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Vida de um Cinéfilo

Vida de um Cinéfilo

First They Killed My Father (Primeiro, Mataram o Meu Pai, 2017) - Crítica

  Baseado na autobiografia First They Killed My Father: A Daughter of Cambodia Remembers, publicado em 2000 pela ativista Loung Ung, o filme decorre no Camboja, em 1975, e conta a sua história enquanto uma menina cambojana de 7 anos, que se vê mergulhada dentro da revolução comunista no sudeste asiático.

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     O filme foi realizado pela Angelina Jolie que, juntamente com a autora, também adaptou o material para o guião. Como se pode comprovar, a atriz finalmente se estabeleceu como uma realizadora de qualidade, depois de filmes medianos ou fracos como Unbroken e By the Sea. A realizadora foi uma escolha perfeita, já que era importante uma ativista contar a história pessoal de outra ativista. Sendo assim, o retrato de uma guerra vista pelos olhos de uma criança e do lado mais corrosivo e violento do ser humano está bem presente e não podia ser mais cru, sensível ou realista, tornando-se digno de comparação com clássicos como Empire of the Sun, do Spielberg, de 1987. Contudo, ao contrário deste, First They Killed My Father tem raríssimos momentos de leveza e é conduzido sobretudo pela interpretação central movida quase sem diálogos. Aliás, este é um dos poucos filmes de guerra que já vi que consegue causar verdadeiramente aquela extrema sensação de revolta e ódio. Tal como os outros, também nos faz chorar, também comove e tem momentos aliviantes. Mas, como alguém que gosta muito de filmes de guerra, admito que fui completamente apanhado de surpresa e nunca me senti tão sujo ou desconfortado ao ver apenas um filme.

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     A Angelina Jolie é severa, mas ganhou a minha admiração. O seu trabalho de câmara é, tal como a maior parte dos restantes aspetos técnicos, muito competente, calmo e introspetivo. Ela tem uma perspicácia e um sossego um pouco incómodos, com um forte recurso a close-ups, a panorâmicas e a shots aéreos. A qualquer momento parece que tudo à volta dos personagens vai descambar. Para isso, contribui também a violenta, poluída e vasta fotografia do Anthony Dod Mantle, complementada perfeitamente com a banda sonora inquieta do Marco Beltrami.

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    Porém, quem esperar um filme de guerra composto maioritariamente por sequências de destruição e carnificina vai-se desiludir. É verdade, há cenas dessas, aliás, muito bem trabalhadas e com momentos genuinamente perturbadores. Contudo, o foco esteve totalmente no olho inocente e inofensivo de uma criança jogada numa situação horrenda. É aqui que a excelente interpretação da jovem Sareum Srey Moch se torna num dos elementos mais positivos do filme. É uma performance muito introspetiva, reservada e apática, mas simultaneamente muito expressiva, comovente e cheia de receios, carregada também de momentos mais tristes e emocionalmente abaláveis. É uma simples criança sem a maturidade necessária para compreender determinadas situações. O trabalho forçado, a fome e a militarização desumana são experiências lamentáveis e injustas, mas observá-la a amadurecer dentro daquilo contribui para o desenvolvimento do caráter inteligente, perspicaz e forte na qual esta eventualmente se tornaria no futuro. Acompanhá-la até ao fim daquela horrenda jornada é um desgosto, mas bastante inspirador.

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    O conjunto de arcos bem trabalhados inclui ainda toda a hipocrisia, insensibilidade e crueldade humana que define o grupo dos Khmers Vermelhos. Independentemente das crenças políticas de cada um, podemos todos concordar que um processo de lavagem cerebral e tortura mais nojento ou odiável que aquele dificilmente pode existir.

     O título é autoexplicativo, por isso tenho de referir algo que não gostei sobre a morte do pai da Loung. Já que toda a história é vista pelos olhos dela, não faz muito sentido que lhe apareçam imagens na cabeça do pai a ser morto. O que vemos não deixa de ser chocante, mas não ver absolutamente nada seria muito mais irritante e desconcertante. Aparecem também algumas montagens espirituais que a Angelina Jolie decidiu fazer, que nada mais são do que uma ligeira americanização dentro do cinema asiático. Mas não desrespeita nada, uma vez que a realizadora se revelou mais que competente em adotar o estilo cinematográfico com o qual trabalha. No entanto, há uma específica sequência dessas que me arrepiou. Não é só triste, é perturbadora e imerecida, ninguém merece ver uma coisa daquelas.

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     First They Killed My Father é um retrato agressivo, pesado e perturbador da natureza da guerra vista pelos olhos de uma criança. Apesar da sua enorme qualidade temática e técnica, não é um filme “bom”, não dá gosto de assistir e não é fácil de recomendar. Demorei três noites para o ver, porque não aguentava ver constantemente uma população inteira a ser controlada injustamente por gente que mais valia estar morta. No entanto, tudo isto prova que o filme é digno de ser visto, pois cumpre o seu propósito. Além disso, consegue ainda acabar numa curta nota positiva. Eu recomendo, mas devem saber onde se estão a meter.

 

Nota: A-

 

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