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Vida de um Cinéfilo

Vida de um Cinéfilo

A Simple Favor – fazer comédia é mais difícil que fazer drama

Citando um sábio chamado Luís Franco-Bastos: “A Internet é f*****.” Não há uma maior verdade que esta. “Gone Girl” é um dos filmes mais apreciados de 2014. David Fincher é um dos maiores realizadores da sua geração. Eu … nunca vi. Mas conheço-o perfeitamente. As comparações entre “A Simple Favor” e “Gone Girl” são claramente inevitáveis. Obrigado pelos spoilers, Internet.

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Mas falando do que interessa. Caros leitores, se são uma das três que leem o meu blog, já repararam que, em 2018, parei de cobrir as estreias. Simplesmente cansei-me de escrever apressadamente acerca de determinados produtos que ou não mereciam sequer crítica ou que mereciam uma reflexão mais demorada antes do seu conteúdo ser transcrito para um texto meramente opinativo. Por isso, serão cada vez mais raros textos de filmes recentes, tenha-os visto ou não. Pois bem, “A Simple Favor” merece definitivamente um.

Baseado no livro homónimo da americana Darcey Bell, “A Simple Favor” conta a história da amizade de Emily e Stephanie. Duas mães, duas personalidades, duas melhores amigas. Enquanto que Stephanie é uma mãe especialmente moderna – vlogger, cozinheira habilidosa e uma jovem mãe solteira aparentemente parola, púdica e ingénua -, Emily é uma mulher autoritária, sedutora, irreverente e extravagante. O mistério em volta do desaparecimento de Emily inicia em Stephanie uma jornada de investigação e reavaliação.

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O filme foi realizado pelo Paul Feig, responsável por enormes êxitos da comédia como “Bridesmaids”, de 2011, e “Spy”, de 2015. Desta vez, ele certamente se superou, iniciando aquele que pode ser considerado um estilo próprio. Digamos que, da mesma maneira que “Get Out”, do Jordan Peele, não se insere necessariamente em nenhum género em particular, sendo uma enorme mixórdia autoral de terror, ficção científica e humor negro, “A Simple Favor” emerge o potencial do seu realizador num território (até agora) explorado quase na perfeição apenas por ele.

Para além de incluir momentos mais dramáticos e graficamente violentos, “A Simple Favor” é um thriller cheio de reviravoltas que mantém o espectador a receber surpresas constantemente, devido à respetiva perceção anterior que tinha do mesmo, que morre pouco depois do início da segunda metade. “Deve ser apenas uma históriazeca com demasiado estilo e pouca substância – uma premissa demasiado genérica.”, pensava eu, juntamente com mais alguns membros da sala. Não foi o caso.

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Para já, falemos de style over substance em relação a outro filme qualquer, não com este. “A Simple Favor” é um dos filmes mais bem dosados de 2018. Primeiro, sim, o filme é altamente estilizado, desde o trabalho de câmara recente e visionário na própria filmografia do Paul Feig, assim como a edição maravilhosamente orquestrada a favor do visual e ações dos personagens, assim como da música. E que música! Devemos estar perante uma das melhores seleções musicais do ano, juntamente como “American Animals”. Desde à magistral coletânea de música francesa (demonstrativa provavelmente do amor do próprio realizador ou do compositor Theodore Shapiro pelo cinema francês) até It’s a Sunshine Day, da sitcom “The Brady Bunch”.

Sugerido: American Animals - um pouco de filosofia animalesca

A fotografia é um show à parte. O americano John Schwartzman enche o filme de cor e consequentes simbologias de modo simultaneamente calculado e excitantemente desordenado, construindo uma realidade visual que não se podia adaptar de melhor maneira à premissa inicial e prosseguistes twists e descobertas. Acumulado a todo o estilo distinto do filme, está um guião cheio de camadas, humor do mais engraçado e um dos comentários mais genuínos acerca da sociedade contemporânea e as expectativas impostas sobretudo às mulheres. Mérito este, claro, da Darcey Bell, mas igualmente da guionista Jessica Sharzer, conhecida por “American Horror Story”.

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Para os mais interessados em filmes pós-movimentos feministas modernos (#MeToo ou #Time’sUp), “A Simple Favor” não podia encaixar melhor. Pelos olhos de uma mãe que vive em função para preencher todas as expectativas impostas por uma sociedade à espera de ver uma mulher (de modo estereotipado) quase santificada e jamais dizendo palavrões, trocando ideias sobre sexo e casamentos consideradas nefastas ou (em última caso) manipulando os outros para dentro de esquemas criminosos descabidos e altamente perigosos, o filme convida o público a observar a transformação de uma mulher dos dias atuais naquilo que se pode considerar no modelo ideal do sexo feminino, ao invés do oposto – observar uma mulher moralmente fragmentada e duvidosa numa cidadã que satisfaça os olhos de terceiros, que “minta a todos”. Toda esta espetacular visão é propositadamente exaltada por uma violência (por vezes bem à vista, por vezes subentendida), diálogos lindamente longos e uma edição frenética dignos de um trabalho do Tarantino.

De resto, o elenco segura-se extremamente bem. A Anna Kendrick dá, no mínimo, a melhor interpretação da carreira. Apresentando-se como uma daquelas mães ridicularizadas constantemente pelos restantes pais e mães, enquanto se mantém quase obsessivamente atenta à imagem e ativa em qualquer meio (seja ele digital ou educacional, devido à extrema dedicação ao filho). Devido a todas as revelações, vaivéns tensos e passado trágico, Stephanie torna-se numa das protagonistas mais carismáticas do ano. Para além disso, é engraçada, inteligente, ousada e imperfeita, mantendo uma capacidade de se impor sem jamais levantar o tom da voz. É assim que se deve desenvolver um estudo de personagem.

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A Blake Lively é a força com maior identidade, extravagância e ambiguidade do filme. Independentemente de quem o público gostar mais entre estas duas, é inegável afirmar que a atriz tem um lado fundamental. Ou seja, apaixonamo-nos pela Emily (e pelo seu próprio e notável amor por martinis) umpara nos apaixonarmos pela Stephanie. Desde “The Shallows” que Blake Lively toma decisões na carreira que só a enriquecem mais como atriz. Venham mais papéis destes.

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O Henry Golding, mesmo inferior às duas protagonistas, traz mais carisma e faz tudo certinho aqui, deixando o público tecer as suas opiniões acerca do personagem, para depois se surpreender e desmistificar aquilo que de pouco sabia.

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Falando novamente do guião, os únicos elementos do guião que danificam o filme na sua segunda metade eram, de facto, evitáveis, perdendo-se a possibilidade de tornar “A Simple Favor” numa obra perfeita. São estes um diálogo excessivamente expositivo, cujo conteúdo podia ser simplesmente mostrado através de alguns flashbacks com uns voice overs moderados. Contudo, podia ser mais incómodo. Não se distancia do tom, pelo menos. De seguida, há uma personagem que podia ter uma participação bem mais importante. Tanto esta como a própria atriz tinham potencial. Ficou por onde ficou. Desperdício.

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“A Simple Favor” é um mistério engraçado, satírico, extravagante, sexy e diferente. Paul Feig e a dupla de atrizes elevam o seu jogo e dão-nos uma das peças de cinema mais originais de 2018.

 

Nota: A-

 

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