Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Vida de um Cinéfilo

Vida de um Cinéfilo

As evidências de um marketing excessivo

A Internet veio disponibilizar uma nova (e complexamente diversificada) forma de publicitar seja o que for. Qualquer distribuidora pode lançar os seus trailers, canais de YouTube vivem à custa da propaganda desses mesmos, sites mantém-se rentáveis graças às notícias provenientes das proporcionadas novidades e milhões de espectadores se podem deliciar (ou não) quando veem alguns segundos (de preferência não comprometedores) dos filmes, séries ou até músicas que mais esperam receber. O cinema já não é o único sítio onde podemos consultar as futuras estreias, já não precisamos de estar atentos aos intervalos do Super Bowl nem de acompanhar assiduamente as páginas dos nossos artistas e criadores de conteúdo preferidos. Mas muita coisa pode ser dita acerca destas novas e globalmente vastas plataformas de partilha de qualquer forma de marketing.

image-avengers-infinity-war-02.jpg

Afinal, não só é um dado promocional um enorme desenvolvedor do chamado hype, que condiciona as opções de escolha do público, “obrigando-o” a clicar imperativamente no dito trailer, segmento de imagens dos bastidores ou de um vídeo amador sorrateiramente filmado longe do set, de forma a, uma vez visto, conspirar sobre as possibilidades que a própria história do filme ou série em questão possa tomar, imaginando cenários e a correspondência de determinadas vontades (entenda-se ver um personagem ou desenlace especificamente). Muito mal se falava acerca do projeto do Todd Phillips, ou seja, na sua ideia de criar uma história de origem para o Joker com base em vários materiais-fonte. Muito se especulava acerca da conclusão do arco de determinados personagens do Universo Cinematográfico da Marvel no (entretanto sucesso massivo) “Avengers: Infinity War”. Muita qualidade se esperava em “Jurassic World”, “Batman v Superman: Dawn of Justice” e “Solo: A Star Wars Story” e, por outro lado, muito desleixo se aguardava em “Mad Max: Fury Road”, “Get Out” e até “A Quiet Place”. Mas porquê? Em diversos casos encontramos exatamente o sucesso e aprovação que jamais imaginámos. Os trailers e as próprias linhas narrativas seguidas nos minutos disponíveis nos YouTube desta vida demonstravam claramente um bom ou um mau filme, certo? Bem, parece que não. E adivinhar o desempenho de qualquer coisa só se torna num chato ciclo viciosos que usualmente não nos leva a lado nenhum. A não ser que consigamos espreitar as intenções de Hollywood.

BOHEMIAN-RHAPSODY-Gwilym-Lee-Brian-May-and-Rami-Ma

Por exemplo, como qualquer fã hardcore dos Queen, o menino que vos escreve esperava com unhas e dentes, como uma autêntica criança excitada nos corredores natalícios do Continente, a chegada da tão prometida biografia de uma das melhores bandas do Mundo, centrada na origem e ascensão de um dos melhores artistas que já pisou os palcos musicais. Contudo, como o cético que sou, comecei a observar desconfiadamente a quantidade de material publicitário que chegava todas as semanas precedentes à estreia de “Bohemian Rhapsody” (teaser oficial, primeiro trailer oficial, segundo trailer oficial, trailer final, pequenos excertos do próprio filme). Pensei: “Ok, isto vai ser uma merda.”. Verdade? Mais ou menos. A verdade é que, sim, o filme foi mal recebido. Lembro-me que a primeira pontuação no Rotten Tomatoes era a de uns infelizes e frustrantes 53%, média proveniente da classificação dos críticos. Pensei: “Ok, ao menos sempre vou ouvir boa música.”. Não estando totalmente errados aqueles que criticaram o filme devido a falhas cronológicas, nunca pensei que uma mera biografia podia exaltar tanta gente. Provavelmente (ou com muita certeza) uma gigante parte do público apreciou o filme por aquilo que lhe estava a dar crua e exteriormente – uma compilação de 2 horas da sua música preferida – sem qualquer noção de critério avaliativo cinematográfico (em termos de estrutura, desenvolvimento, arco, etc). No entanto, a qualidade de “Bohemian Rhapsody” sustenta-se mais do que parecia. Tudo bem, é um filme previsível. Mas o que podem esperar de uma história que já conheciam? Prefiro não me alongar muito mais. Sintam-se livres de ler a minha integral (e fundamentada) opinião.

Sugerido: Bohemian Rhapsody - perdurabilidade audiovisual

suicidesquad.1504789867.jpg

O que cada vez mais observo é, face à (muitas vezes prejudicial) cultura de hype, a crescente facilidade em saber de maneira exata como um filme será recebido. “Suicide Squad” é, sem dúvida, o melhor exemplo de um marketing contraproducente, nem tanto relativamente à revelação de eventuais surpresas na narrativa ou de apressadas refilmagens (isso fica para outro dia), mas sim ao aglomerado de dúvidas que se forma nas cabeças dos preocupadíssimos, fervorosos e transpirados produtores que se limitam a dar tudo o que podem (ou a ordenar tudo o que entendem que devem). Após os imprevisíveis test screenings, diversas são as jogadas que um estúdio e/ou distribuidora pode tomar aquando a breve divulgação dos assombrosos (e falaciosos) tomatometers ou a estreia do produto há muito planeado.

Quão grande deve ser a frustração de um produtor quando, investido todo o dinheiro o que podia “extorquir” de um contrato, lhe é declarado que o seu bem não se sairá positivamente no mercado? O que fazer? Culpar o realizador? Envolver os membros do respetivo elenco num escândalo salarial, moral ou sexual? Ir ali deitar o lixo fora e voltar? Nada disso. Não valeria o esforço ou as madrugadas, não é? Vamos descer uns quantos pisos e conversar com o Departamento de Marketing, sugerindo (raivosamente, mas sugerindo) que se faça o mais discreto (dentro de uma explosiva e desnecessária exposição) trabalho promocional do filme. Quanto mais material publicitário o público (idiota aparentemente) vir/ler, mais facilmente se garantirá o sucesso do nosso bebé! “Olhem, meus amigos, o “Venom” foi absolutamente espezinhado e lançado à lama, mas ao menos faturámos, ah? Ao menos, temos os bolsos cheios de maços gordos do verdinho! (e não é muitos, e não são poucos, não é? bastantes!). Vamos lá fazer uma sequela!”.

Venom-1537491919102_1280w.png

Sugerido: It Comes at Night (Ele Vem à Noite, 2017) - Crítica

São raros os casos de filmes que, à luz do nosso tão bem entendido senso crítico, não são tão maus como a crítica indica. Com base no reduzido conteúdo promocional, podemos normalmente esperar um filme mediano para cima (ou concluir sobre a existência de escassas possibilidades de um estúdio independente). Com base em 23 trailers, podemos aguardar um grande saco de trampa. Atentem numa coisa apenas: não partilhem as vossas opiniões tão agressivamente nas redes sociais nem desenvolvam um hype onde ele não existe. E não criem expectativas com base num nada. Não é por acaso que excelentes filmes como “It Comes at Night” tenham sido tão brutamente ignorados. Às vezes, os cineastas simplesmente escolhem não vos mostrar aquilo que querem. Por alguma razão, o Kevin Feige anunciou que os trailers do futuro “Avengers: Endgame” somente incluiriam os 15 minutos iniciais do filme (cujo primeiro cut acabou por ter 3 horas). Queremos boas surpresas. Pelo menos eu quero. Controlem o entusiamo. Façam-se inteligentes.

 

Facebook - Twitter - Letterboxd

 

Comentar:

CorretorEmoji

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.