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Vida de um Cinéfilo

Vida de um Cinéfilo

Matchstick Men – obrigado por me roubares

O logotipo da Warner Bros. Pictures surge lentamente à frente de uma limpa plataforma de água. Nicolas Cage faz a contagem decrescente e, ao som de ‘The Good Life’, do americano Bobby Darin, os créditos iniciais começam a sobrevoar o ecrã, surgindo à frente de uma distante e calorosa Los Angeles e de volta à reluzente piscina do protagonista. Conhecemos a carpete obsessivamente bem nivelada, o guarda-roupa revestido a sacos de plástico, um quintal, uma piscina e uma espreguiçadeira à espera de utilização e uma cozinha cheia de nada. É-nos apresentado o pequeno (e inofensivo) império prestes a desaparecer escondido no cão de porcelana sentado na sala de estar da casa mais desprovida daquele pacato, solário e endinheirado subúrbio que encontramos na primeira (e incompreensivelmente única) tentativa de Ridley Scott no campo da comédia de crime.

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Nos dias que correm, costuma-se olhar para o Ridley Scott de lado, como se o realizador inglês fosse um senhor que um dia fez umas graçolas com extraterrestres, androides e gladiadores. Com certeza, a filmografia do cineasta octogenário passou por maus bocados. “Legend”, “Robin Hood” e “The Counselor” foram tremendos desperdícios de dinheiro, tempo e talento. Mas não nos devemos esquecer que, quando um membro importante da Sétima Arte nos dá alguns dos melhores filmes de sempre, importante é começarmos a procurar algumas das relíquias esquecidas na sua obra. Juntamente com “Thelma & Louise”, “Black Hawk Down” e “American Gangster”, “Matchstick Men” é um dos melhores trabalhos de um dos pais da ficção científica.

Sugerido: Blade Runner (Perigo Iminente, 1982) - Análise e Crítica

Quem diria que se sairia tão bem? Muitos são os filmes que provam o quão bom é o realizador a construir um mundo e a transferir o público para o dito ambiente. Seja para um desconfortável e silencioso circuito espacial, para uma poluída e futurista Los Angeles ou para as areias ensanguentadas do Coliseu. Na excitante história de 2003, Ridley Scott apresenta-nos o seu obsessivo-compulsivo, agorafóbico, misófobo e fumador protagonista numa das suas habituais manhãs antes de ir burlar mais uns casais de idosos ou outro tipo qualquer de deslocados ingénuos da sociedade. “Eu não sou um criminoso. Sou um artista da burla. Eles dão-me o dinheiro.” é o lema de um ladrão que nunca enganou ninguém que não fosse fraco ou ganancioso e que nunca usou violência. O lema de um homem habitante numa pura solidão consequente de um casamento destruído pelos episódios de alcoolismo e por um possível adultério da companheira. Há 14 anos que Roy Waller não vê a ex-mulher e suspeita que esta não lhe tenha contado acerca do provável fruto daquela relação.

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Consome os habituais comprimidos. Sai. O ligeiro escritório encontra-se num carente buraco de uma das cidades mais conhecidas pela sua diversidade multicultural, atividade económica enriquecedora e oferta quase infinita de oportunidades comerciais, alimentada por jovens recém-formados e/ou empreendedores lentamente a encher os bolsos e a adquirir o dom da palavra encostada a um telefone, enquanto (alguns) desenvolvem a inevitável vontade de se superar, passeando por corrupção e fraude (Martin Scorsese fez questão de nos mostrar a perspetiva nova-iorquina, em “The Wolf of Wall Street”). No canto de Los Angeles, está uma dupla de distintos profissionais do crime, a se aproveitar reconhecidamente dos mais necessitados membros da comunidade capitalista norte-americana. Podiam ser saudáveis e carismáticos banqueiros a bater à porta daqueles velhotes. Não são estes os homens dos fósforos, acompanhados por falsas identificações policiais. Frank Mercer é o tagarela, sorridente, grandiloquente, engraçadinho, provocador, casmurro, desarrumador, desorganizado, desleixado e carismático colega de Roy Waller. Sempre pronto para enganar mais uns quantos cidadãos bem-intencionados nas suas casas cheias de sossego, totalmente incidentes do dia em que lhes voavam 700 dólares da carteira em troca de um mero produto avaliado na quantia de 50. Sempre pronto para abandonar um cenário quando os irreparáveis tiques nervosos do sócio mais velho reaparecem assim que uma janela é aberta em demasia. Sempre na sombra de uma reles e arrogante experiência e falta de profissionalismo. Porém, também na sombra de (literalmente) um parceiro de crime que jamais quebra aquela imagem de senhor de meia-idade à beira de um ataque de pânico ou de um incontrolável vomito.

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“-You looking for something, sucker?

-Yeah. My partner. You seen him? He’s been missing most of the week. Tall, good-looking guy. Man, you’re bad! Did you take your pills?"

É este Roy Waller. O contraste perfeito de Frank… e do resto do Mundo. Ao som da ‘Rapsódia Sueca’, do italiano Paolo Mantovani, e na lente da habitualmente minimalista, porém frescamente chamativa fotografia do John Mathieson (colaborador do costume de Ridley Scott), vemos o ridículo ritual do pobre ladrão transpirado a revitalizar a bonita casa, acompanhada pelo mais moderno mobiliário e pela atmosfera mais monótona, vazia, insípida, incolor, sem charme ou personalidade. Um veículo mais tarde usado por Steve McQueen, em “Shame”, perfeito para a construção de um personagem carecido de espaventosos propósitos. Para o desenvolvimento de um homem em piloto automático. Um homem guiado precisamente pela falta de significado quotidiano, procurando preencher os milhares de vazios dentro do seu espírito envergonhado e anti-social através da constante, desvirtuosa, amargurada, irrefletida, indiferente e inconsequente criminalidade. A camada artística unicamente explosiva do Nicolas Cage revela-se uma perfeita complementaridade com o personagem, tornando o retrato até bem-disposto desta chata realidade numa das melhores e mais cuidadas ofertas na carreira do desvalorizado ator de “Leaving Las Vegas” e “Adaptation.”.

“Look, Doc, I spent last Tuesday watching fibers on my carpet. And the whole time I was watching my carpet, I was worrying that I, I might vomit. And the whole time, I was thinking, "I'm a grown man. I should know what goes on my head.". And the more I thought about it, the more I realized that I should just blow my brains out and end it all. But then I thought, well, if I thought more about blowing my brains out, I start worrying about what that was going to do to my goddamn carpet. Ok? So, that was a good day, Doc! And, and I just want you to give me some pills and let me get on with my life!”

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“Pygmies!”

Caso não aparecesse a “juvenil e inocente” Angela, nada se tornaria desigual. A permanente maravilha estampada no rosto usualmente amargurado, desconfortável e entediado de Roy é um deleite de observar. Nos dias normais, uma adolescente desconhecida escrever o número de telefone na mão asseada do recém-pai com uma usada e ruída caneta escolar seria um dos mais azarentos e doentios atos que provocaria no protagonista um dos seus recorrentes enjoos, dando-lhe mais uma de inúmeras razões para ficar invariavelmente enfiado em casa. Em vez disso, o germofóbico paranoico carrega para o dia de trabalho a tinta já distorcida pela água do banho matinal. E a Alison Lohman (na altura com 24 anos) cumpre perfeitamente a sua parte. As minhas primeiras reações foram a de um velho do Restelo que olhava para uma atriz que era tudo menos um retrato convincente de adolescência. Pensava no absurdo daquela escolha de casting. Mal sabia eu o que me esperava (não é surpreendente que um homem que não saia de casa não saiba identificar uma moça de 14 anos ou raciocinar acerca dos horários tardios de autocarros, dadas as suas fobias e absoluta inexperiência parental). Não só a atriz está a interpretar uma personagem também a interpretar outra vida, mas reproduz igualmente um ótimo e misterioso trabalho de manipulação, obrigando o espectador em visionamentos posteriores a caçar os genuínos momentos de companhia e feliz paternalidade, uma vez que nunca fica claro quando a Angela desenvolve um afeto pelo coitado e futuro burlado. O coitado e futuro burlado que se torna no homem mais afortunado do mundo quando sofre a maior queda profissional possível. Não fosse aquela ácida, provocadora, mal-educada… doce menina do papá, Roy nem conseguiria trocar aquelas diárias e desalegres latas de atum por um prato mais saudável ou outra refeição qualquer que o seu estômago não rejeitasse violentamente segundos depois. Nem isso nem se aproximar de uma mulher.

“If you’re gonna get wet, you might as well go swimming.”

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“-You mad at me?

-You didn’t take it. I gave it to you.

-It’s a funny way of looking at it.

-Well, I see things differently now.”

A música original, alegremente contagiante e fervorosamente elétrica do Hans Zimmer encaixa como uma luva ao equilíbrio entre humor negro, laço afetivo e arco de criminalidade. A embebida e desprendida edição do Dody Dorn acrescenta uma vivacidade aos acontecimentos mais mundanos e capta o olho do público na rotina do protagonista e no desenlace de tudo o que seja mais extraordinário neste inesperado presente no tapete de entrada. E um dos maiores, por sinal. Entenda-se um dos maiores plot twists do cinema no século XXI.

Sugerido: Unbreakable (O Protegido, 2000) - Crítica

Mais do que a reviravolta de “Fight Club” ou de “Unbreakable”, a de “Matchstick Men” encontra-se discutivelmente no pique daquelas que cujo cineasta já conduziu. A seguinte e discreta obviedade é uma das maiores armas do filme quando visto inúmeras vezes depois. Bruce Altman e Bruce McGill dão interpretações instrumentalmente culminantes, simbolizando a sua mentira através de um subtil plano no tabuleiro de xadrez e umas fabricadas gargalhadas e frases de efeito, respetivamente. Tudo é planeado com a maior das delicadezas. Desde uma construção da verdadeira Angela, que sugere um permanente sentimento de culpa, um constante olhar de auto-desdém e uma possível história de maus tratos e/ou carências parentais. Já Sam Rockwell está totalmente à vontade e desenha um simpático burlão debaixo de escudos como “Não penses que estou a fazer isto por ti. Tenho de pagar o carro.” e um sentido de oportunidade deliciosamente malicioso.

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“Matchstick Men” é uma marca do cinema de Ridley Scott – uma aceleração numa linha ilimitada, um olhar focado em contar boas histórias e construir bons personagens, despreocupado em criar um estilo milimetricamente autoral verificável em cada filme. O que mais pesa no espírito é, ao som de ‘Summer Wind’, de Frank Sinatra, ver Roy a chegar a casa do seu humilde trabalho numa acolhedora loja de carpetes, à espera do fim do dia para poder abraçar Kathy, a atual esposa e a simpática senhora do supermercado, a mulher que lhe dará um filho e uma oportunidade para recomeçar. Passado um ano, a fastigiosa bagagem emocional proveniente das responsabilidades de um futuro patriarca é superior à perda de milhões de dólares longamente recolhidos de uma laboração sem significado.

 

Nota: A+

 

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Óscares - a perda de credibilidade

Em 2014, assisti pela primeira vez à cerimónia dos máximos prémios da Sétima Arte. A alegre e sarcástica Ellen DeGeneres foi a escolhida para liderar o evento e marcou a sua presença pela segunda vez, depois de segurar a noite de 2007. Ficou difícil não me afeiçoar ligeiramente àquela atmosfera. Porque é que desgostaria do que estava a ver? Tinha uma apresentadora minimamente audaciosa a largar pequenas provocações à plateia cheia de estrelas consagradas e seleções de cinco recomendações em cada categoria. Pesos pesados da indústria sentavam-se no habitual Teatro Dolby, em Los Angeles, e a noite revelava-se cada vez mais estimulante, mesmo com alguns galardões inapreciados ou surpreendentes. Muito me enganava.

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Em 2019, quando os movimentos #MeToo e #Time’sUp já começam a perder espaço nos holofotes hollywoodianos (porém, mantendo-se sólidos em qualquer comentário televisivo, sobretudo com um Jordan Peterson na mesa), a única possibilidade que as caras mais empáticas da indústria cinematográfica têm de se manifestar contra uns quantos comentários desagradáveis no recreio digital ou contra mais uma das muitas postas de pescadas (deploráveis ou minimamente sensatas) do presidente americano surge quando alguém ganha um prémio e sobe as curtas escadas até um microfone preparado para ser atingido com revoltados perdigotos. Aí, sim, aos olhos daquele país, têm todo o crédito do mundo para falar. E eles gostam muito de falar.

Ao contrário daquilo que se esperava, na passada cerimónia, que premiou Guillermo del Toro depois de uma carreira merecedora de milhares de aplausos e uma qualidade e ética profissional recentemente consolidadas com um romance fantástico sobre uma mulher que vai para a cama com um peixe, destacando a intemporalidade da magia do cinema mudo e os problemas sociais ainda presentes nas ruas do século XXI, a histeria que se prometeu nos meses anteriores tatuados pelos escândalos protagonizados por personalidades como Harvey Weinstein e Kevin Spacey não se verificou com o semelhante compromisso massificado. A sensação que a cerimónia apresentada pelo humor insípido e previsível de Jimmy Kimmel deixou foi a de quem “varreu o assunto para debaixo do tapete”. Curiosamente, até hoje, despachar ou encobrir uma polémica semanalmente passageira e esquecível ou um assunto realmente complexo e merecedor de comentários cuidados e refletidos nunca foi a especialidade da sociedade americana. Seja com a mais insignificante ou inofensiva amostra de humor negro que visa incluir todas as minorias ao invés de as menosprezar (como as vias de comunicação social perpetuamente querem fazer parecer), seja com a mais tóxica indignação de uma desportista a fazer uma birra injustificável perante uma derrota (pelos vistos) inesperada e revoltante, seja com uma cambada de pais a tentar proibir certos e determinados livros nos planos educacionais de leitura, seja com o mais sexual ou etnicamente “inadmissível” casting de elencos destinados precisamente a cumprir o seu trabalho – interpretar vidas diferentes. A América gosta de dar atenção àquilo que não merece.

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É completamente compreensível que os cineastas hoje em dia queiram tomar uma posição política ou socialmente ativa. Afinal, esse deve ser o papel de qualquer arte: provocar uma emoção, uma mensagem, um comentário, uma reflexão, uma marca que a torne memorável e importante. Mas controlemos a nossa sede de comentários políticos subjacentes ou de uma progressivamente enjoativa diversidade cultural forçada. Devemos adotar diferenças no cinema? Óbvio. Vamos dar mais oportunidades a mulheres? Vamos. Vamos escolher mais asiáticos, hispânicos, árabes ou pretos para compor os nossos elencos? Vamos. Vamos abraçar a diferença? Vamos. Vamos, através de meras obras de entretimento mainstream ou de peças autorais mais sérias e compromissadas, contribuir para um multiculturalismo benéfico, pacífico e humanitário? Vamos. Vamos procurar nomear objetivamente os melhores candidatos para cada categoria em cada cerimónia de prémios? Va…, bem, quem dera.

Com certeza, pessoas que leram o anterior parágrafo ficaram melindradas ao lerem a palavra “preto”. Mas, não se preocupem, não estão sozinhos. No outro lado do oceano estão pessoas que toleram (ou desvalorizam) a falta de controlo da venda de armas de fogo em ocasionais e humildes supermercados, mas que não admitem que a palavra “nigger” apareça de raspão nos seus ouvidos. Sim, os Estados Unidos é aquele país miseravelmente hipócrita que opta por fechar os olhos a casos de crianças sozinhas em casa que, brincando inocentemente com a pistola do pai, matam por acidente o irmão de 2 anos, e escolhem virar as suas atenções para tweets “desumanamente racistas, misóginos, sexistas, homofóbicos” e dignos de uma sentença profissional quase vitalícia. É este o melhor país do mundo.

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E, como seria de esperar, o cenário já esteve mais ausente em Hollywood, onde as fotografias da Oprah Winfrey e da Meryl Streep carinhosamente ao lado do Harvey Weinstein são (aí sim) varridas para debaixo do tapete e gradualmente substituídas por discursos motivacionais que alimentam a esperança do povo dos Estados Unidos de ser governado a partir de 2021 por uma apresentadora de um talk-show que se conecta com os seus espectadores de maneira básica. Se o cenário político americano está cada vez mais recheado de rostos do entretenimento que fervorosa e escusadamente lutam para alcançar credibilidade ativista e política assim que conseguem atingir independência nos estúdios de Hollywood, então conclui-se que a cultura da celebridade é uma das mais tóxicas dos nossos dias. Enquanto escrevo, Emma Watson e Jennifer Lawrence acumulam seguidores.

A pior coisa que se pode acusar um cidadão branco dos Estados Unidos pode até nem ser de assédio sexual, dada a incrível banalização que esse tema já sofreu, mas sim de ser um indivíduo que negligencia membros da sociedade. O Viggo Mortensen disse “nigger”. RACISTA! O (perfeito contraproducente) Kevin Hart fez piadas sobre gays. HOMOFÓBICO! O James Gunn fez piadas sobre violação. GROTESCO INSENSÍVEL!

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Qual é o remédio para tal preocupação obsessivamente vigilante? Fazer os possíveis para não nos apelidarem injustamente de qualquer que seja a característica que um comportamento minimente provocador (ou não) possa transparecer. A solução é sermos desajustados e, se for preciso, suspeita ou irrefletidamente distintos dos demais, refugiando as nossas crenças num canto seguro e vesti-las com a capa do politicamente correto. Em 2018, o Óscar de Melhor Realizador ia para 1 de 5 pessoas: os mestres Guillermo del Toro, por “The Shape of Water”, e Christopher Nolan, por “Dunkirk”, a grata surpresa Paul Thomas Anderson, por “Phantom Thread”, e os oprimidos Jordan Peele, por “Get Out”, e Greta Gerwig, por “Lady Bird”. Ora, nunca me ouvirão dizer que as nomeações são absolutamente desmerecidas ou que os trabalhos em questão não são bons. A questão aqui é a minha incapacidade de desassociar estas particulares duas atenções com o medo que a Academia secretamente preservava (e ainda preserva) de a população mais “exigente”, digamos, boicotar a cerimónia. “Lady Bird” é um ótimo filme, mas, em comparação com outros profissionais merecedores de uma simples nomeação naquele ano, Greta Gerwig tem ainda de amadurecer como realizadora. Até porque a única ocorrência que lhe deu, de facto, o prestígio daquela nomeação foi o comentário infantil da Natalie Portman, nos Globos de Ouro. Já o casamento de Jordan Peele com a sua comédia de terror e ficção científica foi uma das mais profundas e satíricas amostras do cinema de género que recebemos em 2017. Contudo, tenho receio que esta nomeação e a eventual aclamação na categoria de Melhor Argumento Original tenha sido uma jogada populista da Academia que intencionava transmitir a ideia de “Nós não somos racistas. Nós até premiámos o preto!”. Isto seria tão ou mais estúpido do que as vezes em que dávamos a mesma desculpa na escola primária quando nos perguntavam sobre a nossa relação com os nossos colegas afro-europeus.

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O que mais me preocupa é a verdade à volta da vitória de “Moonlight”. “La La Land” não era de todo o melhor filme do ano, mas, após a revolta do #OscarSoWhite, aquando a divulgação das nomeações de 2016, os queridos premiadores viram-se em maus lençóis e não viram outra melhor hipótese de se “redimirem” senão proporcionando a noite mais feliz a Barry Jenkins. Tenho a certeza de que, se Samuel L. Jackson ou Ryan Coogler tivessem sido nomeados por “The Hateful Eight” ou por “Creed”, “La La Land” certamente teria vencido na respetiva noite. Acho que nem vale a pena comparar a falta de coerência entre a vitória do Casey Aflleck e o caso (aparentemente esquecido) do James Franco. Pelos vistos, a resolução do problema foi fácil para a Academia. Nomearam o Daniel Kaluuya em vez do protagonista do “The Disaster Artist”. Resolveram dois problemas em um. Espertos…

Este ano, não me dei ao trabalho de consultar os nomeados. Aliás, não vi nenhum. Logicamente que a minha intenção não é a de me debruçar sobre se a respetiva qualidade é merecedora de aclamação na gala dos Óscares. Mas, depois de tanta noite de glamour com nomeações e premiações previsíveis em Janeiro, não é difícil de perceber donde vêm as nomeações de Spike Lee (que sempre teve uma má relação com a Academia e que anunciou o seu boicote à cerimónia em 2016), da dupla Yalitza Aparicio e Marina de Tavira (duas desconhecidas completamente ignoradas nas restantes cerimónias com a mínima relevância para “ditar os favoritos”) e de “Roma” em desnecessariamente duas categorias de “Melhor Filme”. Mas, enfim, a conversa sobre a exclusão dos “melhores filmes estrangeiros” e os “melhores filmes de animação” terá de ficar para outro dia. Tal como a incompreensibilidade de apenas 8 filmes serem nomeados, quando o número 10 já existe há algum tempo.

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Os Estados Unidos demonstram cada vez mais que não só estão a construir um caminho perigoso de uma suposta harmoniosa aproximação racial e/ou cultural, mas estão a se esquecer daquilo que deviam fazer – premiar pessoas talentosas. Com certeza, no passado terão existido casos em que o racismo disfarçado da organização prejudicou aquele que devia ser um claro vencedor. Mas a solução não está na simples seleção de uma amostra de cada etnia ou género, só para não deixar ninguém de parte. Convido-vos a adivinhar qual foi o primeiro artigo de indignação que me apareceu no feed do Twitter. Exatamente, “Não nomearam nenhuma mulher para Melhor Realização!”, no Daily Mail. Estou mesmo a ver que em 2021 nomeiam a Patty Jenkins pelo “Wonder Woman 1984” só para não correr riscos, caso não haja outra hipótese. É este o país do Tio Sam. Portugal pode ser muito desrespeitador, retrógrado, fechado, católico e conservador, mas pelo menos o Zé Povinho é honesto (ainda que na sua cruel falta de noção, instrução, educação e inteligência). Somos racistas e, por vezes, parece que ficámos parados no tempo. Mas, vá lá, não ficamos com o cu entre as pernas.

 

Sugerido:

The Disaster Artist (Um Desastre de Artista, 2017) - Crítica

Dunkirk (2017) - Crítica

Get Out (Foge, 2017) - Crítica

Phantom Thread (Linha Fantasma, 2017) - Crítica

The Shape of Water (A Forma da Água, 2017) - Crítica

 

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Stranger Things S1 – requisitar o irresistível supérfluo

No meio da oferta televisiva e cinematográfica de uma incontrolável escala que temos recebido nos últimos anos, para além de produzir ou assistir a conteúdo inteiramente visionário ou original, fica difícil para os espectadores se decidirem entre aquilo que escolhem para sessões de binge-watching. Sem grandes rodeios hoje, aquilo que apenas pretendo constatar é: todos nós gostamos de voltar à nossa infância.

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Quem é que pediu as sequelas dos filmes da Pixar? Quem é queria mesmo ver a sequela de “Trainspotting” ou o remake live-action de “Beauty and the Beast”? E quem é que está excitadíssimo para contemplar as versões em carne e osso de “Dumbo”, “Aladdin” e “The Lion King”. Ninguém. Absolutamente ninguém. No cenário atual composto pelo sucesso do cinema blockbuster auxiliado pela gradualmente emergente tecnologia das imagens computadorizadas, pela falta de efetividade das gigantes criações de estúdios cegamente apressados e pela rara aparição de novas e boas ideias, tanto a televisão como o cinema tendem gradualmente a recorrer a uma ferramenta estupidamente simples de reproduzir as vezes que forem precisas: nostalgia.

Não há nada como assistirmos a uma série ou a um filme que nos leve de volta ao período mais prazeroso da nossa vida, em que as preocupações eram escassas e o tempo livre era abundante. Portanto, nada como uma oferta televisiva ao nível de “Stranger Things”. Não sou descendente da cultura popular dos Anos 80, mas coleciono uns semelhantes gostos com os personagens principais da série dos Irmãos Duffer. São estes claramente filmes da década, sobretudo os de Steven Spielberg e de John Carpenter (perdoe-me, fãs de Stephen King, por nunca ter lido nada). Como qualquer bom cinéfilo, sou fã daquilo que se fez na década. Aliás, como não ser? No entanto, “Stranger Things” torna-se num recheado aglomerado não só daquilo que de melhor se fez no ramo do entretenimento e progresso cinematográfico nessa altura em específico, mas também daquilo que os nerds da altura futuramente descobririam.

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No território Steven Spielberg, observamos o olhar inocente, ingénuo e simples de um grupo de crianças maravilhadas com fenómenos sobrenaturais que interrompem a sua rotina constituída por passeios de bicicleta e sessões de jogos de tabuleiro; uma total indiferença e ignorância parental; a típica mistura de paranoia e medo da Guerra Fria; uma agência governamental secreta sedenta por explorar os fracos a favor da cruel e insensível vitória política. Tudo pincelado com múltiplas referências a “Jaws”, “Close Encounters of the Third Kind” e “E.T. the Extraterrestrial”.

No campo John Carpenter, recebemos uma panóplia cinematográfica da abordagem do monstro, acompanhada por outros clássicos do género. Isto é, se Steven Spielberg está presente em “Stranger Things” através do olhar infantil das crianças e da rara maturidade dedicada e bem-intencionada de alguns adultos, John Carpenter está presente não apenas nas referências a “Assault on Precinct 13”, “Halloween”, “The Fog” e “The Thing”, mas também na fotografia minimalista e ligeiramente poluída oitentista, na banda sonora eletrónica com pesadas batidas, no néon do próprio genérico e no tratamento do misterioso e aleatório terror. Aliás, tudo o que envolve o monstro (o chamado Demogorgon) é feito com uma mestria semelhante à de outros clássicos do género (“Alien”, de Ridley Scott, “Poltergeist”, de Tobe Hooper, “A Nightmare on Elm Street”, de Wes Carven, e “The Evil Dead”, de Sam Raimi). É mostrado o mínimo daquela bizarra criatura e, se não fossem alguns toscos efeitos visuais e cenas falhadas de green screen, a série seria uma exemplar obra do CGI moderno.

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No universo Stephen King, está a dissecação do lado negro individual; a angustiante rotina de crianças (realisticamente asneirentas, como aconteceria em “It”, de 2017) num ambiente no qual são constantemente vítimas de humilhações que lentamente progridem para ameaças e agressões e, como seria de esperar, os inevitáveis confrontos com figuras monstruosas simbólicas. Pequenos detalhes como a fonte da letra do logotipo da série e as figuras de ação do jogo preferido dos personagens são relativos a inspirações que os Irmãos Duffer desenvolveram. Marcas visuais dos filmes baseados em livros do escritor americano como “Carrie”, “The Shining”, “Firestarter”, “Stand by Me” e “It” são fortes presenças.

Com uma riqueza cultural inacreditavelmente extensa, “Stranger Things” podia ser já considerada uns dos trabalhos mais perfecionistas da Netflix. No entanto, como qualquer boa história, esta precisava de bons personagens. Mais uma tarefa cumprida. O trio principal é um dos melhores vistos nos últimos anos em televisão. As interpretações são naturais e os atores, claro, são extremamente dedicados. A química do grupo é irretocável, igualmente proveniente da dinâmica de grupos como os de “The Goonies”, de Richard Donner, e de “Explorers”, de Joe Dante, e particularmente característica de um amor notável pelos universos da Marvel, de “Star Wars”, do He-Man e de Dungeons & Dragons.

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O Finn Wolfhard é meritamente o líder do grupo, tem muito carisma e a relação entre ele e a Eleven é envolvente e uma ferramenta para ambos se redescobrirem e autoavaliarem. Comicamente, o Gaten Matarazzo é a alma não só do grupo central, mas também de toda a série, para além de igualmente uma frequente voz da razão. Em termos interpretativos, o Caleb McLaughlin é o melhor, o ator entrega-se inteiramente ao personagem e convence perfeitamente como um amigável, nervoso e sarcástico provocador. O Noah Schnapp faz o que deve com o tempo que tem. E a Millie Bobby Brown é facilmente o membro mais importante do elenco, muitas vezes sem dizer uma única palavra. Eu adorei a expressividade da atriz! A autenticidade do seu arco e personalidade é, sem dúvida, a chave da série e tudo o que envolve a manifestação das suas habilidades paranormais e aqueles flashbacks nos laboratórios é feito com extremo cuidado.

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Os melodramas típicos dos seios adolescentes são moderadamente bem feitos, ao contrário do que acontece na maioria dos filmes ou séries. Porém, o elenco, com duas exceções, não é nada de especial. Se apenas víssemos estas caras com menos frequência, a série seria mais prazerosa, pois acompanharia ainda mais as crianças, cuja história é a mais empolgante. O personagem do Joe Keery ganha profundidade no decorrer. Já a dupla Natalia Dyer e Charlie Heaton tem uma das sub-tramas mais interessantes. Acompanhar uma moça proveniente dos filmes do John Hughes a se atrair por um filho da cultura punk rock emergente dos Anos 80 é muito promissor e novamente relativa a clássicos contos sobre jovens casais desajustados. A Nancy é uma personagem inteligente e tem um carisma distinto. E o Jonathan é um ótimo acerto no que diz respeito ao desenvolvimento de adolescentes mais maduros que a sua própria geração no audiovisual contemporâneo.

A Winona Ryder está perfeita. Chega a ser até incómodo ver aquela mãe em tal desespero e isolação da comunidade, em específico quando duvida, inclusive, da sua capacidade de diferenciar o real do imaginário, enquanto corajosamente procura o filho desaparecido. A atriz superou-se e não seria descabido afirmar que esta é a melhor interpretação da sua carreira.

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E o David Harbour é um talento para as próximas décadas. O ator consegue transmitir toda a dor que o personagem carrega, mesmo debaixo daquela carapaça brincalhona de um duramente empenhado polícia de uma cidade pacata na qual nada de mau geralmente acontece. A sua motivação é claríssima desde o início, fazendo com que o público o acompanhe a 100%.

Já o Matthew Modine foi um desperdício. Mesmo sabendo que a série procura relacionar os eventos com a perversidade política do seu tempo, o personagem é raso e merecia mais profundidade. O Soldado Joker de “Full Metal Jacket” merecia mais.

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A Netflix começou esta aventura da produção de séries fictícias originais em 2013, com “House of Cards”, mas a verdade é que “Stranger Things” é certamente um dos seus pilares. O popular serviço de streaming expandiu-se no expansionista mundo do entretenimento e, até hoje, sai regularmente vencedora (uma vez que todas as empresas seguem os passos idênticos – planear mais enredos televisivos visionários). “Stranger Things” é uma enorme, detalhada e emocionante carta de amor à cultura dos Anos 80 e uma das mais honestas amostras daquilo que se pode construir em televisão, sem jamais apelar à superficialidade vista há uns anos atrás nos pequenos ecrãs. Com certeza, falarei sobre a segunda temporada.

 

Nota: B+

 

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Acendalha Datilográfica #1 – Fences

Vou abrir mais um espaço. Este irá ser somente uma transcrição dos melhores diálogos que se me entrarem nos meus ouvidos de cinéfilo. A primeira entrada é uma das cenas mais marcantes da terceira longa-metragem do Denzel Washington. Diretamente do teatro e cheia de excelência.

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Cory

Can I ask you a question?

Troy

What the hell you got to ask to me? Mr. Stawicki’s the one you got the questions for.

Cory

How come you ain’t never liked me?

Troy

Like you? Who the hell said I got to like you? What law is there say I got to like you? You want to stand up in front of my face and ask a damn fool-ass question like that. Talk about liking somebody. Come here, boy, when I talk to you. Straighten up, God damn it! I asked you a question. What law is there say I got to like you?

Cory

None.

Troy

Alright, then. Don’t you eat everyday?

Answer me when I talk to you. Don’t you eat everyday?

Cory

Yeah.

Troy

Nigger, as long as you in my house, you put a “sir” at the end of it when you talk to me.

Cory

Yes, sir.

Troy

You eat everyday?

Cory

Yes, sir.

Troy

Got a roff over your head?

Cory

Yes, sir.

Troy

Got clothes on your back?

Cory

Yes, sir.

Troy

Why do think that is?

Cory

Because of you.

Troy

Hell I know it’s because of me. But why do you think that is?

Cory

Because you like me?

Troy

Like you… I got out of here every morning and bust my butt putting up with them crackers everyday because I “like” you. You about the biggest fool I ever saw. It’s my job. It’s my responsability. A man is supposed to take care of his family. You live in my house, fill your belly with my food, put you behind on my bed because you’re my son. Not because I like you, because it’s my duty to take care of you. I owe a responsability to you. Now, let’s get this straight right here and now, before it go long any further. I ain’t got to like you. Mr. Rand don’t give me my money come payday because he like me. He give it to me because he owe me. Now I done give you everything I got to give you. I give you your life! Me and your mamma worked that between us and liking your black ass wasn’t part of the bargain. Now don’t you go through life worrying about whether somebody like you or not. You best be making sure they’re doing right by you. You understand what I’m saying?

Cory

Yes, sir.

Troy

Then get the hell out of my face and get on down to that A&P!

 

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Queres ser ator? Mas para quê?

Vivemos numa altura fascinante da indústria audiovisual. Se há quarenta anos apenas um Ridley Scott ou um Woody Allen podiam comandar as suas produções hollywoodianas e fazer filmes com extrema frequência, beneficiados, lá está, pela falta de concorrência, hoje, já que temos todo o equipamento à venda ali ao lado e um mundo digital à distância de um clique onde nos é permitido disponibilizar os nossos trabalhos, vivemos na melhor altura para quem quer ser um guionista ou realizador. Aliás, o mesmo pode ser dito acerca de atores.

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Num dos episódios do recente podcast ‘A Cave do Markl’, apresentada pelo bem-disposto radialista e guionista, numa habitual conversa sobre o panorama televisivo atual, expressou a sua satisfação, mas também a sua exclamação – “Parem de fazer tantas séries. Nós não conseguimos acompanhar tudo!”. Concordo plenamente. Como um cinéfilo ainda em descoberta de tudo e mais alguma coisa, a televisão contemporânea em constante evolução é ainda um universo bastante adormecido na minha watchlist.

Porém, concluí: “Se cada vez mais jovens realizadores se podem expandir no meio tecnológico, através da divulgação das suas humildes (porém competentes e profissionais) curtas-metragens ou sketches, chegando a se consolidar numa Netflix, o mesmo se pode dizer sobre quem dá a cara num filme ou numa série.”. Acho que o comentário “Hoje em dia, são todos atores…” nunca foi tão bem situado como atualmente. Há quarenta ou trinta anos, se querias ser ator, tinhas de te expandir na televisão ou no teatro, ambos territórios extremamente hostis (dada a severa falta de oportunidades). Nesses períodos de evolução, sim, qualquer jovem podia timidamente praticar a sua expressividade à frente de um espelho ou entreter a família em habituais (e toscas) reuniões caseiras. Muitos são os atores da nossa praça que (risivelmente, até) afirmam terem começado com tenra idade a fazer teatrinhos para os pais, irmãos e tios. Hoje, no meio de tanta oferta, fica mais fácil para qualquer jovem se expandir no negócio. No entanto, não quero opinar sobre a falta de talento de determinados “veteranos” ou elencos adolescentes emergentes em conteúdos indistinguíveis da televisão portuguesa (o que seriam alvos de crítica interminável). Apenas manifesto a minha vontade em refletir um pouco sobre este ofício: representar.

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Na altura do primeiro ciclo da escola básica, na minha pura (e compreensivelmente escusada) ingenuidade, manifestei à querida professora que me acompanhou durante quatro anos a minha vontade em futuramente me aventurar no meio artístico, nomeadamente no campo do acting. Mais valia estar calado e não dizer asneiras. Sim, senhor, tratava-me de uma criança. Sim, senhor, a professora ofereceu mais um dos seus belos sorrisos ao rapazito característico de uma inocente, ainda que elétrica criatividade e imaginação. Sim, senhor, como qualquer outra pessoa, os ouvidos da professora deliciavam-se com o monólogo genuíno de um puto a expressar os seus interesses mais primitivos.

A palavra-chave aqui é “interesses”. O meu gosto por cinema e por histórias não nasceu ontem. Por acaso, ao contrário do Christopher Nolan, nunca terei a oportunidade de dizer que brincava com a câmara do meu pai e me divertia a fazer vídeos em stop-motion com figuras de ação. Ao contrário do Quentin Tarantino, não poderei afirmar que o meu gosto pela Sétima Arte é proveniente de um amor pelo cinema francês ou italiano. Tudo aquilo que ainda não consumi compõe uma mera falta de instrução. O meu gosto por ver personagens numa tela a interagir e a transmitir bons valores e lições apenas se afundou pelo meu cérebro adentro devido às suas imagens e narrativas estimulantes. Mesmo com a ótima educação que recebi (tanto familiar como escolar), o expoente máximo de conhecimento obtido no aborrecimento do dia-a-dia não era tão motivante como os mínimos minutos de entretenimento que um curto filme de animação (ou de qualquer outro género) me provocava quando chegava ao meu sofá e ligava a televisão e o antigo leitor de DVD. Parece clichê. É clichê. Mas é assim que as paixões de qualquer um nascem. A minha nasceu graças a esta incansável rotina.

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Isto para dizer o quê? Tal como eu, na minha falta de noção ligeiramente comovente, qualquer outra pessoa (e eventualmente ator) terá manifestado a sua vontade de, na sua serena ou rebelde fase de infância ou adolescência, subir a um palco ou a um set de filmagens e encarnar a pele de uma pessoa cuja vida foi escrita num papel parido numa máquina de escrever ou num documento word. E aqui é que as coisas merecem ser esmiuçadas ao microscópio. Dada a frequência com que vemos milhares (quiçá milhões) de caras nas pequenas e grandes telas, fica difícil levar todas a sério. Afinal, o que motivou alguém a desejar aparecer à frente de uma câmara e fazer parte de uma ficção ou representação da realidade, ganhando dinheiro e estabelecendo uma vida através de tal (simples ou complexa) atividade? Quais são a(s) origem(ns) e a(s) finalidade(s) que provocam uma motivação artística e profissional num jovem desconhecido que se aventura numa série da Netflix ou num musical do Filipe La Féria? Afinal qual é que é o enorme prazer em interpretar personagens?

Infelizmente, achar estas respostas no panorama português é bastante fácil. A recente (e excelente) série “Sara”, da RTP, satiriza os “atores de Instagram”, como o próprio Nuno Lopes gosta de os descrever. São estes uns quantos narcisistas que se infiltram em banais, descartáveis, supérfluas, ainda que bem-intencionadas produções televisivas. Pessoas com a necessidade de satisfazer o seu desejo de aparecer e preenchimento de uma atenção possivelmente nunca correspondida. A necessidade de ser seguido e apreciado por diversas pessoas (ou sem critérios ou sem noção da tóxica cultura da celebridade). No entanto, desde os teatros gregos aos filmes do Marlon Brando, o significado de “ser ator” ganhou (e com todo o mérito) uma diferente significado. E qual ao certo?

Sugerido: Sara T1 - a monumental e definitiva sátira televisiva portuguesa

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No podcast “A Beleza das Pequenas Coisas”, a frase destaque do primeiro episódio com a convidada de honra (e que regressaria eventualmente duas vezes) Rita Blanco foi “Enquanto vivo outras vidas distraio-me da minha própria morte”. Nas variadas conversas entre a atriz portuguesa e o jornalista Bernardo Mendonça, o ofício da querida cara do cinema português originou diversos pontos de vista e reflexões promissoras para suscitar o interesse de qualquer puto no seu quarto a ouvir uma agradável conversa entre duas pessoas apaixonadas pelas suas profissões. Embora já não tenha o bichinho da representação, provavelmente admiro ainda mais o talento de alguns (ou de poucos) artistas que verdadeiramente exercem esta parte de um filme, de uma série ou de uma peça com a maior mestria. A resposta que mais rapidamente surgiria na nossa cabeça (daqueles que consomem (ou que pelos menos tentam) todo o tipo de arte) seria “Eles fazem isto porque é Arte. Estão apenas a se expressar, a tentar validar o seu ponto de vista sobre determinado assunto em determinado período histórico, político, social…”.

Sugerido: São Jorge (2017) - Crítica

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De facto, é verdade. A arte sempre foi um reflexo da História, uma ferramenta para os seus criadores representarem um conflito coletivo do seu tempo ou simplesmente demonstrarem o quão certos estão através da partilha de determinados pensamentos retorcidos, fora da caixa ou visionários (partilhados ou espezinhados pela maioria), jamais recorrendo à obviedade e, sempre que possível, desenvolvendo humor e, logo, o cativante fator do entretenimento (os irónicos filmes dos Irmãos Coen ou as obras injustiçadamente ignoradas do Stanley Kubrick são exemplos significativos). Nesse aspeto, "A Clockwork Orange" acertou na mosca (como poucos, por sinal).

Ser ator, todavia, acaba por ser uma atividade egoísta (no melhor sentido da palavra) do que qualquer outra coisa. Quem tiver o talento e quem tiver a dedicação pode muito bem viver a vida de outra pessoa, testemunhando em primeira pessoa eventos que jamais ocorreriam na pacífica e insignificante existência do sujeito em si. Haverá coisa melhor do que a aprendizagem? Haverá coisa mais interessante do que a evolução moral e a exploração de uma mente? Já imaginaram os traumas com alguns atores ficaram depois de determinado trabalho? Quanto maior eles forem, com certeza que maior é a realidade que se imprime em cada cena. Já que estamos a calçar os sapatos de outra pessoa mais vale vermo-nos exatamente nos mesmos cenários. Bons ou maus. Glamorosos ou miseráveis.

Sugerido: Walter 'Heisenberg' White - violência e a perda da insignificância

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No humor, em particular, a missão costuma ser bem específica. Isto pode parecer ser apenas um aparte, mas muitos são os humoristas e atores de comédia que declararam ao longo da sua carreira que gostam de fazer os outros rir principalmente devido à terapia que retiram daquele processo. A necessidade introvertida de fazer os outros rir depois de nós passarmos o tempo inteiro no nosso cantinho tímido ou num canto obscuro repleto de autodepreciação e falta de autoestima torna a simples atividade de palhaçada num autêntico laboratório de exorcização não só dos demónios daqueles que sobem para cima dos palcos ou de cenários, mas também dos pontos de vistas gerais de uma sociedade. Enfim, isso pode ficar para outro dia.

Sugerido: Uma Reflexão sobre "Actores", de Marco Martins

Regressando ao que interessa. Ser ator passa por diversas responsabilidades: a representação fiel de um personagem; a obediência para com o comandante de uma história (um realizador ou um encenador); a capacidade de transmitir os variados sentimentos, de preferência sem diálogos, lidando calmamente com a “máquina emocional” dentro de cada profissional (como a peça “Actores”, de Marco Martins, tencionou demonstrar) e a transformação física (muitas vezes obsessiva) do sujeito responsável por (voltar a) dar vida àquele personagem. Na minha opinião, a mais admirável componente de um ator é a vontade de modificar o seu aspeto. O galês Christian Bale e o respetivo mestre Gary Oldman têm o mesmo princípio: “O objetivo é olhar-me ao espelho e não me reconhecer.”. Se alguma vez me aventurasse neste meio, saberia perfeitamente que seria este o lema a adotar.

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Sugerido: The Dark Knight - a frágil e falsa moralidade humana

A conclusão à qual chego é que a linha que separa a paixão pela arte da necessidade de cumprimento de um reles e insípido show-off é bastante lógica e fácil de identificar. Claro, apenas conversando com qualquer artista percebemos o miolo dentro da sua conduta profissional. Julgar não é algo inteiramente certo, mas é claramente uma ferramenta fácil para dissecar as pessoas e conseguir lê-las, descobrir os seus valores, os seus interesses, as suas opiniões (ou a falta de qualquer uma destas coisas). Não me venham cá dizer que uma personalidade não é definível por um determinado tipo de características ou atitudes.

Mas perceba-se onde quero chegar. Muito provavelmente perdi o interesse outrora fervilhante em interpretar pessoas diferentes de mim (quer para o bem da arte quer para espalhar entretenimento) apenas por, devido a inúmeras indesejadas experiências (porém benéficas a longo prazo, como se pode notar), me ter tornado neste bicho trombudo e incapaz de gostar de um desconhecido, seja a pessoa um típico people-pleaser ou um antipático semelhante a mim. Se bem que tendo sempre a simpatizar com quem diga mal de tudo e mais alguma coisa, tal como eu. Podia ficar aqui horas e horas a escrever aquilo que acho, já pareço o Alvy Singer, do “Annie Hall”.

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A tarefa de me abstrair do meu ponto de vista em relação a individualidades alheias (sejam reais ou bonecos nas frases de um guião) é praticamente impossível. Evitar juízos de valor constantes até enquanto ando na rua e descortino os restantes membros da população que por mim passam não é uma das minhas especialidades. Ainda por mais, se levássemos isto para outro nível, aí sim, eu corria o risco de perder a minha identidade. Sei perfeitamente que esta atividade, quando levada a sério, é dificílima, é exigente de uma impecável concentração, disciplina, fisicalidade, expressividade e genuinidade. Só não gostava de ficar instável como o Jim Carrey depois do “Man on the Moon”. Abandonar a minha rotina e adotar outra? Procurar as mais complexas fontes para estudar o comportamento de um personagem verídico? Passar por brutais dietas? Talvez não. Talvez não. Antes ficar atrás das câmaras e dirigir atores. Isso sim sei que conseguiria. Conseguiria transmitir aquilo que queria. A não ser que estivesse a trabalhar com um João Nunes da vida. Aí, sim, teríamos problemas ou desistência da minha parte. Ou podia sempre torturá-los como fazia o Alfred Hitchcock. Divertir-me-ia.

 

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Vox Lux – excessividade alegórica ululante

Chega-nos um filme bastante autoral e provindo de territórios característicos de uma estranheza semelhante à do Yorgos Lanthimos e uma mestria visual inspirada no trabalho do Stanley Kubrick. Definitivamente não para toda a gente. Mas bom?

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A segunda longa-metragem realizada pelo ator americano Brady Corbet acompanha a transição da juventude para a vida adulta de uma adolescente que, após vítima de um ato de extrema violência, inicia uma carreira musical que a eleva ao estatuo de popstar global.

Com muita pena minha, não vi “The Childhood of a Leader”, a estreia de Corbet na realização e por muitos considerado um dos melhores filmes de 2016. Em 2018, com estreia no LEFFEST e em inúmeros outros festivais, “Vox Lux” foi esperado com alguma antecipação depois de serem expostas fotografias da Natalie Portman com aquele visual. Independentemente da sua receção, o filme certamente dividirá o seu público, apesar de ter estado a receber críticas gerais bastante favoráveis até agora, ao contrário de “Mother!”, por exemplo. A diferença mais notável entre o filme de 2018 e o do Darren Aronofsky é a forma como estes foram aceites. Mas, enquanto que o filme chacinado pela crítica protagonizado pela Jennifer Lawrence abria a porta para um universo de comentários sociais e humanísticos, “Vox Lux” prova ser um filme inclusivo de bastante talento, porém prejudicado por obviedades alegóricas e fenómenos inexplicados que estragam aquele que podia ser, de facto, um dos melhores filmes do ano.

Sugerido: Mother! (Mãe!, 2017) - Crítica

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Mas começando pelos prós. Tecnicamente falando, Brady Corbet é ótimo. O realizador ostenta um trabalho de câmara maravilhoso, composto por longuíssimos planos sequência, desde o mais estimulante tracking shot nas costas dos personagens nas ruas de Nova Iorque ou nos bastidores de um espetáculo, até ao plano médio estático no qual o elenco pode se expressar de forma passivamente eloquente. Mais que uma vez, aliás, a câmara percorre estradas ou túneis intermináveis cheios de uma luminosidade sinistra, que constituem a realidade mais psicadélica do filme, sustentando algumas camadas temáticas. E nesta equação está também uma banda sonora diversificadamente bizarra, constituída por heavy metal, baladas e acapella. Sendo alguns deles temas da autoria da australiana Sia. Visualmente, o filme é majestoso. Mérito do inglês Lol Crawley, que trabalhou no episódio ‘Crocodile’, de “Black Mirror”. Os três atos de “Vox Lux” são fotografados com paletas de cor individuais, começando numa desconfortável ambientação monotonamente arrepiante e escura, percorrendo posteriormente cores góticas e berrantes também no guarda-roupa (um preto, um azul, um roxo, um néon), finalizando num espetáculo visual estonteante mais declarado. Destaque também para a edição urgente do Matthew Hannam, que editou “Swiss Army Man”.

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E é então que chegamos ao guião. O filme é uma enorme dissecação na sua protagonista. Esta é interpretada por duas atrizes em períodos distintos da sua vida e o arco é extremamente bem escrito. Na sua base, “Vox Lux” é um filme acerca da perda da inocência. A personagem é apresentada como uma jovem ingénua, passivamente doce, religiosa e talentosa. Com uma bagagem de 17 anos de sucesso, torna-se na vítima da sua própria ascensão. Conhecemos uma mulher egocêntrica, narcisista, histérica, insultuosa, prepotente, viciada, mal resolvida e extremamente inadequada para educar uma filha. À margem do excelente estudo de personagem, o filme fala sobre as consequências a longo prazo de atos violentos; a perceção individual de que tudo à nossa volta nos engole e jamais acompanha o nosso crescimento acelerado; da sensação de que, ao contrário de toda a gente, somos as únicas vítimas da inelutabilidade do tempo; dos danos e defeitos que, neste caso, uma filha herda da mãe e o mau lado de uma fama mundial repentina. Dava para se fazer algo extraordinário com tudo isto, certo? Mas qual o problema?

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O problema do Brady Corbet é a sua necessidade de (quase) reinventar a linguagem cinematográfica à qual estamos habituados. O principal problema do filme não é o texto nem os comentários mais simples, mas sim alguns recursos artísticos sem qualquer lógica que jamais funcionarão no cinema. É muito difícil descrever o filme sem dar spoilers, sem comprometer a surpresa do espectador, mas a verdade é que os métodos que o realizador escolheu são pobres e (na falta de um termo melhor) ridículos. Em certa medida, “Vox Lux” fez-me lembrar o filme que o personagem do José Raposo queria fazer na série “Sara”. A ligeira pretensiosidade do Corbet assemelha-se à falta de noção do Morais.

Sugerido: Sara T1 - a monumental e definitiva sátira televisiva portuguesa

E, para piorar, o filme tenta também explorar o recente fenómeno de tiroteios nas escolas americanas e do terrorismo na Europa, sem jamais justificar a aleatoriedade daquelas cenas. São sub-arcos absolutamente esquecidos. Inclusive, no primeiro ato, a protagonista tem um monólogo pormenorizadamente descritivo de um sonho repleto de simbologia conveniente e bastante fácil de entender. Não pensaram nenhuma vez em mostrar esse sonho? Com decisões extremamente contraproducentes como estas, tanto as interpretações como a credibilidade do filme são prejudicadas. Pelo menos o elenco é espantoso. Nos seus melhores momentos, a Raffey Cassidy ofusca uma boa parte dos colegas e prova ser uma atriz com uma ótima carreira futura. A jovem de 16 anos já me tinha impressionado muito no “The Killing of a Sacred Deer”. Ela canta, tem um estilo de representação quase único, cheia de incertezas e uma inexpressividade preocupante. É muito talentosa. Infelizmente, é a principal prejudicada pelo realizador. O que foi feito com a atriz aqui foi ilógico e até mesmo desrespeitoso. Manchou a sua prestação.

Sugerido: The Killing of a Sacred Deer (O Sacrifício de Um Cervo Sagrado, 2017) - Crítica

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A Natalie Portman está espetacular. É provavelmente uma das melhores performances da sua carreira. A partir do momento em que aparece, a atriz comanda imediatamente os diálogos com uma eloquência antipática e detestável, deixando à vista, no entanto, uma mente feminina altamente desequilibrada e danificada pela vida que nunca pediu, mas que jamais pensou em abandonar.

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O Jude Law está ótimo. Está totalmente à vontade com o seu personagem, que, por sua vez, provoca imensos mixed feelings no público. Nem o espectador nem as personagens têm a certeza das suas intenções. É uma pessoa difícil de descortinar. Será mais um agente sedento por dinheiro ou um homem com boas intenções e apenas rígido e leviano?

A Jennifer Ehle não faz grande coisa. Na maior do tempo, a Stacy Martin é mantida na sombra da Natalie Portman e da Raffey Cassidy, mas tem uma cena memorável. Já o Willem Dafoe dá uma aula de narração. Narrar um filme nunca é absolutamente necessário, é verdade. Mas a voz tenebrosamente densa e envelhecida do ator adequa-se extremamente bem à história, complementando as informações presentes no texto e fornecendo outras por cima de interessantes montagens.

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Infelizmente, poucas são as virtudes que compensam o mau lado de “Vox Lux”. Não é um filme necessariamente medíocre, só muito dececionante. Podíamos ter uma obra introspetiva assente em visual storytelling e uma ambiguidade provocadora, mas recebemos um produto pretensioso, insciente, óbvio e contraproducente – uma vítima da sua própria ambição.

 

Nota: C+

 

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Bird Box – bom terror, prescindível processo

Com uma receção comercial surpreendente, críticas mistas e uma infinita porta para memes, “Bird Box” fez-me reavaliar a minha perceção da Sandra Bullock.

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Ao contrário do que Hollywood nos quer convencer constantemente com algumas insípidas ofertas, a cara da mais recente história de suspense disponível na Netflix não está entre as melhores atrizes dos Estados Unidos. Sim, a Sandra Bullock está ótima em obras como “Gravity” e “Our Brand is Crisis” (estou sozinho na última opinião). “The Blind Side”, pelos vistos, distorce a verdadeira personalidade e intenções da sua personagem na vida real, tendo sido esta, na verdade, o trabalho que rendeu um Óscar à atriz. A meu ver, nem que seja depois de construir uma carreira solidificada com o sucesso de comédias românticas, qualquer atriz tem de se superar. A Julia Roberts, por exemplo, conseguiu tal evolução com “Homecoming”, a recente série da Amazon.

Mesmo gostando no geral do que a Sandra Bullock vai fazendo, estou ainda à espera que esta decida abandonar a sua típica (porém esbelta) aparência física. O tempo que qualquer homem perde a olhar para a Sandra Bullock é prazeroso, no entanto, para qualquer bom cinéfilo, os critérios são outros.

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Seria muito fácil descartar a nova aposta cinematográfica da Netflix, sobretudo por termos chegado ao fim de 2018 e o popular serviço de streaming nos tenha oferecido a (gigante) continuação do fenómeno “Black Mirror”. Mas, num ano em que recebemos “A Quiet Place”, “Bird Box” apresentou uma premissa semelhante, proveniente do material homónimo de Josh Malerman, publicado em 2014. Se na espetacular oferta de John Krasinski a família protagonista não podia fazer qualquer barulho, na última longa-metragem de Susanne Bier (vencedora de um Óscar por “Hævnen”, de 2010) acompanhamos uma cética pintora compromissada em proteger os filhos de uma ameaça fantasmagórica para a qual não se deve jamais olhar.

O filme tem sido esmiuçado e a verdade é que a dita metáfora tem peso. Para começar, o terror é desenvolvido perfeitamente. Nada é mostrado, fica tudo para a imaginação do espectador que, ao fim de 2 horas, não recebe nenhuma linearidade visual ou resposta. A ameaça da vez, na sua obscura manifestação, é uma representação de depressão, tendências suicidas, solidão, medos, demónios e o consequente desconhecido, que, como sabemos, é uma das maiores armas do cinema de terror. E, somando ao brilhante tratamento antagónico uma banda sonora pesada (porém, não original), um trabalho de câmara fechado, introspetivo e claustrofóbico e uma fotografia atenta às cores primárias, “Bird Box” revela ser um filme minimamente competente.

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A palavra aqui é “minimamente”, pois o maior problema (e desilusão) é o guião do Eric Heisserer, que escreveu “Arrival”. A estrutura narrativa divide-se entre a atividade inicial, na qual a protagonista Malorie aprende a viver no cenário apocalíptico, e a segunda parte da trama, na qual observamos a personagem no seu futuro conflito. Uma abordagem puramente prejudicial para qualquer situação de tensão. “Deadpool”, de 2016, soube aplicar perfeitamente esta manobra de edição e argumento. Porém, quando sabemos exatamente onde estará a protagonista daqui a 1 hora, mais valia nem termos assistido àqueles minutos iniciais. Ficamos cientes da morte dos personagens secundários e jamais tememos a sério pela Sandra Bullock. As únicas surpresas apenas surgem no final. Existe, inclusive, uma escolha da personagem da Sandra Bullock que condiciona o desenrolar do arco de dois personagens, digamos assim. É algo explicado, mas torna-se (à falta de melhores termos) parolo e impensável.

O Trevante Rhodes tem ainda muito para mostrar. O ator de “Moonlight” provou a sua vontade de encarnar personagens e de se dedicar profundamente aos mesmos. Aqui, ele está bem, está muito carismático e a relação com a Sandra Bullock é genuína e bem construída.

O John Malkovich não interpreta um personagem muito diferente do que fez em “Deepwater Horizon”. O filme de 2016 é melhor, mas o ator está perfeitamente operante e à vontade, já que não é exigido grande coisa dele. Eu tendo a simpatizar bastante com personagens em cenários pós-apocalípticos quando estes discutem o seu racional sentido consequencialista de sobrevivência, provocando um habitual debate no público. No entanto, o personagem devia mostrar mais tristeza e raiva por uma perda em particular.

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A Sarah Paulson dá peso ao pouco tempo que tem. A Danielle Macdonald está incomodamente bem. O BD Wong não faz grande coisa, mas também nunca fez. O Tom Hollander, como tem feito, voltou-me a suscitar o interesse. Já o Lil Rel Howery foi um desperdício. Eu esperava que este fosse um alívio cómico funcional, já que gostei bastante dele em “Get Out”. Todavia, o ator não tem oportunidade de ir além do típico nerd líder das cenas de exposição.

Sugerido: Get Out (2017) - Crítica

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Para além disto, qualquer filme decorrente num apocalipse perde credibilidade quando uma mulher aparece perfeita e invariavelmente maquilhada e penteada ou quando o homem jamais tem uma barba desarranjada. A Susanne Bier provavelmente não viu o “Cast Away”. De seguida, como podemos verificar, trata-se de um filme no qual os personagens andam às cegas, onde, no entanto, a movimentação do elenco parece encenada demais, diminuindo o realismo.

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“Bird Box” é um filme razoável. É elevado pela dedicação do seu elenco e pelos bons momentos de tensão, porém prejudicado por um guião preguiçoso e uma execução que sabe a pouco quando comparada à de filmes semelhantes.

 

Nota: C+

 

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Top 10 Filmes mais Antecipados de 2019

Para mudar os hábitos nesta baderna, decidi listar os 10 (ou mais) filmes que mais espero para o ano que vem. Como é lógico, decidi incluir os que terão a respetiva estreia no país de origem (nada de lançamentos atrasados de filmes oscarianos).

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Pode ser que, com isto, ganhe ideias para futuras crónicas. Este blog já precisou menos de injeções de novas formas de criatividade, já que não escrevi sobre os filmes mais badalados deste ano que passou, nem pretendo me apressar para escrever sobre os maiores títulos deste ano (independentemente de estarem nesta lista ou não).

10º Lugar: John Wick: Parabellum (Chad Stahelski)

O Keanu Reeves nunca foi um grandíssimo ator. Mas a verdade é que o assassino profissional apresentado no altamente estilizado thriller de ação de 2014 foi provavelmente o melhor personagem que apareceu na carreira do americano desde o Neo, de "The Matrix". A sequela de 2017 consegue estar perfeitamente no mesmo nível e, ao apresentar novos personagens e possibilidades de expansão do universo de crime, guarda muito potencial para “The Continental”, a tal futura série decorrente no hotel de assassinos contratados. Já Chad Stahelski, breve e novamente no banco solitário, tem certamente o potencial para se conciliar como um dos melhores realizadores de ação destes dias. Ah, e que venha a Halle Berry, já agora.

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Sugerido:

John Wick (2014) - Crítica

John Wick: Chapter 2 (2017) - Crítica

9º Lugar: Star Wars: Episode IX (J. J. Abrams)

Bem, nem 2017 nem 2018 foram perfeitos para a Lucasfilm. A Disney sempre se beneficiou (como de costume) com os mais que bastantes dólares obtidos com os filmes da Marvel, mas face à má receção dos fãs ao último filme da nova série de sequelas do universo de George Lucas e ao fracasso geral de "Solo: A Star Wars Story", rédeas tiveram de ser tomadas. J. J. Abrams é uma escolha minimamente segura para contar histórias e para guardar segredos. Porém, sei lá, hoje em dia desgosta-se de tudo. Não sou um fã incondicional de "Star Wars", não cresci com os filmes como maior parte dos adultos americanos. Eu apenas quero bom cinema.

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Sugerido: Star Wars: The Last Jedi (2017) - Crítica

8º Lugar: The Woman in the Window (Joe Wright)

Juntamente com o "Star Wars: Episode IX", o próximo filme do realizador de "Darkest Hour" é um dos mais desconhecidos do próximo ano, pelo menos no que diz respeito àquilo que foi revelado até hoje. Pelo menos, a premissa já foi divulgada e o elenco é um dos melhores do último ano da década. Portanto, dada a versatilidade do cineasta inglês, bem que posso esperar receber um ótimo thriller com ótimos personagens. Ler o livro fica para depois.

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Sugerido : Darkest Hour (2017) - Crítica

7º Lugar: Us (Jordan Peele)

Não há nada a dizer sobre “Get Out” que não tenha sido dito já. Há que esperar pelas ofertas (com certeza) brilhantes e sagazes que o ator, guionista e realizador americano tem para oferecer futuramente. Mais uma vez, o novo projeto de um realizador autoral vende-se sobretudo devido ao seu elenco, que certamente elevará o seu material. E caras como o Winston Duke, por exemplo, estão a ter uma grande sorte por se verem lançados de grandes produções da Marvel para obras de realizadores ainda com uma carreira por explorar à sua frente, mas com um nome já registado na memória coletivo dos cinéfilos. A história de “Us” decerto será igualmente macabra à da comédia de 2017, por isso, apenas peço uma criação de ambiente, um comentário social e um plot twist tão surpreendente como os que recebi em 2017.

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Sugerido: Get Out (2017) - Crítica

6º Lugar: Variações (João Maia)

A televisão e o cinema nacional já me conquistaram. Nos últimos anos, não só tenho prestado mais atenção àquilo que de melhor se faz por aqui, mas também tenho adorado algumas ofertas audiovisuais. “São Jorge” é uma pérola eterna do cinema português. No entanto, como será de agora em diante quando quiserem levar um personagem conhecido da nossa praça para as grandes telas? Pretensioso? Fácil? Arriscado? Inútil? Seja o que for, eu só quero atores investidos e uma narrativa distinta no panorama nacional. “Variações” pode ser um grande passo. Como não gostar de um filme sobre o inigualável cantor e figura de enorme importância para gerações?

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5º Lugar: Joker (Todd Phillips)

Eu torci o nariz. Ele torceu o nariz. Até os próprios estúdios provavelmente torceram o nariz. No entanto, revelando lentamente algumas fotos e vídeos dos bastidores, Todd Phillips revela ser um artista bem mais sério do que a imagem que tinha vendido há uns anos, demonstrando-se empenhado e até apaixonado por este seu novo trabalho. Não é mais um grande filme de estúdio, mas sim um estudo de personagem (como tem sido descrito). Claro que pode dar para o torto, sendo posteriormente arrasado pela crítica e pelos fãs do insano palhaço assassino. Mas, come on, o Joaquin Phoenix escolheu este trabalho depois de recusar uma oferta da Marvel. O Robert De Niro aceitou um papel secundário neste filme, contradizendo o seu preconceito com os atuais filmes de super-heróis. Quererá isto dizer alguma coisa? Sim, quer. “Joker” vai ser diferente, pelo menos.

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4º Lugar: Avengers: Endgame (Irmãos Russo)

Acabamos de saltar de um drama de crime baseado num personagem da banda desenhada para um blockbuster declarado que aglomera aquilo que de mais comercial se faz hoje em dia. Sim, filmes de super-heróis não vão parar de aparecer tao cedo. Não, não há problema nenhum com isso (desde que sejam minimamente bons). Há, no entanto, que exigir alguma coisa nova destes. Já que vamos perder horas a assistir a milhares de efeitos visuais em choque uns com os outros, mais vale aprender alguma coisa depois de pagarmos por 2 horas no cinema. Em 2018, “Black Panther” e “Avengers: Infinity War” provaram a possibilidade (e acessibilidade) de construir um arco dramático (sobretudo) de antagonistas que colocam na mesa questões importantes dos nossos dias. Tematicamente falando, “Avengers: Endgame” provavelmente não terá o mesmo impacto que o seu antecessor, mas com certeza amarrará algumas pontas soltas e concluirá a presença de imensos personagens de peso deste universo, concretizando algumas despedidas de modo emotivo. De qualquer maneira, por favor, eu só quero o Thanos!

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3º Lugar: Knives Out (Rian Johnson)

Este foi o anúncio cinematográfico deste ano que me mais surpreendeu. Aliás, eu nem sei se estou apenas surpreso com o projeto em si ou se estou ansioso por esperar algo de um modo tal que nunca pensei estar. Fui claro? Nem eu sei explicar, mas tenho de ver isto imediatamente. O Rian Johnson apareceu na minha vida apenas em Dezembro de 2017, quando me mostrou o tão controverso oitavo episódio de “Star Wars”. Em Junho de 2018, curiosamente, terminei “Breaking Bad”, a série da minha vida. Descobri mais tarde que o moço realizou três dos melhores episódios da obra-mor de Vince Gilligan. E, mesmo não tendo visto (ainda) “Brick” ou “Looper”, o homem já entrou para a minha lista de realizadores obrigatórios. Fez um ótimo trabalho com os personagens de J. J. Abrams e claramente prolongará o mesmo na sua futura trilogia. Agora, no seu campo mais autoral, no qual habita “Knives Out”, não está só um dos melhores elencos possíveis, mas também uma das premissas simultaneamente mais básicas e mais promissoras. Quem diria que imaginar o Daniel Craig com uma gabardine castanha e um cigarro na boca me entusiasmasse tanto? Rian e companhia, dêem-me um mistério e personagens como deve de ser. Não cometam o erro de desperdiçar talento.

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2º Lugar: The Irishman (Martin Scorsese)

Qualquer fã do bom cinema está ansioso por isto. Como não estar, não é? A milésima colaboração entre Robert De Niro e Martin Scorsese trará Al Pacino pela primeira vez à lente do realizador de "Raging Bull" e "The Wolf of Wall Street" e Joe Pesci de volta da reforma. E ainda vamos receber Anna Paquin, Jesse Plemons, Bobby Cannavale e Harvey Keitel dirigidos por um dos melhores cineastas vivos. A própria história, mesmo habitada no território criminoso do costume do Scorsese, é extremamente interessante e merecedora do empenho de qualquer uma das mais talentosas caras de Hollywood. Só espero que um dia a Academia perceba o erro que comete ao não reconhecer o bom trabalho e arte que se faz na Netflix.

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1º Lugar: Once Upon a Time in Hollywood (Quentin Tarantino)

Querem ver que vocês têm uma primeira escolha melhor que esta? Se não gostas do Tarantino, o que é que estás a fazer neste blog, sequer? Mais – como é que é possível 2019 me dar algo melhor que isto? “Once Upon a Time in Hollywood” não só tem o melhor elenco que o realizador já reuniu (na teoria e tendo em conta a carreira e alcance dos meninos), mas é também o filme que o mestre dos diálogos e da violência cartoonesca mais queria fazer em anos. Portanto, quando se tem um artista apaixonado, uma história cheia de possíveis reviravoltas e um conjunto das caras mais experientes do cinema atual, dificilmente a situação dará para o falhanço inesperado. “Once Upon a Time in Hollywood” não é apenas o filme que mais espero em 2019, será também um dos melhores do ano. Tenham esta certeza, caros leitores.

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Menções Honrosas:

  • Diamantino (Daniel Schimdt, Gabriel Abrantes)
  • Dumbo (Tim Burton)
  • Glass (M. Night Shyamalan)
  • Kingsman: The Great Game (Matthew Vaughn)
  • The Lion King (Jon Favreau)
  • The New Mutants (Josh Boone)
  • A Rainy Day in the New York (Woddy Allen)
  • Toy Story 4 (Josh Cooley)
  • X-Men: Dark Phoenix (Simon Kinberg)
  • Zombieland 2 (Ruben Fleischer)

 

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The Old Man & the Gun – sentimentalismo de faroeste

Catalogar este filme apenas como o último trabalho de Robert Redford seria incorreto. Tanto porque David Lowery promete bom cinema, mas mais porque o ator octogenário confirmou arrependimento em anunciar o seu fim profissional.

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De qualquer forma, eis que recebemos mais um filme feito por gente cujas inspirações se enraízam no cinema old school. Depois do fenomenal “A Ghost Story”, seria praticamente impossível que David Lowery se superasse. No entanto, ainda que não esteja de novo integralmente no seu campo autoral, o realizador e guionista de “Ain’t Them Bodies Saints” conta pela primeira vez uma história real – a de Forrest Tucker, um criminoso que assaltou dezenas de bancos e cometeu com sucesso 18 fugas da prisão.

Ainda que diversos factos tenham sido alterados, esta é decerto uma das mais charmosas histórias contadas na filmografia do cineasta americano. Tal permanecerá assim. O filme tem uma atmosfera e até uma definição digital típica dos velhos westerns, a imagem parece mais velha, mais gasta, deste modo adequando-se perfeitamente à história e ao arco minimalista do protagonista. Não só é o Robert Redford um experiente ator de faroestes, mas também uma das caras mais ecléticas de Hollywood. Consequentemente, a sua facilidade em expressar a vivacidade de um homem no fim da vida em busca de enriquecimento fácil e diversão durante a mesma viagem é fascinante. Naquele que poderá ser o seu último trabalho, o ator entrega uma enorme parte de si, dando uma das melhores interpretações da sua carreira nos últimos anos, possivelmente apenas derrotada pela sua prestação em “All is Lost”, de 2013.

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E semelhante se pode dizer da maior parte do elenco. O Casey Affleck (pela terceira vez na lente de David Lowery) constrói um personagem interessantíssimo e, além de genuíno, bastante pacífico, diria até surpreendentemente pacífico para um polícia na grande tela. Quando estamos habituados a ver heist movies liderados por um criminoso sedento por dinheiro e pelo cumprimento das motivações familiares perseguido por um polícia rabugento lentamente a se autoavaliar, “The Old Man & the Gun” é uma lufada de ar fresco e dá-nos uma dupla de personagens distintos no cinema de 2018 – um criminoso amigável e alegre e um polícia numa crise de meia-idade que jamais expressa a sua frustração violentamente à volta dos seus entes queridos.

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No entanto, algo mais podia ter sido feito em relação ao protagonista. Toda a sua personalidade educada, charmosa, bem-disposta e cavalheira (lá está) é bem desenvolvida, mas se a sua infância fosse esmiuçada mais detalhadamente podíamos obter mais informações sobre o impulso/motivação que lhe levou durante décadas a assaltar bancos com os dois amigos. O David Lowery trata o assunto com uma simplicidade estonteante, não que isso comprometa diretamente o desenvolvimento do personagem principal, mas apenas deixa lá um ligeiro vazio. Nem que fosse através de uma cena de exposição ou de um flashback, isto podia ter sido resolvido.

E, falando nos amigos do protagonista, o filme peca novamente. O trio Robert Redford, Danny Glover e Tom Waits funciona muito bem… porém só como um trio. Mais tarde, o filme compensa minimamente a falta de desenvolvimento dos dois personagens (mas já vem tarde). Não me importaria se o filme fosse mais longo, desde que fosse mais fácil criar empatia com os restantes criminosos. O Danny Glover e o Tom Waits têm talento a mais para tal superficialidade.

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E existe ainda outro vazio, novamente no elenco. A Tika Sumpter apresentou-se em excelente forma em “Southside with You” e, tendo em conta o arco diferenciado do personagem do Casey Affleck, bem que se podia aproveitar a atriz outrora na pele de Michelle Obama. O casal tem química, carisma e pelo menos uma boa cena, mas fica novamente aquela sensação de talento desperdiçado (e estreante) no ar.

Sugerido: Southside with You (2016) - Crítica

A Elisabeth Moss também está no filme, em apenas uma cena de forma perfeitamente competente. E cedo aparece a Sissy Spacek com uma interpretação animada e perfeitamente complementar com a do Robert Redford. As conversas mundanas repletas de reflexões e provocações são orgânicas e a relação que nasce é genuína.

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A fotografia e a banda sonora são outros acertos. O Joe Anderson e o Daniel Hart (que trabalhou em “A Ghost Story”) sabiam perfeitamente o que faziam. O primeiro é um olhar panorâmico e melancólico que constrói uma paleta acastanhada com toques ligeiramente dourados provenientes da era clássica dos Anos 60. O segundo é um belíssimo aglomerado de percussões energéticas e pianos agradavelmente sonolentos, terminando no maravilhoso tema ‘Blues Run the Game’, do Jackson C. Frank.

E o trabalho de câmara do David Lowery é a derradeira cereja no topo do bolo. Desde planos sequências nos bancos e nos corredores da estação policial, até à câmara estática que compõe os belíssimos diálogos do Robert Redford e da Sissy Spacek, passando também pela inundação de close-ups na cara do Casey Affleck, que acompanha o cansaço e tédio quarentão aproximados à dedicação de um homem de família e profissional dedicado.

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“The Old Man & the Gun” é uma leve, melancólica e envolvente cavalgada da tour de force do seu ator principal, num território familiar e seguro para o próprio e num campo promissor para o seu realizador cheio de talento e boas ideias.

 

Notas: B+

 

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