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Vida de um Cinéfilo

Vida de um Cinéfilo

A Netflix não é Cinema? Porquê?

Esta discussão não começou ontem em Hollywood. O problema é que se estabelecia ocasionalmente e se deixava estar pelas mesas das nossas casas. Como é evidente, não havia necessidade de escrever sobre isto há 10 anos. Permitam-me que idealize uma observação já concretizada vezes e vezes sem conta – o que acontece é que a quantidade de cinéfilos que têm preferido assistir àquilo que querem, quando querem e onde querem tem vindo a explodir, garantida a facilitada divulgação de todo o tipo conteúdo pela Internet (paga ou pirateada, vamos meter aqui a mão na consciência) e pelos mais extensos videoclubes, aliciada ao infeliz declínio de respeito do público para com o público em salas de cinema (aparentemente o Alzheimer afeta a população geral mais acentuadamente em salas de cinema, dando-lhes autorização para comer de boca aberta, atender telefonemas, se esticarem que nem lordes e conversar como se estivessem na Tasca do Afonso). E verdade seja dita, ter uma grande experiência de cinema em casa está cada vez mais acessível. Comprem uma boa televisão, liguem umas boas colunas e apaguem as luzes.

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A Netflix, cuja chegada a Portugal ocorreu em Novembro de 2015, publicitada inesquecivelmente pelo Nuno Markl – o nerd dos nerds – a comprar pizzas para ir a correr ver “House of Cards” e “Narcos”, viria a se solidificar como o auge do fenómeno “ver cinema em casa”. Seria um redutor? Não propriamente. Para começar, porque a oferta da plataforma de streaming sempre foi a televisão. Séries atrás de séries definiam o território que eventualmente seria explorado por diversas empresas relacionadas ou não com o ramo do entretenimento (Amazon, Hulu, YouTube, Facebook, Disney, Apple e até a RTP). O cuidado narrativo, a dedicação temática multicultural, o investimento em artistas independentes isentos de fórmulas obrigatórias, a asinha por debaixo de atores migrantes do glamour de Hollywood para o modesto brilho de séries inicialmente tomadas como passageiras foram dos fatores mais propícios e oportunos à enorme ocupação no mercado audiovisual por parte da empresa fundada por Reed Hastings e Marc Randolph. A companhia sediada na cidade de Los Gatos, Califórnia, demonstra coragem até hoje exibindo séries com variados alvos demográficos e uma linguagem explícita e ricamente cinematográfica; especiais de stand-up do mais clean e pg-13 entertainer até ao mais “conflituoso e ofensivo” palco de 1 hora de exorcismo humorístico; documentários acidamente inquietantes, nos diversos pontos de vista disponíveis (política, sociedade, ganância corporativa, liberdade de expressão, figuras históricas e artísticas, etc.) e, aonde quero chegar, produções autorais reconhecidamente ignoradas pelos estúdios da Madeira Sagrada (nas palavras de Lauro Dérmio).

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Numa época futuramente registada nos manuais da História de Cinema como a mais industrial, reciclável e passageira de conteúdo puramente comercial e disfarçado com a capa da superioridade de influência e poder entre o setor do entretenimento americano, a massiva onda de filmes de super-heróis veio, ainda assim, com certeza, trazer muitos benefícios. Nunca se andou tanto em Hollywood com o verdinho nos bolsos. Contudo, e falando como alguém que os consome a todos e admira os mais bem feitos e profundos, é importante atentar aos maiores podres que estes (fun action flick, no geral) vieram trazer. Sem querer calçar as pantufas do velho do Restelo, vejo-me constantemente a não conseguir compreender a razão que leva um suposto amante de cinema a assistir apenas a Star Wars e às bandejas da Marvel. Gostar de filmes não é sinónimo de gostar de cinema. Há um mundo inteiro para descobrir para além dos sabres de luz e dos fatos de couro justos da Scarlett Johansson. É preciso querer descobrir mais alguma coisa, algo que rompa a nossa zona de conforto, algo que nos provoque e que nos inquiete. Que chacoalhe a nossa insignificante posição de ser humano numa sala de cinema, já que vamos gastar 2 horas da nossa vida alapados a uma cadeira instável com os ténis a calcar peganhentas e tardias camadas de pipocas. Nas palavras de João Botelho, “o cinema deve inquietar”.

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Estas palavras não constituem um ataque ao cinema de super-heróis. Eu vou, eu vejo, eu reflito, eu escrevo, eu sigo para outro… eu divirto-me como toda a gente. O gradualmente veloz desprezo que se tem vindo a expressar com cinema de género (ou de outro qualquer não o suficiente mainstream para ser distribuído internacionalmente) é o fenómeno genuinamente mais preocupante. E tem sido precisamente a Netflix (ou um estúdio ligeiro como o A24) que tem apoiado projetos oriundos da lente de cineastas independentes… ou não, o que aflige a olhos vistos. Como é que algum produtor reúne a capacidade de afirmar que um filme do Martin Scorsese, do Steven Soderbergh, do Alex Garland ou do Alfonso Cuarón não tem alcance comercial? Para a surpresa de ninguém, com toda a angústia armazenada num cemitério por instantes reservado para os grandes mestres da arte mais completa inventada, a conclusão correta é esta mesmo. Não têm! Muitos foram os jagunços que expressaram indignadamente a sua sensibilidade aos comentários despreocupados de um senhor chamado Paul Schrader, que responsabilizou o público atual pelo declínio de seriedade das maiores e mais reconhecidas produções. Mas esquece lá isso, Paul, é a sociedade que temos. Hoje já nem podes dizer que o Kevin Spacey é bom ator.

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Eis que chegamos à falta de consideração que me levou a concretizar este cansativo e repetitivo raciocínio – Com que então o Steven Spielberg não quer os filmes da Netflix tenham as mesmas possibilidades de ganhar um Óscar que qualquer outro drama de guerra ou biográfico? Parece-me que, nos anos 90, ao lado de outros dramas de guerra ou biográficos, “Beasts of No Nation” e “Roma” seriam ótimas representações dos seus temas centrais e do atualmente diversificado investimento no cinema, lá está, aliciado ao talento contratado por diversos estúdios e distribuidoras. Ah, mas espera aí, as pessoas viram os filmes em casa… seria impossível. Nem todos temos a sorte de ter blockbusters numa mão e de oscar contenders na outra. Se for preciso, a população que critica a inexistência de uma estreia tradicional nas salas de cinema de um filme lançado na Netflix são as mesmas que esperam que aquele saia num videoclube ou (adivinhem) na Netflix. “Cinema não é visto em casa”… está bem, então levanta essas nádegas do sofá e começa a dar valor a algo que a tua cabecinha demore a processar, de preferência sem preconceitos. Ao dar o exemplo dos anos 50 – altura em que a sociedade brindada com uma caixinha mágica em casa já se começava a afastar do cinema para ficar no sofá e ver uma sitcom – o que o senhor Spielberg se esquece é que a produção de uma série e de um filme nos dias de hoje é praticamente idêntica. As histórias televisivas recebem Emmys, mas, reduzindo-as, teriam todo o potencial de ganhar um Óscar (valendo o que vale). Somando a isto, as pessoas deixaram de se deslocar e pagar para ver algo diferente. E a culpa não pode ser de somente um lado. Não se pode ter a conversa das garantias monetárias egoístas de um estúdio sem se levantar a questão da vontade desencorajada, automática e cerebralmente lavada do público, que constantemente é servido com a mesma refeição.

 

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