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Vida de um Cinéfilo

Vida de um Cinéfilo

Last Flag Flying – por uma sincera gargalhada

Assombrados funebremente por tanta miséria expressa na forma de derribadas gravatas negras, mãos levemente acariciadas e partilhadas, infinitas e pesadas lágrimas, ensopados lenços de papel e lutuosas lamúrias, os casais choram ao observar a chegada dos caixões dos filhos a um desalentado e cinzento aeroporto militar em Dezembro de 2003, após uma violência sem requisição os ter caçado e impedido de rever o acolhedor e caloroso lar, na esperança de encontrar novamente a família sentada à mesa bem iluminada e constituída das melhores refeições em época tão tradicional como a natalícia. Voltam do Iraque sem nada mais a oferecer senão um grande ecoponto individual de prata brilhante e polida, coberto por uma insípida bandeira, metaforicamente ensanguentada com as mentiras que formulam o Governo cumpridor do seu regular (e autoassumido) dever, aquele que destrói espíritos parentais, mas jamais descredibiliza o indispensável patriotismo aos seus estatutos de exemplares cidadãos.

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Confrontados com as maiores ameaças comprometedoras daquela desumana falta de ética institucional, as organizações optam por pintar uma venenosa realidade que apenas suspende por mais uns quantos anos a aportada da amargura de quem assistiu ao estado mais primitivamente selvagem do ser humano, com inseparáveis reservas psicológicas que lhe indicavam que toda a insana adrenalina que lhe corria pelas veias era, na verdade, uma guerrilha moral, um confronto com um inimigo capacitado para colocar em perigo toda a superior civilização que o abrigava a si e aos seus. Com décadas à mistura numa definhada equação existencial, a personalidade molda-se e chega-se à conclusão que nenhuma percentagem do sangue, do vómito, das nódoas negras, dos terrores que se reteve daqueles dias se traduzia na pretendida harmonia geopolítica. De maneira nenhuma aquela indescritível hostilidade ia além da ganância corporativa disfarçada de propaganda moralista que lidava com os seus crentes numa condição de meros bonecos substituíveis num tabuleiro de xadrez. Os injustiçados, em manifestações da sua insatisfação, alcançam uma leve substância de vingança, na forma da rápida humilhação das personalidades do explorador e brutal meio militar. E, com lodo e sangue nas mãos, viram-se de costas, caminhando para um lugar seguro, não encarando, no entanto, em pósteros caixões que se avizinham.

O repositor de stocks na Navy Exchange Larry ‘Doc’ Shepherd, o barman alcoólico Salvatore Nealon e o Reverendo Richard Mueller são os protagonistas de “Last Flag Flying”, comédia-dramática de Richard Linklater. Na história baseada no homónimo romance de Darryl Ponicsan (o segundo guionista), publicado em 2004, o realizador da trilogia “Before” e de “Boyhood” filma o reencontro de três amigos cujos caminhos se cruzaram primeiramente em serviço militar no Vietname e se entrelaçam 3 décadas depois, na sequência do falecimento do jovem filho de Doc, enquanto soldado na Guerra do Iraque. Juvenis e irresponsáveis mundanidades como bebedeiras, charros, loucas festas de jogo e casas de alterne compunham os negros dias dos jovens que, horas antes ou horas depois, apenas se recordavam da morte de companheiros desamparados, tal como estes, numa guerra que não lhes pertencia, abrigados por um iludente presidente com escritas e ensaiadas falinhas mansas para apaziguar os familiares que recebessem a trágica notícia acompanhada pela mais indistinguível e insensível encomenda – um pedaço de tecido embrulhado. Para se libertarem da angústia na qual viviam, os três soldados viviam os seus dias como se fossem os últimos, no desconhecimento relativamente à duração do seu próximo suspiro. Estavam mortos, embora vivos.

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Os anos decorrem sem aviso, os passos dos inseparáveis companheiros são divididos e, de modo inelutável e efémero, as personalidades modificam-se, sem que a culpa possa ter atribuída necessariamente a alguém. Simplesmente, é assim a vida. As mentalidades estagnam no tempo ou alteram-se, tanto para melhor ou pior, entenda-se, no filme americano de 2017, desde abraçar as manuscritas ordens alegadamente divinas para escarnar o benefício alheio e popular ou se submeter vitaliciamente a uma sarcástica e pessimista amargura. São estas as pessoas que conhecemos: um deprimido e acanhado pai que acaba de rever caras antigas após perder o filho, reprimindo já a dor da recente partida da esposa derrotada pelo cancro da mama, suavizando a tragédia, dentro do possível, refletindo sobre o preço e o fruto da guerra, olhando de relance para os defuntos Saddam Hussein e respetivos filhos; um padre memorado pelos mais promíscuos e carnais comportamentos juvenis (mais que a alcunha) com um repousado tom de voz e um carismático altruísmo; e um jovem naturalmente infantil que virou a página para uma provocadora e divertida, ainda que torturada e inconveniente inexistência de crenças espirituais além da sua carne, tão fortemente decidido das bacoradas que dispara sem reflexão prévia e do cinismo que levará para a cova, não menosprezando, no entanto, a necessidade e o gosto em ajudar o próximo e em obstaculizar patranhas.

“-Thirsty? That went down awfully quick…

-I’m drinking for two now that you got all old and boring.”

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“Oh fuck me, I miss those days when you had a boner you could hang a towel on. Jesus, I used to have a Johnson that would stand up and watch me shave. Now, he just watches me pull up my socks…”

Os personagens, tão bem desenvolvidos e inseridos no conflito, estabelecem de imediato reguladas interações de amizade. A verdade é que um caos sociopolítico e 30 anos adicionais impediram que tais relações perdurassem no tempo. Daí que presenciar um reencontro não bastou para os três estarolas falhados fornecerem aos outros calorosas faíscas de amizade. Todos se distanciam involuntariamente ao início, dado o choque de novas realidades e carateres. Mas não teríamos filmes se tal isolamento individual permanecesse. Se, no princípio, Doc, preso ao reservado e escondido furacão de emoções que lhe pairavam pela mente e pelos olhos tumultuosos, se abstraísse de todas as discussões passivas ou agressivas entre a benevolência religiosa de Mueller e o ateísmo azedo de Sal, mais tarde, juntando à equação humana o abalado e simpático soldado Washington, colega do falecido filho de Doc, nenhum  dos membros que partilhavam divergências abraçariam as mesmas em plena e tão esporádica manifestação de gargalhadas. Das mais insignificantes às mais introspetivas. Pela primeira vez, numa genuína e hilariante sessão masculina de storytelling das velhas aventuras partilhadas dentro da hostil névoa vietnamita e debaixo das balas do inimigo, observamos Doc a rir. A rir com vontade e ânimo. A chorar a rir, praticamente a perder o ar. Ao seu lado, sentado na carruagem de mercadorias, permanece o embrulhado caixão do filho, na demorada viagem de regresso, em direção ao cemitério. Mas nada disso importa naquele momento. O que mais importa é partilhar eufóricos e saudáveis risos com os (literais) parceiros de guerra, curando a tristeza, assassinando-a possivelmente de vez, suspendendo a eterna relevância das questões mais fúnebres relativas ao ser humano, assim como a revolta gerada pelo anético serviço político-militar norte-americano, escarnecido e revelado de variadas maneiras no cinema.

O tom do filme injustamente inapreciado e desvalorizado eleva o espírito a qualquer indivíduo que dê a autêntica importância às amizades que nos correm pela memória durante anos, décadas, uma vida. O trabalho de câmara do cineasta americano, com “Where’d You Go, Bernadette” – trabalho protagonizado por Cate Blanchett – a chegar este verão, é funcional, priorizando o texto e as magníficas interpretações do trio Steve Carell, Bryan Cranston e Laurence Fishburne, ocorrendo, na necessidade de um delicado deleite à sua própria visão e à do espectador, a abertos planos sequência, captando toda a sala e o triângulo protagonista, à edição paciente e vagarosa da Sandra Adair, autorizando a história a tomar intervalos e consideráveis desvios (dois molestos plot holes), e à irretocável fotografia do Shane F. Kelly, gélida e calorosa nos acertados instantes respetivos. Conjugando o conforto cinematográfico com uma agradável banda sonora composta, na sua maioria, por jazz, da autoria do Graham Reynolds, o peso temático sentimentalista e relevante de “Last Flag Flying” é elevado o suficiente para sustentar fortes estudos do trabalho de Richard Linklater que, aliás, não ficou refém das massivas expectativas que se criaram histericamente à volta de “Boyhood”, o "querido" de Hollywood de 2014. O irónico é que, engrandecido o seu suposto máximo potencial 3 anos depois, ninguém dispensou parte da sua atenção (ou dinheiro) a uma das melhores ofertas do ano.

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Por muito que pareça, não é tanto o patriotismo que une e reúne os três parceiros, mas sim a responsabilidade de representar quem nos ama e quem amam. Ou seja, pode parecer incoerente a deambulação entre tecidas críticas ao sistema e as sublinhadas saudades da juventude. Fosse na escola secundária, na universidade ou numa guerra módica, aqueles que se encontram no começo da vida desejam viver ao máximo, relembrados os nutridos companheirismos e os exíguos lugares no Universo. Findando pela idade e demarcados por evoluções geracionais, mas jamais solitários. Ao longo da sua filmografia, o subvalorizado autor valoriza o riso e a sua função elementar na condição do Homem, instituindo “Last Flag Flying” à culminância desta maravilhosa mensagem – a substituição de um antidepressivo por uma sincera gargalhada.

 

Nota: A-

 

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