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Vida de um Cinéfilo

Vida de um Cinéfilo

Godzilla – uma reles dimensão

Os paraquedistas saltam. Lá em baixo, decorre um dos mais horrendos cenários de destruição imagináveis. Criaturas incompreensivelmente monstruosas confrontam-se em São Francisco, dizimando as pequenas amostras da obra civilizacional evidentes das nossas pegadas, como autênticas crianças a quebrar legos. Mais do que qualquer dever patriota, os militares conservam uma vontade de fugir para casa. Agarram-se à missão, no entanto, procurando um veloz refúgio para voltarem as ver os filhos e esposas, fora de um hospital ou dos eventuais escombros, de preferência. Com eles, são as pesadas respirações e os sinalizadores rastros de fumo vermelho que destacam uma histórica e interminável hostil usurpação – a nossa existência –, deixando mais uma cicatriz proveniente da passagem do ser humano na Terra, danificada injusta e injustificavelmente pelos nossos pecados.

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Em 2014, larga foi a percentagem da bilheteira da segunda longa-metragem do inglês Gareth Edwards que se sentiu descontente após assistir ao blockbuster que prometia a melhor representação do Rei dos Monstros no cinema. Este que nasceu em 1954, na lente de Ishirô Honda, com o título original “Gojira” (em Portugal, “O Monstro do Oceano Pacífico”), intencionalmente metaforizando o holocausto nuclear na perspetiva dos japoneses, quase 10 após os bombardeamentos de Hiroshima e Nagasáqui, numa posição de denúncia não só da devastadora capacidade tecnológica adquirida na Segunda Guerra Mundial, mas também dos limites da Humanidade, que sofreria ferozmente a sede vingativa da Natureza, encarnada na forma mais animalesca, devastadora e agressiva. O patriotismo americano é posto em causa indiretamente, através da expressão do rosto de japoneses que regressaram do conflito internacional e que escaparam aos ataques dos cogumelos atómicos. Mas nada valeu a pena. A raça mais perigosa da História pagaria pelos seus males e enfrentaria uma inevitável ira.

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Sugerindo: Kong: Skull Island (Kong: Ilha da Caveira, 2017) - Crítica

Mantendo a mesma filosofia na sua obra, Gareth Edwards não queria publicitar “Godzilla” como um filme de monstros. Partindo, todavia, de inspirações como “Jaws”, “Close Encounters of the Third Kind” e “Jurassic Park”, de Steven Spielberg, e “Alien”, de Ridley Scott, o propósito era elaborar uma história que censurasse as perigosas divergências orgulhosamente carregadas pelos Estados Unidos, que os põe à margem da sensatez de terceiros e de uma adequada conduta político-militar: desrespeito para com a cultura de outrem (impressora da falta de disciplina existente nas jovens gerações, quando comparada à rígida e assertiva educação japonesa); o oportunismo escusadamente intervencionista numa guerrilha ou investigação científica fora do habitat natural; o cobrimento de acidentes e seguintes mentiras; a prioridade de salvamento da arma nuclear ao invés do derrotado soldado empoeirado; uma desordem praticamente anárquica nas estradas semelhante a um rio de formigas; a amedrontada falta de noção traduzida num ataque irrefletido; o facilitismo e esperteza dos órgãos executivos da lei (three birds, one stone) e uma alarmante imprevisibilidade.

“I want to talk to somebody in charge. You’re not fooling anybody when you say that what happened was a natural disaster. You’re lying! It was not an earthquake. It wasn’t a typhoon. Because what’s really happening is that you’re hiding something out there. And it’s going to send us back to the Stone Age!”

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Mas não podemos dizer que “Godzilla” se trata de uma direta crítica ao americanismo contemporâneo e a todos os podres que elevam a atualidade ocidental diariamente. Com certeza que, a par da destruição que o Ser Humano provoca à Mãe Natureza, o elemento mais notável do filme é a dissecação da nossa inconsequente e insignificante posição na mesma. O que acontece é que, numa das muitas inversões das cartas disponíveis na mesa (colocadas a jeito da possível execução de uma réplica da péssima oferta cinematográfica de 1998), “Godzilla” é uma subtil observação do impacto nulo do Homem num ecossistema diverso, gigantesco e assustadoramente processual, superando-se ao longo do tempo e vilipendiando (com razão) a fornecida pequenez ao seu vírus, que jamais se retira. Posto isto, o papel do implacável monstro foi uma grata surpresa. Nos passados 60 anos, dezenas foram as repetições da história que todos conhecíamos – a de uma besta a destruir cidades até à sua previsível derrota. Desta vez, estabelecidas as intenções dos desconhecidos MUTOs, o papel do kaiju (“besta estranha”, em japonês) mais importante da mitologia moderna do país dos animes é corretamente invertido, transformando a anedota de si mesmo numa criatura quase messiânica e independente dos seus criadores, que jamais ataca a pobre e ridícula raça humana, a não ser quanto esta comete o terrível erro de se meter no seu caminho, como aconteceu na outrora erguida ponte (onde acabara há segundos de defender os autocarros escolares dos iminentes mísseis da incompetência militar). O gigante dinossauro conhecido por comer prédios em manhãs livres torna-se num inesperado (ou indesejado) símbolo de esperança, digamos precipitadamente num mártir, quando todos o pensaram jazido depois da monstruosa demonstração das suas habilidades. Mas não, o lagarto de minúsculos braços e poderes criativamente radioativos lentamente se levanta, caminhando debaixo dos helicópteros e mergulhando de volta para o profundo pacífico, mantendo uma distância entre os minúsculos hóspedes, soltando mais um de imensos explosivos rugidos, cumprida a missão.

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“The arrogance of men is thinking Nature is in their control. And not the other way around.”

No entanto, por muito que “Godzilla” não seja mais de um de milhares de blockbusters perfunctórios, quem comprou bilhete em 2014 tinha razão num aspeto – maior podia ter sido a carga emocional, provinda da grande (e excelente) lista de atores presentes. O inglês Aaron Taylor-Johnson encontrou-se praticamente isento de expressão ou sentimentos (ao contrário do que aconteceu em “Kick-Ass” e, nos anos seguintes, em “Avengers: Age of Ultron” e “Nocturnal Animals”). A sensação que dá é que lhe foi pedido o frio arquétipo de um Dwayne Johnson com menos músculos e frases de efeito. Até tentaram imprimir empatia com o personagem através daquela aleatória e chata preocupação que este carrega com o perdido miúdo japonês no metro. É verdade que, também à luz de uma competente, carinhosa e preocupada presença da Elizabeth Olsen, o ator não tenta ser o típico herói americano em filmes de desastre como os de Roland Emmerich ou do Michael Bay. No entanto, o desenvolvimento de afeto torna-se difícl, sobretudo em momentos em que o jovem adulto deveria revelar um armazenamento longínquo de dor e saudade. Felizmente, dada a saudável desnecessidade de diálogos no terceiro ato (face à extensa, ainda que adequada, inicial carga de exposição), o arco do personagem torna-se mais significativo e profundo, procurando achar uma relação entre ele (ou qualquer outro homem) e o monstro desconhecido que passeia por São Francisco.

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O Bryan Cranston, bem pelo contrário, vende perfeitamente o desespero, revolta, alienação e a busca por verdade e preenchimento na sua investigação de mais de uma década, alimentando a vontade do espectador de o ver a suceder. A Juliette Binoche é outra peça do elenco que caiu fundamentalmente em desuso, mas que conseguiu dar impacto ao reduzido tempo em cena, consequentemente marcando a sua ausência. O Ken Watanabe foi a escolha óbvia para o papel, revelando eventuais respeito e dedicação ao personagem. Pode-se considerar curiosamente que o Dr. Ishiro Serizawa (cujo nome homenageia precisamente o pai do conhecido monstro no cinema), portador de um relógio da Segunda Guerra Mundial e de uma notável admiração pela criatura em causa, é o verdadeiro protagonista do filme de 2014, estando mais que apto para representar a sua parte de novo na sequela de 2019. Acompanhado pela Sally Hawkins que, para a minha infelicidade, não faz absolutamente nada senão decorar o guião e “despejar matéria”. Podia-se fazer tanta coisa com esta dupla improvável, mas nem é dada a mínima personalidade ao potencial da atriz.

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Curiosamente, quem devidamente acompanha Ken Watanabe é o David Strathairn, o almirante que, ao contrário do que se podia esperar, não divide um desconfortável duelo com o ator japonês. Muitas são as histórias de desastre no cinema liderados por constantes provocações entre o militar bronco da vez e o cientista romântico. O que ocorre aqui, por oposição, é um interessantíssimo e pacato choque de valores, no qual aqueles que prevalecem são os educados e sábios, numa calada e solitária aguarda pela queda das frágeis convicções adversárias.

Como se pode verificar, muito merecedora é a filosofia de “Godzilla” de reflexões acima das habituais do próprio género cinematográfico. Contudo, a mestria técnica e visual foi pouco valorizada nos últimos 5 anos, contrariamente ao que se esperaria. Sim, porque, por acaso, os efeitos visuais são qualquer coisa de sensacional, auxiliados por um (literalmente) estrondoso design sonoro e uma banda sonora majestosamente fúnebre do Alexandre Desplat (num ano marcado pelo seu premiado trabalho em “The Grand Budapest Hotel” e “The Imitation Game”). A fotografia exerce um papel similarmente arrebatador, contudo com a ligeira alteração na última cena. Se, praticamente durante toda história, o cenário é a de um palco com todos os requisitos para um eventual apocalipse inconfrontável, o despertar do Rei dos Monstros imprime um ligeiro ânimo e senso de vitória àquele trágico amanhecer, ainda que longe da nossa autoria.

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“Godzilla” termina com uma reservada nota de apreço pela Humanidade, argumentando que nem sempre as nossas piores criações podem provocar um brutal juízo final, idealizando o (sempre) possível remédio e uma obrigatória admiração pela Natureza. Sim, porque o dia em que nos esquecermos de olhar para a nossa casa de cima para baixo, bem podemos esquecer este patamar soberano de desenvolvedor da civilização, pois, qualquer que seja a ameaça que o Planeta Terra nos possa meter à frente da porta, esta certamente não terá em conta a nossa reles dimensão.

 

Nota: B+

 

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The Sisters Brothers – western à francesa

A morte iminente do clássico faroeste americano é um fenómeno cada vez mais consolidado. É preciso que os pais do cinema venham salvar isto tudo.

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“The Sisters Brothers” não só é um título curioso, mas também o projeto que (como outros tantos) ressuscita minimamente a esperança de o género cinematográfico dos cowboys voltar a conquistar públicos. No passado LEFFEST, Jacques Audiard falou sobre o jantar que teve com Joel Coen, um dos autores responsáveis pela sobrevivência dos westerns, recentemente consolidada por “The Ballad of Buster Scruggs”. No entanto, é importante realçar: por muito que gostemos de filmes como “Il buono, il brutto, il cativo” e “C’era una volta il West”, o cinema de autor moderno reserva muitas possibilidades para que os pistoleiros solitários continuem a cavalgar por esses imensos terrenos, sem jamais deixar que sensação de repetição e esgotamento esteja presente. E o filme do realizador francês é a mais recente prova.

Depois de contar histórias de crime como “Sur mês lèvres” e “Un prophète”, Jacques Audiard concretiza o seu desejo de contar uma que decorra no oeste americano. E, como no caso do estreante S. Craig Zahler, em “Bone Tomahawk”, as armas de um artista autoral e deslocado são, muitas das vezes, as melhores para se oferecer a um género, digamos, esquecido (para não dizer subestimado). Com uma abordagem cómica declarada, insinuações de uma extrema violência e imagens especificamente gráficas, “The Sisters Brothers” torna-se, deste modo, num dos melhores filmes do ano. Baseado no livro homónimo do canadiano Patrick DeWitt, publicado em 2011, a premissa começa em 1850, no estado de Oregon, e acompanha dois irmãos encarregados de matar um famoso químico e prospetor de ouro.

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Esteticamente falando, o filme não destoa muito do que estamos à espera: uma fotografia calorosa e flavescente que posiciona os protagonistas na frente dos locais do conflito e no meio de sequências de ação bem coreografas, auxiliadas por um trabalho de câmara simultaneamente minimalista e ágil. Há um lindo e efémero plano em particular transitório entre cenas que inclui apenas um personagem a dar uma informação, acompanhado unicamente pelo fumo do cigarro e pelo massivo escuro atrás de si. Aliás, ao contrário de “Hostiles”, do Scott Cooper, “The Sisters Brothers” sabe usar o escuro a seu favor. Sobretudo o dos desertos e florestas. A quase inexistente iluminação em cenas noturnas está na medida certa. Para além de desenvolver a ambientação de um perigoso e inexorável espaço, a música do Alexandre Desplat contribui imenso para equilibrar as mudanças de tom e de visual. Depois de “The Grand Budapest Hotel” e “The Shape of Water”, o francês faz novamente um trabalho impecável (fiquem para escutar a maravilhosa música dos créditos finais). Tematicamente falando, típica de filmes recheados de violência, uma das primeiras camadas encontradas é a de um divertido western bang-bang. No entanto, o foco aqui não é idêntico ao do recente remake de “The Magnificent Seven”. O propósito não é apenas entreter, mas sim contar uma história profunda e emotiva sobre dois irmãos que exploram os seus demónios e habilidades destrutivas, assim como as possibilidades de redenção que aparecem no fim de uma carreira que fora além das suas ambições juvenis.

Sugerido: The Shape of Water (A Forma da Água, 2017) - Crítica

Com o mérito do autor original (claro), mas também do Jacques Audiard e do Thomas Bidegain, “The Sisters Brothers” beneficia-se de um texto que, por sua vez, eleva as interpretações. O filme fala sobre a particularmente fortíssima ligação entre irmãos, família, os maus genes que herdamos (partindo para temas como alcoolismo e violência doméstica), a falta de companheirismo conjugal, dinheiro, ganância, o sonho e oportunismo americano e o sentido geral de moralidade. Posto isto, havia vastas maneira de o filme progredir e de terminar. “The Sisters Brothers” é um filme, sobretudo, agradavelmente imprevisível.

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E sustentando um excelente material está um excelente elenco. Destaque obviamente para o duo principal. Estes são temidos e impiedosos assassinos, porém fundamentalmente compostos por um carisma abundante. O John C. Reily ganhou o mundo no final de 2018. De todas as suas prestações, esta certamente é uma das melhores. Como um irmão mais velho, observamos uma figura quase paternal, um homem cheio de intuições benevolentes e boas intenções, que sai quase sempre prejudicado pela imaturidade e descontrolo do irmão. É um assassino contratado, está certo, mas o ator vende perfeitamente o lado meigo, sensível, fragilizado e até eticamente flexível do personagem. Diga-se que este tem um charme contraditório à sua profissão. No entanto, como o público espera, é um homem que, nos momentos mais críticos, faz um autêntico espetáculo com uma arma.

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O Joaquin Phoenix está igualmente ótimo. Cheio de demónios disfarçados de típicos e broncos comportamentos constituintes de uma masculinidade autodestrutiva e um vício desmedido. Mesmo sendo o irmão mais novo, este assegura o leme na maior parte dos conflitos e demonstra consequentemente uma apatia amedrontadora e até sádica, característica de um passado trágico e, por isso, útil na prática de atos de extrema violência, mantendo uma postura de superioridade arrogante e maliciosa.

É uma pena que o Jake Gyllenhaal receba inúmeros papéis que pressupõem uma imediata personalidade carismática sem receber qualquer, digamos, personalidade. O ator é um dos melhores em atividade, não haja dúvidas, mas o personagem não tem quaisquer elementos distintos. São pouquíssimos os momentos que me farão lembrar dele neste filme. A única coisa mais marcante é a narração acentuadamente presente no primeiro ato, que, mesmo não absolutamente necessária, não é excessiva e conduz bem a narrativa.

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O Riz Ahmed, desta vez, fez um bom trabalho, mesmo sendo ainda um ator com necessidade de amadurecer. O personagem é facilmente manipulado, mas gradualmente revela um lado mais inteligente, mantendo uma postura fisicamente seca e fraca.

A Rebecca Root não faz muita coisa, mas está competente. Já o Rutger Hauer não faz absolutamente nada. Faz uma aparição de segundos (um cameo basicamente) e não é dada sequer nenhuma profundidade ao personagem. Tudo o que sabemos sobre ele é expresso verbalmente, ficando tudo subentendido. Ele não é o antagonista principal, mas uma figura supostamente temida pelos protagonistas. Desperdício de talento.

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“The Sisters Brothers” tem quantidades bem dosadas de humor, drama, violência e lição moral. É o filme da vez que se encarrega por contar uma boa história no western americano, caminhando por territórios distintos, nomeadamente uma interação entre os dois personagens inclusiva de uma maior comicidade e uma exploração introspetiva e surpreendentemente emotiva do elemento humano.

 

Nota: A-

 

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Vice – águia na retaguarda

Em 2015, mesmo que a sua credibilidade de contador de dramas com leves lufadas de ironia e humor seco não fosse totalmente ignorada, Adam McKay aventurou-se numa ligeira aula de economia, rebaixando a sua própria seriedade com participações desnecessárias de personalidades do meio do entretenimento e com um particular trabalho de câmara pseudo-documental com uma lista de toques a aperfeiçoar. Todavia, ao contrário do que é costume rotular, criadores da indústria audiovisual nascidos e criados na comédia são dos mais capacitados de migrar para o drama.

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Quando muitas vezes se julga que o caminho certo deve passar primeiramente pelas palhaçadas e só depois “nos assuntos sérios”, o oposto confirma-se mais facilmente – mais difícil é fazer comédia do que drama –, sobretudo quando se beneficia de armas vindouras como a sátira e o conforto tópico. Ou seja, quando deparado com imensas expectativas e com as inesperadas pontuações baixas indicativas ao valor artístico, narrativo ou comercial de “Vice”, desilusão foi o sentimento mais iminente. Não que tal receção seja totalmente injustificável. Pois bem, o novo filme de Adam McKay não é isento de nódoas, mas não se trata de uma absoluta aula defeituosa de história ou de política.

Contar a história de uma das figuras mais controversas que já passaram na Casa Branca pode ser um ato encarado como mais uma deflagração que se faz no cinema desde que Donald Trump foi eleito. Com certeza foi também esse o caso, com certeza que a escrita e execução do realizador de “Anchorman: The Legend of Ron Burgundy” seja uma deliciosa oportunidade de exibir os paralelos traços entre os dois republicanos. Mas, ao lado de uma análise factual às decisões mais oportunistas e tangentes a um regime ditatorial tomadas por Dick Cheney (e consequentemente por George W. Bush), é pormenorizadamente preparada uma fácil e exemplarmente bem executada façanha que coloca o espectador no lugar do indeciso. O realizador tanto quer admirar como julgar a sua figura principal, obrigando o público a partilhar a dúvida. E tal jogada é uma das melhores a se tomar num filme protagonizado por uma figura altamente censurável, numa “tragédia” (como o cineasta americano preferiu descrever). Uma que, em particular, conduziu uma orquestra de mentiras e falsas propagandas.

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À luz da fotografia desconvidativa e incolor do australiano Greg Frasier (funcional, mas ainda distante do apogeu em “Lion”), da banda sonora fervilhante e brusca do americano Nicholas Britell (lembrado pela mestria musical de “Moonlight”) e do trabalho de câmara minimalista e fundamentalmente centrado na expressão do elenco, “Vice” procura desenvolver o seu protagonista como um vencedor outrora falhado na reconhecida terra dos vitoriosos americanos, onde nenhum derrotado prevalece ou é recordado. A longa jornada partilhada com o futuro vice-presidente torna-se num mais que eficiente veículo que leva a uma inevitável admiração (ainda que decrescente e condicionada). Como diz o narrador, “ao contrário dos outros, o Dick Cheney via as oportunidades”, posicionando o personagem no topo da cadeia alimentar, no corpo da esbelta águia estadunidense, curvada, com os ombros movimentados e os olhos semicerrados à espera da presa.

E, como seria de esperar, aqui entra a fabulosa e medonha interpretação do Christian Bale. Não me cansarei de afirmar a mestria do quarentão galês cada vez que este transforma e, por consequência, danifica inacreditavelmente o corpo. Grande é o mérito de um ator (principalmente aos olhos de quem assiste a filmes em cima do joelho, nesta cultura de rápido e irrefletido consumo) após encarnar quase irracionalmente outra fisicalidade. Sim, o valor adicional superior a 20 quilos, o pescoço musculado, o cabelo rapado e as sobrancelhas branqueadas com certeza requerem coragem. Por alguma razão, não vemos os maiores galãs do mercado a recorrer a tamanhas bizarrias em nome do ofício (injustamente). No entanto, é nos seus momentos calados que Christian Bale pronuncia volumes, através de leves maneirismos com as mãos, de sossegados ajustes com os óculos, de subtis relances ao ambiente e às pessoas que o rodeiam, de carinhosos gestos e frases curtas com a família, de observações estratégicas na ponta escura da mesa. Destaque para o primeiro encontro com o futuro patrão e para a quebra final da quarta parede. Por alguma razão, é o melhor ator vivo.

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No entanto, não se livra o Adam McKay de levar corretivos. Nalguns parágrafos acima, referi-me ao narrador, interpretado pelo carismático Jesse Plemons. Não que seja um território inexplorado pelo cineasta, mas uma clara excessividade. Não abortaria a conveniência de algumas informações, mas decerto que muito texto podia ser cortado, apesar da surpresa que nos é esperada. Não me lembro de ter tanta conexão repentina com um narrador. Aliás, maior parte dos problemas de “Vice” pairam sobretudo na edição. Agilidade é a maior característica do trabalho do Hank Corwin, visivelmente presente em “The Big Short”. Contudo, diversas montagens e conexões com o presente são estranhíssimas e alguns momentos pareciam tão severamente segmentados e acelerados que pareciam partes de um trailer. Já bons momentos incluem cortes demorados em cenas internas e uma transição genial para a metade mais importante da trama.

Ainda que perdendo gás esporadicamente ao longo das 2 horas, “Vice” vende-se principalmente pelo seu elenco. A Amy Adams é mais uma peça que escusa apresentações. A personagem pode ter sido certamente alterada para corresponder ao contexto feminista atual, calculando que uma abordagem fraca poderia enfraquecer a reputação do filme. Seja como for, a Lynne Cheney funciona perfeitamente, apresentando-se como uma mulher altiva, assertiva, maliciosa e justamente uma fonte elementar de confiança e estratégia do marido (com o qual constrói uma química sublime).

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O Sam Rockwell, mesmo sem uma prestação digna de nomeação ao Óscar, está ótimo enquanto encarna um inexperiente, infantil, entusiasta e verde George W. Bush. O Alfred Molina protagoniza uma das cenas mais engraçadas, um dos maiores exemplos da sagacidade satírica do Adam McKay (juntamente com uma cena pós-créditos). O Bill Camp tem uma sólida presença enquanto Presidente Gerald Ford. A Naomi Watts está completamente deslocada enquanto uma jornalista da Fox News. E o Tyler Perry afasta-se (felizmente) dos filmes da Madea.

O Steve Carell, ainda que não caracterizado o suficiente (acompanhado pelos habituais riso e sorriso da engraçadíssima figura que todos conhecemos e gostamos), executa uma versão brincalhona, grotesca, cínica e chico-esperta do Secretário da Defesa Donald Rumsfled. O personagem é um catalisador, uma porta de abertura para o mundo no qual Dick Cheney se tornaria especialista, resumindo perfeitamente as razões que levam aos homens mais poderosos do Mundo a não controlarem um possível acesso a um estatuto superior, a uma maior capacidade de controlo e autoridade. Quando Dick Cheney olha para trás, já toda esta filosofia foi demonstrada.

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“Vice” não é a atroz biografia que se tem descrito. Não corresponde às enormes expectativas que se criaram, mas não é a menos imaculada oferta entre os nomeados aos Óscares. É um prato cheio de ótimas interpretações, consiste num tom honesta e moderadamente satírico e uma lição não só sobre a ganância enraizada na política, como também sobre as motivações que lhe dão origem.

 

Nota: B

 

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As evidências de um marketing excessivo

A Internet veio disponibilizar uma nova (e complexamente diversificada) forma de publicitar seja o que for. Qualquer distribuidora pode lançar os seus trailers, canais de YouTube vivem à custa da propaganda desses mesmos, sites mantém-se rentáveis graças às notícias provenientes das proporcionadas novidades e milhões de espectadores se podem deliciar (ou não) quando veem alguns segundos (de preferência não comprometedores) dos filmes, séries ou até músicas que mais esperam receber. O cinema já não é o único sítio onde podemos consultar as futuras estreias, já não precisamos de estar atentos aos intervalos do Super Bowl nem de acompanhar assiduamente as páginas dos nossos artistas e criadores de conteúdo preferidos. Mas muita coisa pode ser dita acerca destas novas e globalmente vastas plataformas de partilha de qualquer forma de marketing.

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Afinal, não só é um dado promocional um enorme desenvolvedor do chamado hype, que condiciona as opções de escolha do público, “obrigando-o” a clicar imperativamente no dito trailer, segmento de imagens dos bastidores ou de um vídeo amador sorrateiramente filmado longe do set, de forma a, uma vez visto, conspirar sobre as possibilidades que a própria história do filme ou série em questão possa tomar, imaginando cenários e a correspondência de determinadas vontades (entenda-se ver um personagem ou desenlace especificamente). Muito mal se falava acerca do projeto do Todd Phillips, ou seja, na sua ideia de criar uma história de origem para o Joker com base em vários materiais-fonte. Muito se especulava acerca da conclusão do arco de determinados personagens do Universo Cinematográfico da Marvel no (entretanto sucesso massivo) “Avengers: Infinity War”. Muita qualidade se esperava em “Jurassic World”, “Batman v Superman: Dawn of Justice” e “Solo: A Star Wars Story” e, por outro lado, muito desleixo se aguardava em “Mad Max: Fury Road”, “Get Out” e até “A Quiet Place”. Mas porquê? Em diversos casos encontramos exatamente o sucesso e aprovação que jamais imaginámos. Os trailers e as próprias linhas narrativas seguidas nos minutos disponíveis nos YouTube desta vida demonstravam claramente um bom ou um mau filme, certo? Bem, parece que não. E adivinhar o desempenho de qualquer coisa só se torna num chato ciclo viciosos que usualmente não nos leva a lado nenhum. A não ser que consigamos espreitar as intenções de Hollywood.

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Por exemplo, como qualquer fã hardcore dos Queen, o menino que vos escreve esperava com unhas e dentes, como uma autêntica criança excitada nos corredores natalícios do Continente, a chegada da tão prometida biografia de uma das melhores bandas do Mundo, centrada na origem e ascensão de um dos melhores artistas que já pisou os palcos musicais. Contudo, como o cético que sou, comecei a observar desconfiadamente a quantidade de material publicitário que chegava todas as semanas precedentes à estreia de “Bohemian Rhapsody” (teaser oficial, primeiro trailer oficial, segundo trailer oficial, trailer final, pequenos excertos do próprio filme). Pensei: “Ok, isto vai ser uma merda.”. Verdade? Mais ou menos. A verdade é que, sim, o filme foi mal recebido. Lembro-me que a primeira pontuação no Rotten Tomatoes era a de uns infelizes e frustrantes 53%, média proveniente da classificação dos críticos. Pensei: “Ok, ao menos sempre vou ouvir boa música.”. Não estando totalmente errados aqueles que criticaram o filme devido a falhas cronológicas, nunca pensei que uma mera biografia podia exaltar tanta gente. Provavelmente (ou com muita certeza) uma gigante parte do público apreciou o filme por aquilo que lhe estava a dar crua e exteriormente – uma compilação de 2 horas da sua música preferida – sem qualquer noção de critério avaliativo cinematográfico (em termos de estrutura, desenvolvimento, arco, etc). No entanto, a qualidade de “Bohemian Rhapsody” sustenta-se mais do que parecia. Tudo bem, é um filme previsível. Mas o que podem esperar de uma história que já conheciam? Prefiro não me alongar muito mais. Sintam-se livres de ler a minha integral (e fundamentada) opinião.

Sugerido: Bohemian Rhapsody - perdurabilidade audiovisual

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O que cada vez mais observo é, face à (muitas vezes prejudicial) cultura de hype, a crescente facilidade em saber de maneira exata como um filme será recebido. “Suicide Squad” é, sem dúvida, o melhor exemplo de um marketing contraproducente, nem tanto relativamente à revelação de eventuais surpresas na narrativa ou de apressadas refilmagens (isso fica para outro dia), mas sim ao aglomerado de dúvidas que se forma nas cabeças dos preocupadíssimos, fervorosos e transpirados produtores que se limitam a dar tudo o que podem (ou a ordenar tudo o que entendem que devem). Após os imprevisíveis test screenings, diversas são as jogadas que um estúdio e/ou distribuidora pode tomar aquando a breve divulgação dos assombrosos (e falaciosos) tomatometers ou a estreia do produto há muito planeado.

Quão grande deve ser a frustração de um produtor quando, investido todo o dinheiro o que podia “extorquir” de um contrato, lhe é declarado que o seu bem não se sairá positivamente no mercado? O que fazer? Culpar o realizador? Envolver os membros do respetivo elenco num escândalo salarial, moral ou sexual? Ir ali deitar o lixo fora e voltar? Nada disso. Não valeria o esforço ou as madrugadas, não é? Vamos descer uns quantos pisos e conversar com o Departamento de Marketing, sugerindo (raivosamente, mas sugerindo) que se faça o mais discreto (dentro de uma explosiva e desnecessária exposição) trabalho promocional do filme. Quanto mais material publicitário o público (idiota aparentemente) vir/ler, mais facilmente se garantirá o sucesso do nosso bebé! “Olhem, meus amigos, o “Venom” foi absolutamente espezinhado e lançado à lama, mas ao menos faturámos, ah? Ao menos, temos os bolsos cheios de maços gordos do verdinho! (e não é muitos, e não são poucos, não é? bastantes!). Vamos lá fazer uma sequela!”.

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Sugerido: It Comes at Night (Ele Vem à Noite, 2017) - Crítica

São raros os casos de filmes que, à luz do nosso tão bem entendido senso crítico, não são tão maus como a crítica indica. Com base no reduzido conteúdo promocional, podemos normalmente esperar um filme mediano para cima (ou concluir sobre a existência de escassas possibilidades de um estúdio independente). Com base em 23 trailers, podemos aguardar um grande saco de trampa. Atentem numa coisa apenas: não partilhem as vossas opiniões tão agressivamente nas redes sociais nem desenvolvam um hype onde ele não existe. E não criem expectativas com base num nada. Não é por acaso que excelentes filmes como “It Comes at Night” tenham sido tão brutamente ignorados. Às vezes, os cineastas simplesmente escolhem não vos mostrar aquilo que querem. Por alguma razão, o Kevin Feige anunciou que os trailers do futuro “Avengers: Endgame” somente incluiriam os 15 minutos iniciais do filme (cujo primeiro cut acabou por ter 3 horas). Queremos boas surpresas. Pelo menos eu quero. Controlem o entusiamo. Façam-se inteligentes.

 

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The Favourite - uma maravilhosa tempestade

A natureza fora da caixa de alguma obra de arte é demonstrativa não só da eventual (boa ou má) vontade do público, mas também um eficiente catalisador da sua paciência. Se as pessoas se entediaram assim tanto com “The Lobster” ou com “The Killing of a Sacred Deer”, Yorgos Lanthimos oferece uma história mais ajustável ao cenário americano ou inglês, porém com o cuidado visual e tecnicamente autoral que o definem como um dos mais criativos criadores do cinema contemporâneo.

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Sugerido: The Killing of a Sacred Deer (O Sacrifício de Um Cervo Sagrado, 2017) - Crítica

Sim, que se provoque o pretensiosismo de alguns cineastas (comerciais ou não), mas atentando ao seguinte: se os estúdios de Hollywood cada vez mais são atraídos pelo sucesso esmagador de determinados géneros, prosseguindo com universos de sequelas, prequelas, reboots retroativos ou readaptações modernas, será constantemente necessário que venham do outro lado do Atlântico as mentes mais negras e capacitadas de orquestrar os mais belos palcos de talento na Sétima Arte. Juntamente com o francês Olivier Assayas, o alemão Fatih Akin e o dinamarquês Nicolas Winding Refn, o grego Yorgos Lanthimos é uma das caras mais potencialmente destacadas na lista de realizadores de topo. Num ano lembrado pela paragem da minha habitual ida de final de semana ao cinema, a mente por detrás da sátira romântica mais cerebral de 2015 e do thriller mais moralmente pesado de 2017, a oferta episódica de frieza é “The Favourite”.

No entanto, se nos passados dois projetos, a intenção era a de destacar a apatia e crueldade humana, elevando constantemente a falta de emoção dos personagens e dos próprios elencos, no primeiro period piece do realizador, os olhos estão virados para a ascensão hierárquica e para a calculista, oportunista, vingativa, estonteante, desconcertante, desconfortante e irracional busca por poder. Num dos melhores filmes históricos (com as devidas alterações para o bem da ficção) representativos do empoderamento feminino da sua época (ao lado de “The Beguiled”, da Sofia Coppola), o feroz trio principal brilha como nenhum outro do mesmo ano, tornando Yorgos Lanthimos numa das mais acertadas escolhas para o Óscar de Melhor Realização.

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Sim, diga-se (de preferência, não de passagem) que o realizador (desta vez, operando com o magnífico texto original de Tony McNamara e da estreante Deborah Davis, repleto de elegância, falsos elogios e uma malícia autoritária característica da boca de qualquer personagem) é um notável (e enorme) admirador do Stanley Kubrick. Aliás, quem não? Foram longos, luminosos e fúnebres os planos sequência pelo opaco hospital do protagonista do thriller injustamente esquecido de 2017. Contudo, a oferta aqui é uma das mais poderosas construções de corte dos últimos anos, numa altura em que, tal como os westerns, as histórias “verdadeiramente” antepassadas parecem já ter perdido o seu tempo. Ressuscitando elementos visuais de “Barry Lyndon”, de 1975, o esforço técnico já seria louvável por si só. O preenchimento do espaço é de bradar, a fotografia reluzente nos jardins ingleses auxilia a atmosfera de grandeza, compensando com os solitários pontos de vista na escuridão combatida pelo minimalista trabalho de iluminação (muitas vezes recorrendo à contraluz), terminando com as máximas notas do guarda-roupa e design de produção. Todavia, ansioso não seria o cinéfilo que não esperasse mais do cineasta de 45 anos.

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A banda sonora trata-se de uma fusão da mais extravagante sinfonia do século XVIII com as mais incómodas, inquietantes, agudas, brutais e versáteis partículas sonoras exteriores, recolhidas cuidadosamente ao longo de todo o design sonoro, produzindo, assim, uma das mais fantásticas coesões sensoriais. E o trabalho de câmara é, sem qualquer sombra de dúvida, um orgasmo visual. A presença assídua dos planos abertos em sequência, contínuos zooms in em busca do plano médio com dois personagens, optando regularmente por um ágil movimento horizontal, pela desconcertante sobreposição de planos, por iminentes contre-plongées e repentinos close-ups e pelo vágado provocado pela lente fisheye (estilo go pro, talvez de novo exercendo inspirações helenísticas). Por outras palavras, quem quer ir ao cinema ver porrada, gajas e carros vai-se entediar. Quem quer reencontrar mais uma de enésimas vezes cinema bem feito, receberá um prato cheio. E demasiado curto, por sinal. Ou diria que não, pois aquilo que distancia “The Favourite” de uma autêntica obra-prima é a ligeira quebra de ritmo a partir de uma determinada reviravolta chocante, digamos. Tudo é jogado na nossa cara assim que o filme começa e que todos os capítulos são cuidadosamente enumerados, por isso, deixar aquela atmosfera dançante de provocações e constantes ameaças verbais e físicas amolecer foi o único ponto fraco do filme.

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Mas o que seria de uma mestria destas sem um elenco (também ele) dos favoritos do ano? A Olivia Colman está assustadora, raivosa, sensacional. A Rainha Ana é uma fascinante personalidade de extravagância e depressão, ora caindo para a ácida autoridade, ora para a instabilidade, ora para a perseverança dos seus sentidos e poderes, ora para o desmoronamento emocional, ora para o silencioso controlo, ora de regresso à alienação. De todos os seus maravilhosos momentos (dentro da apresentação degradável, fraca e vulnerável da personagem), uma longa cena em particular é genuinamente perturbadora. A Rachel Weisz está deliciosamente provocadora, manipuladora, altiva e crescentemente ameaçadora. E a Emma Stone (com um charmoso e direitinho sotaque inglês) surge de maneira inocente, descuidada e hierarquicamente insignificante, progredindo para uma extrema ascensão, soberania, potestade, imprevisibilidade, comicidade e arrogância. As interações dos pares (cada qual composto pela rainha e pela respetiva personagem a lutar pela sua confidência) tornam-se progressivamente contestáveis, tatuando uma inevitabilidade vitoriosa ou derrotista, numa casa cujos interesses pessoais são disfarçados de amor e entrega. Tudo é interesse. Tudo é política.

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Muita coisa me ensinou “Breaking Bad” no que toca à toxicidade masculina atual e à vasta lista de razões que “obrigam” os homens quase universalmente a se aventurarem em interesseiras e utilitárias lutas por poder. A verdade é que esses elementos (políticos, financeiros, sexuais, religiosos ou sociais) estão bem presentes aqui, sobretudo debaixo das preocupações falhadas do pacato James Smith e das ridículas peruca e maquilhagem do ácido e oportunista Nicholas Hoult (regressando ao apogeu da carreira, como aconteceu em “A Single Man” e “Mad Max: Fury Road”). O que diverge aqui dos habituais filmes protagonizados por figuras femininas cuja emancipação é enclausurada por homens sedutores e inflexíveis, “The Favourite” oferece-nos um hilariante palco de exorcismo de todos os patéticos defeitos dos descendentes de Adão, desde a ilusória dominação sexual, a imaturidade política, o falso dom da oratória e, não menos importante, o desrespeito pela mulher. E a equação mais infantil é o personagem do Joe Alwyn, um ótimo alívio cómico. Talvez o Yorgos Lanthimos estivesse apenas a querer tirar alguns risos ao realizar descomposturas das fortes presenças masculinas nesta história, mas é argumentável afirmar que uma tese foi comprometidamente defendida.

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No fim, quando nos reencontramos com os formosos e estranhos créditos, concluímos que foi uma maravilhosa tempestade de empoderamento, tragédia e sofrimento que acabámos de testemunhar. Isso e uma das melhores amostras de cinema de 2018.

 

Nota: A

 

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Acendalha Datilográfica #2 – Birdman (or the Unexpected Virtue of Ignorance)

Poucas (ou nenhumas) foram as vezes em que falei sobre “Birdman”. Este, que é facilmente o meu filme preferido de sempre, suscitou a minha (quase irracional) vontade de aprofundar os meus conhecimentos de cinema o máximo que podia. Nem sei se alguma vez escreverei inteiramente sobre a obra-prima do Alejandro González Iñarritu, portanto, de qualquer maneira, está aqui uma cena (uma das melhores, por sinal). Cinéfilos concordarão comigo quando afirmo que uma cena fenomenal é aquela que nos entra na memória e passeia pelo nosso cérebro até ao dia da nossa morte. De trás para a frente. Graças ao seu significado, à sua execução, à sua verdade.

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Riggan

This, this! What is that?

Sam

Ah… that’s pot. Relax.

Riggan

“Relax”… you can’t do this to me!

Sam

To you?

Riggan

Oh shut up, you know what I’m talking about.

Sam

Oh yeah, you’re talking about you. What else is new?

Riggan

Look, I’m trying to do something that is important.

Sam

This is not important!

Riggan

It’s important to me! Ok? Maybe not to you or your cynical friends whose only ambitions is to go viral. But to me, this is… my God, this is my career. This is my chance to finally do some work that actually means something.

Sam

That means something to who? You had a career, Dad, before the third comic book movie, before people start to forget who was inside that bird costume. You're doing a play based on a book that was written 60 years ago, for a thousand rich old white people whose only real concern is gonna be where they go to have their cake and coffee when it's over. Nobody gives a shit but you! And let's face it, Dad, you are not doing this for the sake of art, you’re doing this because you want to feel relevant again. Well, guess what, there's an entire whole world out there where people fight to be relevant every day. And you act like it doesn't exist! Things are happening in a place that you ignore, a place that, by the way, has already forgotten about you. I mean, who the fuck are you?! You hate bloggers. You mock Twitter. You don't even have a Facebook page. You're the one who doesn't exist! You're doing this because you're scared to death, like the rest of us, that you don't matter. And you know what? You're right. You don't. It's not important, ok? You're not important, get used to it!

Dad...

 

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Stranger Things S2 – a nostalgia avançou

A sociedade consegue ser macaca. Em 2017, reparei que toda a gente assistia a um drama lavado com temas cruciais como suicídio adolescente. “13 Reasons Why” era o nome. Uns adoravam, enquanto eu preferia manter a minha decência cultural e encarar aquilo exatamente como deveria ter sido em primeiro lugar: um melodrama desmerecedor. Antes de descarregar a minha vontade em iniciar longas sessões domingueiras de binge-watching (que eventualmente ocorreu com “Breaking Bad”), ouvia muito falar em “Stranger Things”, uma “encantadora carta de amor à cultura dos Anos 80”, diziam. Tal como pouquíssimas febres juvenis, o histérico movimento à volta daquela história pouco original (porém estupidamente atrativa) justificava-se minimamente. Os Irmãos Duffer safaram-se e, mantendo a viola no saco (resumindo-se àquilo que fizeram), demonstraram um potencial ascendente, juntamente com um amor relacionável pela Sétima Arte. As altas expectativas que aguardavam a segunda temporada abriram uma janela para a hipótese de todo aquele universo se transformasse na típica sequela espremida até ao âmago. Felizmente, não foi o caso.

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A onda de hype à volta de “Stranger Things” tinha mais fundamento do que parecia. Devido ao meu ceticismo e ao meu amor incondicional por “Breaking Bad” (não perco uma única oportunidade para afirmá-lo, como se pode verificar), é-me difícil acompanhar cegamente uma série que me levasse até àquela tão comum (e irrefletida) exaustão idolátrica presente em específicas faixas etárias sem critérios de consumo ou de avaliação. Todavia, revi-me a rever a base dos meus gostos assistindo à continuação de uma boa história na qual a nostalgia apresentada na primeira temporada foi ligeiramente posta de parte e substituída por ótimos novos arcos. Os Irmãos Duffer têm um belo caminho enquanto storytellers modernos e aguçaram-me definitivamente o interesse em ver os passeios de bicicleta do grupo de amigos durante o verão de 1985.

Sugerido: 13 Reasons Why (Por Treze Razões, 2017) - Crítica S1

Inclusive, com mais uma banda sonora repleta de clássicos e um guarda-roupa reminiscente a uma inconfundível época, “Stranger Things” torna-se gradual e meritamente um dos mais importantes trabalhos originais de ficção (científica juvenil, digamos) da Netflix.

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A Sadie Sink foi uma virtuosa adição no grupo principal. A Max tem um sentido de humor ligeiramente ácido, mas uma doçura disfarçada por aquele cabelo ruivo despenteado constantemente a esvoaçar durante os rotineiros passeios de skate acompanhados por heavy metal. A vantagem que permite esta diferenciação é claramente a sua difícil aproximação com todos os membros, o que dita a maneira como certas relações são criadas. Para além de ser desenvolvido um inocente triângulo amoroso entre ela, o Gaten Matarazzo e o Caleb McLaughlin (ambos carismáticos e adequadamente provocadores de novo), o Finn Wolfhard é usado em menor escala, permanecendo um reflexo daquilo que parte do público pensa – a insubstituibilidade da Eleven. Já o Noah Schnapp tem mais para fazer. Se não aprendemos mais sobre a personalidade geral do Will (que vá além da de um rapaz timidamente talentoso), ao menos toda a reprodução de sequelas traumáticas e pesadelos consequentes dos eventos que sofreu é ótima (graças maioritariamente à iminência ameaçadora do obscuro shadow monster). A expressividade amedrontada, paranoica e verbalmente incapacitada do ator são exemplares para jovens elencos de filmes de exorcismo. Não fosse a descoberta de uma “habilidade” grotescamente conveniente perto da resolução final, o timing dos Irmãos Duffer seria irretocável.

O que é irretocável, na verdade, é a Millie Bobby Brown (aliás, mais uma vez)! A personagem continua atormentada pelo historial trágico e, depois de uma longa isolação, uma triste descoberta conduz-lhe para o seu próprio trajeto, no qual encontramos novas caras (um grupo liderado pela interessante, contudo insuficientemente utilizada Linnea Berthelsen). O David Harbour, em particular, é uma peça-chave neste processo. A relação quase involuntária de paternalismo tanto é o alívio num perpétuo peso na consciência e eventual oportunidade de redenção para o desafortunado Jim Hopper (entenda-se na sua perceção pessoal), como um amparo e recomeço para a fragilmente poderosa, solitária amante de eggos Jane Ives.

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A Natalia Dyer e o Charlie Heaton finalmente atingiram o inevitável e justo apogeu da sua relação, que se torna cada vez mais genuína e fundamental para a trama, relativamente à descoberta de certos fenómenos no campo dos esquemas políticos relativos à Guerra Fria, auxiliando-se com a nova (e surpreendente) conduta antagónica. O Joe Keery, uma vez distanciado da Natalia Dyer, tem mais espaço para acrescentar maturidade e uma desconfortada liderança ao Steve, procriando essas mesmas características no inesperado desenvolvimento de um buddy movie duo dividido com o Gaten Matarazzo. E o Billy Margrove (vivido comprometidamente pelo Dacre Montgomery) revelou-se um personagem bestialmente construído. Acrescentado ao comentário (desta vez mais reservado) sobre a perversidade política oitentista dos Estados Unidos, está uma subtil observação sobre maus tratos e as tóxicas consequências que caiem injustamente nos inocentes. Novamente realço a relevância da Sadie Sink.

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Sugerido: Stranger Things S1 - requisitar o irresistível supérfluo

E a Winona Ryder continua incrível, mantendo uma expressão agradavelmente alegre e leve, graças maioritariamente à presença brincalhona, desajeitada e bem-intencionada do Sean Astin. Durante diversos episódios e devido a determinados diálogos, fiquei convencidíssimo que um rumo desagradável e supostamente inesperado surgiria apenas para dar mais um fator de surpresa para o público. Felizmente, nada do que aguardava aconteceu. Discutivelmente, a nota na qual o Bob aparece pela última vez é bastante mais bem-vinda e necessária.

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E, desta vez, os efeitos visuais são certamente superiores. Talvez um erro ou outro foi omitido graças à ótima iluminação. Bastantes criaturas aparecem e interagem com o ambiente à sua volta de maneira convincente, permanecendo realistas e arrepiantes. Agora, “Stranger Things” focou-se no campo do terror, sobretudo a partir do penúltimo episódio, repleto de escuridão, planos focados na cara do elenco transpirado e na ameaça da vez (auxiliada por um design sonoro majestoso). A violência é mais gráfica e a sugestão lembra “Alien”, do Ridley Scott, ou “Jurassic Park”, do Steven Spielberg. Existe, inclusive, diversas novas homenagens, como seria de esperar, sendo a minha preferida a dos corredores da escola, cuja cena acompanha o Will numa das suas frequentes ligações à dimensão paralela a correr a toda a velocidade num caminho azul, frio e assombrado. “The Shining” ainda influencia muitos criadores.

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Os Irmãos Duffer demonstram com “Stranger Things”, tal como John Carney, Kelly Femon Craig e Greta Gerwig fizeram com “Sing Street”, “The Edge of Seventeen” e “Lady Bird”, respetivamente, a presente vivacidade em contar histórias com núcleos temáticos de adolescentes, expandindo-se quando possível para outro género. Esteja o background pintado de ficção científica, terror, drama ou lições coming of age, a dupla criativa sabe o que faz e registou talento mais do que na sua entrada em 2016. Mal posso esperar por Julho!

 

Nota: A-

 

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