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Vida de um Cinéfilo

Vida de um Cinéfilo

Good Time (2017) - Crítica

     Bom 2018! Primeira crítica do ano, vamos lá! Depois de um assalto mal-sucedido, Nick, um deficiente mental, é preso. Connie, o irmão mais velho, passa a madrugada a tentar arranjar maneira de o libertar.

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     O filme foi realizado pelos Irmãos Josh e Benny Safdie, sendo que o Josh co-escreveu o guião com o Ronald Bronstein. Não conhecia o trabalho da dupla, mas fiquei consideravelmente impressionado. O estilo deles é muito autoral e distinto, é um estilo de cinema muito psicadélico e desnorteante. Good Time é um filme sobretudo pessoal, é uma visão simultaneamente reservada e gritante dos irmãos cineastas sobre o interior de um indivíduo e a sua luta contra uma “noite muito má”, em que o mesmo é o seu próprio obstáculo. E, apesar de uma considerável lentidão no segundo ato, os realizadores conseguem achar equilíbrio entre o thriller noturno sobre um homem iludido em busca do irmão numa corrida contra o tempo e o drama individualista focado no estudo do personagem principal, sem se esquecer dos seus personagens secundários.

     Quer dizer, quanto aos personagens secundários o filme ainda peca bastante, sobretudo, como já disse, no segundo ato. Todas aquelas cenas arrastadas na segunda metade do filme devem-se a uma personagem feminina chata e desnecessariamente recorrida. Algo que podia também ser alterado é a presença ou a utilidade do Barkhad Abdi, um ótimo ator que tem recebido constantemente papéis insignificantes. A sua participação em Blade Runner 2049 (ler crítica) foi engraçada, mas fora Captain Philips, o ator somali não tem recebido nada digno do seu talento. E para acabar os pontos negativos, apesar de ter gostado bastante da atmosfera psicadélica do filme, há uma sequência de flashbacks que até é bem editada, mas é totalmente desnecessária para contar aquele bloco da história, bloco esse que já tinha ficado esclarecido com um diálogo rápido e simples.

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     Algo pelo qual estaremos eternamente gratos para com os Irmãos Safdie foi a boa direção que estes deram ao Robert Pattinson e por terem conseguido levar a ambição do antigo vampiro para outro nível. O ator de Twilight era melodramático, inexperiente e, aparentemente, tudo menos talentoso. Não é mais o caso. Pode parecer pronto dizer-se isto, mas a sua performance lembrou-me muito a da Kristen Stewart no ótimo filme francês Personal Shopper, do ano passado, onde esta ficou definida como uma excelente atriz depois dos seus pequenos papéis secundários emergentes. Ambos têm talento e merecem aplausos.

     O personagem do Robert Pattinson é tudo menos um bom homem. Ele é um autêntico mentiroso manipulador, hipócrita, insensível, controlador, imaturo, imprevisível e altamente desequilibrado. Trata-se de um homem odiável, mas é extraordinário o facto do Robert Pattinson conseguir extrair carisma da sua interpretação e posteriormente carregar a trama às costas quase sozinho. O amor que sente pelo irmão é genuíno, mas as suas intenções finais acabam sempre por ser maliciosas. No entanto, temos a estranha vontade de o ver a suceder.

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     Como já disse, o filme tem problemas com alguns personagens secundários. No entanto, o Benny Safdie (um dos realizadores) merece destaque pela sua fascinante interpretação. O Nick é um homem afetado pela influência que tem tido do irmão vais velho. As suas atitudes são condicionadas pelo medo disfarçado que tem do irmão e do resto da sociedade, na qual tem uma constante dificuldade em se adaptar. A cena inicial, em particular, é inesperada e triste. A Jennifer Jason Leigh merece também ser destacada, devido à sua curta, mas ótima participação.

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     A câmara dos Irmãos Safdie é estupenda. Em termos de variedade, não há muito que se lhe diga. Mas dentro daquilo que é oferecido, a escolha dos planos é deslumbrante. A começar pelos close-ups extremamente claustrofóbicos e desconfortáveis e takes longos. A dupla raramente opta por planos abertos, cortando apenas para panorâmicas ou shots aéreos da cidade. É uma experiência incómoda, mas muito eficiente. Isto também graças à excecional fotografia vermelha, suja e vibrante do Sean Price Williams e à psicadélica e estridente banda sonora do Daniel Lopatin.

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     Good Time certamente vai desagradar e incomodar muita gente devido ao seu realismo e violência. No entanto, devemos reconhecer que esta é uma obra ambiciosa, corajosa, audaciosa e positivamente pesada e desconfortável. Os Irmãos Safdie têm uma enorme e promissora carreira pela frente, assim como o excelente Robert Pattinson.

 

Nota: B+

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