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Vida de um Cinéfilo

Vida de um Cinéfilo

Como de costume, Woody Allen caminhava

Uma figura indefesa percorria as avenidas nova-iorquinas, destilando doses de humor observacional pelos jardins bem povoados por cidadão cinzentos, mergulhados em alegadas individualidades. O escárnio é a sua principal arma. Não de ataque, mas de defesa.

Evidencia-se um visual de intelectual escanelado, posicionado no polo da esquerda crítica dos conservadorismos tatuadores de tendências que empobrecem as ideias da generalidade da população. Não procura, no entanto, qualquer tipo de responsabilidade na esfera ativista. Seria contraproducente. Uma facada no estômago da própria armadilha. A aparência é denunciada pelo defeituoso par de óculos e pela indumentária deslocada nos imersivos padrões socioculturais dos anos 70, exigentes de pensamentos liberais. Não tão depressa partilhados pelo amante de péssimas anedotas e de comédia auto-depreciativa.

O cínico desjeito não padece tanto de insegurança como se pensa. Reside algures um ego inchado pelas próprias convicções. O orgulho alberga a concentração de neurónios mal comportados. Digamos, antes, indomados, não obstante as tentativas das figuras parentais. O contributo para a transformação do conceito de sedução masculina é a sua maior vitória. Nunca nenhuma mulher se sentiu tão atraída por um homem mesquinho. Sem qualquer superioridade física. Em constante manifesto de desagrado e apatia pelos falaciosos rótulos da sociedade exibicionista. Salvou vidas, ao contrário daquilo que nos querem convencer. Ainda por mais, assim que revelados determinados escândalos. Quais comprometedoras acusações. A verdade é que, assombradas pela incompreendida solidão quotidiana, inúmeras almas refugiam-se nas suas sinceras palavras, apelando para que o desapego pelas mesmas jamais surja. Seria o equivalente a um juízo final. A uma derrota. Que este transtornado divórcio ocorra somente quando os olhos esbugalhados e os cabelos grisalhos não defrontarem mais o imortal conjunto que o acompanhará até à exaustão: lápis, papel e câmara.

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Entretanto, não se calou. Chegou ao fim da rua. Que venha a próxima caminhada. Como de costume, Woody Allen caminhava e tecia comentários hilariantes sobre a insignificante condição humana, elevada para fins de propaganda sem necessidade. Ainda bem que acaba sempre a ser ridicularizada na obra do senhor que pisara os gélidos passeios da cidade que nunca dorme. Não perdera tempo a fazer mais do que aquilo que melhor sabe. Que seja assim que até não poder mais andar.

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