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Vida de um Cinéfilo

Vida de um Cinéfilo

Jesse Pinkman - perda da inocência, martírio e ressurreição

Continuando os artigos dedicados ao 10º aniversário de “Breaking Bad”, este será uma análise do arco do Jesse Pinkman, o agarrado e traficante mais adorado da Televisão.

Para quem não sabe, isto será uma surpresa. O criador de “Breaking Bad”, Vince Gilligan, pensou séria e decididamente em matar o Jesse no final da 1ª temporada. Como podemos supor (e, de seguida, confirmar) a interpretação surpreendentemente reveladora e promissora do Aaron Paul demonstrou a fáceis possibilidades de explorar o personagem, tornando-o num dos mais carismáticos de toda a trama televisiva, cuja primeira temporada arrecadou precisamente 2 vitórias em 4 nomeações nos Emmys de 2008.

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Sugerido: Walter 'Heisenberg' White - violência e a perda da insignificância

Sendo assim, pensemos: De que maneira é que o Jesse Pinkman evoluiu de um reles traficante de droga para um jovem maturo, sério e moralmente inspirador? Assim como para um dos personagens mais fundamentais no programa em si, como no arco do próprio Walter White.

 

Criança num mundo imoral

 

Ao longo da série, fica claro que o Jesse é o personagem mais pacífico da mesma. Na verdade, se assistirem a vídeo-ensaios ou a artigos espalhados pela Internet fora, perceberão que a opinião não costuma estar dividida em relação ao sidekick do Walter White (ao contrário deste mesmo). O Jesse não passa essencialmente de uma criança. Usa uma linguagem especificamente infantil (bitch e yo), tem raciocínios divertidos e risíveis, veste roupas exageradamente grandes e, por vezes, age de maneira impulsivamente irresponsável. Talvez todo este lado jovem seja extremamente relevante para entendermos a razão pela qual o Jesse é também uma pessoa deslocada no mundo do narcotráfico e, principalmente, um miúdo abandonado. À procura de benefício financeiro fácil e rápido, mas também de fazer o mais correto sempre que possível.

“Yeah, Mr. White! Yeah, science!”

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“Yeah, it’s a disease on the Discovery Channel where all your intestines sort of just slip right of your butt.”

O Jesse tem um doce fascínio pelos mais fracos. Sente simpatia por uma mera barata, pelo puto desconhecido, indefeso e maltratado na casa dos dois agarrados que roubam o Skinny Pete, deixando-se também afeiçoar ao pequeno Brock. Para além disto, ama o irmão mais novo, sem se sentindo, de maneira nenhuma, ameaçado pela sua presença. Tem perfeita noção que os pais querem proteger o irmão e que se dedicam mais ao mesmo, precisamente para permitir o crescimento dos seus talentos artísticos e intelectuais, evitando que este tome o rumo do irmão mais velho. Apesar de ser o Jesse quem assume a culpa pela existência daquele inesperado charro. Esta atitude serve como um foreshadowing para o sofrimento que o Jesse teria futuramente. Sofrimento esse nem sempre da sua responsabilidade.

Por um outro lado, mesmo o Jesse entendendo melhor o cruel funcionamento das ruas, o Walter tem um papel mais importante e rapidamente acessível. Num mundo imoral, perigoso, sujo e violento como o de “Breaking Bad”, o Jesse é basicamente um intruso irritante, alguém injusta e tragicamente incapaz de se proteger e de fugir dos atos violentos que caiem sobre si. Lentamente, a sua inocência, que apenas existe precisamente neste show de horrores, é corrompida e destruída. Claro que os seus problemas da droga desfazem esta imagem pura. A verdade é que o Jesse é inicialmente um agarrado e que dificulta a sua própria produção e ascensão. Não é propriamente uma imagem inocente aos olhos de qualquer sociedade ocidental. Mas não nos esqueçamos das razões que levaram o jovem Pinkman a se afeiçoar ao melhor cozinheiro de metanfetaminas dos Estados Unidos, apesar de todos seus conflitos e divergências.

 

Toxicidade e disfuncionamento da relação paternal

 

Pensemos na situação do Walter – um homem diagnosticado inesperadamente com cancro do pulmão, cuja vida lhe passa à frente dos olhos, constantemente ridicularizado e financeiramente frustrado –, que conhece alguém igualmente necessitado. Jesse – um miúdo com uma mente ambiciosa e infantil, sem nunca ter recebido a atenção necessária dos pais –, acha no Walter a melhor (ou pior) figura paternal que alguém podia pedir. O Jesse é a primeira pessoa a reconhecer o génio adormecido e desvalorizado no Mr. White. “Arte” é o que chama à primeira metanfetamina do seu antigo professor. Para não falar no respeito enorme que existe desde o princípio. “Mr. White” é exatamente o nome que ouvimos em toda a série da boca do Jesse para se referir ao seu tutor. Não há apenas respeito, há dependência, admiração, inspiração e um amor progressivamente maior.

No entanto, por muito valor que o Walter dê ao seu parceiro, há que reconhecer um outro motivo de peso que o leva a trabalhar com o mesmo – o seu frágil ego. Devido ao seu orgulho e sentido de superioridade, Walter jamais pode receber ordens ou ser contrariado. As coisas devem ser feitas à sua maneira. Deste modo, todos os seus erros provenientes de atitudes impulsivas e consequentes efeitos caem em cima de ninguém mais, ninguém menos que Jesse. Basicamente, esta relação apenas existe para que todos os danos causados pelo Walter caiam sobre o Jesse. Este é espancado pelo Tuco depois de tentar expandir o território, é nova e fortemente espancado pelo Hank, iludido acerca da hospitalização da Marie; acorda ao lado da namorada morta depois da visita noturna do Walter e descobre que este envenenou o inocente Brock. Juntamente, ainda se sente culpado pela colisão dos aviões e é forçado a matar o excêntrico apaixonado por química Gale, o último responsável de todos os males da série. Posto isto, quando não está a sofrer pelos pecados dos outros, o Jesse está a se autodesvalorizar, martirizar e culpar. Deixando-se cair cada vez mais fundo, deixando de poder ver esperança em qualquer relação com o Mundo.

“You either run from things or you face them, Mr. White. It’s all about accepting who you really are. I accept who I am. I’m the bad guy.”

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“I’m not turning down the money. I’m turning down you! You get it? I want nothing to do with you. Ever since I met you, everything I’ve ever cared about … is gone. Ruined. Turned to shit. Dead. Ever since I hooked up with the Great Heisenberg. I’ve never been more alone. I have nothing!”

Há tanta coisa para dizer, que se podia fazer um artigo apenas dedicado à cena da morte da Jane, discutindo intermitentemente acerca da culpa do Walter. Devido à sua maliciosa transformação, este torna-se nocivo, deixando que o Jesse se torne numa figura apenas presente na série para sofrer. Claramente, os mais religiosos repararam na alegoria. Jesse nada mais é que uma figura semelhante a Cristo, um filho de um Deus, que veio à Terra para sofrer pelos pecados dos criminosos de “Breaking Bad”. Sendo assim, se o Jesse é praticamente um filho do Walter (ou do Heisenberg, no mundo da droga), fica claro que a intenção do Vince Gilligan era mostrar como seria Jesus se fosse filho de um Deus maldoso, de um Diabo, de um Ser glorificador de e glorificado pela violência. Há várias maneiras de sustentar esta teoria: o gosto de Jesse por carpintaria, o isolamento em cativeiro, o crescimento da barba e do cabelo, entre as outras já referidas.

 

Capturado, escravizado e renascido

 

Como acabo de dizer, o Jesse perde as razões para se agarrar à vida. “What’s the point”, questiona-se. Qual é o propósito na nossa vida se, façamos o que fizermos, saímos sempre física ou psicologicamente magoados? Com “Breaking Bad”, aprendemos que, por muito erradas que sejam determinadas atitudes realizadas para o bem da comunidade ou do meio familiar (ainda que na ilusão ou negação pessoal), as boas intenções, a inocência e a virtude são sempre castigadas mais severamente. Acabando no auge da decadência e da miséria, o Jesse é punido pela sua vontade de deixar o narcotráfico e de denunciar o antigo mentor à DEA. Nos seus últimos episódios, “Breaking Bad” acompanha a última vingança de Walter, em direção ao covil suprematista da escuridão, já sem nada para perder. Porém, o caso dos dois personagens não é idêntico. O espectador é desafiado a deliberar acerca da razão que levou Walter a salvar o Jesse. Depois de toda a maldade que este causou sobre o seu filho, porque é que o Heisenberg o salvou?

Primeiro, o Jesse não pode apenas sair da sua jaula, participar no assassinato do Todd ou do Tio Jack, pegar no carro e fugir por aquele mato fora. Sendo uma figura martirizada, é necessário que este renasça quase literalmente – das trevas em direção à luz. Semelhantemente como o Bruce Wayne fez em “The Dark Knight Rises”. No entanto, para isso, precisou de passar por mais uma prova, um teste … um desafio. O Universo deu a oportunidade ao Jesse de, pela primeira vez, se impor genuinamente contra a origem os seus males – a própria figura paternal. Depois de inúmeras regras bem ou mal cumpridas, teve de se libertar e revoltar contra o seu Pai diabólico, mostrando-lhe que jamais cederá novamente.

“Mr. White … he’s the Devil. You know, he’s smarter than you, he’s luckier than you. Whatever you think it’s supposed to happen, I’m telling you, the exact reverse opposite of that is gonna happen.”

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“-Say the words. Say you want this! Nothing happens until I hear you saying it!

-I want this.

-Then do it yourself.”

Contudo, há ainda outra discussão. Será que o Walter salvou o Jesse por, de facto, o amar incondicionalmente apesar de todo o mal que lhe causou? Ou, apesar de obter tudo aquilo que queria antes de morrer, pensou paralelamente de modo egoísta no futuro do seu nome, na possibilidade de manter o Heisenberg ainda mais vivo? Afinal, depois do Todd ser brutal (e feliz)mente assassinado pelo Jesse, apenas duas pessoas vivas conheciam a receita lendária de metanfetamina. Sendo que uma delas tinha acabado de ser alvejada e cujo cancro havia regressado. Será que o Heisenberg pensou em deixar o respetivo legado vivo através do seu filho, que o conhece melhor que ninguém? Não sabemos. Nunca saberemos, aliás. Mas esta é a dúvida permanente que dá tanta ternura ao último olhar trocado entre o Walter e o Jesse. Aqueles olhares compostos por lágrimas, sorrisos subtis e acenos de cabeça dizem muita coisa. Deixar a série com uma nota mais emocionante e ambígua que esta seria impossível. O Aaron Paul e o Bryan Cranston agarraram esta experiência com unhas e dentes. Tal que dificilmente a amizade entre os dois atores criará melhores memórias que as criadas no set de “Breaking Bad”.

 

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