Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Vida de um Cinéfilo

Vida de um Cinéfilo

Darkest Hour (A Hora Mais Negra, 2017) - Crítica

     O filme começa em Maio de 1940, na Inglaterra, e segue os esforços desesperados do recente primeiro-ministro Winston Churchill que, depois da sua inesperada e indesejada eleição, mede forças com os membros do Parlamento Inglês, com a Alemanha e com ele próprio.

darkest-hour-poster-2-header.jpg

   O filme foi realizado pelo inglês Joe Wright, responsável por Pride & Prejudice e Atonement. Ao contrário de muitas biopics que aparecem nestas awards seasons, o mais recente filme do realizador é um dos melhores exemplos de como conduzir uma importante história com um protagonista controverso e um tom fúnebre adequado para a pintura de uma realidade negra e da História. Juntamente com Dunkirk (ler crítica), Darkest Hour é uma belíssima aula de história sobre aquele período. Mas desengane-se quem pensar que esta é apenas mais uma obra esquecível que se veja na escola quando se fala na II Guerra Mundial. Quando se tem o Gary Oldman a interpretar o Winston Churchill é-se impossível esquecer do filme. Dito isto, as minhas expectativas estavam moderadas. Pois, posso afirmar que fui completamente surpreendido. Darkest Hour não é de todo um filme esquecível.

MV5BMGRmZmU1YjktZTEyNC00NTdmLWJmNTktMTljMWIyZDZkYT

     A começar pelo visual, a recriação da época é estupenda e estupidamente atenta a detalhes, tanto no que diz respeito ao guarda-roupa, ao design de produção e aos penteados e maquilhagem, que são todos impecáveis. Tal visual é também realçado pela música pesada com raros momentos que transmitam alívio para o público e pela estupenda fotografia do Bruno Delbonnel nomeada ao Óscar. A poeira, a escuridão, a iluminação precisa, o desconforto e a constante preocupação com as vidas dos soldados ingleses encurralados na França e com a tensão que paira sobre o Parlamento Britânico. Tudo é bem passado.

MV5BMjhjOWFhMmItNWI5ZS00ZjdhLWJlNmMtM2Y3MDgyNWEyMT

     Estando o realismo histórico estabelecido, era muito importante dar a devida atenção aos conflitos políticos daquela era, fossem estes internos ou externos. O filme é muito fiel aos factos e, mesmo dentro da vida privada do protagonista, nunca surge aquela sensação de o guionista ter tido a vontade de enaltecer desnecessariamente o personagem. Há muita honestidade e respeito em retratar o Churchill, tanto como uma figura pública controversa, porém admirada, tanto como um pai e marido por vezes rude e irresponsável. Mas como todos nós vemos, as qualidades da sua personalidade pesam mais e é impossível não desenvolver uma admiração por ele. E é aqui que o Gary Oldman entra com a sua inesquecível interpretação que simultaneamente não seria a mesma sem as inúmeras próteses e mascaras e que não deve nada às mesmas. A presença do ator é incomparável! Pouquíssimas são as performances com o poder de fazer o ator em si desaparecer completamente e dar espaço a algo novo, não muito diferente do que o Heath Ledger fez. O Gary Oldman está perfeito! Não vou dizer mais para não estragar. Dêem-lhe o Óscar de uma vez!

920x920.jpg

     Escusado será dizer que todo o elenco restante desaparece ao pé do Gary Oldman, mas há muito talento de sobra que também se destaca. O Ben Mendelsohn tinha uma tarefa difícil em interpretar o Rei George VI, pois a única imagem que temos do Rei inglês é o Colin Firth. Não foi o caso, o ator consegue desenvolver um Rei mais altivo, seguro, mas com intermináveis dúvidas disfarçadas.

MV5BNmNmZGMxNDMtMjM0Ny00MGU3LWE4N2YtYzEwNTVhNzM0OD

     A Kristin Scott Thomas é uma excelente presença feminina e, para além de muito sólida, tem os seus momentos de maior consolo e até humor. No entanto, ao invés de me darem cenas com os filhos do casal, tinha preferido que omitissem os mesmos e me tivessem dado mais cenas dela com o Gary Oldman que, mesmo sendo muito boas, souberam-me a pouco.

MV5BMjM3MDE0ODA0Nl5BMl5BanBnXkFtZTgwNDQwNjg2MzI@._

     Já em relação à Lily James, que é uma boa atriz ascendente, recebeu uma personagem não muito bem escrita. Aliás, a personagem é bem escrita, mas o seu arco e interação com o Churchill não. Acho que aquela relação de primeiro-ministro e secretária devia ser abordada com mais frieza, mais apatia, e com menos daquele dinamismo que quase de certeza não nasceu assim tão rapidamente.

247206961-3.jpg

     Como é de esperar, graças ao poderoso argumento e à espetacular interpretação do Gary Oldman, todas as cenas em que o Churchill discursa perante o Parlamento são algumas das mais inspiradoras que verão na vossa vida. Ele escrevia discursos como ninguém e é absolutamente incrível o que se podia fazer com palavras. A segurança e carisma que este transbordava, disfarçando as suas dúvidas e medos, são perfeitamente captadas neste filme. Para além disso, o filme acaba na nota perfeita. Eu não estava à espera, mas depressa percebi que um melhor fechamento que aquele era impossível.

MV5BMjQ3OTQ3OTQ3NV5BMl5BanBnXkFtZTgwMDczODA1NDM@._

     Darkest Hour é um fiel filme aos factos históricos, à composição da sua época histórica e ao estudo do seu protagonista. O tom beneficia-se da própria história, é verdade, mas o filme em si é elevado sobretudo pela irretocável performance do Gary Oldman, que finalmente convencerá aqueles que ainda não o vêm como um dos melhores atores vivos.

 

Nota: A-

 

Também podes ler a crítica no Cinema Pla'net.

Aproveita para ver mais críticas de filmes de 2017 aqui.

 

Se estiveres a gostar do blog, não te esqueças de me seguir no Facebook, no Twitter e no Blogspot. Obrigado!