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Vida de um Cinéfilo

Vida de um Cinéfilo

Madre Paula T1 (2017) - Crítica

     Baseado no romance homónimo da Patrícia Müller, a nova série da RTP decorre no Século XVIII e acompanha Paula, uma jovem de origens pobres que, como habitualmente acontecia, é mandada pelo pai mercante para um convento. Na sua nova vida, esta evolui pessoal, religiosa e sexualmente, passando por diversas experiências, uma delas sendo o desenvolvimento de uma intensa e inesperada relação com D. João V, o magnânimo rei de Portugal.

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   Todos os episódios foram escritos pela Eduarda Laia e realizados pelo Tiago Alvarez Marques e Rita Nunes. Como podemos ver, para além destes cargos, há uma considerável e bem-vinda participação das mulheres nesta nova produção audiovisual nacional. A trama centra-se, na maior parte do tempo, num triângulo amoroso composto por duas personagens femininas, aliás excelentes personagens. Para além disso, é passado muito tempo no Convento de Odivelas, por isso, há um forte e importante desenvolvimento de todo o elenco feminino, que tem uma clara capacidade de se sobrepor ao elenco masculino, que ainda assim também faz um ótimo trabalho. Mas desta vez o show foi quase todo das mulheres. Muito bem, RTP!

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    Para além desse acerto, Madre Paula é um produto sobretudo raro de se encontrar na televisão portuguesa, tanto no que diz respeito ao cuidado narrativo como à própria estética. É uma série paciente e com um enorme cuidado a detalhes técnicos e simbólicos, relevantes para o avanço da trama. Mas começando pela estética. Primeiro, a fotografia é distinta por diversos motivos: o realce, a clareza e a limpeza de cor, os diversos contrastes, a iluminação maioritariamente feita com luz natural nas cenas diurnas ou com somente velas nas cenas noturnas, alguns close-ups que tornam as cenas mais tensas ainda mais claustrofóbicas, lindíssimos planos abertos e/ou panorâmicos da vasta paisagem natural, selvagem, simultaneamente densa e, por vezes, obscura, tão caracteristicamente portuguesa, assim como os planos interiores da vida da Coroa e Corte que revelam o lado luxuoso dos membros da família real e dos nobres do Século XVIII. Tudo isto acompanhado por um guarda-roupa impecável, maquilhagem e penteados vistosos, um design de produção completamente convincente e uma banda sonora monstruosa.

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    A música, aliás, sempre foi um dos meus fatores favoritos. Os temas são facilmente reconhecíveis e distintos, o que acaba por dar uma identidade única à série. As cenas da Corte e das diversas discussões no Parlamento são acompanhadas por uma pesada e irresistível percussão, enquanto as cenas mais comoventes são complementadas com melodias maravilhosas que falam pelos personagens nos diversos silêncios.

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    Os diálogos são outro acerto. Eu sempre me queixei da falta de realismo e excesso de obviedade nos argumentos audiovisuais portugueses, sejam de filmes ou séries (é que nem vamos falar das novelas). Madre Paula faz algo que me satisfaz sempre – recorre aos silêncios quando necessário. Duas personagens discutem no meio de agressivas palavras, mas também partilham momentos silenciosos em que nada conseguem dizer uma à outra, recorrendo apenas a dispersas frases mundanas demoradas. Tal processo ajuda o elenco a improvar as suas interpretações e a gerar mais humanismo nos personagens.

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    Falemos finalmente do elenco. A Joana Ribeiro está maravilhosa, está perfeita! Ela é a definição de uma personagem romântica portuguesa (no verdadeiro sentido da palavra). Ora atravessa um período de absoluta felicidade e preenchimento pessoal e sexual, ora cai para uma desgraça absurdamente profunda resultante da regular falta de atenção do amor da sua vida. Adoramos vê-la a sorrir no meio daquele rosto lindíssimo, porém nem sempre a acompanhamos na sua desgraça, pois sabemos que muitas vezes esta passa dos limites das suas exigências. Ela é teimosa, controladora, provocadora, sedutora, tímida ao mesmo tempo e altamente vingativa. Todas as suas atitudes autoritárias posteriores à sua relação com o Rei por vezes são cruéis e demonstram uma certa falta de humanidade. É uma personagem riquíssima e que manifesta no seu público inevitáveis sentimentos de raiva, mas também de pena. Uma futura personagem clássica!

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     O Paulo Pires está impecável! Para além de ser um honesto retrato de um Rei português (autoritário, impaciente, manipulador e altivo) mostra ainda um lado muito humano. Quando conhece a Paula, este pensa que terá mais uma amante nas suas mãos, até se aperceber o quão frágil, facilmente manipulável e pequenino ele na realidade é. A sua presença é tal e qual magnânima como devia ser e o carisma que este tem é inegável. É um dos melhores trabalhos do ator, sem dúvida. O que gostava de ter visto era uma maior importância dos príncipes reais, dos filhos dele. São mencionados ocasionalmente, mas nunca o vemos a interagir uma única vez com nenhum deles.

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     A Sandra Faleiro é uma ótima atriz e interpreta uma Maria Ana de Áustria odiável e repugnante, repleta de mesquinhices, provocações intermináveis e comportamentos demonstrativos de uma inveja irracional. O casamento monárquico nada mais era que um acordo político, porém, não é impossível se meter no lugar dela. No fim, é apenas uma mulher solitária, rejeitada e que nunca recebeu a importância ou atenção que quis. A personagem é muito bem escrita, no entanto, o que estraga constantemente a interpretação é o sotaque meio austríaco que a atriz de todo não sabe fazer. A opção era contratar uma atriz francesa que soubesse falar português.

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      De resto, todo o elenco varia de funcional a espetacular. O trio Miguel Nunes, Romeu Costa e André Nunes é um ótimo grupo de antagonistas, sendo o Miguel Nunes aquele que mais se destaca. A rivalidade entre os irmãos Infante Francisco e João V é quase imediata e o personagem é impressível, detestável e ameaçador. De resto temos um Guilherme Filipe carismático como sempre e com uma presença extremamente amigável, uma Maria José Pascoal sábia e acolhedora, uma Maria Leite pacífica e calorosa e uma Joana Pais de Brito coscuvilheira, trabalhadora, engraçada como sempre, mas não menos sentimental.

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     Há algo que acontece com a Paula lá para o fim da série que podia englobar todo o conflito à sua volta. A transição e todos os meses que passam de um episódio para o outro é um problema recorrente. Quem viu sabe do que falo.

     A série, para além de nos presentear com irresistíveis doses de erotismo poético e cenas de sexo explícitas, é ainda uma história sem quaisquer receios em explorar temas com os quais a televisão atual opta por abordar com estratégias conservadoras. Para além de relações adúlteras da Corte portuguesa, ainda são abordados temas como homossexualidade, a importância da perseverança de acordos políticos, as falsas promessas da Igreja e as hipocrisias que dela surgem, os ódios gerados por diferenças monetárias, assassinatos, traições, raptos, aprisoamentos e execuções macabras e desumanas realizadas pelos ditos Homens de Deus.

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    No fim, Madre Paula é uma raríssima obra audiovisual do panorama televisivo nacional, devido à sua riqueza temática, ao olho preciso a detalhes estéticos e à sua audácia e coragem no retrato político e social de um poderoso país europeu no Século XVIII, sem jamais perder a tão distinta e importante identidade daquilo que é português.

 

Nota: B+

 

Também podes ler as minhas críticas no Cinema Pla'net.

Para veres os episódios completos, podes aceder à RTP Play.

 

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