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Vida de um Cinéfilo

Vida de um Cinéfilo

Call Me by Your Name (Chama-me Pelo Teu Nome, 2017) - Crítica

     Baseado no livro homónimo do André Aciman e publicado em 2007, o filme conta a história de Elio, um rapaz italo-americano de 17 anos que, como anualmente faz, passa as férias de verão de 1983 numa casa do Século XVII no Norte de Itália, enquanto o pai, um professor de Arqueologia e conhecedor de História e da cultura Greco-Romana, recebe alunos para o ajudar. Elio e Oliver, o aluno deste ano, de 24 anos, inesperadamente começam a desenvolver uma relação intensa, que marcará ambos.

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     O filme foi realizado pelo italiano Luca Guadagnino, responsável por A Bigger Splash, de 2015, um filme que, apesar da minha enorme vontade, não o consegui ver na sua estreia. Há quem esteja a argumentar que este romance é facilmente o seu melhor trabalho. Vejo claramente o porquê. Call Me by Your Name é um filme raríssimo de se encontrar, nem tanto pela sua abordagem do tema central (que por si só já fala muito alto), mas mais pela importância que o realizador dá à estética. A sua vontade de impressionar e maravilhar o público é constante. Mérito este também é do Sayombhu Mukdeeprom, um diretor de fotografia capacitado a exaltar vivacidade de cores tão monótonas, mas simultaneamente tão agradáveis à vista. Maior parte das imagens são absolutamente inesquecíveis, desde os tracking shots pelos corredores, os planos médios recorrentes apenas à luz natural (que são, aliás, quase todos), até aos extraordinários planos sequência que evocam a qualidade das interpretações e dos diálogos.

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     Durante a primeira hora, o realizador opta por mostrar detalhadamente a rotina de verão do protagonista, passando pelo piano e viola, pelo aglomerado de música italiana, pela piscina e pelos sossegados e pacientes passeios de bicicleta pelas belíssimas ruas italianas. Existe uma comunidade rural muito amigável, complementada surpreendentemente apenas pelo mais puro som da Natureza, tão pacífica e impenetrável. É a simplicidade no seu máximo! Na verdade, o público no geral pode desdenhar o filme devido ao ritmo hesitante. Apenas lá para a segunda metade do filme é que a ação começa de facto a progredir. No entanto, se aceitarmos esta viagem, vamos apreciar uma das histórias mais charmosas, comoventes, naturalmente escritas e executadas. As comparações a Moonlight são válidas, ainda assim, Call Me by Your Name, mesmo perfeitamente contado através do desempenho técnico, perde aquele que podia ser um ritmo um pouco mais acelerado a partir da segunda metade, apesar do seu relaxante e reflexivo ritmo lento.

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     Mas tal como o Barry Jenkins fez em Moonlight, o Luca Guadagnino tem a coragem de executar as cenas que quiser e exalta a sua audácia em combater o preconceito ainda existente (em massa) contra as relações homossexuais. A sua intenção está em mostrar que uma relação homossexual pode ser igual ou superiormente genuína e bela como uma heterossexual e, o mais importante, que a orientação sexual de alguém nada tem a ver com a sua inteligência, idade ou estatuto social. Nada deixa isto mais claro que a personalidade do protagonista, acompanhada pelos pequenos gestos da Amira Casar e pelo monólogo sensacional do Michael Stuhlbarg. Estes últimos dois aparecem em cena com uma presença paternal amorosa, acolhedora e muito à frente do seu tempo.

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     O Elio é um jovem com uma maturidade muito superior à sua idade e isso deve-se à sua cultura, aos seus interesses, à sua reserva e às suas decisões intelectuais e sexuais. O Timothéé Chalamet é um ator extraordinário e com um futuro brilhante à sua frente. Ele toca piano e guitarra e fala inglês, francês e italiano. O estreante ator carrega o filme quase todo às costas, por vezes sem dizer uma única palavra, confiante do seu carisma e da inocência do personagem, que rapidamente ganha asas.

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     O Armie Hammer tem tido ao longo dos anos uma carreira muito oscilante, dando boas performances em filmes como The Social Network e outras medíocres em filmes como The Lone Ranger. Aqui estabelece-se indiscutivelmente como um ator impecável. O personagem dele tem uma fascinante arrogância e falsa segurança, que simplesmente serve como um escudo das suas inúmeras e constantes dúvidas, vergonhas e dificuldades em se relacionar com quem quer. Escusado será dizer que estes dois têm uma das melhores químicas românticas do ano.

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     A música, assim como a fotografia, é uma joia rara. Pena é que não seja original, senão estaria decerto potenciada para ser nomeada ou vencedora do Óscar de Melhor Banda Sonora Original. O cuidado com a escolha musical, sobretudo com os melodiosos temas italianos, dá gosto de se ouvir enquanto se vive uma rotina sem muitos frutos para colher. Por outras palavras, é um deleite enquanto um conjunto de obra. Encaixa-se perfeitamente quer no quotidiano deliciosamente repetitivo e pacífico, quer nas cenas mais íntimas e envolventes.

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     Call Me by Your Name precisava de subir mais um degrau rítmico no segundo ato, mas não deixa de ser uma obra de arte autêntica do cinema contemporâneo, homenageando o melhor do cinema italiano clássico dos Anos 80, desde os créditos iniciais aos finais. É um filme marcante, inspirador, tocante, ousado, sincero e inteligente.

 

Nota: A

 

Também podes ler a crítica no Cinema Pla'net.

 

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