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Vida de um Cinéfilo

Vida de um Cinéfilo

Dezoito

“Gosto muito do homem em que te estás a tornar…”, disse-me, enquanto requisitava os individuais cafés destinados aos convidados (usurpadores moradores no seu direito) sentados à mesa de almoço, em casa previamente idealizado e instalado para tão conveniente e aguardada ocasião. Enquanto perfeita conhecedora do particular gosto (até incompreensível e injustificado) retido da extração das tão tradicionais bicas essenciais na fase terminal de uma graciosa refeição, sustentadas pelo habitual e instável ofício de uma máquina automática prestes a dar o berro e os maçadoramente desnecessários pires, pedindo ou não pedindo, lá vou eu, logo após erguer a loiça da mesa para o lavatório de alumínio.

Declarada mais uma eventual e inefetiva, ainda que sincera expressão, desta vez “Acho que te estás a tornar num bom ser humano…”, entretanto, acompanhando as palavras que lhe saíam da boca habitante naquele rosto sorridente e nostálgico com um caloroso abraço, é então que a realidade cai – “Será esta mais uma mera frase de efeito oferecida empacotada com a idade composta na gradual efemeridade dos vindouros anos? Ou poderá ser isto, de facto, verdade? Eu? Um homem?”. Com base numa imprecisa e apressada observação no corpo que abaixo da grande cabeça oca e cabeluda (nela estabelecida desde nascença aquela feição acanhada e exígua) se encontra, poderá o caso estar remotamente inalcançável, pelo menos por agora. “Homem” não. Por enquanto, uma criança de um metro e setenta e oito, pelos vistos estatura apta para, em intervalos de ternurentas saudações, enterrar a enrugada cara das figuras maternais naquele peito “de homem alto e crescido”. Estas, de seguida, mirando a risonha face com uma barba precoce do seu rebento, propiciamente finalizando o gesto comunicando um inevitável e arrepiante “Eu antes pegava-te ao colo!”. Já lá vai o tempo, ao que parece. Nem dei conta. Perdi a vez de dar.

Beijinhos, abraços, apertos de mão, palmadinhas nas costas, suaves transições manuais da nuca até à testa, prendas rececionadas com ilusório espanto, envelopes que encofram simpáticas quantias monetárias (prenda essa aborrecida e insignificante nos iniciais dias de existência, mas extremamente pertinente e bem-vinda no irresponsável auge da adolescência), terminando com repetitivos brindes, desta vez realizados com caseiros e saborosos copos de vinho (aposentados os dias de pacotes de sumo), referências aos inocentes e disparatados episódios infantis que ressurgem alegre e espontaneamente na memória coletiva, uma convivência orgânica prolongada pelo resto da tarde, intercalada, como seria de esperar, por intermináveis felicitações generosas pelo cumprimento de tal reluzente meta sem qualquer esforço do indivíduo na qual a descrita reunião familiar se centra. Assim foi e assim continuará. Assim, ainda bem.

A maior guerrilha não será, com certeza, o dia seguinte, no qual apenas acordamos, sem surpresa, com os teimosos olhos inundados de remelas e olheiras, horas depois da bebedeira diurna partilhada com amigos. Não será acrescentar mais números à idade transparecida nas amostras identificativas. Não será manter ou modificar um singular traço da nossa personalidade que respetivamente apreciamos ou abominamos. A luta, em princípio perdida, será o embraçamento de fundamentais responsabilidades pelo qual devemos prosseguir, ao invés de adiar ou aviltar. Não queira isto dizer que tal alteração de jogo não pudesse ter começado em anos anteriores. Verdade seja dita, a idade é somente um número. O meu objetivo, e de qualquer outro homem (guardadas as devidas proporções), devia ser universalmente não me tornar numa criança envelhecida, num Simba a cantarolar despreocupadamente ‘Hakuna Matata’ para o resto da vida, assobiando para o lado a fazer-me de distraído conforme o papel inerente à minha existência surgisse à espera de ser respeitado ou por alguém assumido. Os momentos ‘Hakuna Matata’ – traduzindo, os momentos “que se foda” – devem permanecer na nossa condição, procurando equilibrar a seriedade e a leveza estritamente necessárias para o nosso bem-estar. Contudo, importante será não abandonar a nossa importante posição de responsabilidades, sejam elas quais forem e em benefício de quem for – ser o homem mais correto para quem mais merece e para quem debaixo da nossa sombra viverá. É curioso como comecei a dissertar acerca da minha perceção do tempo, da minha idade e do futuro que me aguarda e acabei por comparar tal fenómeno ao “The Lion King”. Nem foi de propósito, asseguro.

Precisamente o que acontece na belíssima e intemporal animação de 1994 é uma lição para qualquer pessoa. Sim, acompanhado ao irretocável significado do arco do protagonista com a voz do Matthew Broderick e do Jonathan Taylor Thomas, recebemos inclusive um estudo sobre a básica perversidade do poder e as motivações e ferramentas por detrás da mesma. Porém, poucas semanas depois de ser lançado o trailer oficial do expectado remake live-action (nada é por acaso) e quase 2 meses após me tornar maior de idade, começo a pensar. Não posso amadurecer sem passar por determinados (e indesejados) acontecimentos. Tal como o Simba, que canta ingenuamente ‘I Just Can’t Wait to be King’, no meio de um festim absurdo com, no mínimo, escassas possibilidades de ocorrer na vida real (entenda-se animais empoleirados e entrelaçados uns nos outros, alguns dos quais presas e predadores falsamente em harmonia e contacto), sem se aperceber do preço que deve pagar a favor de assumir o patamar adulto, livre e autoritário que tanto estima – a morte do pai. Ser adulto deixa de ser um sonho, uma deliciosa e irresistível receita de divertimento, um bilhete de ida para a criança abandonar aquela chata ordem quotidiana de ensinamentos, tarefas e sermões morais. Quando se observa de perto o quão feia é a nossa futura condição e o quanto esta nos suga, crescer perde o que quer que foi que tanto nos aliciou. Decorre na cabeça de Simba (tal como em algum momento decorreu na de cada um) o incontornável desejo de parar, questionada toda esta suposta obrigatoriedade de existir, e simplesmente desistir. De dizer ‘Hakuna Matata’, preenchendo os dias com um insignificante e repetitivo, ainda que prazeroso ciclo de procrastinação, indiferença e inutilidade.

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Portanto, o que fazer? Nada mais que reerguer o olhar e dispô-lo na direção daquilo que se pretende (desculpem a palavras de livro de autoajuda). É curiosamente simples. Árduo, frustrante, cansativo, imerecido, remoto…, mas simples. Basta regressar ao nosso “eu” juvenil, conjugá-lo com as secas aprendizagens retidas das inúmeras infelicidades, orgulhar quem mais anseia testemunhar a nossa prosperidade após longas discipuladoras instruções, ascender a “pedra do reino” e rugir. Deve satisfazer uma alma. Decerto satisfará.

 

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