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Vida de um Cinéfilo

Vida de um Cinéfilo

Captain Marvel – a tarefa foi cumprida

Por razões que ainda não consegui conceber, a comunidade dita cinéfila continua a não saber propriamente conversar sobre cinema. Podíamos gastar os nossos efémeros minutos a discutir eternamente matérias como a extensidade do arco do Michael Corleone, a genuína natureza da mente do Alex DeLarge, as infinitas interpretações das origens do sinistro quadro do Hotel Overlook ou o alienante e fantástico paralelo de Riggan Thompson com o Ícaro. Ao invés, encontramo-nos atrás de um teclado de um portátil a perder tempo debatendo as intenções dos comentários “extremistas” da Brie Larson e de que maneira é que estas mancham a reputação do primeiro solo feminino da Marvel. Se bem que, devido à menor circulação de informação e do claro menor interesse neste tipo de assuntos em Portugal, receber notícias falsificadoras relativas às declarações de mulheres usualmente tem sempre mais impacto no local onde estas polémicas nascem. Mas o que concluir com a aterragem desta na forma do mais enriquecedor entretenimento nas nossas salas de cinema e nos olhos de quem paga para os ver?

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A empresa atualmente debaixo da asinha da Walt Disney Studios já tem feito o seu esforço ao abraçar a diversidade. Emergido no cinema independente, Ryan Coogler veio para contar uma das melhores histórias na forma de uma grandiosa celebração das culturas africanas. Os restantes realizadores do meio menos comercial (James Gunn, Scott Derrickson, Taika Waititi, Irmãos Russo), que receberam enormes oportunidades (e cachês) para dirigir uma equipa da maior casa de produção audiovisual em Hollywood, estabeleceram (uns mais, outros menos) os seus cunhos narrativos e visuais numa fórmula já na altura considerada repetitiva e previsível. Seja para descobrir novos talentos, seja para dispensar de menores valores monetários e consequentemente exercer um maior controlo dos seus empregados, a Disney, no geral, tem revelado determinadas decisões facilmente consideradas corretas ou populistas, como despedir James Gunn e contratar mulheres para encabeçar grandes projetos (Niki Caro à frente do remake live-action de “Mulan”). Contudo, um dos maiores medidores do quão o público precisa de evoluir é o incompressível e disfarçado receio que o sexo masculino tem em receber filmes relevados pelo bom trabalho de membros do sexo oposto.

Brie Larson anunciou o seu bem fundamentado cansaço de interagir com um número excessivo de homens brancos na imprensa americana de críticos, face à diária apresentação de histórias abertamente denunciadores dos malefícios e desigualdades entre estes e o preto, o asiático, o gay, o transexual, a mulher. Partindo para descabidas e ilógicas comparações com “Wonder Woman” na banalizada questão do assédio sexual, a tamanha informação indecorosa do YouTube decidiu, precisamente antes de assistir, esmagar o último trabalho do par Anna Boden e Ryan Fleck. Toda esta mixórdia de idiotice digital e fake news veio contribuir para mais um episódio que, pelos vistos, não apresentou grandes frutos. A verdade é que, com um modesto orçamento de 152 milhões de dólares, “Captain Marvel” revelou-se, face à triste reputação que carregava, um considerável sucesso comercial, na forma de quase 500 milhões.

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Ao entregar a versão feminina de uma identidade tão confusamente arremessada nas últimas décadas em páginas da banda desenhada a dois cineastas independentes pode parecer (tanto para os próprios como para o público) uma evidente fonte de riqueza autoral no universo mais adorado do cinema. Usualmente, a fórmula “protagonista defeituoso – descoberta dos poderes – desenvolvimento do ambiente – confronto inevitável com o vilão – redenção do herói” em anuais ofertas do género pode ainda extrair conteúdo original. Porém, apresentando uma precariedade de originalidade na fotografia e um uso indistinguível e raso da câmara nas sequências de ação, o duo de “Sugar” e “It’s Kind of a Funny Story” demonstra ser constituinte de, desta vez, uma falta de personalidade e um certo desconforto no respetivo modus operanti. A culpa deverá ser dividia igualmente com o Ben Davis (que fotografou “Three Billboards Outside Ebbing, Missouri”) e com a terceira guionista Geneva Robertson-Dworet (apenas com “Tomb Raider” no currículo). Oportunidades perdidas como o desenvolvimento dos personagens de Lee Pace e Djimon Hounsou (dois atores mal aproveitados em “Guardians of the Galaxy”) e da inexplorada e aparentemente enorme civilização tecnológica extraterrestre da protagonista definem-se como as mais notáveis fraquezas da história, evidentes perfunctórios aspetos da geralmente virtuosa e entusiasta narrativa, conduzida por um operante ritmo, carismáticos desenvolvimentos de personagens, uma adorável recriação visual e musical dos anos 90 e sequências de ação enérgicas e memoráveis, ainda que picotadas demais.

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Confesso que a possibilidade da oscarizada Brie Larson se pronunciar como uma “feminazi” me preocupava. Podia-se traduzir eventualmente nas escolhas profissionais da americana de 29 anos. A hipótese de “Captain Marvel” ser definida como uma campanha audiovisual de duas horas das Capazes ganhava cor. Não se aplica. Ainda que a relevância social de um filme não seja condição necessária para a qualidade do mesmo (vamos engavetar esta discussão para outro dia), as cartas disponíveis foram bem utilizadas de diversas formas. O feminismo competentemente jogado na cara do público é genuíno, ao invés de extremo, e não existem fáceis rotulações, mas sim uns bem-vindos retratos, denúncias e troces de comportamentos masculinos escusáveis e constantemente considerados naturais. Tudo isto elevado pela ótima interpretação da cara principal de “Room”, que se adequa ao humor da Marvel, ao universo explosivo que a rodeia e, claro, à poderosa, fragilizada, atormentada e deslocada Carol Danvers. A confiança provocadora é carismática, as emoções são relacionáveis e os bem escritos estágios de evolução da personagem distinguem “Captain Marvel” das restantes entradas no MCU.

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Como seria de esperar, o elenco inclui um Samuel L. Jackson na pele (rejuvenescida perfeitamente por CGI e maquilhagem) de uma versão sólida da inabilidade do Nick Fury, mais leve, mais “Samuel L. Jackson”, digamos. A interação constante entre o inexperiente agente da S.H.I.E.L.D. e o gato Goose é inicialmente semente de várias cenas recorrentemente engraçadas que se tornam repetitivas e responsáveis por um processo infeliz de infantilização do eventual líder dos Vingadores. A Lashana Lynch prendeu-me logo de cara, fiquei hipnotizado pela empatia da personagem e pela sua bonita relação com a protagonista. O Clark Gregg tem uma participação modesta enquanto um novato Agente Phil Coulson.

O Jude Law está funcional e com um propósito claro, mas se fosse excluído a concretização do pretendido ainda ocorreria e resolver-se-ia o porisma da nula construção temática do planeta de Hala. O elenco secundário marcado igualmente pela criminosa e preterintencional inutilização do talento majestoso da Annette Bening é salvo principalmente pelo Talos, interpretado pelo sublime, dedicado e bem maquilhado Ben Mendelsohn, conquistador de cinéfilos desde “The Place Beyond the Pines” e “Darkest Hour”. Contra todas as convenções iniciais, o personagem distancia-se das restantes presenças antagónicas do MCU e pertence ao aglomerado de vilões com uma motivação perfeitamente clara, relacionável, lógica e humana. Importantíssima nos dias de hoje. Dentro do campo das manifestações de descontentamento político-social contra o megalómano e desumano presidente norte-americano, é um dos personagens mais interessantes dos últimos anos.

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Portanto, inserindo a vitória da mulher neste braço-de-ferro intergaláctico e o comentário político no mesmo saco, rapidamente “Captain Marvel” se ajusta dentro do atual debate relativo aos temas estendidos pelo gatilho da masculinidade tóxica denunciada pela resposta feminina. O fator preocupante não é um ou outro filme extremista, que certamente já se terão feito, mas maioritariamente a reação histérica e sexista daqueles que não se afirmam ameaçados. A chegada de um grandíssimo cinema feminista de super-heróis tardará, embora que o último conto antes de “Avengers: Endgame” cumpra eficientemente a tarefa de divergir dos seus antecessores no que toca a diversidade, com consideráveis defeitos na sua sombra.

 

Nota: B-

 

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