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Vida de um Cinéfilo

Vida de um Cinéfilo

Complete Savages S1 – com pouquíssimo para ensinar e tanto para aprender

No meio da aurirrosada proclamação de bacoradas machistas, sentados numa mesa circular intencionalmente destinada a esplanadas para familiares piqueniques americanos, os Savage digerem alarvemente os baldes de amanteigadas e gordurosas asas e coxas de frango frito. No meio de descorteses e hilariantes grunhidos, os filhos, despreocupadamente a partilhar com o animal de estimação os assentos do diurno jantar, lançam a bomba “Então, encontraste uma empregada?”, esperando respostas que um pai bombeiro solteiro, desenrascado, antiquadamente moldado e responsável (dentro do possível) por 5 distintos e indomáveis jovens estudantes daria sem problemas, como “Claro que sim” ou “Obviamente que sim”. Não fosse este um dos ambientes mais repletos da velha e caseira mixórdia da desordem masculina e da preconceituosa e procrastinadora testosterona, talvez, enquanto uma família de um ligeiro subúrbio de Massachusetts, a hipótese de renovar o papel pouco ou nada disputado de dona de casa daquele inferno doméstico fosse uma ação com inúmeros meios de cumprir. Bastava pagar à próxima “velha espanhola” ou optar pela sugestão de uma “boazona francesa”. É então que, expondo os seus rapazes à decisão de rescindir a sua pequena necessidade de ter uma mulher a lhe diariamente cuidar da casa, Nick Savage comete um autêntico atentado – atribuir responsabilidades aos filhos, inexperientes no que diz respeito a atividades desde dobrar roupa interior a fazer uma sanduiche. Com tanto ou mais volume que o cão, as 5 feras decidem expressar o seu espantado descontentamento, na forma de fortes “Não!” e rápidas frases de efeito, com esperança que o galardoado bombeiro de província altere a sua posição e ceda à vontade dos filhos de lhes entregar, de novo, a limpa e endireitada ordem de bandeja. Como se uma empregada amenizasse a tamanha estupidez que naquela casa se vive e, pelo que parece, contagia os (já poucos) convidados. Naquele subúrbio, nada nem ninguém fica isento das selvagens aventuras da Família Savage – descuidados e bem-dispostos gorilas. Com pouquíssimo para ensinar e tanto para aprender.

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O quase erradicado formato sitcom vive com fortíssimas ameaças. Graças à última ascensão de popularidade e influência exercida e plantada pelas últimas gerações de séries de humor e de stand-up comedians, o gosto do público, no geral, tem sido observado a se modificar de modo praticamente idêntico. Embora as referências dos atuais criadores da Netflix, ABC ou Fox se estendam da mesma forma a emblemáticos programas como “The Simpsons”, “Seinfeld”, “Friends” ou “How I Met Your Mother”, os parâmetros exigidos pelos espectadores estendem-se e evoluem, tal como tudo. Daí que raramente assistimos, numa caseira sessão de zapping, a uma sitcom na televisão, tanto na televisão norte-americana como até na portuguesa, cujos quatro cantos arredondados abandonaram a produção de bem lembrados programas como “Batanetes” e deu as mãos a favor da idealização de uma comédia mais bem sustentada, mas não isenta da típica idiotice lusitana, na forma de “Idiotas, ponto.”, e de conteúdos digitais originais como “Sou Menino Para Ir”. Como resultado, diretamente dos estúdios dos Estados Unidos, é natural que surjam histórias como “BoJack Horseman”, “Grace and Frankie”, “F is for Family”, “American Vandal”, “The Kominsky Method”, “After Life”, “Black-ish” e “The Orville”.

Sugerido: Idiotas, ponto. T1 - risonho rumo ao ridículo

Contudo, procurando por diversas formas do riso, perdemos, por vezes, algumas humildes joias na televisão. A verdade é que, abraçando os ideais antigos da poeirenta caixinha mágica, é tão ou mais possível produzir conteúdo televisivo cómico com tanta ou maior qualidade em comparação com a indústria da atualidade. Quando as mentes se viram exclusivamente para o texto, para o desenvolvimento dos personagens e para os respetivos conflitos e arcos, os valores de produção ocasionalmente constrangidos por causa do estrito orçamento investido em tal esquecido e mal publicitado material podem ainda passar ao lado, elevando aquilo que estamos a assistir a algo memorável. Por outras palavras, uma boa série de humor exige a consistência de humor de qualidade.

“Women don’t like to cook and clean for men the way they used to. Somewhere along the way, they lost the joy…”

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“You guys pulling any more stupid stunt? I’ll ground you. And I don’t mean punish, I will put you in the ground!”

Para o menino que vos escreve, a comédia deve andar de mãos dadas com os individuais demónios de quem a escreve. Ilustres da representação como Charlie Chaplin e Jim Carrey ensinam-nos, tanto dentro como fora do trabalho, que a relação entre comédia e tragédia é das mais significativas. A comédia deve ser um meio de ridicularização e, como tal, exorcização dos maiores desconfortos pessoais de quem quer, por exemplo, subir a um palco e expor o seu lado que mais despreza, logo cumprindo a missão de assassinar as suas inseguranças e tornar-se num ser vivo apaziguado, embora não suprimindo o seu recorrente pessimismo ou particular prazer em desconstruir as presunçosas e poderosas entidades autoritárias ou em tirar gozo das desgraças alheias. “Always Look on the Bright Side of Life”, disseram os Monthy Pyhton.

Por hoje, que se suspenda ideologias concordáveis ou discordáveis. Falemos de um exemplo da idade de ouro das sitcoms, dedicado a fáceis risos provenientes das caricatas representações da realidade juvenil norte-americana, mas não menos atenta à honra de espetar espessas facas na coluna da tendência do discurso politicamente correto. Cada vez mais atual, curiosamente. Exibida hoje e com os devidos olhos atentos, “Complete Savages” seria considerada a obra televisa mais problemática e ofensiva nos dias de hoje. Através dos maiores caprichos masculinos pintados em cima de inúmeras opiniões idiotas acerca da escola, sociedade, trabalho, responsabilidade e, como seria de esperar, do sexo feminino. De tal maneira que o elemento mais correto daquela família é o irmão estudioso e inteligente que, numa espera de poucos episódios, substitui a sua inocente paixão pela vizinha da frente pelos recorrentes passeios de mãos dadas à rapariga das suas fantasias. Pelas palavras da série, enquanto o betinho arranja namorada, os fixes, delinquentes e desportivos ficam a chuchar no dedo. Ao contrário do que parece, ainda se pode sempre extrair um comentário sobre as prejudiciais perceções de masculinidade. Poder pode, mas o interesse está mais virado para fazer rir do que em refletir.

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Sugerido: I AM COMPLETELY FED UP!

O elenco é impecável, todo ele alavancado pela perfeita interpretação do Keith Carradine. Pura e simplesmente perfeita. Aliás, nota-se naquele vídeo que partilhei há semanas. O Vincent Ventresca tem uma participação mulherenga, amigável e divertida. A Autumn Reeser tem um carisma imediato. O Mel Gibson (também ele produtor e realizador) tem aqui um dos melhores personagens da carreira – o disciplinado e cauteloso Agente Steve Cox. O Erik Von Detten e o Evan Ellingson roubam gradualmente as cenas e tornam-se nos personagens mais hilariantes do meio familiar, tais tamanhas ignorâncias. O Shaun Sipos, o Andrew Eiden e o Jason Dolley estão impecáveis nos respetivos papéis, com certeza autores de alguns dos momentos mais engraçados em determinados conflitos. Todos os membros da casa estabelecem uma química extremamente credível e jamais questionável. As relações são genuínas, tal como as normas de moral que qualquer pai, por mais brincalhão ou mal-humorado que seja, terá de ensinar aos filhos. Poderá se dizer que afinal há muito para ensinar e muito afeto entre os personagens.

Na condição de um cético espetador de comédias televisivas, dá para notar o meu entusiasmo ao falar de uma série desconhecida e que, na minha ótica, merece ser desenterrada do esquecimento e lembrada pelos autênticos aglomerados de humor físico, popular, nonsense e brejeiro que esta adoravelmente bronca família proporciona. Com a exceção de duas personagens femininas em particular que mereciam mais tempo e a resolução final bem tosca de um específico episódio, “Complete Savages” é uma criação merecedora de elogios. O casal Mike Scully e Julie Thacker terão retido certamente inspirações da sua vida pessoal, enquanto um verde matrimónio, que sustentaram as diferentes visões representadas relativamente a família, paternidade, casamento, relações e um total e hilariante abrigo de uma mixórdia indomável de filhos deixados pela mãe ao auxílio do pai, quando estamos fartos de ver no audiovisual uma família deixada ao abandono pela figura paternal. E torna-se claro que os homens, dada a inerente infantilidade e disposição oscilante, terão as qualificações não tão correspondentes a tomar conta de filhos como se querem convencer. Mas lá está, toda esta temática permanece escondia nas entrelinhas da comédia. E que bem que assim se está.

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“Complete Savages” foi exibido nos Estados Unidos na ABC, desde Setembro de 2004 a Junho de 2005, tendo a possibilidade do nascimento de uma segunda temporada sido eventualmente deitada para a fogueira devido à lamentável falta de audiências. Em Portugal, foi, em anos seguintes, transmitida repetitivamente no Panda Biggs, dobrado no nosso idioma. Ainda me lembro das noites sem sono em que preenchia o meu aborrecimento numa sexta ou sábado ao assistir ao programa. Quem diria que dias, meses, anos mais tarde, a encontraria no formato original disponível na Internet. A grande pena não é ter terminado, mas sim ninguém se recordar e se dar ao trabalho de a incluir no raio de um serviço de streaming. “Complete Savages” é uma peça rara das sitcoms. E só se supera a cada visionamento.

 

Nota: B+

 

Podem ver a série completa no Dailymotion.

 

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