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Vida de um Cinéfilo

Vida de um Cinéfilo

"Matchstick Men" ainda me faz pensar

Um dos meus mais recentes e prazerosos hábitos é fazer a minha vida não ao som de música (como a generalidade das pessoas normais), mas sim ao som de trailers. Sim, trailers de filmes ou séries. Sim, é estranho. Mas, em ligeiras porções de tempo, dá-me um enorme gosto reouvir uma mísera segmentação de algo que já tenha visto ou que queira ansiosamente ver. “Green Book” e “Good Omens”, da Amazon, têm sido as principais cobaias. Contudo, é “Matchstick Men”, do Ridley Scott, que teimosamente não me sai da cabeça. Desde há uns meses (desde o primeiro e inesquecível visionamento do filme de 2003) que os diálogos do personagem obsessivo-compulsivo e germofóbico do Nicolas Cage permanecem insistentemente na minha memória. Sabia que adorava o que tinha acabado de ver e que tal ficaria comigo durante muito tempo. Nunca pensei, no entanto, em tal afetividade e relação direta. Facto é que, neste pouco tempo, já vi e revi a única comédia negra do realizador de “Blade Runner” incontáveis vezes. Não podia continuar a abdicar 2 horas diariamente, ainda que me fossem extremamente rápidas, mas que, lá está, me extraíam produtividade de outros sítios. Simplesmente, nos graciosos intervalos de tempo, aproveito para pescar mais um pouco de entretenimento daquelas deliciosas cenas no psicólogo e na casa enjoativamente limpa do Roy Waller. Obrigado, YouTube. “Matchstick Men” pode não ocupar o pico da minha lista de eleição cinematográfica, mas certamente permanecerá estabelecida como a entrada mais arrojada e inesperada possível. Sabem aquela sensação de quando descobrem uma obra-prima que aparentemente apenas uma pouquíssima parte da comunidade cinéfila está ciente de existir, ali no fundo da prateleira? Sabem o pensamento de “Como é que este me passou totalmente ao lado?”.

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“Matchstick Men” toucou-me mais do que alguma vez esperei. Por razões óbvias, não sou pai (nem lá perto) de uma perdida adolescente temperamental nem pretendo construir uma reconhecida carreira de burlão, invariavelmente obtendo camadas incontáveis de dinheiro para nenhum objetivo pessoal esclarecido. O que destaca a execução desta história em particular dentro da filmografia do Ridley Scott (numa adicional e incompreensível subvalorização que o eternamente persegue, longínquos os seus grandes dias de ficção científica) é o fator camuflagem. Com certeza que uma das maiores intenções dos guionistas Nicholas e Ted Griffin ou do romancista Eric Garcia fosse desviar as atenções de uma camada temática mais sentimental. No entanto, mais uma vez, o mérito do realizador não poderá cair no esquecimento. Os anos 2000 já estavam a correr lindamente para o cineasta inglês. Recordadas as anómalas receções críticas em toda a sua carreira, o realizador de “Alien” virou a esquina entre séculos vendo o seu “Gladiator” a receber o Óscar de Melhor Filme (ainda que perdendo o de Melhor Realizador para Steven Soderbergh, por “Traffic”) e entrou em 2001 com duas ofertas – a mediana “Hannibal” e a estrondosa “Black Hawk Down”. Facto: com certeza que ocupar-se de inúmeros projetos todos os anos será menos complicado quando nenhum dos conceitos que adaptamos às grandes telas é da nossa autoria – veio ao mundo após longos e cansativos estímulos cerebrais de criatividade. Quando explorava o IMDB em mais uma das minhas modestas e padronizadas pesquisas, descobri que o senhor à frente de algumas das maiores relíquias do cinema nunca escreveu nenhuma daquelas. Nem soube se ficava desiludido ou orgulhoso. Optei eventualmente pela segunda hipótese. Desengane-se quem pensa que um realizador terá de ser necessariamente o autor direto de uma história. Aproveito para declarar, no entanto, que contra mim falo. Os meus realizadores preferidos são autênticos autores – Christopher Nolan, Quentin Tarantino, Woody Allen e Stanley Kubrick. Contudo, algo de particular existe na mente de um artista (também ele um atarefado produtor) que constantemente aceita argumentos que os estúdios lhe apresentem. Nas mãos de um realizador inferior, escusado será dizer que maravilhas como “Alien”, “Blade Runner”, “Thelma & Louise”, “Gladiator” ou “American Gangster” nunca apresentariam tamanhas exímias qualidades presentes na obra de um específico cineasta que, de vez em quando, em prol da necessidade de pagar contas, nos oferece obras desmerecedoras de atenção ou louvor.

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E em “Matchstick Men” acontece exatamente isto (desculpem a enorme divagação anterior). Numa entrevista da distribuidora no retraído e minimalista estúdio de gravação da banda sonora, as palavras de Hans Zimmer foram sublimes para exemplificar o que era feito – “In a funny way, this was always going to be our, you know, little movie in between during some huge, big, you know, Leviathan off something else. And, of course, it ended up being, you know, certainly, I think both for Ridley and me, the one we spent the longest time on.” – Haverá palavras mais capazes de demonstrar o prazer que estes dois senhores mantinham em trabalhar? No verão californiano de 2002, sobretudo para dois dinossauros das suas áreas, não seria recomendável andar a correr no set de produção de algo que eventualmente ninguém veria. Todavia, para a felicidade de nós – amantes de bom cinema –, na sua correta definição, “Matchstick Men” é tudo menos um filme pequeno, é tudo menos uma história pequena. A reviravolta final vale devido àquilo que se constrói debaixo dela, impactando o espectador investido. Só que a questão é esta: o maior valor da comédia de crime está na sua camada interna, na sua derme emocional.

“I’m not very good at being a dad, ok? You know, I barely get by being me.”

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“-She said you were a bad guy. You don’t seem like a bad guy.

-That’s what makes me good at it.

-Well, I don’t think you’re a bad guy.”

“Que rica menina…”, pensou ele, chegando a casa, vendo-a estendida no sofá, tapando-lhe com um cobertor. Monótonas manhãs a roubar idosos, tardes infelizes a fumar e noites solitárias a comer enlatados incolores e acompanhadas por discos de vinil, os dias de Roy foram substituídos, ganharam um novo sentido – esperar que a filha chegue a casa de madrugada depois de uma irresponsável saída para servi-la o primeiro repreendimento. Trabalhar sem vontade, sem prazer e sem significado moldava a vida de um homem desconfortável na própria pele, que procurava controlar as (hilariantemente descritas) tendências suicidas provenientes de cada novo episódio de migalhas espalhadas pela carpete ou de janelas embaciadas, ambos capazes de suscitar vómitos ou uma repetitiva manifestação de espasmos. O aparecimento (igualmente arrojado e talvez indesejado) de uma intrusa, um ser humano “inteligente, inocente, bonito”, alguém que, sem permissão (neste caso), arromba a porta que nos devia esconder do resto do mundo e manter a nossa privacidade, característica (ou não, no caso de Roy) de hábitos mulherengos e despreocupados. Se a relação em causa fosse biologicamente verdadeira, certamente que toda a massa monetária de Roy Waller reservada para coisa nenhuma seria eventualmente canalizada na melhor educação possível para a sua descendente. Não aconteceu, para o seu infortúnio. Mas tudo bem, conquistou a sorridente senhora do supermercado e espera-lhe na barriga desta uma segunda hipótese. O homem que chegará à idade adulta desiludido pela falta de conquistas pessoais sempre se poderá alegrar e manter movido quotidianamente, fruto da única coisa boa que pode gerar – uma vida. “Macthstick Men”, deste modo, pode ser interpretado como mais uma metáfora para a parentalidade (os seus antecedentes, preconceitos, medos, perigos… as vitórias) superiorizando-se aos recentes e badalados “A Quiet Place” e “Bird Box”. Saber abdicar da nossa disposição e rotina (“things a certain way”), mascarar o nosso interior negro e destrutivo e adaptar-nos às mesquinhices de quem amamos. É muito isto que se retém. A relevância temática, psicológica e existencial do terceiro melhor filme do Ridley Scott, aliadas ao imprescindível valor de entretenimento desenvolvido unicamente pelas interpretações, pelos diálogos, pela banda sonora e pelo trabalho de câmara, elevam este além daquilo que podia ser rotulado, como tantos outros, – um filme de domingo à tarde com pouco menos de 2 horas. Não é, meus amigos, não é.

 

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