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Vida de um Cinéfilo

Vida de um Cinéfilo

Geu-hu (O Dia Seguinte, 2017) - Crítica

     Bong-wan, um escritor presidente de uma editora, depois de receber uma nova funcionária na empresa, encontra-se dividido entre a relação com a sua mulher e o caso com uma amante de longa data.

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     O filme foi escrito e realizado pelo Sang-soo Hong, um dos realizador sul-coreanos mais autorais em atividade, que também compôs a banda sonora. Sou sincero, desconhecia a sua filmografia. O meu interesse nele começou quando descobri a atriz Min-hee Kim que, depois da ótima prestação no drama erótico do ano passado, Ah-ga-ssi (ler crítica), ganhou o Urso de Prata de Melhor Atriz, no Festival de Berlim deste ano, com o filme On the Beach at Night Alone. Cheira-me a uma dinâmica realizador-atriz muito promissora, estou muito curioso.

   O estilo dele surge como uma mistura do estilo técnico típico do Wes Anderson com os temas e atmosfera da filmografia do Michel Franco. Como explicar? O filme é uma obra bastante autoral, silenciosa, calma ao contar a sua história, gravado maioritariamente com um movimento horizontal e um posicionamento estático da câmara. Imaginem Wes Anderson em preto e branco, deprimente e sem qualquer elemento de humor … é mais ou menos isso. Sendo assim, praticamente todas as conversas dos personagens (triviais ou não) são gravadas com os atores colocados de perfil, o que realça a expressividade do elenco, assim como a ligeira simetria dos próprios planos.

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     Ainda assim, o filme não é pesado, ao contrário daquilo que a própria trama insinua. Geu-hu é um filme para quem gosta de ouvir pessoas a conversar, a partilhar ideias, enquanto, estando o principal foco na resolução do problema principal. A abordagem do primeiro tema, o adultério, é inicialmente abordado de uma maneira leve, contudo, sem jamais perder o realismo ou seriedade. Há muitos silêncios e isso torna a experiência muito mais credível e palpável. Quando não estamos num dos momentos de maior exaltação (que já são poucos), Sang-soo Hong oferece-nos somente um tema musical singular e distinto. As transições das cenas deixam óbvia a entrada da música, porém o lirismo e a poesia são tão agradáveis que ficamos imediatamente consumidos pela deliciosa melodia ligeiramente incómoda e estridente. Há um contraste muito interessante.

     Os planos, como já disse, variam entre horizontais e estáticos. Contudo, alguns zooms exagerados acabam por não servir para grande coisa. Aparece, de vez em quando, um quadro, que discutivelmente têm um significado, mas outros são desnecessários, principalmente uns zooms in & out que permanecem mais no 1º Ato. Felizmente, isto dura pouco. Para melhorar, a fotografia ajuda a suavizar ainda mais a tensão que eventualmente surge durante o processo. É uma visão muito bonita da cidade pacata, complementada pela neve do dia e pela melancolia da noite. Alguns frames podiam até ser quadros lindíssimos.

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     Os diálogos tinham de ser bons, senão o filme fracassaria. De facto, podem não estar ao nível do filme Moonlight. Mas a recriação das duras conversas de um casal em crise é feita de maneira eficiente, incluindo bons silêncios, interrupções e os momentos adequados de discussão. Há muitos momentos triviais e esses são já tratados com menos cuidado. De vez em quando, são abordados alguns temas que, quando expressados por frases consecutivas, tornam-se artificiais demais. Para não falar da estranha escolha de incluir áudios das pessoas a lerem cartas e mensagens no telemóvel. Nessas situações, era muito mais interessante observar as reações do leitor.

     Já o elenco, faz o seu melhor e é responsável pela qualidade e verdade das cenas. O Hae-hyo Kwon retrata um homem cansado, frustrado, inicialmente colocado no papel da vítima, mas lentamente o desprezo do público por ele aumenta quando conhecemos o seu lado mais hipócrita, arrogante e quadrado.

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     A Min-hee Kim faz novamente um trabalho impecável e a sua personagem é a mais interessante. Mesmo a interpretação tendo momentos exaltados, são nos pequenos suspiros e revirar de olhos que ela me convenceu e que me chamou à atenção.

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     Já a Sae-byeok Kim e a Yoon-he Jo fazem um trabalho apenas respeitável (talvez mais a segunda). Não são as personagens mais interessantes, mas as atrizes cumprem o seu papel e não incomodam.

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     O final foi mantido no ponto de maneira bastante adequada. A resolução foi simples e terminou numa nota positiva, ainda que inesperada. Mas calma, neste caso “inesperado” não é sinónimo de twist à lá Shyamalan. O que é pena é que o final seria melhor se o filme terminasse 20 segundos antes, pelo menos nesse momento o shot seria perfeito. Infelizmente, o filme decide acabar com uma informação que o público já tinha obtido na cena anterior.

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     Geu-hu pode não ser mais um exemplo da excelência do cinema sul-coreano que tivemos nos últimos anos. Ainda assim, apesar de vários acertos técnicos necessários numa produção demasiado autoral, o filme merece atenção por ser diferente, minimalista, leve e refrescante.

 

Nota: B

Filme visualizado no Lisbon & Sintra Film Festival

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