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Vida de um Cinéfilo

Vida de um Cinéfilo

Bohemian Rhapsody – perdurabilidade audiovisual

Passando por um indesejado bloqueio mental e irritante falta de inspiração que não me permitem escrever críticas como deve ser, os Deuses do Cinema dão-me um filme que recuperou o meu bicho pela escrita que, por pouco, não se perdeu. Assistindo a “Bohemian Rhapsody” numa sala de cinema quase cheia, a única coisa que me desalegrou foi não poder expressar a minha euforia cantando com Freddie Mercury no Estádio de Wembley.

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“Olha o que o Cinema consegue fazer …”, pensei quando saí. E é verdade. Muito sinceramente não sei o que os críticos do Rotten Tomatoes ou do Metacritic esperavam. Sei que é importante nos mantermos reticentes quando é anunciada uma biografia de uma figura historicamente pesada. Sinto que seja os movimentos modernistas a falar mais alto. Já lá vamos, darlings.

O filme foi realizado pelo Bryan Singer, responsável por 4 filmes dos X-Men e pelo sensacional “The Usual Suspects”. Em Dezembro do ano passado, “Bohemian Rhapsody” estava a 2 semanas de filmagens de estar concluído e (segundo declarações do próprio) o americano teve de deixar temporariamente a produção para se dedicar a um dos seus pais, que se encontrava doente. A Fox aparentemente não gostou do respetivo tempo de ausência e, não só o retirou do projeto, mas também o despediu do seu posto mantido há longos anos no estúdio. Foi dito igualmente que o realizador e o elenco terão partilhado diversos momentos de tensão e divergências criativas. Poucos dias depois do despedimento de Singer, Dexter Fletcher, que realizou “Eddie, the Eagle”, foi o escolhido para concluir o último terço inacabado. Segundo os critérios da Directors Guild of America, o nome do realizador de “X-Men” acabou por ficar nos créditos. Em Outubro de 2018… aqui está ela – a tão desejada biografia dos Queen.

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Aliás, será um erro dizer que “Bohemian Rhapsody” se trata de uma biografia integral da banda de rock. É incorreto dizer que o John Deacon, o Brian May ou o Roger Taylor terão marcado tanta gente como o Freddie Mercury. Estar aos pés do magnetismo e ecletismo do cantor do Zanzibar é um feito que pouquíssimos vocalistas terão conseguido concretizar. O filme foca-se atentamente na vida pessoal e profissional do Freddie Mercury e, sinceramente, para realizar e escrever, poucas escolhas poderiam ser melhores que o Bryan Singer e o Anthony McCarten, respetivamente.

Primeiro, porque, se uma biografia do Freddie tivesse sido feita há 10 ou 15 anos, certamente o retrato da sua sexualidade não seria tão honesto como o obtido hoje. Como qualquer cidadão decente, sou a favor da inclusão das mulheres e dos homossexuais em qualquer posto do Cinema ou Televisão, mas não sou adepto destas novas tendências histericamente puritanas e contraproducentes. No entanto, acho que contratar um realizador assumidamente gay foi provavelmente a melhor decisão. Ao acompanhar o jovem Farrokh Bulsara à procura de uma oportunidade na música e uma parceira para a vida, posteriormente assumindo a sua natureza, é com pequenos momentos, olhares e comentários que o verdadeiro Freddie vem ao de cima. O realizador mostra um cantor no seu quarto a escrever um poema profundamente pessoal que futuramente permaneceria considerado uma das melhores músicas da História.

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Segundo, sendo o Anthony McCarten um guionista neozelandês e um peso pesado na sua área (com “Darkest Hour” no currículo), o guião de “Bohemian Rhapsody”, claramente não sendo um ataque ao incompreensível puritanismo americano, consegue representar fielmente um ícone da música dos Anos 70 e 80 que, por acaso, era gay, enquanto manda umas bocas merecidas a um dos países mais hipócritas do mundo.

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De resto, “Bohemain Rhapsody” é exatamente aquilo que uma biografia musical deve ser e beneficia-se de tudo o que pode – excelentes interpretações; uma fotografia adequada ao tom, às cores e à energia transcritos na tela; um trabalho de câmara invocativo e ostentador das recriações gritantes dos grandes concertos, plateias e festas; uma estrutura narrativa convencional elevada por uma história conhecida por todos e demasiado boa para ser verdade; cenas serenas repletas de emoção e sinceridade e montagens conduzidas por autênticas pérolas musicais. Um receio que tinha, na verdade, era que o filme incluísse somente o áudio original do Freddie Mercury, o que diminuiria a prestação do Rami Malek. No entanto, parece que o design sonoro inclui as gravações de ambos os artistas, demonstrando um excecional trabalho de impercetibilidade.

Falando nele, o que dizer do Rami Malek? Não há Rami Malek. O trabalho dele aqui é um dos melhores exemplos dos últimos anos de um ator desaparecido dentro de um personagem. O americano de descendência egípcia beneficia-se facilmente das suas parecenças físicas com o cantor, claro, mas ser-se parecido nunca é sinónimo de uma boa interpretação. O que acontece aqui não é uma imitação, mas sim uma total imersão crua e magistral numa figura tão importante, tão ousada, tão excêntrica, tão original e tão icónica que dificilmente outro ator conseguiria encarnar de modo similar. Eu nunca vi “Mr. Robot” e, do seu histórico, somente vi o recente “Papillon”, mas afirmo que o Rami Malek merece um Óscar pelo que fez aqui!

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O Gwilym Lee é assustadoramente idêntico ao Brian May. Graças a isto, é imediato ficar convencidos que estamos, de facto, a ver os Queen à nossa frente com tenras idades. O guitarrista ganha o merecido destaque e é representado como o membro da banda mais rendido à genialidade do vocalista principal, apreciando qualquer letra ou composição do mesmo ou aceitando as suas exigências perfecionistas no estúdio.

O Ben Hardy é um carismático, mulherengo e explosivo Roger Taylor, captando perfeitamente o seu lado mais sentimental por debaixo daquela falsa postura de baterista duro. Porém, tive pena do Joseph Mazzello, que sofre uma típica falta de personalidade numa biografia que idolatra uma figura maior. O baixista é olhado de lado, transmitindo uma vibe descontraída e, maior parte das vezes, inconsequente. O facto do Brian May e do Roger Taylor terem sido os produtores executivos do filme é claramente a causa deste problema.

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A Lucy Boynton está adoravelmente suave e natural. Mesmo a Mary Austin ter sido também uma figura publicamente impactante, o que é realmente bonito de observar é qualquer conversa casual dos dois nos seus primeiros anos de paixão, enquanto esperamos pela decadência da relação (infelizmente). A cena em que finalmente é dito aquilo que estamos todos à espera é simultaneamente uma das mais duras e mais tocantes. O Mike Myers está no filme por pouco tempo, mas tendo em conta que, aos olhos de Hollywood, o canadiano tem de recuperar a sua credibilidade como ator, é satisfatório vê-lo novamente num papel exigente do seu toque humorístico. E o Allen Leech merece um enorme destaque, o seu personagem é tóxico e gradualmente detestável.

Muitos se queixaram da falta de coerência temporal envolvendo o ano de lançamento das músicas e dos próprios acontecimentos. O que mais me incomodou, no entanto, foi particularmente o contrato solo do Freddie. Todos sabemos que não foi só o vocalista que gravou álbuns solo. Quem conhece a entrevista Musical Prostitute, gravada em 1984 depois de um concerto dos Queen em Munique, sabe que não só Freddie estava a trabalhar em ‘Mr. Bad Guy’ (que seria lançado um ano depois), mas também o Roger Taylor e o John Deacon já se tinham lançado numa carreira a solo, em 1981 e 1983, respetivamente. Brian May começaria nos Anos 90. A chegada ao Live Aid é vista como a reunião da banda depois de uma disputa de egos. Tensões semelhantes claramente aconteceram, mas não devido ao lançamento do Freddie numa carreira solo. Esta é a única incoerência que eu corrigiria.

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Com uma interpretação principal definitiva da década, uma excitação contagiante e o melhor terceiro ato de 2018, “Bohemian Rhapsody” é uma celebração da banda que marcou o mundo, das músicas tatuadas na memória coletiva mundial e de uma personalidade imortalizada na História da Música.

 

Nota: A-

 

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