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Vida de um Cinéfilo

Vida de um Cinéfilo

“É a vida…”, disseram os velhos

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A sedução começara antes de entrarem no Jack Rabbit Slim’s. Se há coisa que Quentin Tarantino se pode orgulhar é o seu engenho, presente até hoje, de subverter as expectativas do público. Em 1990, com o término da trilogia The Godfather, de Francis Ford Coppola, e a estreia de Goodfellas, de Martin Scorsese, os cinéfilos sedentos por contos carregados de violência e compostos por uma narrativa recheada de personagens com arcos exemplares preparavam-se para entrar na década de 90 com pé direito. Pelos vistos, apesar de já bastante explorado, o género cinematográfico de crime, usualmente apresentado na forma de viagens às casas de famílias sicilianas ou de rebuliços entre gangsters nova-iorquinos, ainda tinha território fresco por onde caminhar. Sinais dos tempos – as histórias em questão ambientavam-se nas primeiras décadas do século XX e as ideias de Hollywood de então consideram-se hoje inapropriadas –, era hábito a ficção albergar cargas de complexidade moral, envolta nas dúvidas dos protagonistas, autênticos lobos alpha em domínio de porfiadas disputas e, portanto, de poder, exibida uma imponência egocêntrica e bolsos esverdeados, recetivos a copos, drogas e, claro, mulheres. Que nem um camelão em fronteira de caçadores, Tarantino inseriu uma vigorante camada temática no filme de 1994, já notado pela atenção prestada a questões existenciais, catapultando o sucesso obtido com Reservoir Dogs, uma narrativa marcada pelas suspeitas de diversos criminosos em constante fervura, qual panela de pressão prestes a explodir, sem um único toque feminino para imprimir alguma tranquilidade. Em Pulp Fiction, Mia Wallace, interpretada por Uma Thurman, é presenteada com a companhia reservada de Vincent Vega, interpretado por John Travolta. Com uma entrada inusitada, a mística personagem começa cedo a atingir o carismático assassino profissional com provocações, pequenos avanços que pudessem evidenciar uma ligeira atração pelo homem que acabara de conhecer. Vincent, na asinha de piadas espontâneas e de questões ousadas, consegue se inserir na névoa da mulher do patrão. A noite corre bem. Jantam, trocam charros, partilham segredos, mantêm o contacto visual, sendo que Mia é, note-se, desde o início da noite, a predadora, a leoa com o olhar semicerrado, a sensual loba no comando da alcateia, a Eva que abandona a inocência, passa uma cereja pelos lábios e rouba a arte da sedução ao Adão, padecido da falta de controlo que tenta, sem sucesso, disfarçar, desviando os olhos e fumando para o horizonte. Mais tarde, como Vincent chega à conclusão, tudo não passa de uma prova – “Repara, isto é um teste moral para uma pessoa, para veres se consegues ou não manter a lealdade.”, monologa na casa de banho. Mas será? Será que todo o “ataque” de Mia era fingido? Na anterioridade, os dois dançavam com bastante destreza na hamburgueria reminiscente aos anos 50. Mia abrira mais um botão da camisa e, para não variar, matinha os olhos negros focados nos do adversário, incomodado, torcendo o rosto para baixo. Durante o inesquecível “bailado”, com ‘You Never Can Tell’, de Chuck Berry, de fundo, a perfeita tradução musical de um dos momentos mais icónicos da obra-prima de Tarantino, as criaturas singulares acomodam-se, talvez concebendo cenários. Regressam ligeiramente embriagados a casa de Mia, abraçados, ela com a gabardine dele. Desta vez, os olhares encontram-se calorosamente. “É a isto que chamas um silêncio desconfortável?” é respondido com “Não sei o que chamar a isto…”. No fim da noite, superado um particular contratempo, a esposa de Marsellus Wallace despede-se com reservas, virando as costas. O gentil assassino sopra um beijo discreto, sem que aquela ouça. Será que Vincent gostaria de massajar os pés de Mia?