaridade americana durante a Guerra Fria. Aliás, era difícil que um combate entre um pugilista italo-americano e um pugilista russo da nova geração não abrangesse os valores defendidos por cada nação, de modo consciente ou não. A verdade é que todos aplaudimos Rocky por vencer aquele combate, pensando que estávamos a expressar uma euforia consequente do cumprimento da nossa sede coletiva de vingança, depois da morte de Apollo Creed, estando na verdade inconscientemente a saudar a bandeira estendida por (na altura) Ronald Reagan.

Mas seria injusto catalogar a quarta jornada de Balboa no cinema apenas como uma propaganda política. Stallone realizou, escreveu e protagonizou “Rocky IV”, numa altura em que as produções já começavam a expressar a sua descrença em relação à franchise outrora de sucesso entre os críticos. A seguir ao horroroso monólogo final de Stallone, “Rocky IV” é constituído (como maior parte dos restantes filmes) por bons combates, boas montagens de treino, bons arcos e bons personagens, nomeadamente (de novo) Apollo Creed.

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Onde é que quero chegar com este raciocínio? Simplesmente temia que “Creed II” fosse novamente (e sem sucesso) um filme liderado pelas convenções políticas do seu tempo. Mas, tendo em que conta que Steven Caple Jr. (o realizador da vez, responsável por “The Land”) teve nas suas mãos o primeiro trabalho hollywoodiano, não seria provável que, nesta primeira oportunidade de chegar às massas, este decidisse se destacar através de um combate Trump-Putin. Nada disto era relevante, por isso, temos aqui uma sequela digna do seu antecessor e, acima de tudo, que solidifica algo que os críticos contemporâneos tendem a menosprezar – a estrutura narrativa formulaica. Muitos são os filmes que, obedecendo a uma determinada conduta, se tornam previsíveis. Filmes de super-heróis, biografias e, lá está, dramas de desporto são alguns exemplos. No entanto, há que reconhecer uma coisa. Qualquer filme acaba por ser previsível, não todos como é óbvio, daí a mestria de alguns guionistas em escrever twists. Logo, censurar uma biografia sobre um artista musical ou um filme de box por seguir a fórmula ascensão-queda-redenção não é totalmente descabido, mas geralmente não nos leva a lado nenhum. Quando vejo uma má crítica a um desses penso: “Mas o que é vocês querem afinal? De qualquer maneira, não sabem exatamente o que vai acontecer?”. Para quê reformular a estrutura se, na maioria das vezes, só se sai a perder? “Indiana Jones and the Kingdom of the Crystal Skull” e “Terminator Genisys” são ótimos exemplos.

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Isto para dizer o quê? Venham conflitos familiares, venham bandas sonoras energéticas em cima de montagens de treino, venham combates finais nos quais o protagonista geralmente sai vencedor, venham as mais pequenas surpresas. Eu só quero ver um filme no qual se observa um Adonis Creed a recuperar das suas falhas morais e físicas e evoluir como marido, filho, discípulo, pai, lutador… homem. Sylvester Stallone despediu-se do personagem mais icónico da sua carreira. Pensei “Ok, sei perfeitamente o que vai acontecer ao Rocky. Que pena.”. Estava errado. Quem aguarda pela mínima surpresa, pode gostar daquilo que o realizador e os guionistas (o estreante Juel Taylor e o próprio Stallone) fizeram com o pugilista mais adorado do cinema.

No geral, “Creed II” é um dos filmes mais emotivos de toda a franchise. Não só devido ao arco do protagonista aliciado ao desenvolvimento da sua relação com a Bianca, novamente interpretada por uma irretocável Tessa Thompson (que canta também, já agora), mas também àquilo que é feito com os seus antagonistas. Ivan Drago está de volta e o filho Viktor Drago emerge. As expectativas costumam moderar o quão gostamos de um filme. Eu esperava um Dolph Lundgren novamente monótono e inexpressivo, mas com a dose possível de carisma e imponência. Pelos vistos, acabei por receber um retrato bastante humano de um homem no fim da vida que, não tendo nada a perder, se vê na obrigação de forçar o filho a entrar no mesmo mundo numa busca por vingança e destruição, educando o rapaz desde uma idade precoce naquele ódio quase irreparável.

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O ator sueco evolui e deu-me vontade de o ver em “Aquaman”. Já em relação ao alemão Florian Munteanu posso dizer exatamente o mesmo. Eu esperava ver um antagonista minimamente amedrontador e motivado pelos sentimentos de simples rivalidade e raiva genérica. Observei lentamente um jovem altamente danificado pelas faltas mais significativas, carregando inutilmente às costas a dor e o ódio do pai e sentindo-se socialmente deslocado por completo no processo. Está tudo no sítio: uma fisicalidade monstruosa (e invejável), um discurso tímido e até triste e uma possível história de maus tratos. Eu não me importaria de todo de rever o Viktor Drago num futuro filme. O que faltou aqui foi aprofundar a personalidade da Ludmilla Vobet, mulher do Ivan no filme de 1985. A ligação entre pai e filho é muito bem desenvolvida (com poucos diálogos inicialmente), já a dinamarquesa Brigitte Nielsen não faz nada.

O Michael B. Jordan continua extremamente bem na pele do jovem Adonis e, mesmo que a sua prestação em “Black Panther” seja superior, o ator tem ainda muitas oportunidades para se superar, seja como ator dramático, seja a evoluir o corpo. O rapaz é um autêntico armário. O Sylvester Stallone, depois de reencontrar a sua voz em “Creed”, de 2015, continua lindamente emotivo e amargurado. É impossível desgostar do regresso maduro do personagem.

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A Phylicia Rashad continua competente, dentro do que lhe é pedido. O Wood Harris tem mais para fazer, sendo possível que o personagem se estabeleça melhor futuramente. Já o Russell Hornsby, depois da sólida prestação em “Fences”, podia ter sido aproveitado para mais alguma coisa além do típico empresário ganancioso e despreocupado com o atleta.

O trabalho de câmara do Steven Caple Jr. não é comparável ao do Ryan Coogler, mas ostenta muito bem os combates, auxiliando o seu foco (e respeito) pelos personagens, constituindo-se por uma habitual fotografia acentuada e uma banda sonora deliciosa. Como já disse, o filme no geral consegue ter mais emoção que o antecessor, quando navega sobretudo pelo território da paternalidade, mas há alguns diálogos em específico que metem em risco a seriedade das cenas. Há alguns momentos com palavras repetitivas que se beneficiariam antes de silêncios e algumas frases que tenho quase a certeza que o John J. B. Wilson adoraria premiar. Mas tal acontece pouco, são os instantes do guião em que eu senti mais a mão do Stallone a mexer onde não devia.

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“Creed II” é, em poucas palavras, uma sequela mais que sólida. Não sendo totalmente imprevisível, é capaz de criar algumas surpresas, mantendo o cuidado em não deslocar demasiado a história das suas raízes.

 

Nota: B+

 

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Colette – oportunismo ou adequação previsível?

Oscar baits são as maiores pragas para os críticos. Mais do que um novo filme de super-heróis despretensiosamente engraçado ou uma peça autoral verdadeiramente prepotente e autocongratuladora, as biografias caçadoras de prémios são alvos de duras palavras.

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Sim, nos últimos anos tivemos bastantes filmes do mesmo nível. “The Theory of Everyting” e “The Danish Girl” (particularmente ambos com Eddie Redmayne) são os primeiros que me ocorrem na cabeça. E, com a exceção da história de Stephen Hawking, costumam ser sempre contos biográficos desconhecidos que atraem uma parcela reduzida do público mundial, que sai de casa apenas por causa de um elenco de estrelas americanas, a interpretar personagens de outra nacionalidade qualquer. O objetivo do James Marsh e do Tom Hopper muito provavelmente foi apenas ganhar alcançar o ouro. No entanto, há que reconhecer as mais pequenas boas intenções, debaixo daquela camuflagem autoral virada para as massas e estatuetas. “Colette” é um bom exemplo de um filme bem conduzido, com vontade de contar a sua historia, mas inclusivo do típico monólogo dramático da protagonista, durante o qual esta pensa “A Academia vai gostar disto”.

Depois de co-realizar “Still Alice”, Wash Westmoreland tenta novamente obter o brilho sazonal do cinema. Curiosamente, com o respetivo trabalho de 2018, o mais perto que o inglês estaria de fazer um discurso numa gala apresentada por um Jimmy Kimmel qualquer seria se Keira Knightley fosse nomeada pela sua ótima interpretação. Na sua execução, o material do trio Richard Glatzer, Rebecca Lenkiewicz e do próprio Westmoreland beneficia-se principalmente do talento das suas reduzidas peças do elenco. Um dos maiores problemas de “Colette” não é a história mal contada sobre a escritora francesa do século XIX. Se há coisa que não existe aqui é um valor de produção deficitário.

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Como qualquer filme de época, este é igualmente ostentador de uma belo guarda-roupa, uma riqueza de cenários e uma serenidade relativa à alta sociedade europeia, realçada por uma fotografia acentuada e uma banda sonora excecional, que se complementa particularmente com a edição, nos seus momentos mais acesos e frenéticos, relativos ao estado de espírito da personagem principal e à ação. E tais estética e harmonia são sobretudo notáveis depois do choque de culturas inicial, quando a protagonista sai do campo sossegado e se casa com um crítico musical e escritor falhado, estabelecendo a sua vida numa barulhenta Paris, no seio das festas dos socialites, salas de teatro e livrarias cheias.

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“Colette” seria, então, uma história mais charmosa, digamos, se tivesse um elenco mais recheado, por exemplo. Oportunidades perdidas em particular foi a de desenvolver os pais da Sidonie-Gabrielle Colette e a respetiva parceira de longa data – a nobre artista Mathilde ‘Missy’ de Morny –, que é jogada nos últimos fôlegos da narrativa. Como qualquer estudo de personagem, o mais importante não será obviamente a riqueza temática de todos os elementos do elenco, não é necessário que todos tenham um arco. Mas num filme direcionado para um honesto retrato da sociedade francesa de há dois séculos e a inserção da protagonista na mesma, num universo de personagens secundários que aparecessem e desaparecessem convenientemente, diria que Wash Westmoreland ainda tem muito para aprender. E nem precisamos de referir o facto de o filme ser uma produção americana, britânica e húngara, cujo idioma é o inglês e o cujo objetivo é contar a história de vida de uma personalidade francófona. E o mais ridículo acontece quando ouvimos um voice over da atriz principal em cima das imagens de livros ou notas a serem escrito em francês. Infelizmente, tal hábito do cinema é precisamente isso – um hábito –  e um dos maus, por sinal.

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No entanto, são detalhes. “Colette” é a típica cinebiografia, mas não um mau filme. Este vende-se graças às fortes interpretações do duo inglês Keira Knightley e Dominic West. A atriz de “Pride & Prejudice” está novamente impecável (para a surpresa de ninguém). Convence perfeitamente como uma jovem camponesa surpreendentemente instruída em busca de algo distinto da sua vida rural e, na construção da sua personalidade num novo meio social, é muito notável a dedicação da atriz na personagem. São muito agradáveis aqueles gestos e expressões faciais subtis que revelam a sua ingenuidade, a sua crescente autoridade e o alvo do seu interesse (intelectual/social/sexual). É difícil desgostar dela. Não a julgo a ela nem ao seu esforço por, ao aceitar estes papéis, de querer constantemente ter um belo Óscar nas mãos. O talento está lá e eleva o material que recebe de maneira totalmente credível e até fácil. Desde que a Keira Knightley não volte a fazer algo como “Collateral Beauty” está tudo bem.

Sugerido: Pride & Prejudice (Orgulho e Preconceito, 2005) - Análise e Crítica

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Na sua essência, o Dominic West é um homem assente na sua masculinidade e estatuto profissional (em perigo, evidentemente), demonstrando atitudes intermitentemente bondosos e interesseiros para com a sua esposa – tão depressa oferecendo-lhe previsivelmente uma casa ou um vestido em busca de um perdão, explorando-a logo a seguir, omitindo-lhe informações, tudo com uma pitada de sexismo no meio. No entanto, é impossível não gostar do personagem. O ator de “The Wire” diverte-se bastante e extrai perfeitamente aquele carisma hipócrita, mulherengo e arrogante.

Existe também algo em particular no filme. O que digo aqui já disse quando falei do “Bohemian Rhapsody”. Conforme estes modernismos feministas e de aceitação sexual, muito provavelmente um filme sobre a escritora francesa não incluiria a sua verdadeira orientação sexual retratada. Uma mulher atraída por outras mulheres há dois séculos ou era vista como uma oferta do Diabo ou uma veia do processo criativo dos homens, como, aliás, vemos aqui. De qualquer maneira, novamente sublinhando que não sou adepto destes movimentos histéricos do “politicamente correto”, acho correta a maneira como retrataram essa característica da protagonista.

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Em poucas palavras, “Colette” é um filme agradável e bem feito. Como é óbvio, não é um “La vie en rose”, mas também não é um “Diana”. Está na linha de um “Woman Walks Ahead”. Material merecedor de remendos, fortes interpretações.

 

Nota: B

 

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Idiotas, ponto. T1 – risonho rumo ao ridículo

A permanência de qualidade (temática ou técnica) dos conteúdos cómicos (cinematográficos ou televisivos) portugueses é um dos aspetos mais difíceis de manter no nosso progresso audiovisual.

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Nos recentes anos, tem sido quase impossível não vermos comédias desastrosas. Desde um “Balas & Bolinhos”, passando por “13 Pecados Rurais” e “Mau Mau Maria”, até chegar a um “O Pátio das Cantigas” ou aos deprimentes trailers de “Tiro e Queda”, a comédia mais mainstream (principalmente de elenco) é um dos maiores alvos de chacota dos críticos nacionais (e com razão). No entanto, ainda há esperança. Não que a nova série original da RTP seja uma incontestável obra-prima, mas, sim, uma aula de escrita perfeitamente acessível e agradável para os estreantes guionistas à espera que uma boa história apareça na sua cabeça.

A recente adição à ficção nacional é proveniente da mente de Diogo Lopes. Acompanha três amigos no eventual decorrer das suas conversas sobre os detalhes mais insignificantes do dia-a-dia, pacientemente se esforçando (individual ou coletivamente) para evitar os acontecimentos mais absurdos e inconvenientes.

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A veia novelesca nacional é uma praga nos conteúdos audiovisuais. Desde telefilmes até séries cruel e injustamente editadas para estrear igualmente nas salas de cinema, já muitas histórias promissoras sofreram nas mãos de diálogos expositivos, artificiais, autoexplicativos e simplesmente foleiros, de elencos mal dirigidos e uma continuidade insana de encher chouriços. Com sorte (e talento), não foi o que aconteceu aqui. Começando no bar do costume, percorrendo Lisboa, até chegar a enterros, escritórios e sofás, “Idiotas, ponto.” acha uma narrativa altamente carismática em apenas colocar o seu público ao lado do trio de personagens de maneira orgânica, através do desenvolvimento assertivo (e até ambíguo) das suas caras habituais, assim como as breves conclusões de arcos engraçados, sem jamais puxar para o politicamente correto.

Tenho a certeza que, se os direitos do novo trabalho do criador de “A Vida Também é Isto” fossem adquiridos pelo estrangeiro, tal como aconteceu com “Amnésia”, o público americano apontaria muitos “problemas” relativos ao humor dos seus protagonistas.

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Que acaba por não ser nada de mais, pelo menos para o sujeito que vos escreve – um assíduo consumidor de todo o tipo de humor (desde as comédias americanas nonsense mais inteligentes até aos solos de stand-up de humor negro mais agressivo). Humor bizarro, sexista, machista, racista, comportamental, de constrangimento e nonsense não encontra aqui o seu expoente máximo. Mas certamente se mantém numa nota alta. E, auxiliado com a simplicidade técnica do seu criador, consistente num trabalho de câmara minimalista e estático e uma fotografia subtilmente saturada, “Idiotas, ponto.” prioriza exatamente aquilo que devia – texto e interpretações – ocasionalmente elevado por takes longos e uma edição conveniente entre transições. Destaque também para a banda sonora, especialmente para o tema do genérico.

E o que seria de um bom texto sem um bom elenco? O trio principal é obviamente o maior (e melhor) atrativo. O Carlos do André Nunes (brilhantemente escolhido), é deliciosamente parolo, inofensivo, ingénuo, fraco, medroso, risível, azarado e isento de autodefesa e autorrespeito. É um homem bem-sucedido, mas constantemente ridicularizado, oportunisticamente utilizado e enganado por qualquer um.

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O João do Duarte Grilo é facilmente o mais carismático e moralmente complexo dos três. Um advogado que, na execução, poderia acabar por ser mais uma caricatura facilitada, mas o ator de “Fado” vende perfeitamente aquele lado vigarista, provocador, irónico, com doses incorrigíveis de malícia, arrogância e chico-espertismo.

E o Rui do Salvador Sobral possui uma hilariante burrice e descontração, demonstrando uma incapacidade de dizer duas coisas acertadas consecutivamente e de sair de relações com mulheres desequilibradas.

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E o mais curioso é que a série, por muito que se divirta com as mentes pequeninas tipicamente masculinas dos seus protagonistas, inclui presenças femininas igualmente (ou mais) impactantes. A Inês Aires Pereira, a genérica atriz de novela de “Sara”, está novamente solidamente empenhada, aqui com mais espaço e tempo para estabelecer a sua personagem, desenvolvendo uma personalidade provocadora e ácida (Eu quero vê-la mais vezes!). A Matilde Breyner consegue imenso com muito pouco, mantendo-se novamente elétrica e engraçada. A Teresa Tavares, juntamente com o que tem feito em “Circo Paraíso”, está a voltar à ficção em boa forma com personagens difíceis e instáveis. Terá simplesmente de recorrer a outras caracterizações e abordagens se quer se superar. E a Ana Brito e Cunha está espetacular, extremamente inconveniente, detestável, venenosa e autoritária.

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De resto, do grupo das competentes, estão Sara Salgado, Sónia Balacó, Filipa Amaro, Sofia Arruda, Carla Chambel, Helena Canhoto e Inês Patrício. No entanto, como um fã gigante da Joana Pais de Brito, fiquei insatisfeito com o que fizeram com a sua personagem. O que aconteceu é que a aparição levemente engraçada da Leonor Seixas ocupou demasiado espaço e interrompeu aquele que podia ser uma interação mais simples. Ambas estão relacionadas com o Salvador Sobral, mas a última era descartável. Inutilizando a Leonor Seixas, era possível fazer muito mais com a Joana Pais de Brito. De resto, temos também ótimas prestações de Sabri Lucas, Rui Luís Brás, João Veloso, José Carlos Garcia, Jorge Corrula & Tiago Castro (uma das duplas mais hilariantes da televisão nacional nos últimos anos) e dos veteranos Vítor Norte e Carlos M. Cunha. Elencos não ficam muito mais recheados que isto.

No entanto, embora a série se safar com os seus bons diálogos, através dos quais os seus protagonistas trocam ideias infantis sobre relações, sexo, droga, dinheiro, trabalho, masculinidade e até morte, os pecados narrativos ficam à vista, mesmo durando pouco. Primeiro, acontece determinada coisa cujo tom destoou demasiado do da série e do personagem envolvido. Mesmo para o humor sagaz do personagem, achei que tal ocorrência (que é arrastava devido às suas inevitáveis consequências) não se adequou nada bem. Segundo, a permanente ausência visual de uma outra personagem feminina em específico, ainda que compreensível, é totalmente contraproducente e desnecessária. E, terminando os aspetos negativos, acho que era necessário um acerto envolvendo a lógica comportamental de um personagem no último episódio. Eu acho que a história terminou numa nota perfeita, mas um retoque era feito e tínhamos ali um arco ligeiramente melhor.

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No fim, “Idiotas, ponto.” é exatamente aquilo que deve ser – uma divertida e ligeiramente inovadora comédia no panorama televisivo nacional. Depois de receber “Sara”, é natural partir para a exigência, porém basta aproveitar aquilo que de mais engraçado acontece no quotidiano destes três personagens merecedores de uma segunda temporada.

 

Nota: B

 

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L’homme fidèle – o mediano e bom francês

Se há coisa que os franceses sempre saberão fazer é cinema. Façam obras nostálgicas ou modernistas, os pais da Sétima Arte sabem sempre o que fazem.

Abel, um jovem jornalista, reencontra uma ex-namorada que recentemente perdeu o marido com qual o trai há quase uma década. Neste novo período, este reavalia os seus sentimentos.

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Trata-se da segunda longa-metragem protagonizada, escrita e realizada pelo Louis Garrel. Este que se tornou conhecido por protagonizar “The Dreamers”, do falecido Bernardo Bertolucci, e “Les chansons d’amour”, do Christophe Honoré. Para além disso, interpretou Jean-Luc Godard na recente biografia “Le Redoutable”, do Michael Hazanavicius, e está incluído no elenco de “Little Women”, o futuro filme da Greta Gerwig. Com uma visivelmente diversificada carreira de ator, decidiu se aventurar na realização com 3 curtas-metragens e “Les deux amis”, de 2015. Eis que chegamos a “L’homme fidèle”.

Com o seu mais recente filme, que teve estreia na passada edição do LEFFEST, o ator de 35 anos consolidou o seu grande potencial para se tornar num bom realizador autoral. Algo bastante distinto no seu trabalho é o equilíbrio entre dois tons praticamente quase contraditórios. A verdade é que este se beneficiou de uma parceria com o guionista veterano Jean-Claude Carrière. Sendo assim, não só é o texto uma ferramenta extremamente útil para controlar uma história fúnebre de um modo levemente engraçado, constantemente relativo a um constrangimento tragicómico, mas igualmente um fator de peso na construção de diálogos característicos de uma fluidez natural presente nas interpretações. A mise-en-scène é outro acerto, assente maioritariamente em planos orgânicos e funcionais. Conforme os arcos, a cara dos atores preenche gradualmente o enquadramento e, em plenas discussões, o olhar permanece naquela tradicional troca de planos. Nada de muito elaborado, na verdade. O que mantém uma estética de filme independente muito prazerosa.

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E, na equação, juntamente com uma edição assertiva, está uma ótima execução dos diálogos em si. Há momentos de pura passividade em que os personagens dialogam da maneira mais contraditória àquilo que é dito, o que cria, lá está, a tal vibe tragicómica, facilmente desencadeando risos no público. Não quer isto dizer que “L’homme fidèle” se trate de uma comédia. Pelo contrário, o filme desenvolve questões como luto, amor, casamento, filhos, obsessão, fidelidade e a falta dela.

No entanto, o que prejudica bastante o filme é a interminável narração coletiva. É que não é apenas o protagonista, mas sim três personagens. Estes explicam aquilo que, praticamente em todas as vezes, não precisa de ser explicado, sobretudo graças ao efetivo laço com visual storytelling. Laço que morre progressivamente. A condução da trama consegue-se sem algumas justificações óbvias, mas a narração é cansativa e incompreensivelmente excessiva. Curiosamente, “L’homme fidèle” provavelmente até seria um bom livro. Na verdade, há muita coisa que se quer dizer da tela para fora. Daí a música, embora boa, se intrometa desnecessariamente em algumas cenas que deviam consistir em silêncios. No entanto, nos restantes parâmetros, o filme saiu-se bem. Destaque para a fotografia fria e lúcida da Irina Lubtchansky, subtilmente ostentadora de uma sensação quase de desconforto nas bonitas ruas francesas, e para a edição simplista e precisa da Joëlle Hache. O segundo trabalho de Louis Garrel atrás da câmara tem apenas lae1 hora e 15, terminando exatamente onde devia. O final é simples, efetivo e objetivo.

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E, para além disso, o realizador é um ótimo protagonista. Convence como um jovem desajeitado, paciente, ingénuo e desconfortável na própria pele. Observá-lo desde um rapaz destroçado pelo fim de uma relação e revê-lo progressivamente a construir o seu respeito e imponência é um arco muito bem desenvolvido, sobretudo por o personagem jamais perder aquele charme inocente e bem-intencionado.

A Laetitia Casta está deliciosamente provocadora. É uma mulher ainda com quebras consequentes de uma grande perda, mas com resquícios das emoções enterradas no passado. Em discussões desconfortavelmente passivas, perguntando ou afirmando X em busca do Y e com pequenos detalhes expressivos e comentários, a atriz consegue perfeitamente colocar o Louis Garrel na sua sombra. Existe, no entanto, um personagem bastante inútil relacionado com ela que acaba por não ter qualquer peso ou consequência na história. Mais valia descartá-lo.

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A Lily-Rose Depp foi uma grata surpresa. Tenho sempre um preconceito em relação a atores filhos de grandes nomes de Hollywood. Mas a verdade é que filha de 20 anos do Johnny Depp e da Vanessa Paradis deu uma ótima prestação. A personagem é carismática e nota-se claramente falta de afeto nela.

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O Joseph Engel é igualmente muito carismático, dentro do seu espaço reservado, introspetivo, calmamente revoltado e em busca de preenchimento afetivo. Não faço ideia quantos é que tem, mas o ator transmite muito bem a tristeza provocadora do personagem.

Com a sua serenidade, comicidade e melancolia, "L'homme fidèle" é um filme simples, carregado de ligeiras surpresas e um final agradavelmente linear.

 

Nota: B

 

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