Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Vida de um Cinéfilo

Vida de um Cinéfilo

Colette – oportunismo ou adequação previsível?

Oscar baits são as maiores pragas para os críticos. Mais do que um novo filme de super-heróis despretensiosamente engraçado ou uma peça autoral verdadeiramente prepotente e autocongratuladora, as biografias caçadoras de prémios são alvos de duras palavras.

colette.jpg

Sim, nos últimos anos tivemos bastantes filmes do mesmo nível. “The Theory of Everyting” e “The Danish Girl” (particularmente ambos com Eddie Redmayne) são os primeiros que me ocorrem na cabeça. E, com a exceção da história de Stephen Hawking, costumam ser sempre contos biográficos desconhecidos que atraem uma parcela reduzida do público mundial, que sai de casa apenas por causa de um elenco de estrelas americanas, a interpretar personagens de outra nacionalidade qualquer. O objetivo do James Marsh e do Tom Hopper muito provavelmente foi apenas ganhar alcançar o ouro. No entanto, há que reconhecer as mais pequenas boas intenções, debaixo daquela camuflagem autoral virada para as massas e estatuetas. “Colette” é um bom exemplo de um filme bem conduzido, com vontade de contar a sua historia, mas inclusivo do típico monólogo dramático da protagonista, durante o qual esta pensa “A Academia vai gostar disto”.

Depois de co-realizar “Still Alice”, Wash Westmoreland tenta novamente obter o brilho sazonal do cinema. Curiosamente, com o respetivo trabalho de 2018, o mais perto que o inglês estaria de fazer um discurso numa gala apresentada por um Jimmy Kimmel qualquer seria se Keira Knightley fosse nomeada pela sua ótima interpretação. Na sua execução, o material do trio Richard Glatzer, Rebecca Lenkiewicz e do próprio Westmoreland beneficia-se principalmente do talento das suas reduzidas peças do elenco. Um dos maiores problemas de “Colette” não é a história mal contada sobre a escritora francesa do século XIX. Se há coisa que não existe aqui é um valor de produção deficitário.

MV5BNTk5NDFiODMtMzYzYS00N2I2LTkzNGItNjljMTFmOTAyZj

Como qualquer filme de época, este é igualmente ostentador de uma belo guarda-roupa, uma riqueza de cenários e uma serenidade relativa à alta sociedade europeia, realçada por uma fotografia acentuada e uma banda sonora excecional, que se complementa particularmente com a edição, nos seus momentos mais acesos e frenéticos, relativos ao estado de espírito da personagem principal e à ação. E tais estética e harmonia são sobretudo notáveis depois do choque de culturas inicial, quando a protagonista sai do campo sossegado e se casa com um crítico musical e escritor falhado, estabelecendo a sua vida numa barulhenta Paris, no seio das festas dos socialites, salas de teatro e livrarias cheias.

Sugerido: Woman Walks Ahead - injustamente inapreciado

“Colette” seria, então, uma história mais charmosa, digamos, se tivesse um elenco mais recheado, por exemplo. Oportunidades perdidas em particular foi a de desenvolver os pais da Sidonie-Gabrielle Colette e a respetiva parceira de longa data – a nobre artista Mathilde ‘Missy’ de Morny –, que é jogada nos últimos fôlegos da narrativa. Como qualquer estudo de personagem, o mais importante não será obviamente a riqueza temática de todos os elementos do elenco, não é necessário que todos tenham um arco. Mas num filme direcionado para um honesto retrato da sociedade francesa de há dois séculos e a inserção da protagonista na mesma, num universo de personagens secundários que aparecessem e desaparecessem convenientemente, diria que Wash Westmoreland ainda tem muito para aprender. E nem precisamos de referir o facto de o filme ser uma produção americana, britânica e húngara, cujo idioma é o inglês e o cujo objetivo é contar a história de vida de uma personalidade francófona. E o mais ridículo acontece quando ouvimos um voice over da atriz principal em cima das imagens de livros ou notas a serem escrito em francês. Infelizmente, tal hábito do cinema é precisamente isso – um hábito –  e um dos maus, por sinal.

MV5BMDZkMmU3NWMtOTNkNy00NTUyLWFkY2MtODc3MmU2ZTY1ZT

No entanto, são detalhes. “Colette” é a típica cinebiografia, mas não um mau filme. Este vende-se graças às fortes interpretações do duo inglês Keira Knightley e Dominic West. A atriz de “Pride & Prejudice” está novamente impecável (para a surpresa de ninguém). Convence perfeitamente como uma jovem camponesa surpreendentemente instruída em busca de algo distinto da sua vida rural e, na construção da sua personalidade num novo meio social, é muito notável a dedicação da atriz na personagem. São muito agradáveis aqueles gestos e expressões faciais subtis que revelam a sua ingenuidade, a sua crescente autoridade e o alvo do seu interesse (intelectual/social/sexual). É difícil desgostar dela. Não a julgo a ela nem ao seu esforço por, ao aceitar estes papéis, de querer constantemente ter um belo Óscar nas mãos. O talento está lá e eleva o material que recebe de maneira totalmente credível e até fácil. Desde que a Keira Knightley não volte a fazer algo como “Collateral Beauty” está tudo bem.

Sugerido: Pride & Prejudice (Orgulho e Preconceito, 2005) - Análise e Crítica

MV5BNzc4YzU0NDEtNWQzZS00NGYzLTgwZmEtNDdmNGE3OWE3OT

Na sua essência, o Dominic West é um homem assente na sua masculinidade e estatuto profissional (em perigo, evidentemente), demonstrando atitudes intermitentemente bondosos e interesseiros para com a sua esposa – tão depressa oferecendo-lhe previsivelmente uma casa ou um vestido em busca de um perdão, explorando-a logo a seguir, omitindo-lhe informações, tudo com uma pitada de sexismo no meio. No entanto, é impossível não gostar do personagem. O ator de “The Wire” diverte-se bastante e extrai perfeitamente aquele carisma hipócrita, mulherengo e arrogante.

Existe também algo em particular no filme. O que digo aqui já disse quando falei do “Bohemian Rhapsody”. Conforme estes modernismos feministas e de aceitação sexual, muito provavelmente um filme sobre a escritora francesa não incluiria a sua verdadeira orientação sexual retratada. Uma mulher atraída por outras mulheres há dois séculos ou era vista como uma oferta do Diabo ou uma veia do processo criativo dos homens, como, aliás, vemos aqui. De qualquer maneira, novamente sublinhando que não sou adepto destes movimentos histéricos do “politicamente correto”, acho correta a maneira como retrataram essa característica da protagonista.

Sugerido: Bohemian Rhapsody - perdurabilidade audiovisual

wp3700028.jpg

Em poucas palavras, “Colette” é um filme agradável e bem feito. Como é óbvio, não é um “La vie en rose”, mas também não é um “Diana”. Está na linha de um “Woman Walks Ahead”. Material merecedor de remendos, fortes interpretações.

 

Nota: B

 

Facebook - Twitter - Letterboxd

 

Comentar:

CorretorEmoji

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.