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Vida de um Cinéfilo

Vida de um Cinéfilo

Dezoito

“Gosto muito do homem em que te estás a tornar…”, disse-me, enquanto requisitava os individuais cafés destinados aos convidados (usurpadores moradores no seu direito) sentados à mesa de almoço, em casa previamente idealizado e instalado para tão conveniente e aguardada ocasião. Enquanto perfeita conhecedora do particular gosto (até incompreensível e injustificado) retido da extração das tão tradicionais bicas essenciais na fase terminal de uma graciosa refeição, sustentadas pelo habitual e instável ofício de uma máquina automática prestes a dar o berro e os maçadoramente desnecessários pires, pedindo ou não pedindo, lá vou eu, logo após erguer a loiça da mesa para o lavatório de alumínio.

Declarada mais uma eventual e inefetiva, ainda que sincera expressão, desta vez “Acho que te estás a tornar num bom ser humano…”, entretanto, acompanhando as palavras que lhe saíam da boca habitante naquele rosto sorridente e nostálgico com um caloroso abraço, é então que a realidade cai – “Será esta mais uma mera frase de efeito oferecida empacotada com a idade composta na gradual efemeridade dos vindouros anos? Ou poderá ser isto, de facto, verdade? Eu? Um homem?”. Com base numa imprecisa e apressada observação no corpo que abaixo da grande cabeça oca e cabeluda (nela estabelecida desde nascença aquela feição acanhada e exígua) se encontra, poderá o caso estar remotamente inalcançável, pelo menos por agora. “Homem” não. Por enquanto, uma criança de um metro e setenta e oito, pelos vistos estatura apta para, em intervalos de ternurentas saudações, enterrar a enrugada cara das figuras maternais naquele peito “de homem alto e crescido”. Estas, de seguida, mirando a risonha face com uma barba precoce do seu rebento, propiciamente finalizando o gesto comunicando um inevitável e arrepiante “Eu antes pegava-te ao colo!”. Já lá vai o tempo, ao que parece. Nem dei conta. Perdi a vez de dar.

Beijinhos, abraços, apertos de mão, palmadinhas nas costas, suaves transições manuais da nuca até à testa, prendas rececionadas com ilusório espanto, envelopes que encofram simpáticas quantias monetárias (prenda essa aborrecida e insignificante nos iniciais dias de existência, mas extremamente pertinente e bem-vinda no irresponsável auge da adolescência), terminando com repetitivos brindes, desta vez realizados com caseiros e saborosos copos de vinho (aposentados os dias de pacotes de sumo), referências aos inocentes e disparatados episódios infantis que ressurgem alegre e espontaneamente na memória coletiva, uma convivência orgânica prolongada pelo resto da tarde, intercalada, como seria de esperar, por intermináveis felicitações generosas pelo cumprimento de tal reluzente meta sem qualquer esforço do indivíduo na qual a descrita reunião familiar se centra. Assim foi e assim continuará. Assim, ainda bem.

A maior guerrilha não será, com certeza, o dia seguinte, no qual apenas acordamos, sem surpresa, com os teimosos olhos inundados de remelas e olheiras, horas depois da bebedeira diurna partilhada com amigos. Não será acrescentar mais números à idade transparecida nas amostras identificativas. Não será manter ou modificar um singular traço da nossa personalidade que respetivamente apreciamos ou abominamos. A luta, em princípio perdida, será o embraçamento de fundamentais responsabilidades pelo qual devemos prosseguir, ao invés de adiar ou aviltar. Não queira isto dizer que tal alteração de jogo não pudesse ter começado em anos anteriores. Verdade seja dita, a idade é somente um número. O meu objetivo, e de qualquer outro homem (guardadas as devidas proporções), devia ser universalmente não me tornar numa criança envelhecida, num Simba a cantarolar despreocupadamente ‘Hakuna Matata’ para o resto da vida, assobiando para o lado a fazer-me de distraído conforme o papel inerente à minha existência surgisse à espera de ser respeitado ou por alguém assumido. Os momentos ‘Hakuna Matata’ – traduzindo, os momentos “que se foda” – devem permanecer na nossa condição, procurando equilibrar a seriedade e a leveza estritamente necessárias para o nosso bem-estar. Contudo, importante será não abandonar a nossa importante posição de responsabilidades, sejam elas quais forem e em benefício de quem for – ser o homem mais correto para quem mais merece e para quem debaixo da nossa sombra viverá. É curioso como comecei a dissertar acerca da minha perceção do tempo, da minha idade e do futuro que me aguarda e acabei por comparar tal fenómeno ao “The Lion King”. Nem foi de propósito, asseguro.

Precisamente o que acontece na belíssima e intemporal animação de 1994 é uma lição para qualquer pessoa. Sim, acompanhado ao irretocável significado do arco do protagonista com a voz do Matthew Broderick e do Jonathan Taylor Thomas, recebemos inclusive um estudo sobre a básica perversidade do poder e as motivações e ferramentas por detrás da mesma. Porém, poucas semanas depois de ser lançado o trailer oficial do expectado remake live-action (nada é por acaso) e quase 2 meses após me tornar maior de idade, começo a pensar. Não posso amadurecer sem passar por determinados (e indesejados) acontecimentos. Tal como o Simba, que canta ingenuamente ‘I Just Can’t Wait to be King’, no meio de um festim absurdo com, no mínimo, escassas possibilidades de ocorrer na vida real (entenda-se animais empoleirados e entrelaçados uns nos outros, alguns dos quais presas e predadores falsamente em harmonia e contacto), sem se aperceber do preço que deve pagar a favor de assumir o patamar adulto, livre e autoritário que tanto estima – a morte do pai. Ser adulto deixa de ser um sonho, uma deliciosa e irresistível receita de divertimento, um bilhete de ida para a criança abandonar aquela chata ordem quotidiana de ensinamentos, tarefas e sermões morais. Quando se observa de perto o quão feia é a nossa futura condição e o quanto esta nos suga, crescer perde o que quer que foi que tanto nos aliciou. Decorre na cabeça de Simba (tal como em algum momento decorreu na de cada um) o incontornável desejo de parar, questionada toda esta suposta obrigatoriedade de existir, e simplesmente desistir. De dizer ‘Hakuna Matata’, preenchendo os dias com um insignificante e repetitivo, ainda que prazeroso ciclo de procrastinação, indiferença e inutilidade.

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Portanto, o que fazer? Nada mais que reerguer o olhar e dispô-lo na direção daquilo que se pretende (desculpem a palavras de livro de autoajuda). É curiosamente simples. Árduo, frustrante, cansativo, imerecido, remoto…, mas simples. Basta regressar ao nosso “eu” juvenil, conjugá-lo com as secas aprendizagens retidas das inúmeras infelicidades, orgulhar quem mais anseia testemunhar a nossa prosperidade após longas discipuladoras instruções, ascender a “pedra do reino” e rugir. Deve satisfazer uma alma. Decerto satisfará.

 

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The Sopranos S1 – revestido a penumbra

Manuseando o negro volante ao serviço de um etariamente estimado automóvel, composto por uns possantes membros superiores, imponente e despreocupado duplo queixo e toucado descabelado, aduzido por fios e colares de ouro igualmente requintados e sujos e uma grossa névoa de fumo parida por um possivelmente ilegal charuto de coleção, a expressão do trono de um poderoso patriarca contemporâneo resume a personalidade de Tony Soprano, afixado na estabelecida e disputada supremacia familiar e deslocando-se desde a escuridão do túnel, pelas capitalistas autoestradas e ruas nova-iorquinas, observando simbólica e autoritariamente as eventuais sinalizações rodoviárias, arranha-céus, aviões de partida, cadeias de fast-food, catedrais, cemitérios, fábricas, enferrujadas linhas férreas, lojas de conveniência, pontes, rios turvos e polutos, talhos, o por ora erguido World Trade Center, a reluzente Estátua da Liberdade, o petróleo queimado pelo sol e o movimento quotidiano indiciário de gerais elementos inferiores da sociedade que, com certeza, se consciencializarão a cada iminência ou proximidade do predador italo-americano pelas sossegadas localidades. A territorialização de Bloomfield, Brooklyn, Manhattan, Newark, Nova Iorque, Nova Jérsia, Paterson pelas diferentes e sonantes dinastias emigrantes ocorre há décadas, definindo uma ascendente, embora decadente e maculada América. Tamanha ameaçada autoridade e, nos mais desesperados ou monstruosos atos, psicopatia não demonstram as alegadas isenções de repressão emocional e consequentes abismais inseguranças, que cautelosamente cada mestre mafioso pretende encobrir, rezando, praticamente se ajoelhando perante os céus e as raízes étnicas que lhe salvem da vergonha que é revelar humanidade. Ou pior, quebras na perceção alheia de masculinidade. Só a sensação de paz e descanso surgem quando, percorridas todas as humildes residências do cidadão de classe média/baixa onde a bandeira é esteada, se sobe pelos serenos arbustos e se estaciona a ensanguentada carrinha à porta de uma majestosa mansão, de um desassombrado covil revestido a penumbra.

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Diretamente da mente de David Chase, criador de “Almost Grown” (série da CBS, dos anos 80), responsável por uma única longa-metragem no cinema – “Not Fade Away”, de 2012 –, o título “The Sopranos” percorre as bocas dos amantes de televisão e, se quisermos fazer as honras, dos de cinema. Na mesa de debate dos dias atuais, muito se discute se se verifica, de facto, um maior valor cinematográfico na produção de séries fictícias (nos parâmetros de narrativa, oferta técnica, ambiguidade interpretativa, elementos visuais e a presença de complexidades morais nos arcos de personagens). Fácil, indiscutível e objetivamente se conclui que sim. Cada vez mais observamos a dedicação temática e técnica por detrás das nossas histórias televisivas favoritas. A televisão como a conhecíamos, assente sobretudo em tradicionais sitcoms (na sua generalidade com ótimos personagens e uma quase inexistente conexão entre cada episódio) e em dramas prolongadamente recicláveis, perdeu popularidade na competição contra a oferta interminável e maniacamente impossível de acompanhar fabricada por empresas como a Amazon, a Hulu, a FX, a AMC, e, claro, a abelha rainha do streamingNetflix. Presentemente com as mãos na massa e, decerto, com um lugar reservado na colmeia estão companhias como o Facebook, a Apple e a Disney. Portanto, em suma, atingiu-se o auge da televisão nesta segunda década do século. O cinema, como era conhecido nos anos 50, começou a perder público para uma tecnologicamente misteriosa, porém mágica caixinha destinada ao centro da sala de estar nas casas de todo o globo. Depois de uma resiliente luta de décadas por parte dos estúdios de Hollywood (vencida na eventualidade), a função do entretenimento até então ocupada pelo cinema permanece nas mãos da televisão. E, dado o decadente estado de seriedade do maioritário público consumidor do cinema mais oco e repetitivo, melhor seria difícil.

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Contudo, quando começou tudo exatamente? Alguns canalizam os méritos para a AMC, com eternos programas de relevo e influência internacional como “Mad Men” e “Breaking Bad”. Por outro lado, ainda que os Emmys sublinhem o merecido altar, pouco se recorda de uma série definitiva para o transporte dos valores cinematográficos para o pequeno ecrã de bordas arredondadas, árdua adaptação ao evolutivo trabalho de câmara e de perceção pouco aberta a mudança. É bem verdade (até hoje) que o público americano (e não só) não se cansa de histórias de gangsters e mafiosos. Os diferentes cenários sociopolíticos vividos no século passado demonstraram ser fortes autores na cozinha de histórias fictícias de crime organizado em grandes cidades nas mãos de famílias, sobretudo, italianas. “The Sopranos” oferece tudo aquilo que um fã de filmes como a trilogia “The Godfather”, “Scarface” e “Goodfellas” pode aguardar de uma premissa nada remota às dos referidos clássicos dos anos 70, 80, 90 (curiosamente graças à consistência de oportunas menções aos mesmos). No entanto, nada superioriza a quantidade de sofisticação temática que tão bem constitui o programa mais galardoado da História.

Entre amigos, primos, tios, sobrinhos, esposas, filhos e filhas, detetives, polícias, padres, strippers, prostitutas, mães e a ausência de pais, damos primeiramente de caras com o atual patriarca em inconvenientes e maçadores confrontos pelo poder familiar – Anthony John Soprano, católico romano nascido em 1959, no bairro de Newark, rapaz entre 2 irmãs e neto de um imigrante da comuna italiana de Avelino. Contra a sua vontade, após um inexplicável ataque de pânico no quintal no dia do aniversário do filho, é-lhe receitada uma série de habituais sessões com uma psicóloga – Jennifer Melfi –, também ela uma descendente de italianos. Uma das poltronas do desconhecido gabinete é hesitantemente ocupada pela pesada figura de excelência provinda de uma manchada e nociva soberania. Numa arrogante condição simultaneamente escondida e evidenciada (diria até ostentada), autora presunçosa de um invejável estilo de vida desmedidamente consumista sustentado por incertas labutas, encarregada do comando das herdadas e batalhadas atividades criminosas nas redondezas urbanas, do mais conflituoso bairro ao mais luxuoso subúrbio, e alto mestre de uma família de quatro lindamente direcionada para o preenchimento do estereotipado e convencional ideal da “família perfeita” correspondido ilusoriamente pela sociedade ocidental. É este o vosso personagem principal, o vosso herói, o vosso vilão. É este o homem que, no meio de beijos, abraços e palmadinhas nas costas, gere um dos mais assustadoramente fingidos e perniciosos meios familiares e negociais. Tony Soprano, usualmente um observador de rara astúcia e nigérrima mira semicerrada, sente-se intimidado pela desnuda figura feminina de porcelana que o examina na anterioridade da tão inusitada e indesejada consulta. Antes fosse apenas esta peça de decoração.

“I don’t know. The morning of the day I got sick, I’d been thinking: It’s good to be in something from the ground floor. I came too late for that, I know. But lately, I’m getting the feeling that I came in at the end. The best is over. I think about my father. He never reached heights like me. But in a lot of ways, he had it better, he had his people. They had their standards, they had pride. Today, what do we got?”

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“Let me tell you something. Nowadays, everybody’s got to go to shrinks and counselors and go on Sally Jesse Raphael and talk about their problems. Whatever happened to Gary Cooper? The strong, silent type? That was an american. He wasn’t in touch with his feelings, he just did what he had to do. See, what they didn’t know is, once they got Gary Cooper in touch with his feelings, they wouldn’t be able to shut him up. Then it’s dysfunction this and dysfunction that and dysfunctionavaffancul!”

Debaixo da rígida e implacável carapaça de homem de negócios, preso nas convenções socialmente tatuadas daquilo que um verdadeiro homem pode ou deve ser, Tony Soprano caminha atormentado a partir do dia em que a breve possibilidade de ter chumbado na avaliação inconscientemente aceite na prejudicial infância se concretiza a olhos vistos. Aos seus, aos de quem o ama, aos de quem o segue, aos de quem o teme, aos de quem o odeia. Qual a credibilidade de um mafioso regularmente auxiliado por uma psicóloga? Um mafioso que, até então, ocupava a sua rotina de cansativas enumerações monetárias, preconceitos, churrascos tradicionais, jogos de bilhar, poker, gordos charutos, bebida, bares de alterne, requintados restaurantes e iates divididos com amantes, assassínios, uma danificada relação com a destabilizada figura maternal e uma particular dedicação aos patos que lhe povoavam a piscina. Um mafioso que, como uma grande parte dos homens, tem medo de se abrir emocionalmente, de não afirmar aquela ridícula dureza, de estar exposto a quebras depressivas relativas à crise de meia-idade e a tudo o que com ela chega: queda de cabelo, um corpo desconvidado, impotência e a inevitável sensação temporal de ultrapassagem – assistir  aos efémeros anos decorrerem desprevenidamente, marcados por uma rotura geracional contrastiva de princípios, tanto para melhor ou pior. Pois, porque dentro daquela casa, não está uma família perfeita, mas, sim, uma mulher presa num insatisfeito e interrogável matrimónio, uma típica jovem temperamentalmente inteligente envolvida nos incontornáveis problemas que à sua faixa etária dizem respeito e um obseo e problemático pré-adolescente desamparado na falta de ambições além dos videojogos. No sótão de cada estabelecimento ilícito, encontram-se os primos – Big Pussy, Silvio, Paulie e Christopher –, cujos traços de personalidade variam de inexperientes a impulsivos. No berço que o filho abandonou em tenra idade, está Olivia, a presa e a caçadora, uma mulher no fim da vida que tão rapidamente provoca pena e repulsa, dada aquela figura chorosa e fria. No canto mais obscuro da cidade, o venenoso e imprevisível conspirante Tio Corrado Soprano Jr. elege a melhor maneira de arrancar brevemente o império das mãos do sobrinho, sempre que necessário, intercalados vómitos, tiros, dúvidas e reprimidas neuroses, considerando as mais violentas e anéticas soluções. Mais que qualquer outra mulher, ao contrário daquilo que alegam todas as pontas de cabelo da humanidade, ramos da comunicação social e até manuais de ciência, dentro de uma complexada mente masculina, o drama é quase incomparavelmente superior. Homens têm medo de não corresponder ao que lhes é exigido. Homens têm medo de chorar. Homens assumem complexos altivos e territoriais com recurso à espontânea e tola violência que nem irracionais animais. Homens têm medo até de admitir proporcionarem prazer às mulheres oralmente. E, em pleno 2019, persistem em se indignar com os manifestos confrontantes às tendências de masculinidade tóxica.

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“Like fucking King Midas in reverse here. Everything I touch turns to shit. I’m not a husband to my wife. I’m not a father to my kids. I’m not a friend to my friends. I’m nothing.”

Na sua magistralidade temática, “The Sopranos” questiona e aprofunda o sensato “Porquê?”, abrigando-se no talento dos guionistas e do elenco que inunda o pequeno (grande) ecrã de diálogos, silêncios e ações fenomenalmente genuínos e interpretações impressoras de uma realidade jamais artificial, como poucas séries foram, são e serão assistidas a concretizar. Desde a encarnação maravilhosamente horrenda e insubstituível do falecido James Gandolfini, passando pela hipnotizante presença de Lorraine Bracco, pela controlada iminência raivosa de Edie Falco, pela corretíssima intervenção da Jamie-Lynn Sigler e do Robert Iler, até aos diversificados Michael Imperioli, Vincent Pastore, Steven Van Sandt e Tony Sirico, recorrendo convenientemente a John Ventimiglia, Jerry Adler e Drea de Matteo, terminando nos veteranos Nancy Marchand e Dominic Chianese. O visionamento de um produto audiovisual fictício é interrompido. Observamos a vida real. Suplementando a referida mestria com um perfeito trabalho de iluminação, um subtil trabalho de câmara, uma edição pacientemente precisa e extensos recheios de subtexto em cada momento, as (quase) 13 sólidas horas de “The Sopranos” enveredam pelas mais espantosas resoluções. Não fosse um entediante número de ocos personagens e a particular presença repetitiva e encanitante da Kathrine Narducci, a primeira temporada da série da HBO seria definitivamente irretocável. Posto isto, de pouco se extrai reclamações. A violência é gráfica, as relações e suspeitas são experienciadas pelas personagens e pelo público com igual grau de empirismo, qualquer das expressões faciais e convenientes esperas pela cena seguinte podem ter uma aceção subliminar, muito é escarnecido sobre os podres da sociedade e de quem a constitui e a finalíssima cena é uma das coisas mais enternecedoras que a televisão já fez.

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Lá fora trovejava, dignamente se comparando o monstruoso cenário atmosférico às águas resididas por Adamastores. O mundo é um palco pré-apocalíptico. É feio. A humanidade é feia, muitas das vezes sobrepondo o seu escombro malicioso à face altruísta e pacífica. Quem nos traz a esta selva pode ser tão ou mais venenoso que nós. E, caso seja, a nossa condição é colocada à prova durante o resto da vida. Sem que se tornem inválidos juízos de valor acerca dos seus malévolos comportamentos vindouros, a trajetória de Tony Soprano resumiu-se, nos primeiros meses em que o conhecemos, a um mero teste, a uma avaliação moral, social e, se quisermos, espiritual. A existência de um céu para os mais bondosos pode facilmente se assemelhar a uma utopia ilusória, impossível de efetivar, imposta pelos altos religiosos disfarçadamente sedentos por poder, sendo pragmática a sua desconstrução lógica, recorrendo em muitas das discussões à piada apropriadamente gratuita. Contudo, a hipótese da existência de um inferno será, para aqueles que jamais, seja numa inutilmente sangrenta guerra seja numa casual manifestação de solidariedade, descartam a feição desumana inerente a toda a espécie, uma breve facilitação para quem quer (ou para o que quer) que seja que regule a ordem do Universo (se é que o livre-arbítrio possa igualmente ser credibilizado). Sendo assim, Tony Soprano, enquanto um eterno pecador, poderá não se livrar dos malvados genes, porém, em função de morais responsabilidades, é lutando por um padrão educacional que não prejudique ou traumatize quem desmereça, quem não requisitou surgir e permanecer ali, na perigosa existência. Quem não requisitou viver. A última cena da primeira temporada de “The Sopranos” é um triunfo a todos os níveis. Dificilmente, após todos os infortúnios que um homem de família (por sinal, incongruente nas suas ideias e paranoico) pode ser alvo ao fim de um agoniante e frustrante dia, no qual nem pôde visitar a compreensiva psicóloga ou ter o prazer de se vingar dos familiares mantidos no pedestal de razão e respeito e que, no final do orgulho, o quiseram morto, nada substituirá um jantar com a mulher que ama e com as duas vidas de que é responsável (a singular bondade que um ser humano pode fazer surgir). Pois, enquanto o globo se autodestrói no outro lado da porta e a trovoada pouco nos abana, acompanhados por boa comida, os meus filhos, um dia avançados na idade e num processo de constituição familiar, estão em segurança e eu permaneço precisamente aqui, com uma mão agarrada à da minha esposa e a outra suspensa no ar, erguendo o meu copo ao encontro dos restantes e expondo uma disposição propícia para desejar “Saúde!”.

 

Nota: A-

 

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Snu – uma vontade de ajudar a mudança

Quando me coloco a imaginar nas possíveis merecidas adaptações cinematográficas das histórias de figuras portuguesas, a resposta que recebo é geralmente a mesma: “É preciso que haja público para isso…”. Pois bem, certamente que um filme sobre o mais carismático rosto da política nacional seja um atraidor de números, sobretudo para as envelhecidas diferentes faixas etárias que pesadamente compõe este país, acima, claro, às reduzidas taxas de natalidade que, por sinal, apenas fornecem ao país uma vasta camada jovem pouco ou de maneira nenhuma interessada em conhecer o contributo que a campanha e a eleição de Francisco Sá Carneiro têm presentemente na sua liberdade. A utilidade das aulas de história pode ser precária. E é. A comunicação social e as presentes entidades do Parlamento podem evocar em vão o nome e os atos de figuras inesquecíveis. E evocam, com efeito banalizando. As recordações que os nossos pais carregam das suas afiadas juventudes dedicadas à cultivação dos seus conhecimento e ideação políticos e que, mais tarde, nos transitem podem ser menos iluminadoras que o pretendido. E são. O povo português pode ser rudemente desinstruído, deseducado e desdenhador. E é. Mas, se mais alguém tirar notas da maravilhosa oferta da Patrícia Sequeira, pelo menos o panorama do chacoteado cinema português pode prosperar. Tal como este amor prosperou.

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Na sua reservada postura, Ebba Merete Seidenfaden levanta-se da secretária domada pela arrogância e desumana indiferença de um agente da PIDE, despreocupado com os gritantes números de mulheres sofridas nas mãos de abortos clandestinos e dos maridos abusadores. Portugal não é o seu país. Portugal não a entende. Portugal não a pretende entender. Portugal não a quer. Talvez Portugal nem a mereça. Funda a editora Publicações Dom Quixote, em 1965, com a qual se moveu contra as forças ditatoriais dos últimos anos do Estado Novo, e apaixona-se por Francisco Sá Carneiro, carismático movedor de multidões nascido no Porto. Ambos casados. Envoltos em cenários de enorme distinção e de facílimas possibilidades de não se relacionarem. Ou diria antes com dificílimas. Com tanto em comum e pouquíssimo em incomum, as personas (pública e privada) dos dois pavões complementam-se como poucos pares românticos da História portuguesa. A frieza calculista, altiva e assertiva dinamarquesa, oriunda, como muitas outras, de uma sociedade, sem surpresa, à frente das convenções civilizacionais, sociais e morais dos povos sulistas, encontra um sossegado abrigo no ardente, descontrolado, charmoso, liberal, correto, moral e magnético romantismo lusitano. Snu Abecassis altera a disposição do habitualmente rigoroso penteado, permitindo que o liso cabelo louro esvoace ao lado da face vincada e barbeada do eventual Primeiro-ministro, que estende discretamente a mão atrás das costas para entrelaçar os dedos de marfim com os pálidos da amada. É através desta simbólica, belíssima e inesquecível contemplação poética que “Snu” se torna num inescurecível filme português, uma amostra audiovisual das raízes mais apaixonadas da literatura nacional e que tão bem definem aquilo que o cinema luso pode ser. Aliás, que deve ser. Mérito do texto da realizadora e da Cláudia Clemente. Um único retoque seria o uso de silêncios. Algumas cenas beneficiar-se-iam se os personagens simplesmente não descrevessem os seus sentimentos. Felizmente, tal imperfeição dura pouco.

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A inescrutabilidade do cinema português é praticamente um paradigma presente na nossa praça, a começar pelo público, desabituado a consumir outro tipo de cinema (entenda-se outro tipo de narrativa e outro tipo de diálogo) que não o americano e que, de seguida, servida uma refeição diferente, é incapaz de desligar o intuito de crítica gratuita, irrefletida e puramente ignorante. Não que os espetadores sejam todos “poucachinhos da cabeça” ou que os cineastas portugueses sejam obrigatoriamente constituídos por uma incontestável e fechada superioridade intelectual (na maioria dos casos talvez desmedida e inútil). Parece que qualquer coisa que produza cá precise de um carimbo do estrangeiro, uma certificação de qualidade de uma entidade aparentemente superior devido à sua diferente nacionalidade. Tal como não foi “São Jorge” aplaudido a não ser depois de regressar de lá fora, também “Snu” não será. Apenas o selo de Cannes ou de Veneza colocará o filme da Patrícia Sequeira nas bocas dos ditos cinéfilos portugueses. Mas, tal como qualquer entrega de prémios hollywoodesca, pouco isso importa. A mim sempre me disseram que aos burros não se dá livros, dá-se palha.

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Enfim, mais do mesmo. “Snu” merece ser exibido e servido de exemplo. Visualmente, deva-se dizer que estamos perante uma das obras mais vistosas que este país já produziu. A começar pelo elegante trabalho de câmara, lembrado por inúmeros planos sequência assentes em pacientes e subtis movimento horizontais, circulares ou retos, seguindo os personagens nas suas abaladas nuvens de modéstia para onde quer que se dirigiam, usualmente observados atrás das orelhas, fotografadas as nucas e os cabelos. Ao lado, também montado uma impecável reconstituição histórica, à base de credíveis guarda-roupa e design de produção, está uma fotografia de tirar o fôlego, da autoria do João Ribeiro, diretor de fotografia do "Cartas da Guerra" e do em filmagens “O Ano da Morte de Ricardo Reis”. Começando pelas cores cuidadosamente vividas da editora e do vestuário da protagonista e revestindo-se na sombra das sedes institucionais e restantes ambientes de influência, na qual povoam cigarros, pesares sonoros e a frenética edição do Pedro Ribeiro (creditado no futuro “Variações”), o ambiente prevê uma mixórdia de emoções prestes a explodir. Aliás, igual destaque para a banda sonora, constituída por melodias cintilantes e líricas e aprazíveis cantigas populares que o indivíduo que vos escreve frustradamente desconhece. E melhor que a estética só mesmo as interpretações. Não fosse o uso das imagens de arquivo dispostas literalmente ao lado do elenco, tudo seria irretocável.

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Após a conturbada e, se quisermos, violenta química entre Joana Ribeiro e Paulo Pires em “Madre Paula”, eis que Inês Castel-Branco e Pedro Almendra brindam o público com trabalhos dignos não apenas, com certeza, da memória das recordadas e respeitadas personalidades, aceitando transportar um sotaque ligeiro e uma postura sorridente, respetivamente, mas principalmente a demonstração da importante peça de biografias nacionais – genuínas interpretações, ao invés de caricaturais. Há muito que Portugal assume que, para contar uma história de empáticos rostos lusíadas nas grandes telas basta elevar a duração de tempo dos sketches que em televisão se produzem. Pois bem, dada a imediata necessidade (não só do nosso país) em comparar a naturalidade comportamental com as respetivas bizarrias humorísticas, não seria surpreendente ouvir que os atores escolhidos não eram parecidos o suficiente, como se as parecenças fossem sinónimo de uma boa interpretação ou de um bom ator. Curiosamente, sim, existem parecenças, mas o duo romântico atinge, com o devido (e gigante) mérito, o objetivo – ressuscitar os carateres em questão: o de uma mulher ideologicamente superior e o de um homem personificador da esperança necessária no período pós-ditadura e pós-PREC. A química é lindamente instantânea. No elenco, estão também presentes uma charmosíssima, elegante e grandiloquente Ana Nave na pele da Natália Correia, uma antagónica Maria João Pinho, presa nos retrógrados ideais matrimoniais, religiosos e educacionais do Portugal do antigamente, uma companheira Inês Rosado na pele da Conceição Monteiro e um funcional Pedro Saavedra na pele de um imprevisível Mário Soares.

Sugerido: Madre Paula T1 (2017) - Crítica

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Não direi nada de novo se afirmar que mais filmes portugueses deverão ser feitos com amor à arte e com respeito às histórias que são contadas. Aqui, ainda com diversos elementos que podem servir como uma bem-vinda aula de História para quem queira saber o quão grande foi o peso e influência de Sá Carneiro na sociedade portuguesa, dentro e fora da política, “Snu” não é uma leitura de Wikipédia traduzida para o grande ecrã. Diga-se, aliás, que é bem mais competente que usuais biografias americanas exibidas ao domingo à tarde. Não é a história da ascensão do (então) PPD e do Portugal pós-25 de Abril que nos é exposta, obedecendo a normas documentais. O que recebemos é um olhar introspetivo e, se quisermos, audaz sobre uma mulher de relevo tanto para uma cultura tanto para um mero e singular homem elevado aos pedestais da autoridade e do poder, resistindo, como pouquíssimos, àquilo que o favorecia. Tal como respondeu Snu quando questionada sobre a sua estranha permanência num país atrasado, quem se depara nos bastidores do cinema português deverá ser incentivado, apoiado a semear e regar “uma vontade de ajudar a mudança”. Para tal, cá estará quem pague bilhete.

 

Nota: A-

 

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Us - nas carcomidas sandálias do outro

Em menos de 30 segundos de conversa, foi num inopinado aceno que, encurralado pela pergunta mais vazia possível, respondeu comprometidamente: “Nós vivemos num tempo em que, enquanto uma cultura, tememos o outro, seja este um misterioso invasor que pensamos que nos virá matar e apoderar-se dos nossos empregos ou uma fação da qual não vivemos perto, que votaram de maneira diferente de nós. Só apontamos o dedo. E eu quis sugerir que talvez o monstro para o qual precisamos mesmo de olhar somos nós. Se calhar, o maior mal somos nós.”.

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Os Estados Unidos estão longe de alguma vez entenderem a mestria que por aquela mente deliciosamente distorcida e pessimista paira, marcando a sua presença pública com uma face mais risonha e amiga de quem assistia a “Key & Peele”, à procura de rápidas e satisfatórias doses de entretimento e insignificante galhofa, raramente capaz de extrair algo importante. Uma vez inserido na indústria cinematográfica, obtida rapidamente a atenção (e sorte, dada a hostilidade do mercado e das escolhas do público) de uma grande porção da manada de espectadores mainstream disposta a pagar para ver o que raio o homem por detrás de inúmeros sketches televisivos faria com 2 horas de cinema, dissolvendo os seus elementos cómicos com irresistíveis sátiras negras da sociedade americana. Por vezes, de há uns anos para cá, a impressão que retive era a de que todas as personalidades do entretimento e da cultura fofoca de Hollywood, sem exceção, se teriam juntado a um cego, populista e oportunista movimento de ódio fácil para com o narcisista vencedor das polémicas eleições presidenciais do melhor país do mundo. Autorais bacoradas machistas, homofóbicas, xenófobas e simplesmente absurdas credibilizavam a duras críticas que se faziam ouvir relativamente ao megalómano supremo e antiga celebridade de reality shows. Tanta conversa fiada já metia nojo. Apenas acompanhando as decisões que têm sido tomadas e os comentários que têm sido pronunciados pelo senhor Presidente, apercebo-me, talvez afinal numa condição suficientemente contextualizada, que toda a degradação ética que declaravam existir na personalidade de Donald Trump é, de facto, factual. Tão factual como o modo pelo qual o Tio Sam da vez opera a nação que (estranhamente ou não) o elegeu, lidando com seres humanos como se tratassem de transitórios números numa folha de Excel ou de doentes ratazanas à espera de um potente antídoto. Qualquer um que se informe sobre o decadente cenário das fronteiras mexicanas facilmente partilhará esta revolta interior. “Us”, uma impressionante segunda longa-metragem na carreira de um cineasta abundantemente talentoso que tem vindo a plantar o seu auge durante o governo de um dos homens mais perigosos da atualidade, é uma peça instrumental para entendermos o funcionamento reles do dito cujo e da nação que vigia e controla. E, inclusive, uma gigantesca e pessimista metáfora para o maléfico e incorrigível lado individual, à distância de um gatilho, de uma faca, de uma tesoura de nos tornarmos nos mais assustadores monstros, precisamente naqueles que nos convencemos diariamente estar acima moralmente, esses pobres e imundos animais que farão tudo para se expulsarem vitaliciamente do ambiente voraz e sombrio no qual tiveram a infelicidade de nascer, contra todas as benevolências que se clamam nas pacíficas, acolhedoras e seguras ruas dos favorecidos, cujas visão e audição apenas conhecem a respetiva realidade. Em função de curar a ausência de um teto, de uma cama envolvida por calorosos lençóis e cobertores, de um emprego digno das gotas de suor, de uma refeição quente e saudável para si e para toda a sua família. Se tais privilégios se obtivessem apenas a recurso a uma repentina, impiedosa e sangrenta vingança, que razões surgiram para se opor? Não faríamos todos nós o mesmo? Até os miseráveis infantes se juntariam ao bailado, erguendo-se da poeirenta terra ou dos repugnantes esgotos e túneis, calçando as luvas e vestindo os simbólicos trajes, abrigadas na sensibilização à agressividade testemunhada desde a nascença.

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Na afirmação de um ignorado presságio bíblico – “Therefore this is what the Lord says: ‘I will bring on them a disaster they cannot escape. Although they cry out to me, I will not listen to them.’” –, Jordan Peele previne-nos de um dia que chegará compassadamente – o da desforra –, no qual o país do outro lado do oceano cujo modo de vida inspira diversos fenómenos culturais, que curiosamente emigram para Portugal, tanto para o bom como para o mau, finalmente saboreavam o sabor da igualdade de patamares. Especialmente quando comparadas nações com abismais divergências de consumo e produção. Pode-se relevar, por exemplo, o comentário realizado sobre o desmedido consumismo que se voltou a praticar insistentemente desde a rotura de Wall Street. Os Estados Unidos já puderam voltar ao mecânico dia-a-dia que durante anos apelidaram de essencial – “american way of life” –, marcado somente pela compra de produtos que satisfaziam a instável autoestima de cada indivíduo com esposa, filhos e um grande animal de estimação, com o intuito de fazer pirraça ao vizinho, comparando casas, carros, roupa, acessórios, hobbies, barcos, enfim, tamanhos. Aqui entraram Elizabeth Moss e Tim Heidecker, com interpretações corretamente instrumentais no vaivém não só com outra família de classe média alta, mas também, discutivelmente, num arco de “família branca vs. família preta”. No entanto, pressenti a possibilidade de estender o material um pouco mais a fim de desenvolver a dinâmica do casal além do referido arquétipo.

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Já a restante turma é digna de aplausos, evidente a enorme dedicação com o respetivo par de personagens e as trocas de humor entre os mesmos, recortadas pacientemente pelo Nicholas Monsour. O espectador torna-se no hóspede e acolhe a fenomenal, traumatizada e perturbadora entrega da Lupita Nyong’o, naquela que é a melhor interpretação da carreira da mexicana desde “12 Years a Slave”. O Winston Duke, abstraindo-se sem problemas da bronca postura adotada em “Black Panther”, encarna perfeitamente o relaxamento insensível, irresponsável, embora que ternurento e protetor de um marido vidrado em fúteis tentativas de supremacia monetária. Aquela personalidade brincalhona paternal extrai diversas amostras bem ajustadas do mórbido sentido de humor do seu cineasta, mas todo esse tom acaba por ser surpreendente e gradualmente desprezado. Por muito que nos custe abdicar desse elemento do Jordan Peele desde as hilariantes sequências de “Get Out”, “Us” não é de todo uma comédia. E a dupla Shahadi Wright Joseph e Evan Alex foram autênticos talentos beligerantes em absoluto controlo. E, para o logro de qualquer fã de terror, merecem ser sublinhadas duas distinções: a fotografia apropriadamente audaz e escura nos momentos certos, da autoria do mais recente parceiro de M. Night Shyamalan, Mike Gioulakis, e a arrepiante e inesquecível banda sonora do estreante Michael Ables, cujo currículo se estende unicamente à galardoada comédia de 2017, reminiscente aos melhores calafrios provocados pela vibe sobrenatural e intrusa de “The Shining”. E, por falar em “intrusa”, a câmara do cineasta de 40 anos é outro subtil (enorme) acerto, procurando expor ou reduzir o impacto que o arco dos personagens têm exatamente nos mesmos, seja na forma de uma permanente desconformidade inicial em continuar naquela praia de férias, seja na mais declarada manifestação de horror e medo, especialmente através de espelhos e da distorção de clichês do género. Contudo, confesso que senti falta de mais sustos. Não de jumpscares. De sustos. Um bom filme de terror deve suscitar uma reflexão, mas também assustar com o mesmo grau de competência. Muitos elementos sinistros do filme ficarão comigo, mas senti falta de algumas mínimas pitadas de genuíno pavor.

Sugerido: Get Out (Foge, 2017) - Crítica

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Melhor que qualquer aspeto técnico que Peele nos ofereça, abrindo, ainda assim, diversas possibilidades para se superar no futuro, o valor de “Us” está onde não podia haver preguiça, onde não podia haver falta de ideias e de criatividade – na sua filosofia. Como já foi discutida acima o suficiente, a objeção do filme de 2019 não é complicada, não é prejudicada por tamanha tensão social que se vive como se tem anunciado. Aliás, tal tensão apenas auxiliaria a acessibilidade do espectador a alcançar o comentário que é cautelosamente preparado aqui. Mas, verdade seja dita, todos nós gostamos de um bom twist. E, melhor que um tradicional “Holy shit”, só mesmo um que pareça ilógico e que lentamente se absorva. Um que se estranhe e depois entranhe. Quando investidos na submersa e aterradora realidade que “Us” nos relata, é-nos impossível desligar do furacão temático e alegórico que durante horas a fio nos desafia a pensar. Mais do que isso, que nos cativa a reavaliar as nossas fingidas magnanimidade e benignidade, a fim de nos situar nas carcomidas sandálias do outro.

 

Nota: A-

 

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Review - The Big Lebowski (1998) // VHS

A convite do Daniel Louro e do Paulo César Fajardo, os autores de um veterano podcast português de cinema no Youtube, e mantendo a parceria com o Cinema Pla'net, tive a oportunidade de conversar sobre uma das melhores comédias dos anos 90 e uma das principais peças clássicas da minha lista de prediletos cinematográficos. Oiçam, percorram o canal do VHS Podcast e sintam-se livres para comentar.

OUVE/VÊ AQUI: Review - The Big Lebowski (1998) // VHS

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Sugerido: The Big Lebowski - banalidade inusitada

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Acendalha Datilográfica #5 - Blade Runner

Poucas são as histórias que iniciam uma discussão sobre a humanidade e a respetiva composição moral e espiritual da mesma forma que “Blade Runner”, discutivelmente o pilar do cinema de ficção científica, ao lado de “2001: A Space Odyssey”. Na conceção de um cenário futurista onde a raça dominante perdeu a sua essência, Rutger Hauer, ao auxílio do incomparável imaginário de Ridley Scott, entrega-se inconfundivelmente a um dos personagens antagónicos mais marcantes do audiovisual. Seja para o bem, para o mal ou para o próprio umbigo, Roy Batty estará presente na memória de quem se invista na jornada comandada pelo arco de Rick Deckard, uma amostra dos resquícios da espécie humana envolta num ceticismo cínico oriundo de um palco chuvoso de desespero, numa perda de identidade coletiva face à bruta inovação tecnológica e no secular capitalismo desenfreado. Tão curto e tão poderoso, o monólogo de Roy é a representação apogísitca da iminente inevitabilidade do fim da linha para a longa, arrogante e insignificante caminhada do Ser Humano. Por isso é que “Blade Runner” é infinitamente importante.

Sugerido: Blade Runner (Perigo Iminente, 1982) - Análise e Crítica

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Roy

Quite an experience to live in fear, isn’t it? That’s what it is to be a slave!

I’ve seen things you people wouldn’t believe. Attack shipps on fire off the shoulder of Orion. I wacthed C-beams glitter in the dark near the Tannhäuser Gate. All those moments will be lost in time… like tears in rain. Time to die…

 

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Green Book – inspirado e consciente

Os Estados Unidos são um país de extremos. Tanto uma personalidade como uma obra do entretenimento podem ser elevados aos céus ou condescendentemente desconsiderados, escarnecidos e desprezados. Surja a mais levemente fundamentada possibilidade de exclusão de um determinado elemento do particularmente tóxico meio da celebridade e do seu produto, o país de Donald Trump tem-se vindo a revelar um dos menos aliciantes palcos para os cineastas, guionistas e atores, seja para o bem ou para o mal. Variadas foram as crónicas (especificamente publicadas no Hollywood Reporter) relativas à aparentemente inesperada e absurda vitória do último filme de Peter Farrelly na passada cerimónia dos prémios máximos da Sétima Arte, ora devido à amenização de temas bem presentes no atual cinema crítico e intervencionista (sirva-se de exemplos o de Spike Lee, Jordan Peele ou Ryan Coogler), à subtileza discutivelmente caricatural ou à supressão dos verdadeiros elementos da história apresentada (resultado do texto da autoria do próprio realizador, do Brian Hayes Currie e do Nick Vallelonga, o filho mais novo do protagonista italo-americano).

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É curioso que um filme sobre perigosos preconceitos tenha sido tamanho alvo de preconceitos, diga-se, aliás, desmerecedores. Não que “Green Book” seja a história de 2018 mais digna de receber o ouro apogístico da Academia (até porque, sejamos novamente sinceros – aquele vale o que vale). Releve-se o facto de Peter Farrelly, conhecido pelas impecáveis comédias dos anos 90 “Dumb and Dumber” e “There’s Something About Mary”, não ter sido nomeado para Melhor Realizador, uma vez que uma excelente realização é sinónimo de um excelente filme. Pelos vistos, a julgar pelo sistema de voto da Academia, a comédia dramática protagonizada por Viggo Mortensen e Mahershala Ali terá sido considerada (em diversos Top 10 e festivais) uma das melhores virtudes cinematográficas do ano passado – o cinema mais consensual. E bem nós sabemos que se há coisa que os americanos gostam é de consensualidade, sobretudo quando debruçados perante o dilema da atribuição da vitória a 1 de 8 filmes, nos quais 3 lidam com distintos cenários históricos de racismo nos Estados Unidos. “Green Book” foi apelidado de uma mera narrativa do “salvador branco”, um filme para o homem branco não se sentir culpado por séculos de escravidão e negligência, argumentando-se tal perspetiva recorrendo ao nulo conhecimento que a família viva de Don Shirley tinha acerca do projeto distribuído pela Universal Pictures, acusando o guião de mentiroso e oportunista. Tais situações e comentários devem ser levados em conta, mas, para quem vos escreve, somente depois de visto o referido filme. Jornalistas ou não, críticos ou não, cronistas ou não, todos aqueles que assistirem ao recente vencedor do Óscar de Melhor Filme deverão desligar as células neuronais mais nervosas e percecionar o filme… como um filme. Fica claro que a definição de preconceito vai bem mais além das ideias racistas permanentes na sociedade americana.

Sugerido: Óscares - a perda de credibilidade

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E que gentinha triste esta. Esta que preconiza aquilo que desconhece, classificando “Green Book” como cómodo em demasia, uma prenda para suavizar o homem branco que, em pleno 2018, se sente arrependido por simbolizar anos e anos de injustiça racial global. Pois bem, não foi ainda nesta sala de cinema que me senti acomodado. Pelo contrário, se há pessoa que deve ficar constrangida é, sim, o homem branco, mas pelas razões certas. Muitos protestaram contra a inclusão de Viggo Mortensen na categoria de Melhor Ator e de Mahershala Ali na de Melhor Ator Secundário (no último caso, curiosamente, que acabou por levar a sua avante), imperando que os atores americanos dessem as mãos na mesma categoria, não fosse esta uma ofensa para os personagens ou para a respetiva pele. Ao que parece, todos aqueles que ardem cegamente tochas em plena praça digital são imunes à real narrativa de “Green Book” – a do homem branco grosseiro, indecoroso, desairoso, violento, mal-educado, irresponsável, ignorante, preconceituoso e (surpresa!) racista numa viagem de carro lentamente a ser o objeto de processamento do elegante e benévolo virtuosismo do garboso, retraído, cauteloso, prudente, carismático, reprimido e solitário pianista preto gay. E, como aconteceria invariavelmente, 30 anos depois de “Driving Miss Daisy” – entenda-se como mais uma estratégia de populismo e do habitual falso enquadramento racial – as atenções foram para “Green Book”, onde o leme foi tomado pelo branco ao serviço do preto, guiando-se pelas planícies sulistas americanas nada amigáveis para os descendentes de africanos.

Errado é a prática de elevar a constituição de uma obra com base singularmente na sua abordagem temática, com base naquilo que decide comentar. Sim, não é por falar sobre determinado assunto fraturante, intemporal ou polémico que um filme (e entenda-se uma série, música ou até um quadro) deverá ser automática e irrefletidamente considerado sensacional. No entanto, prejudicado somente por relevantes defeitos, “Green Book” conquista o seu alvo, aduzindo-se com intermináveis, recorrentes e leves momentos de comédia e necessariamente calorosas notas terminais de esperança (salvo uma única e mal-executada exceção), face aos ainda existentes agoniantes retratos de comportamentos passivos e/ou disfarçados de racismo.

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Auxiliada por uma subtileza visual e técnica (verifique-se na escolha atenta das cores primárias pelo Sean Porter e no trabalho de câmara minimalista possivelmente aquém do potencial ou ambições do realizador de 62 anos), “Green Book” é uma oferta, como seria de esperar, de um perfeito duo de interpretações composto pelo bronco e esfaimado Viggo Mortensen, visivelmente gordo e dedicadíssimo aos traços de personalidade tipicamente italianos, e pelo reservado e entristecido Mahershala Ali, reminiscente de um magistral íman de simpatia e bondade. Na sombra dos dois colossais camaleões estão Dimiter D. Marinov e Mike Hatton, subutilizados na interação entre as duas caras antagónicas principais. Uma oportunidade perdida do texto. Já a Linda Cardellini, no canto doméstico ocupado pela mulher ao serviço da família nos reconhecidos anos 60, estabelece forte e distantemente a sua presença, agarrando-se às cenas divididas com Viggo Mortensen e às cartas trocadas pelos dois.

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Não fosse uma cena particularmente manchada pela excessivamente dramática e óbvia ascensão musical, pertencente ao regularmente simpático e melodioso trabalho do Kris Bowers, o tom de “Green Book” seria exemplar para a futura execução de histórias prazerosas ao espectador, dos chamados feel good movies, precisamente uma praga para os públicos atuais, que simultaneamente lamentam a inextensiva lista de cineastas suficientemente corajosos para abordar a controversa conversa do racismo nos Estados Unidos e repreendem as tentativas ligeiras de acomodar o público diligentemente cansado de filmes de escravidão. Não queira isto dizer que se deverá parar de oferecer filmes horrendamente poderosos como “12 Years a Slave”. É bom que os males do ser humano não parem de fielmente aparecer nas grandes telas. Precisamos de saber e de nos memorizar eternamente o quão feio é a nossa espécie. Mas não censurem as práticas de storytelling menos ousadas, audazes, gráficas ou compromissadas. Novamente, todas se podem resumir em propagandas favoravelmente apontadas às massas e aos privilégios. Mas, na condição de cinéfilo sentado atrás de um teclado, que autoridade tenho eu de afirmar algo como factual? Nem escrever nem realizar são mais do que isto – a inspirada e consciente defesa de uma proposição.

 

Nota: B+

 

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