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Vida de um Cinéfilo

Vida de um Cinéfilo

Acendalha Datilográfica #4 – Call Me by Your Name

Muitas são as críticas que preferia atirar para a lareira. Não digo que a respetiva da quarta edição da Acendalha Datilográfica seja necessariamente uma atrocidade, mas meramente merecedora de diversos retoques avaliativos e/ou criteriosos. Mas, enfim, há tanta coisa para escrever. Nomeadamente, hoje. A questão é, mesmo nos seus momentos mais silenciosos, introspetivos ou flexivamente interpretativos, quão menos profunda seria a autenticidade de uma das obras máximas de Luca Guadagnino sem este inesquecível monólogo? Tendo recentemente acabado de ler o livro (quase um ano depois da estreia do filme de 2017), foi-me complicado efetuar outra escolha. O curioso é que as palavras são exatamente as mesmas. Confirmem e percebam porquê.

Sugerido: Call Me by Your Name (Chama-me Pelo Teu Nome, 2017) - Crítica

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Perlman

So, welcome home.

Elio

Thanks.

Perlman

Did Oliver enjoy the trip?

Elio

Yeah, I think he did.

Perlman

You two had a nice friendship.

Elio

Yeah.

Perlman

You’re too smart not to know how rare, how special, what you two had was.

Elio

Oliver was Oliver.

Perlman

Parce-que c’etait lui, parce-que c’etait moi.

Elio

Oliver may be very intelligent, but…

Perlman

No, no, he was more than intelligent. What you two had had everything and nothing to do with intelligence. He was good and you were both lucky to have found each other, because you too are good.

Elio

I think he was better than me.

Perlman

I’m sure he’d say the same thing about you, which flatters you both. When you least expect it, Nature has cunning ways of finding our weakest spot. Just remember – I am here. Right now you may not want to feel anything. Maybe you never wanted to feel anything. And maybe it’s not to me you want to speak about these things, but feel something you obviously did. Look, you had a beautiful friendship. Maybe more than a friendship. And I envy you. In my place, most parents would hope the whole thing goes away, to pray their sons land on their feet. But I’m not such a parent. We rip out so much of ourselves to be cured of things faster, that we go bankrupt by the age of thirty and have less to offer each time we start with someone new. But to make yourself feel nothing so as not to feel anything? What a waste!

Have I spoken out of turn?

Then I’ll say one more thing. It will clear the air. I may have come close, but I never had what you two have. Something always held me back or stood in the way. How you live your life is your business. Just remember, our hearts and our bodies are given to us only once. And, before you know it, your heart is worn out and, as for your body, there comes a point when no one looks at it, much less wants to come near it. Right now, there’s sorrow, pain. Don’t kill it. And, with it, the joy you’ve felt.

Elio

Does mom know?

Perlman

I don’t think she does.

 

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A Netflix não é Cinema? Porquê?

Esta discussão não começou ontem em Hollywood. O problema é que se estabelecia ocasionalmente e se deixava estar pelas mesas das nossas casas. Como é evidente, não havia necessidade de escrever sobre isto há 10 anos. Permitam-me que idealize uma observação já concretizada vezes e vezes sem conta – o que acontece é que a quantidade de cinéfilos que têm preferido assistir àquilo que querem, quando querem e onde querem tem vindo a explodir, garantida a facilitada divulgação de todo o tipo conteúdo pela Internet (paga ou pirateada, vamos meter aqui a mão na consciência) e pelos mais extensos videoclubes, aliciada ao infeliz declínio de respeito do público para com o público em salas de cinema (aparentemente o Alzheimer afeta a população geral mais acentuadamente em salas de cinema, dando-lhes autorização para comer de boca aberta, atender telefonemas, se esticarem que nem lordes e conversar como se estivessem na Tasca do Afonso). E verdade seja dita, ter uma grande experiência de cinema em casa está cada vez mais acessível. Comprem uma boa televisão, liguem umas boas colunas e apaguem as luzes.

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A Netflix, cuja chegada a Portugal ocorreu em Novembro de 2015, publicitada inesquecivelmente pelo Nuno Markl – o nerd dos nerds – a comprar pizzas para ir a correr ver “House of Cards” e “Narcos”, viria a se solidificar como o auge do fenómeno “ver cinema em casa”. Seria um redutor? Não propriamente. Para começar, porque a oferta da plataforma de streaming sempre foi a televisão. Séries atrás de séries definiam o território que eventualmente seria explorado por diversas empresas relacionadas ou não com o ramo do entretenimento (Amazon, Hulu, YouTube, Facebook, Disney, Apple e até a RTP). O cuidado narrativo, a dedicação temática multicultural, o investimento em artistas independentes isentos de fórmulas obrigatórias, a asinha por debaixo de atores migrantes do glamour de Hollywood para o modesto brilho de séries inicialmente tomadas como passageiras foram dos fatores mais propícios e oportunos à enorme ocupação no mercado audiovisual por parte da empresa fundada por Reed Hastings e Marc Randolph. A companhia sediada na cidade de Los Gatos, Califórnia, demonstra coragem até hoje exibindo séries com variados alvos demográficos e uma linguagem explícita e ricamente cinematográfica; especiais de stand-up do mais clean e pg-13 entertainer até ao mais “conflituoso e ofensivo” palco de 1 hora de exorcismo humorístico; documentários acidamente inquietantes, nos diversos pontos de vista disponíveis (política, sociedade, ganância corporativa, liberdade de expressão, figuras históricas e artísticas, etc.) e, aonde quero chegar, produções autorais reconhecidamente ignoradas pelos estúdios da Madeira Sagrada (nas palavras de Lauro Dérmio).

Ver também: Sorry for Your Loss S1 - o Facebook sabe fazer séries

Numa época futuramente registada nos manuais da História de Cinema como a mais industrial, reciclável e passageira de conteúdo puramente comercial e disfarçado com a capa da superioridade de influência e poder entre o setor do entretenimento americano, a massiva onda de filmes de super-heróis veio, ainda assim, com certeza, trazer muitos benefícios. Nunca se andou tanto em Hollywood com o verdinho nos bolsos. Contudo, e falando como alguém que os consome a todos e admira os mais bem feitos e profundos, é importante atentar aos maiores podres que estes (fun action flick, no geral) vieram trazer. Sem querer calçar as pantufas do velho do Restelo, vejo-me constantemente a não conseguir compreender a razão que leva um suposto amante de cinema a assistir apenas a Star Wars e às bandejas da Marvel. Gostar de filmes não é sinónimo de gostar de cinema. Há um mundo inteiro para descobrir para além dos sabres de luz e dos fatos de couro justos da Scarlett Johansson. É preciso querer descobrir mais alguma coisa, algo que rompa a nossa zona de conforto, algo que nos provoque e que nos inquiete. Que chacoalhe a nossa insignificante posição de ser humano numa sala de cinema, já que vamos gastar 2 horas da nossa vida alapados a uma cadeira instável com os ténis a calcar peganhentas e tardias camadas de pipocas. Nas palavras de João Botelho, “o cinema deve inquietar”.

Sugerido: Sara T1 - a monumental e definitiva sátira televisiva portuguesa

Estas palavras não constituem um ataque ao cinema de super-heróis. Eu vou, eu vejo, eu reflito, eu escrevo, eu sigo para outro… eu divirto-me como toda a gente. O gradualmente veloz desprezo que se tem vindo a expressar com cinema de género (ou de outro qualquer não o suficiente mainstream para ser distribuído internacionalmente) é o fenómeno genuinamente mais preocupante. E tem sido precisamente a Netflix (ou um estúdio ligeiro como o A24) que tem apoiado projetos oriundos da lente de cineastas independentes… ou não, o que aflige a olhos vistos. Como é que algum produtor reúne a capacidade de afirmar que um filme do Martin Scorsese, do Steven Soderbergh, do Alex Garland ou do Alfonso Cuarón não tem alcance comercial? Para a surpresa de ninguém, com toda a angústia armazenada num cemitério por instantes reservado para os grandes mestres da arte mais completa inventada, a conclusão correta é esta mesmo. Não têm! Muitos foram os jagunços que expressaram indignadamente a sua sensibilidade aos comentários despreocupados de um senhor chamado Paul Schrader, que responsabilizou o público atual pelo declínio de seriedade das maiores e mais reconhecidas produções. Mas esquece lá isso, Paul, é a sociedade que temos. Hoje já nem podes dizer que o Kevin Spacey é bom ator.

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Sugerido: Óscares - a perda de credibilidade

Eis que chegamos à falta de consideração que me levou a concretizar este cansativo e repetitivo raciocínio – Com que então o Steven Spielberg não quer os filmes da Netflix tenham as mesmas possibilidades de ganhar um Óscar que qualquer outro drama de guerra ou biográfico? Parece-me que, nos anos 90, ao lado de outros dramas de guerra ou biográficos, “Beasts of No Nation” e “Roma” seriam ótimas representações dos seus temas centrais e do atualmente diversificado investimento no cinema, lá está, aliciado ao talento contratado por diversos estúdios e distribuidoras. Ah, mas espera aí, as pessoas viram os filmes em casa… seria impossível. Nem todos temos a sorte de ter blockbusters numa mão e de oscar contenders na outra. Se for preciso, a população que critica a inexistência de uma estreia tradicional nas salas de cinema de um filme lançado na Netflix são as mesmas que esperam que aquele saia num videoclube ou (adivinhem) na Netflix. “Cinema não é visto em casa”… está bem, então levanta essas nádegas do sofá e começa a dar valor a algo que a tua cabecinha demore a processar, de preferência sem preconceitos. Ao dar o exemplo dos anos 50 – altura em que a sociedade brindada com uma caixinha mágica em casa já se começava a afastar do cinema para ficar no sofá e ver uma sitcom – o que o senhor Spielberg se esquece é que a produção de uma série e de um filme nos dias de hoje é praticamente idêntica. As histórias televisivas recebem Emmys, mas, reduzindo-as, teriam todo o potencial de ganhar um Óscar (valendo o que vale). Somando a isto, as pessoas deixaram de se deslocar e pagar para ver algo diferente. E a culpa não pode ser de somente um lado. Não se pode ter a conversa das garantias monetárias egoístas de um estúdio sem se levantar a questão da vontade desencorajada, automática e cerebralmente lavada do público, que constantemente é servido com a mesma refeição.

 

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Captain Marvel – a tarefa foi cumprida

Por razões que ainda não consegui conceber, a comunidade dita cinéfila continua a não saber propriamente conversar sobre cinema. Podíamos gastar os nossos efémeros minutos a discutir eternamente matérias como a extensidade do arco do Michael Corleone, a genuína natureza da mente do Alex DeLarge, as infinitas interpretações das origens do sinistro quadro do Hotel Overlook ou o alienante e fantástico paralelo de Riggan Thompson com o Ícaro. Ao invés, encontramo-nos atrás de um teclado de um portátil a perder tempo debatendo as intenções dos comentários “extremistas” da Brie Larson e de que maneira é que estas mancham a reputação do primeiro solo feminino da Marvel. Se bem que, devido à menor circulação de informação e do claro menor interesse neste tipo de assuntos em Portugal, receber notícias falsificadoras relativas às declarações de mulheres usualmente tem sempre mais impacto no local onde estas polémicas nascem. Mas o que concluir com a aterragem desta na forma do mais enriquecedor entretenimento nas nossas salas de cinema e nos olhos de quem paga para os ver?

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A empresa atualmente debaixo da asinha da Walt Disney Studios já tem feito o seu esforço ao abraçar a diversidade. Emergido no cinema independente, Ryan Coogler veio para contar uma das melhores histórias na forma de uma grandiosa celebração das culturas africanas. Os restantes realizadores do meio menos comercial (James Gunn, Scott Derrickson, Taika Waititi, Irmãos Russo), que receberam enormes oportunidades (e cachês) para dirigir uma equipa da maior casa de produção audiovisual em Hollywood, estabeleceram (uns mais, outros menos) os seus cunhos narrativos e visuais numa fórmula já na altura considerada repetitiva e previsível. Seja para descobrir novos talentos, seja para dispensar de menores valores monetários e consequentemente exercer um maior controlo dos seus empregados, a Disney, no geral, tem revelado determinadas decisões facilmente consideradas corretas ou populistas, como despedir James Gunn e contratar mulheres para encabeçar grandes projetos (Niki Caro à frente do remake live-action de “Mulan”). Contudo, um dos maiores medidores do quão o público precisa de evoluir é o incompressível e disfarçado receio que o sexo masculino tem em receber filmes relevados pelo bom trabalho de membros do sexo oposto.

Brie Larson anunciou o seu bem fundamentado cansaço de interagir com um número excessivo de homens brancos na imprensa americana de críticos, face à diária apresentação de histórias abertamente denunciadores dos malefícios e desigualdades entre estes e o preto, o asiático, o gay, o transexual, a mulher. Partindo para descabidas e ilógicas comparações com “Wonder Woman” na banalizada questão do assédio sexual, a tamanha informação indecorosa do YouTube decidiu, precisamente antes de assistir, esmagar o último trabalho do par Anna Boden e Ryan Fleck. Toda esta mixórdia de idiotice digital e fake news veio contribuir para mais um episódio que, pelos vistos, não apresentou grandes frutos. A verdade é que, com um modesto orçamento de 152 milhões de dólares, “Captain Marvel” revelou-se, face à triste reputação que carregava, um considerável sucesso comercial, na forma de quase 500 milhões.

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Ao entregar a versão feminina de uma identidade tão confusamente arremessada nas últimas décadas em páginas da banda desenhada a dois cineastas independentes pode parecer (tanto para os próprios como para o público) uma evidente fonte de riqueza autoral no universo mais adorado do cinema. Usualmente, a fórmula “protagonista defeituoso – descoberta dos poderes – desenvolvimento do ambiente – confronto inevitável com o vilão – redenção do herói” em anuais ofertas do género pode ainda extrair conteúdo original. Porém, apresentando uma precariedade de originalidade na fotografia e um uso indistinguível e raso da câmara nas sequências de ação, o duo de “Sugar” e “It’s Kind of a Funny Story” demonstra ser constituinte de, desta vez, uma falta de personalidade e um certo desconforto no respetivo modus operanti. A culpa deverá ser dividia igualmente com o Ben Davis (que fotografou “Three Billboards Outside Ebbing, Missouri”) e com a terceira guionista Geneva Robertson-Dworet (apenas com “Tomb Raider” no currículo). Oportunidades perdidas como o desenvolvimento dos personagens de Lee Pace e Djimon Hounsou (dois atores mal aproveitados em “Guardians of the Galaxy”) e da inexplorada e aparentemente enorme civilização tecnológica extraterrestre da protagonista definem-se como as mais notáveis fraquezas da história, evidentes perfunctórios aspetos da geralmente virtuosa e entusiasta narrativa, conduzida por um operante ritmo, carismáticos desenvolvimentos de personagens, uma adorável recriação visual e musical dos anos 90 e sequências de ação enérgicas e memoráveis, ainda que picotadas demais.

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Confesso que a possibilidade da oscarizada Brie Larson se pronunciar como uma “feminazi” me preocupava. Podia-se traduzir eventualmente nas escolhas profissionais da americana de 29 anos. A hipótese de “Captain Marvel” ser definida como uma campanha audiovisual de duas horas das Capazes ganhava cor. Não se aplica. Ainda que a relevância social de um filme não seja condição necessária para a qualidade do mesmo (vamos engavetar esta discussão para outro dia), as cartas disponíveis foram bem utilizadas de diversas formas. O feminismo competentemente jogado na cara do público é genuíno, ao invés de extremo, e não existem fáceis rotulações, mas sim uns bem-vindos retratos, denúncias e troces de comportamentos masculinos escusáveis e constantemente considerados naturais. Tudo isto elevado pela ótima interpretação da cara principal de “Room”, que se adequa ao humor da Marvel, ao universo explosivo que a rodeia e, claro, à poderosa, fragilizada, atormentada e deslocada Carol Danvers. A confiança provocadora é carismática, as emoções são relacionáveis e os bem escritos estágios de evolução da personagem distinguem “Captain Marvel” das restantes entradas no MCU.

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Como seria de esperar, o elenco inclui um Samuel L. Jackson na pele (rejuvenescida perfeitamente por CGI e maquilhagem) de uma versão sólida da inabilidade do Nick Fury, mais leve, mais “Samuel L. Jackson”, digamos. A interação constante entre o inexperiente agente da S.H.I.E.L.D. e o gato Goose é inicialmente semente de várias cenas recorrentemente engraçadas que se tornam repetitivas e responsáveis por um processo infeliz de infantilização do eventual líder dos Vingadores. A Lashana Lynch prendeu-me logo de cara, fiquei hipnotizado pela empatia da personagem e pela sua bonita relação com a protagonista. O Clark Gregg tem uma participação modesta enquanto um novato Agente Phil Coulson.

O Jude Law está funcional e com um propósito claro, mas se fosse excluído a concretização do pretendido ainda ocorreria e resolver-se-ia o porisma da nula construção temática do planeta de Hala. O elenco secundário marcado igualmente pela criminosa e preterintencional inutilização do talento majestoso da Annette Bening é salvo principalmente pelo Talos, interpretado pelo sublime, dedicado e bem maquilhado Ben Mendelsohn, conquistador de cinéfilos desde “The Place Beyond the Pines” e “Darkest Hour”. Contra todas as convenções iniciais, o personagem distancia-se das restantes presenças antagónicas do MCU e pertence ao aglomerado de vilões com uma motivação perfeitamente clara, relacionável, lógica e humana. Importantíssima nos dias de hoje. Dentro do campo das manifestações de descontentamento político-social contra o megalómano e desumano presidente norte-americano, é um dos personagens mais interessantes dos últimos anos.

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Portanto, inserindo a vitória da mulher neste braço-de-ferro intergaláctico e o comentário político no mesmo saco, rapidamente “Captain Marvel” se ajusta dentro do atual debate relativo aos temas estendidos pelo gatilho da masculinidade tóxica denunciada pela resposta feminina. O fator preocupante não é um ou outro filme extremista, que certamente já se terão feito, mas maioritariamente a reação histérica e sexista daqueles que não se afirmam ameaçados. A chegada de um grandíssimo cinema feminista de super-heróis tardará, embora que o último conto antes de “Avengers: Endgame” cumpra eficientemente a tarefa de divergir dos seus antecessores no que toca a diversidade, com consideráveis defeitos na sua sombra.

 

Nota: B-

 

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"Matchstick Men" ainda me faz pensar

Um dos meus mais recentes e prazerosos hábitos é fazer a minha vida não ao som de música (como a generalidade das pessoas normais), mas sim ao som de trailers. Sim, trailers de filmes ou séries. Sim, é estranho. Mas, em ligeiras porções de tempo, dá-me um enorme gosto reouvir uma mísera segmentação de algo que já tenha visto ou que queira ansiosamente ver. “Green Book” e “Good Omens”, da Amazon, têm sido as principais cobaias. Contudo, é “Matchstick Men”, do Ridley Scott, que teimosamente não me sai da cabeça. Desde há uns meses (desde o primeiro e inesquecível visionamento do filme de 2003) que os diálogos do personagem obsessivo-compulsivo e germofóbico do Nicolas Cage permanecem insistentemente na minha memória. Sabia que adorava o que tinha acabado de ver e que tal ficaria comigo durante muito tempo. Nunca pensei, no entanto, em tal afetividade e relação direta. Facto é que, neste pouco tempo, já vi e revi a única comédia negra do realizador de “Blade Runner” incontáveis vezes. Não podia continuar a abdicar 2 horas diariamente, ainda que me fossem extremamente rápidas, mas que, lá está, me extraíam produtividade de outros sítios. Simplesmente, nos graciosos intervalos de tempo, aproveito para pescar mais um pouco de entretenimento daquelas deliciosas cenas no psicólogo e na casa enjoativamente limpa do Roy Waller. Obrigado, YouTube. “Matchstick Men” pode não ocupar o pico da minha lista de eleição cinematográfica, mas certamente permanecerá estabelecida como a entrada mais arrojada e inesperada possível. Sabem aquela sensação de quando descobrem uma obra-prima que aparentemente apenas uma pouquíssima parte da comunidade cinéfila está ciente de existir, ali no fundo da prateleira? Sabem o pensamento de “Como é que este me passou totalmente ao lado?”.

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Sugerido: Matchstick Men - obrigado por me roubares

“Matchstick Men” toucou-me mais do que alguma vez esperei. Por razões óbvias, não sou pai (nem lá perto) de uma perdida adolescente temperamental nem pretendo construir uma reconhecida carreira de burlão, invariavelmente obtendo camadas incontáveis de dinheiro para nenhum objetivo pessoal esclarecido. O que destaca a execução desta história em particular dentro da filmografia do Ridley Scott (numa adicional e incompreensível subvalorização que o eternamente persegue, longínquos os seus grandes dias de ficção científica) é o fator camuflagem. Com certeza que uma das maiores intenções dos guionistas Nicholas e Ted Griffin ou do romancista Eric Garcia fosse desviar as atenções de uma camada temática mais sentimental. No entanto, mais uma vez, o mérito do realizador não poderá cair no esquecimento. Os anos 2000 já estavam a correr lindamente para o cineasta inglês. Recordadas as anómalas receções críticas em toda a sua carreira, o realizador de “Alien” virou a esquina entre séculos vendo o seu “Gladiator” a receber o Óscar de Melhor Filme (ainda que perdendo o de Melhor Realizador para Steven Soderbergh, por “Traffic”) e entrou em 2001 com duas ofertas – a mediana “Hannibal” e a estrondosa “Black Hawk Down”. Facto: com certeza que ocupar-se de inúmeros projetos todos os anos será menos complicado quando nenhum dos conceitos que adaptamos às grandes telas é da nossa autoria – veio ao mundo após longos e cansativos estímulos cerebrais de criatividade. Quando explorava o IMDB em mais uma das minhas modestas e padronizadas pesquisas, descobri que o senhor à frente de algumas das maiores relíquias do cinema nunca escreveu nenhuma daquelas. Nem soube se ficava desiludido ou orgulhoso. Optei eventualmente pela segunda hipótese. Desengane-se quem pensa que um realizador terá de ser necessariamente o autor direto de uma história. Aproveito para declarar, no entanto, que contra mim falo. Os meus realizadores preferidos são autênticos autores – Christopher Nolan, Quentin Tarantino, Woody Allen e Stanley Kubrick. Contudo, algo de particular existe na mente de um artista (também ele um atarefado produtor) que constantemente aceita argumentos que os estúdios lhe apresentem. Nas mãos de um realizador inferior, escusado será dizer que maravilhas como “Alien”, “Blade Runner”, “Thelma & Louise”, “Gladiator” ou “American Gangster” nunca apresentariam tamanhas exímias qualidades presentes na obra de um específico cineasta que, de vez em quando, em prol da necessidade de pagar contas, nos oferece obras desmerecedoras de atenção ou louvor.

Sugerido: Bird Box - bom terror, prescindível processo

E em “Matchstick Men” acontece exatamente isto (desculpem a enorme divagação anterior). Numa entrevista da distribuidora no retraído e minimalista estúdio de gravação da banda sonora, as palavras de Hans Zimmer foram sublimes para exemplificar o que era feito – “In a funny way, this was always going to be our, you know, little movie in between during some huge, big, you know, Leviathan off something else. And, of course, it ended up being, you know, certainly, I think both for Ridley and me, the one we spent the longest time on.” – Haverá palavras mais capazes de demonstrar o prazer que estes dois senhores mantinham em trabalhar? No verão californiano de 2002, sobretudo para dois dinossauros das suas áreas, não seria recomendável andar a correr no set de produção de algo que eventualmente ninguém veria. Todavia, para a felicidade de nós – amantes de bom cinema –, na sua correta definição, “Matchstick Men” é tudo menos um filme pequeno, é tudo menos uma história pequena. A reviravolta final vale devido àquilo que se constrói debaixo dela, impactando o espectador investido. Só que a questão é esta: o maior valor da comédia de crime está na sua camada interna, na sua derme emocional.

“I’m not very good at being a dad, ok? You know, I barely get by being me.”

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“-She said you were a bad guy. You don’t seem like a bad guy.

-That’s what makes me good at it.

-Well, I don’t think you’re a bad guy.”

“Que rica menina…”, pensou ele, chegando a casa, vendo-a estendida no sofá, tapando-lhe com um cobertor. Monótonas manhãs a roubar idosos, tardes infelizes a fumar e noites solitárias a comer enlatados incolores e acompanhadas por discos de vinil, os dias de Roy foram substituídos, ganharam um novo sentido – esperar que a filha chegue a casa de madrugada depois de uma irresponsável saída para servi-la o primeiro repreendimento. Trabalhar sem vontade, sem prazer e sem significado moldava a vida de um homem desconfortável na própria pele, que procurava controlar as (hilariantemente descritas) tendências suicidas provenientes de cada novo episódio de migalhas espalhadas pela carpete ou de janelas embaciadas, ambos capazes de suscitar vómitos ou uma repetitiva manifestação de espasmos. O aparecimento (igualmente arrojado e talvez indesejado) de uma intrusa, um ser humano “inteligente, inocente, bonito”, alguém que, sem permissão (neste caso), arromba a porta que nos devia esconder do resto do mundo e manter a nossa privacidade, característica (ou não, no caso de Roy) de hábitos mulherengos e despreocupados. Se a relação em causa fosse biologicamente verdadeira, certamente que toda a massa monetária de Roy Waller reservada para coisa nenhuma seria eventualmente canalizada na melhor educação possível para a sua descendente. Não aconteceu, para o seu infortúnio. Mas tudo bem, conquistou a sorridente senhora do supermercado e espera-lhe na barriga desta uma segunda hipótese. O homem que chegará à idade adulta desiludido pela falta de conquistas pessoais sempre se poderá alegrar e manter movido quotidianamente, fruto da única coisa boa que pode gerar – uma vida. “Macthstick Men”, deste modo, pode ser interpretado como mais uma metáfora para a parentalidade (os seus antecedentes, preconceitos, medos, perigos… as vitórias) superiorizando-se aos recentes e badalados “A Quiet Place” e “Bird Box”. Saber abdicar da nossa disposição e rotina (“things a certain way”), mascarar o nosso interior negro e destrutivo e adaptar-nos às mesquinhices de quem amamos. É muito isto que se retém. A relevância temática, psicológica e existencial do terceiro melhor filme do Ridley Scott, aliadas ao imprescindível valor de entretenimento desenvolvido unicamente pelas interpretações, pelos diálogos, pela banda sonora e pelo trabalho de câmara, elevam este além daquilo que podia ser rotulado, como tantos outros, – um filme de domingo à tarde com pouco menos de 2 horas. Não é, meus amigos, não é.

 

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I AM COMPLETELY FED UP!

Sitcom é um formato fácil. Cada vez mais os fãs hardcore de "How I Met Your Mother" ou de "The Big Band Theory" se queixavam da adiada chegada do fim, com medo de se cansarem involuntariamente dos queridos personagens, retendo deles as recentes lembranças de piadas insípidas. Tenho sentimentos semelhantes com outras séries. Mas, ao contrário do que o próspero modo atual de cozinhar séries de comédia tem revelado, o formato das habituais histórias caricaturais com risos e aplausos de fundo conseguem com alguma frequência extrair ótimos momentos de humor. Ou melhor, conseguiam. O seguinte excerto provem de um programa que me deu um indescritível gosto de ver e rever vezes sem conta. Com ou sem uma plateia paga, a melhor oferta televisiva de 2004 da ABC tinha todas as hipóteses de ser um marco inegável da comédia familiar (não fosse a precariedade do marketing e, por seguinte, das audiências). Dizem que as memórias dos produtos audiovisuais tatuados no nosso passado tendem a não corresponder com a vindoura realidade. Anos se passam e evidenciam-se fraquezas e defeitos nos nossos programas de eleição, resultante do cinismo que chega ao lado da idade adulta. "Complete Savages" é uma rara exceção a esse fenómeno. Só se supera. Fiquem atentos.

 

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Acendalha Datilográfica #3 – Breaking Bad

Muito dificilmente continuaria esta rubrica sem mostrar um diálogo de “Breaking Bad”. São inúmeros aqueles que hoje sei de cor de trás para a frente. Talvez aquele que melhor transmite a ideia da mudança do protagonista e anti-herói é um pequeno dos muito regulares confrontos no quarto do casal principal, durante a quarta temporada. Curto e grosso. Fez-se história na televisão, meus amigos. Neste momento e noutros tantos.

Sugerido: Walter 'Heisenberg' White - violência e a perda da insignificância

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Skyler

Walt, I’ve said it before. If you are in danger, we go to the police.

Walter

Oh, no, I don’t want to hear about the police.

Skyler

I do not say that lightly. I know what it can do to this family, but, if it’s the only choice we have, if it’s either that or you getting shot when you open your front door…

Walter

I don’t want to hear about the police!

Skyler

You’re not some harden criminal, Walt, you’re in over your head, that’s what we tell them and that’s the truth.

Walter

No, it’s not the truth.

Skyler

Of course it is. A school teacher, cancer, desperate for money…

Walter

Ok, we’re done here!

Skyler

…roved into working, unable to even quit! You told me that yourself, Walt. Jesus, what was I thinking? Walt, please, let’s both of us stop trying to justify this all thing and admit you’re in danger.

Walter

Who are you talking to right now? Who is it you think you see? Do you know how much I make a year? I mean, even if I told you, you wouldn't believe it. Do you know what would happen if I suddenly decided to stop going into work? A business big enough that it could be listed on the NASDAQ goes belly up. Disappears. It ceases to exist without me. No, you clearly don't know who you're talking to, so let me clue you in. I am not in danger, Skyler. I am the danger! A guy opens his door and gets shot and you think that of me? No. I am the one who knocks!

 

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