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Vida de um Cinéfilo

Vida de um Cinéfilo

Acendalha Datilográfica #7 - The Great Dictator

Ainda me lembro da primeira vez que assisti a “The Great Dictator”. Pena foi conhecer posteriormente a infeliz carreira do seu autor. Após as primeiras exibições do filme de 1940, Charlie Chaplin, cara essa arremessada pelos piores insultos nas salas de cinema, foi expulso dos Estados Unidos, país que o acolheu com tamanha admiração nas primeiras décadas do século XX e que, com agravantes paranoias e perante a desnecessariamente alarmista luta contra o comunismo, o expulsou, alegando que a ideologia do ator, guionista e realizador britânico se estendia para as tendências políticas consideradas mais perigosas. Quase 100 anos passados e o país continua nesta sensacionalista onda de medo e populismo. Sem problemas, afinal, o Homem morre, mas a Obra resiste ao tempo. Haverá discurso mais poderoso que este? Aliás, que palavras poderei eu usar para descrever um monólogo que tão lindamente utiliza a mais acessível linguagem na transmissão da mais universal das mensagens, num ensinamento humano que ecoará nos corredores da intemporalidade.

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Barbeiro Judeu

I'm sorry, but I don't want to be an emperor. That's not my business. I don't want to rule or conquer anyone. I should like to help everyone if possible - jew, gentile, black man, white. We all want to help one another. Human beings are like that. We want to live by each other's happiness, not by each other's misery. We don't want to hate and despise one another. In this world there's room for everyone and the good earth is rich and can provide for everyone. The way of life can be free and beautiful, but we have lost the way. Greed has poisoned men's souls, has barricaded the world with hate, has goose-stepped us into misery and bloodshed. We have developed speed, but we have shut ourselves in. Machinery that gives abundance has left us in want. Our knowledge has made us cynical, our cleverness hard and unkind. We think too much and feel too little. More than machinery, we need humanity. More than cleverness, we need kindness and gentleness. Without these qualities, life will be violent and all will be lost. The aeroplane and the radio have brought us closer together. The very nature of these inventions cries out for the goodness in man, cries for universal brotherhood, for the unity of us all. Even now my voice is reaching millions throughout the world – millions of despairing men, women, and little children – victims of a system that makes men torture and imprison innocent people. To those who can hear me, I say: “Do not despair.”. The misery that is now upon us is but the passing of greed, the bitterness of men who fear the way of human progress. The hate of men will pass and dictators die and the power they took from the people will return to the people. And so long as men die, liberty will never perish. Soldiers, don't give yourselves to brutes, men who despise you and enslave you, who regiment your lives, tell you what to do, what to think and what to feel, who drill you, diet you, treat you like cattle, use you as cannon fodder. Don't give yourselves to these unnatural men - machine men with machine minds and machine hearts! You are not machines! You are not cattle! You are men! You have the love of humanity in your hearts. You don't hate, only the unloved hate, the unloved and the unnatural! Soldiers, don't fight for slavery! Fight for liberty! In the seventeenth chapter of St. Luke, it is written the kingdom of God is within man, not one man nor a group of men, but in all men! In you! You, the people, have the power, the power to create machines, the power to create happiness! You, the people, have the power to make this life free and beautiful, to make this life a wonderful adventure. Then, in the name of democracy, let us use that power, let us all unite. Let us fight for a new world, a decent world that will give men a chance to work, that will give youth a future and old age a security. By the promise of these things, brutes have risen to power. But they lie! They do not fulfil that promise. They never will! Dictators free themselves, but they enslave the people. Now let us fight to fulfil that promise! Let us fight to free the world, to do away with national barriers, to do away with greed, with hate and intolerance. Let us fight for a world of reason, a world where science and progress will lead to all men's happiness. Soldiers, in the name of democracy, let us all unite!

Hannah, can you hear me? Wherever you are, look up Hannah. The clouds are lifting! The sun is breaking through! We are coming out of the darkness into the light. We are coming into a new world - a kindlier world, where men will rise above their hate, their greed and brutality. Look up, Hannah! The soul of man has been given wings and at last he is beginning to fly. He is flying into the rainbow - into the light of hope, into the future, the glorious future that belongs to you, to me and to all of us. Look up, Hannah... look up!

Mr. Jaeckel

Hannah, did you hear that?

Hannah

Listen…

 

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Complete Savages S1 – com pouquíssimo para ensinar e tanto para aprender

No meio da aurirrosada proclamação de bacoradas machistas, sentados numa mesa circular intencionalmente destinada a esplanadas para familiares piqueniques americanos, os Savage digerem alarvemente os baldes de amanteigadas e gordurosas asas e coxas de frango frito. No meio de descorteses e hilariantes grunhidos, os filhos, despreocupadamente a partilhar com o animal de estimação os assentos do diurno jantar, lançam a bomba “Então, encontraste uma empregada?”, esperando respostas que um pai bombeiro solteiro, desenrascado, antiquadamente moldado e responsável (dentro do possível) por 5 distintos e indomáveis jovens estudantes daria sem problemas, como “Claro que sim” ou “Obviamente que sim”. Não fosse este um dos ambientes mais repletos da velha e caseira mixórdia da desordem masculina e da preconceituosa e procrastinadora testosterona, talvez, enquanto uma família de um ligeiro subúrbio de Massachusetts, a hipótese de renovar o papel pouco ou nada disputado de dona de casa daquele inferno doméstico fosse uma ação com inúmeros meios de cumprir. Bastava pagar à próxima “velha espanhola” ou optar pela sugestão de uma “boazona francesa”. É então que, expondo os seus rapazes à decisão de rescindir a sua pequena necessidade de ter uma mulher a lhe diariamente cuidar da casa, Nick Savage comete um autêntico atentado – atribuir responsabilidades aos filhos, inexperientes no que diz respeito a atividades desde dobrar roupa interior a fazer uma sanduiche. Com tanto ou mais volume que o cão, as 5 feras decidem expressar o seu espantado descontentamento, na forma de fortes “Não!” e rápidas frases de efeito, com esperança que o galardoado bombeiro de província altere a sua posição e ceda à vontade dos filhos de lhes entregar, de novo, a limpa e endireitada ordem de bandeja. Como se uma empregada amenizasse a tamanha estupidez que naquela casa se vive e, pelo que parece, contagia os (já poucos) convidados. Naquele subúrbio, nada nem ninguém fica isento das selvagens aventuras da Família Savage – descuidados e bem-dispostos gorilas. Com pouquíssimo para ensinar e tanto para aprender.

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O quase erradicado formato sitcom vive com fortíssimas ameaças. Graças à última ascensão de popularidade e influência exercida e plantada pelas últimas gerações de séries de humor e de stand-up comedians, o gosto do público, no geral, tem sido observado a se modificar de modo praticamente idêntico. Embora as referências dos atuais criadores da Netflix, ABC ou Fox se estendam da mesma forma a emblemáticos programas como “The Simpsons”, “Seinfeld”, “Friends” ou “How I Met Your Mother”, os parâmetros exigidos pelos espectadores estendem-se e evoluem, tal como tudo. Daí que raramente assistimos, numa caseira sessão de zapping, a uma sitcom na televisão, tanto na televisão norte-americana como até na portuguesa, cujos quatro cantos arredondados abandonaram a produção de bem lembrados programas como “Batanetes” e deu as mãos a favor da idealização de uma comédia mais bem sustentada, mas não isenta da típica idiotice lusitana, na forma de “Idiotas, ponto.”, e de conteúdos digitais originais como “Sou Menino Para Ir”. Como resultado, diretamente dos estúdios dos Estados Unidos, é natural que surjam histórias como “BoJack Horseman”, “Grace and Frankie”, “F is for Family”, “American Vandal”, “The Kominsky Method”, “After Life”, “Black-ish” e “The Orville”.

Sugerido: Idiotas, ponto. T1 - risonho rumo ao ridículo

Contudo, procurando por diversas formas do riso, perdemos, por vezes, algumas humildes joias na televisão. A verdade é que, abraçando os ideais antigos da poeirenta caixinha mágica, é tão ou mais possível produzir conteúdo televisivo cómico com tanta ou maior qualidade em comparação com a indústria da atualidade. Quando as mentes se viram exclusivamente para o texto, para o desenvolvimento dos personagens e para os respetivos conflitos e arcos, os valores de produção ocasionalmente constrangidos por causa do estrito orçamento investido em tal esquecido e mal publicitado material podem ainda passar ao lado, elevando aquilo que estamos a assistir a algo memorável. Por outras palavras, uma boa série de humor exige a consistência de humor de qualidade.

“Women don’t like to cook and clean for men the way they used to. Somewhere along the way, they lost the joy…”

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“You guys pulling any more stupid stunt? I’ll ground you. And I don’t mean punish, I will put you in the ground!”

Para o menino que vos escreve, a comédia deve andar de mãos dadas com os individuais demónios de quem a escreve. Ilustres da representação como Charlie Chaplin e Jim Carrey ensinam-nos, tanto dentro como fora do trabalho, que a relação entre comédia e tragédia é das mais significativas. A comédia deve ser um meio de ridicularização e, como tal, exorcização dos maiores desconfortos pessoais de quem quer, por exemplo, subir a um palco e expor o seu lado que mais despreza, logo cumprindo a missão de assassinar as suas inseguranças e tornar-se num ser vivo apaziguado, embora não suprimindo o seu recorrente pessimismo ou particular prazer em desconstruir as presunçosas e poderosas entidades autoritárias ou em tirar gozo das desgraças alheias. “Always Look on the Bright Side of Life”, disseram os Monthy Pyhton.

Por hoje, que se suspenda ideologias concordáveis ou discordáveis. Falemos de um exemplo da idade de ouro das sitcoms, dedicado a fáceis risos provenientes das caricatas representações da realidade juvenil norte-americana, mas não menos atenta à honra de espetar espessas facas na coluna da tendência do discurso politicamente correto. Cada vez mais atual, curiosamente. Exibida hoje e com os devidos olhos atentos, “Complete Savages” seria considerada a obra televisa mais problemática e ofensiva nos dias de hoje. Através dos maiores caprichos masculinos pintados em cima de inúmeras opiniões idiotas acerca da escola, sociedade, trabalho, responsabilidade e, como seria de esperar, do sexo feminino. De tal maneira que o elemento mais correto daquela família é o irmão estudioso e inteligente que, numa espera de poucos episódios, substitui a sua inocente paixão pela vizinha da frente pelos recorrentes passeios de mãos dadas à rapariga das suas fantasias. Pelas palavras da série, enquanto o betinho arranja namorada, os fixes, delinquentes e desportivos ficam a chuchar no dedo. Ao contrário do que parece, ainda se pode sempre extrair um comentário sobre as prejudiciais perceções de masculinidade. Poder pode, mas o interesse está mais virado para fazer rir do que em refletir.

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Sugerido: I AM COMPLETELY FED UP!

O elenco é impecável, todo ele alavancado pela perfeita interpretação do Keith Carradine. Pura e simplesmente perfeita. Aliás, nota-se naquele vídeo que partilhei há semanas. O Vincent Ventresca tem uma participação mulherenga, amigável e divertida. A Autumn Reeser tem um carisma imediato. O Mel Gibson (também ele produtor e realizador) tem aqui um dos melhores personagens da carreira – o disciplinado e cauteloso Agente Steve Cox. O Erik Von Detten e o Evan Ellingson roubam gradualmente as cenas e tornam-se nos personagens mais hilariantes do meio familiar, tais tamanhas ignorâncias. O Shaun Sipos, o Andrew Eiden e o Jason Dolley estão impecáveis nos respetivos papéis, com certeza autores de alguns dos momentos mais engraçados em determinados conflitos. Todos os membros da casa estabelecem uma química extremamente credível e jamais questionável. As relações são genuínas, tal como as normas de moral que qualquer pai, por mais brincalhão ou mal-humorado que seja, terá de ensinar aos filhos. Poderá se dizer que afinal há muito para ensinar e muito afeto entre os personagens.

Na condição de um cético espetador de comédias televisivas, dá para notar o meu entusiasmo ao falar de uma série desconhecida e que, na minha ótica, merece ser desenterrada do esquecimento e lembrada pelos autênticos aglomerados de humor físico, popular, nonsense e brejeiro que esta adoravelmente bronca família proporciona. Com a exceção de duas personagens femininas em particular que mereciam mais tempo e a resolução final bem tosca de um específico episódio, “Complete Savages” é uma criação merecedora de elogios. O casal Mike Scully e Julie Thacker terão retido certamente inspirações da sua vida pessoal, enquanto um verde matrimónio, que sustentaram as diferentes visões representadas relativamente a família, paternidade, casamento, relações e um total e hilariante abrigo de uma mixórdia indomável de filhos deixados pela mãe ao auxílio do pai, quando estamos fartos de ver no audiovisual uma família deixada ao abandono pela figura paternal. E torna-se claro que os homens, dada a inerente infantilidade e disposição oscilante, terão as qualificações não tão correspondentes a tomar conta de filhos como se querem convencer. Mas lá está, toda esta temática permanece escondia nas entrelinhas da comédia. E que bem que assim se está.

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“Complete Savages” foi exibido nos Estados Unidos na ABC, desde Setembro de 2004 a Junho de 2005, tendo a possibilidade do nascimento de uma segunda temporada sido eventualmente deitada para a fogueira devido à lamentável falta de audiências. Em Portugal, foi, em anos seguintes, transmitida repetitivamente no Panda Biggs, dobrado no nosso idioma. Ainda me lembro das noites sem sono em que preenchia o meu aborrecimento numa sexta ou sábado ao assistir ao programa. Quem diria que dias, meses, anos mais tarde, a encontraria no formato original disponível na Internet. A grande pena não é ter terminado, mas sim ninguém se recordar e se dar ao trabalho de a incluir no raio de um serviço de streaming. “Complete Savages” é uma peça rara das sitcoms. E só se supera a cada visionamento.

 

Nota: B+

 

Podem ver a série completa no Dailymotion.

 

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Last Flag Flying – por uma sincera gargalhada

Assombrados funebremente por tanta miséria expressa na forma de derribadas gravatas negras, mãos levemente acariciadas e partilhadas, infinitas e pesadas lágrimas, ensopados lenços de papel e lutuosas lamúrias, os casais choram ao observar a chegada dos caixões dos filhos a um desalentado e cinzento aeroporto militar em Dezembro de 2003, após uma violência sem requisição os ter caçado e impedido de rever o acolhedor e caloroso lar, na esperança de encontrar novamente a família sentada à mesa bem iluminada e constituída das melhores refeições em época tão tradicional como a natalícia. Voltam do Iraque sem nada mais a oferecer senão um grande ecoponto individual de prata brilhante e polida, coberto por uma insípida bandeira, metaforicamente ensanguentada com as mentiras que formulam o Governo cumpridor do seu regular (e autoassumido) dever, aquele que destrói espíritos parentais, mas jamais descredibiliza o indispensável patriotismo aos seus estatutos de exemplares cidadãos.

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Confrontados com as maiores ameaças comprometedoras daquela desumana falta de ética institucional, as organizações optam por pintar uma venenosa realidade que apenas suspende por mais uns quantos anos a aportada da amargura de quem assistiu ao estado mais primitivamente selvagem do ser humano, com inseparáveis reservas psicológicas que lhe indicavam que toda a insana adrenalina que lhe corria pelas veias era, na verdade, uma guerrilha moral, um confronto com um inimigo capacitado para colocar em perigo toda a superior civilização que o abrigava a si e aos seus. Com décadas à mistura numa definhada equação existencial, a personalidade molda-se e chega-se à conclusão que nenhuma percentagem do sangue, do vómito, das nódoas negras, dos terrores que se reteve daqueles dias se traduzia na pretendida harmonia geopolítica. De maneira nenhuma aquela indescritível hostilidade ia além da ganância corporativa disfarçada de propaganda moralista que lidava com os seus crentes numa condição de meros bonecos substituíveis num tabuleiro de xadrez. Os injustiçados, em manifestações da sua insatisfação, alcançam uma leve substância de vingança, na forma da rápida humilhação das personalidades do explorador e brutal meio militar. E, com lodo e sangue nas mãos, viram-se de costas, caminhando para um lugar seguro, não encarando, no entanto, em pósteros caixões que se avizinham.

O repositor de stocks na Navy Exchange Larry ‘Doc’ Shepherd, o barman alcoólico Salvatore Nealon e o Reverendo Richard Mueller são os protagonistas de “Last Flag Flying”, comédia-dramática de Richard Linklater. Na história baseada no homónimo romance de Darryl Ponicsan (o segundo guionista), publicado em 2004, o realizador da trilogia “Before” e de “Boyhood” filma o reencontro de três amigos cujos caminhos se cruzaram primeiramente em serviço militar no Vietname e se entrelaçam 3 décadas depois, na sequência do falecimento do jovem filho de Doc, enquanto soldado na Guerra do Iraque. Juvenis e irresponsáveis mundanidades como bebedeiras, charros, loucas festas de jogo e casas de alterne compunham os negros dias dos jovens que, horas antes ou horas depois, apenas se recordavam da morte de companheiros desamparados, tal como estes, numa guerra que não lhes pertencia, abrigados por um iludente presidente com escritas e ensaiadas falinhas mansas para apaziguar os familiares que recebessem a trágica notícia acompanhada pela mais indistinguível e insensível encomenda – um pedaço de tecido embrulhado. Para se libertarem da angústia na qual viviam, os três soldados viviam os seus dias como se fossem os últimos, no desconhecimento relativamente à duração do seu próximo suspiro. Estavam mortos, embora vivos.

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Os anos decorrem sem aviso, os passos dos inseparáveis companheiros são divididos e, de modo inelutável e efémero, as personalidades modificam-se, sem que a culpa possa ter atribuída necessariamente a alguém. Simplesmente, é assim a vida. As mentalidades estagnam no tempo ou alteram-se, tanto para melhor ou pior, entenda-se, no filme americano de 2017, desde abraçar as manuscritas ordens alegadamente divinas para escarnar o benefício alheio e popular ou se submeter vitaliciamente a uma sarcástica e pessimista amargura. São estas as pessoas que conhecemos: um deprimido e acanhado pai que acaba de rever caras antigas após perder o filho, reprimindo já a dor da recente partida da esposa derrotada pelo cancro da mama, suavizando a tragédia, dentro do possível, refletindo sobre o preço e o fruto da guerra, olhando de relance para os defuntos Saddam Hussein e respetivos filhos; um padre memorado pelos mais promíscuos e carnais comportamentos juvenis (mais que a alcunha) com um repousado tom de voz e um carismático altruísmo; e um jovem naturalmente infantil que virou a página para uma provocadora e divertida, ainda que torturada e inconveniente inexistência de crenças espirituais além da sua carne, tão fortemente decidido das bacoradas que dispara sem reflexão prévia e do cinismo que levará para a cova, não menosprezando, no entanto, a necessidade e o gosto em ajudar o próximo e em obstaculizar patranhas.

“-Thirsty? That went down awfully quick…

-I’m drinking for two now that you got all old and boring.”

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“Oh fuck me, I miss those days when you had a boner you could hang a towel on. Jesus, I used to have a Johnson that would stand up and watch me shave. Now, he just watches me pull up my socks…”

Os personagens, tão bem desenvolvidos e inseridos no conflito, estabelecem de imediato reguladas interações de amizade. A verdade é que um caos sociopolítico e 30 anos adicionais impediram que tais relações perdurassem no tempo. Daí que presenciar um reencontro não bastou para os três estarolas falhados fornecerem aos outros calorosas faíscas de amizade. Todos se distanciam involuntariamente ao início, dado o choque de novas realidades e carateres. Mas não teríamos filmes se tal isolamento individual permanecesse. Se, no princípio, Doc, preso ao reservado e escondido furacão de emoções que lhe pairavam pela mente e pelos olhos tumultuosos, se abstraísse de todas as discussões passivas ou agressivas entre a benevolência religiosa de Mueller e o ateísmo azedo de Sal, mais tarde, juntando à equação humana o abalado e simpático soldado Washington, colega do falecido filho de Doc, nenhum  dos membros que partilhavam divergências abraçariam as mesmas em plena e tão esporádica manifestação de gargalhadas. Das mais insignificantes às mais introspetivas. Pela primeira vez, numa genuína e hilariante sessão masculina de storytelling das velhas aventuras partilhadas dentro da hostil névoa vietnamita e debaixo das balas do inimigo, observamos Doc a rir. A rir com vontade e ânimo. A chorar a rir, praticamente a perder o ar. Ao seu lado, sentado na carruagem de mercadorias, permanece o embrulhado caixão do filho, na demorada viagem de regresso, em direção ao cemitério. Mas nada disso importa naquele momento. O que mais importa é partilhar eufóricos e saudáveis risos com os (literais) parceiros de guerra, curando a tristeza, assassinando-a possivelmente de vez, suspendendo a eterna relevância das questões mais fúnebres relativas ao ser humano, assim como a revolta gerada pelo anético serviço político-militar norte-americano, escarnecido e revelado de variadas maneiras no cinema.

O tom do filme injustamente inapreciado e desvalorizado eleva o espírito a qualquer indivíduo que dê a autêntica importância às amizades que nos correm pela memória durante anos, décadas, uma vida. O trabalho de câmara do cineasta americano, com “Where’d You Go, Bernadette” – trabalho protagonizado por Cate Blanchett – a chegar este verão, é funcional, priorizando o texto e as magníficas interpretações do trio Steve Carell, Bryan Cranston e Laurence Fishburne, ocorrendo, na necessidade de um delicado deleite à sua própria visão e à do espectador, a abertos planos sequência, captando toda a sala e o triângulo protagonista, à edição paciente e vagarosa da Sandra Adair, autorizando a história a tomar intervalos e consideráveis desvios (dois molestos plot holes), e à irretocável fotografia do Shane F. Kelly, gélida e calorosa nos acertados instantes respetivos. Conjugando o conforto cinematográfico com uma agradável banda sonora composta, na sua maioria, por jazz, da autoria do Graham Reynolds, o peso temático sentimentalista e relevante de “Last Flag Flying” é elevado o suficiente para sustentar fortes estudos do trabalho de Richard Linklater que, aliás, não ficou refém das massivas expectativas que se criaram histericamente à volta de “Boyhood”, o "querido" de Hollywood de 2014. O irónico é que, engrandecido o seu suposto máximo potencial 3 anos depois, ninguém dispensou parte da sua atenção (ou dinheiro) a uma das melhores ofertas do ano.

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Por muito que pareça, não é tanto o patriotismo que une e reúne os três parceiros, mas sim a responsabilidade de representar quem nos ama e quem amam. Ou seja, pode parecer incoerente a deambulação entre tecidas críticas ao sistema e as sublinhadas saudades da juventude. Fosse na escola secundária, na universidade ou numa guerra módica, aqueles que se encontram no começo da vida desejam viver ao máximo, relembrados os nutridos companheirismos e os exíguos lugares no Universo. Findando pela idade e demarcados por evoluções geracionais, mas jamais solitários. Ao longo da sua filmografia, o subvalorizado autor valoriza o riso e a sua função elementar na condição do Homem, instituindo “Last Flag Flying” à culminância desta maravilhosa mensagem – a substituição de um antidepressivo por uma sincera gargalhada.

 

Nota: A-

 

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Menina – inquietado reconforto

O inconfundível chamamento maternal do outro lado da estrada não ilumina os olhos da pequena Luísa Palmeira da maneira como esta gostaria, da maneira como esta observa as mães das colegas, cidadãs francesas na sua íntegra, acolhidas pelos braços bem-dispostos e carinhosos de uma mulher abrigada com elegantes e sedosas peças de vestuário, a recolher as suas descendentes depois de um cansativo dia de trabalho, fornecido por uma sociedade europeia “mais à frente”, sempre enérgicas para socorrer (até à excessiva proteção, se for preciso) a luz dos seus olhos perante o mínimo desconforto físico ou psicológico. A atenção distraída de Luísa, interpretada pela estreante Naomi Biton, é obrigada a responder à impaciente e estafada ordem de Leonor Palmeira, sua mãe, interpretada por uma recatada e atribulada Beatriz Batarda, entre densos sacos de compras e de utensílios necessários para o aflito ofício de empregada doméstica. A ausência de toque, de um mero beijo na cara ou na testa, acompanhada por um seco “Luísa! Anda filha!” não transmite o amor que a protagonista, na sua inocência de criança de 8 anos, esperaria receber ao fim de uma vida conjugando as suas infantis vivências nas ruas francesas com os rígidos ensinamentos familiares portugueses. Dividida entre duas divergentes culturas, puxada pela naturalmente hábil inserção social, separada pelo insuprimível sangue lusitano, Luísa é a Menina, facilmente uma personagem original no seu direito, transportando, com razão e humildade, traços autobiográficos da realizadora lusodescendente nascida em França, Cristina Pinheiro, na sua primeira oferta cinematográfica.

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Sugerido: Sara T1 - a monumental e definitiva sátira televisiva portuguesa

Abrindo com uma orgulhosa celebração “tuga” do 25 de Abril, com os emigrantes a festejar em amena noite de 1974, a recente conquista da liberdade, deixando para trás décadas de ditadura, entre garfadas, copos e cantigas patrióticas, eventualmente terminando com o fogo de artifício gritante das comemorações da Revolução Francesa, no dia 14 de Julho, “Menina” é 90% verdadeiro, oriundo das releituras das escondidas e acanhadas memórias da própria cineasta, em parceria com os guionistas Ghislain Cravatte e Laura Piani, encarregues da tarefa de contar a história de todos os portugueses para todos os portugueses. Os diálogos, cuidadosamente intercalados nos dois idiomas, estabelecem uma genuinidade única e insubstituível no cinema português, ainda que estejamos perante uma produção francesa. Mas, no que toca à oferta geral do mercado francês cuja disponibilidade se centra em contar histórias de emigrantes portugueses (tão bem ou mal compostos na sua sociedade), “Menina” será comparado com “A Gaiola Dourada”. Enquanto que a comédia de Ruben Alves, delicada e certeira, valoriza com um considerável peso as engraçadas e, para o desgosto de uns, apropriadas caricaturas do emigrante português, o filme de 2017 opta por contar uma história da maior simplicidade (no melhor sentido da palavra). O que se retém daqui é verdade, com as devidas oscilações de tom, como a vida real assim faz questão de produzir.

Com Nuno Lopes, de regresso com um exemplar trabalho, a empenhar a encarnação de uma figura paternal perdida nas irresponsabilidades de um homem desatento à educação dos filhos, abrigado no alcoolismo desenfreado, preso retrógrado na perceção de masculinidade e cujo sentido de autoridade incha após atos de violência doméstica intervalados com aleatórias demonstrações de amor para com a mãe frouxa, cujo dia termina com rebaixadas cantorias fadistas em cima do tricot. “Menina” apresenta a premissa de uma família lenta e levemente em rotura a partir do momento em que o secreto adoecimento do pai leva a sua avante face ao humilde trabalhador que lacrimeja as saudades de casa para fora de uns expressivos olhos robustos e que se refugia na silenciosa e aborrecida companhia da filha. Embora no escutar de uma banda sonora nostálgica, na lente da fotografia amena do Tristan Tortuyaux e na blandiciosa e perseverante edição da Isabelle Manquillet, o filme ainda se perde em algumas sequências oníricas e em diálogos repetitivos. Já disse e novamente é necessário afirmar – a língua portuguesa tem as suas intrínsecas particularidades que beneficiarão o seu cinema, sublinhando, melhor que as restantes línguas universais, os tormentos dos personagens. Porém, falando em personagens, aparte do insubstituível duo composto pela irretocável avalanche feminina da série “Sara” e do estrondoso talento do filme “São Jorge” – duas das melhoras ofertas de sempre do audiovisual do cantinho da Europa –, o filme sofre ainda lacunas consideráveis, nomeadamente o escasso aproveitamento do, digamos, universo dos restantes emigrantes portugueses, apresentado na forma de caras que aparecem e desaparecem convenientemente. Para além do núcleo escolar da protagonista, também ele subdesenvolvido e desorganizado.

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Sugerido: Snu - uma vontade de ajudar a mudança

No entanto, face aos desacertos narrativos, o maior destaque, responsável pela consciente inferiorização de um carismático Thomas Brazete, é Naomi Biton, exatamente a mais importante peça do filme, a presença responsável pela enxurrada de sentimentos com que o público é arremessado, o olhar inocente e ingénuo contrastivo aos angustiados carizes dos pais impossibilitados de voltar para casa e de ver os entes queridos. Não merecedora de remendos (provenientes de uma eventualmente merecida longa carreira), no entanto, uma interpretação infantil como a que aqui nos é apresentada é digna de aplausos, apelando para o esquecimento do público sentado numa sala de cinema a ver uma “fingida” peça. “Menina”, relativamente abaixo de “A Gaiola Dourada” no que diz respeito ao aspeto global da obra, poderá não alcançar (já não alcançará) os merecidos números de audiência, pelos menos os minimamente atentos ao trabalho dos seus dois nomes de peso do elenco, dada a falta de hábito de quem consome dramas hollywoodianos abstento das possibilidades mais desavindas. Embora umas e outras falhas, merece ser visto e revisto, pois a maravilhosa complexidade de identidade e o inquietado reconforto do primeiro filme da Cristina Pinheiro forneceram-lhe umas valiosas cartas. Basta usá-las num degrau superior de audácia.

 

Nota: B

 

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Acendalha Datilográfica #6 – The Dark Knight

Christopher Nolan gosta de inquietar. Toda a filmografia do cineasta (atualmente na pré-produção de um novo projeto encabeçado por um simpático elenco) assenta no breve ou complexo retrato dos mais alienados ou danificados estados da Humanidade. Não isentos de momentos de consolidação, os 10 filmes do realizador destacam-se pela respetiva filosofia, autoral ou emprestada, de maneira a colocar permanente um dilema moral na cabeça do público, especialmente plantado a partir do arco (ou da falta de um) do antagonista em questão. Por estas e outras razões, a interpretação do mais icónico inimigo do Cavaleiro das Trevas é o exemplo perfeito do controlo temático do realizador inglês. Heath Ledger desapareceu algures no processo de criação do personagem, aliás, como poucas vezes aconteceu na História da Sétima Arte. E a cena do interrogatório não só é uma das mais impactantes to thriller de crime de 2008, mas também uma particular aula de trabalho de câmara, de escrita e edição. No final da primeira década do presente século, o Cinema surgiu crua e primitivamente.

Sugerido: The Dark Knight - a frágil e falsa moralidade humana

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Joker

Never start with the head. The victim gets all fuzzy. He can’t feel the next…

See?

Batman

You wanted me. Here I am.

Joker

I wanted to see what you’d do. And you didn’t dissapoint. You let 5 people die. Then you let Dent take your place. Even to a guy like me, that’s cold!

Batman

Where’s Dent?

Joker

Those mobs fools want you gone so they can get back to the way things were… but I know the truth – there’s no going back. You’ve changed things. Forever.

Batman

Then why do you want to kill me?

Joker

AHAHAH. I don’t want to kill you! What would I do without you? Going back to ripping off mob dealers. No, no, no. No, you… you complete me!

Batman

You’re garbage who kills for money.

Joker

Don’t talk like one of them. You’re not! Even if you’d like to be. To them, you’re just a freak. Like me. They need right now. When they don’t, they’ll cast you out. Like a leper. You see, their morals, their code, it’s a bad joke. Dropped at the first sign of the trouble. They’re only as good as the world allows them to be. I’ll show you. When the chips are down, these, uh, these civilized people, they’ll eat each other. See, I’m not a monster. I’m just ahead of the curve.

 

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