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Vida de um Cinéfilo

Vida de um Cinéfilo

Matchstick Men – obrigado por me roubares

O logotipo da Warner Bros. Pictures surge lentamente à frente de uma limpa plataforma de água. Nicolas Cage faz a contagem decrescente e, ao som de ‘The Good Life’, do americano Bobby Darin, os créditos iniciais começam a sobrevoar o ecrã, surgindo à frente de uma distante e calorosa Los Angeles e de volta à reluzente piscina do protagonista. Conhecemos a carpete obsessivamente bem nivelada, o guarda-roupa revestido a sacos de plástico, um quintal, uma piscina e uma espreguiçadeira à espera de utilização e uma cozinha cheia de nada. É-nos apresentado o pequeno (e inofensivo) império prestes a desaparecer escondido no cão de porcelana sentado na sala de estar da casa mais desprovida daquele pacato, solário e endinheirado subúrbio que encontramos na primeira (e incompreensivelmente única) tentativa de Ridley Scott no campo da comédia de crime.

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Nos dias que correm, costuma-se olhar para o Ridley Scott de lado, como se o realizador inglês fosse um senhor que um dia fez umas graçolas com extraterrestres, androides e gladiadores. Com certeza, a filmografia do cineasta octogenário passou por maus bocados. “Legend”, “Robin Hood” e “The Counselor” foram tremendos desperdícios de dinheiro, tempo e talento. Mas não nos devemos esquecer que, quando um membro importante da Sétima Arte nos dá alguns dos melhores filmes de sempre, importante é começarmos a procurar algumas das relíquias esquecidas na sua obra. Juntamente com “Thelma & Louise”, “Black Hawk Down” e “American Gangster”, “Matchstick Men” é um dos melhores trabalhos de um dos pais da ficção científica.

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Quem diria que se sairia tão bem? Muitos são os filmes que provam o quão bom é o realizador a construir um mundo e a transferir o público para o dito ambiente. Seja para um desconfortável e silencioso circuito espacial, para uma poluída e futurista Los Angeles ou para as areias ensanguentadas do Coliseu. Na excitante história de 2003, Ridley Scott apresenta-nos o seu obsessivo-compulsivo, agorafóbico, misófobo e fumador protagonista numa das suas habituais manhãs antes de ir burlar mais uns casais de idosos ou outro tipo qualquer de deslocados ingénuos da sociedade. “Eu não sou um criminoso. Sou um artista da burla. Eles dão-me o dinheiro.” é o lema de um ladrão que nunca enganou ninguém que não fosse fraco ou ganancioso e que nunca usou violência. O lema de um homem habitante numa pura solidão consequente de um casamento destruído pelos episódios de alcoolismo e por um possível adultério da companheira. Há 14 anos que Roy Waller não vê a ex-mulher e suspeita que esta não lhe tenha contado acerca do provável fruto daquela relação.

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Consome os habituais comprimidos. Sai. O ligeiro escritório encontra-se num carente buraco de uma das cidades mais conhecidas pela sua diversidade multicultural, atividade económica enriquecedora e oferta quase infinita de oportunidades comerciais, alimentada por jovens recém-formados e/ou empreendedores lentamente a encher os bolsos e a adquirir o dom da palavra encostada a um telefone, enquanto (alguns) desenvolvem a inevitável vontade de se superar, passeando por corrupção e fraude (Martin Scorsese fez questão de nos mostrar a perspetiva nova-iorquina, em “The Wolf of Wall Street”). No canto de Los Angeles, está uma dupla de distintos profissionais do crime, a se aproveitar reconhecidamente dos mais necessitados membros da comunidade capitalista norte-americana. Podiam ser saudáveis e carismáticos banqueiros a bater à porta daqueles velhotes. Não são estes os homens dos fósforos, acompanhados por falsas identificações policiais. Frank Mercer é o tagarela, sorridente, grandiloquente, engraçadinho, provocador, casmurro, desarrumador, desorganizado, desleixado e carismático colega de Roy Waller. Sempre pronto para enganar mais uns quantos cidadãos bem-intencionados nas suas casas cheias de sossego, totalmente incidentes do dia em que lhes voavam 700 dólares da carteira em troca de um mero produto avaliado na quantia de 50. Sempre pronto para abandonar um cenário quando os irreparáveis tiques nervosos do sócio mais velho reaparecem assim que uma janela é aberta em demasia. Sempre na sombra de uma reles e arrogante experiência e falta de profissionalismo. Porém, também na sombra de (literalmente) um parceiro de crime que jamais quebra aquela imagem de senhor de meia-idade à beira de um ataque de pânico ou de um incontrolável vomito.

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“-You looking for something, sucker?

-Yeah. My partner. You seen him? He’s been missing most of the week. Tall, good-looking guy. Man, you’re bad! Did you take your pills?"

É este Roy Waller. O contraste perfeito de Frank… e do resto do Mundo. Ao som da ‘Rapsódia Sueca’, do italiano Paolo Mantovani, e na lente da habitualmente minimalista, porém frescamente chamativa fotografia do John Mathieson (colaborador do costume de Ridley Scott), vemos o ridículo ritual do pobre ladrão transpirado a revitalizar a bonita casa, acompanhada pelo mais moderno mobiliário e pela atmosfera mais monótona, vazia, insípida, incolor, sem charme ou personalidade. Um veículo mais tarde usado por Steve McQueen, em “Shame”, perfeito para a construção de um personagem carecido de espaventosos propósitos. Para o desenvolvimento de um homem em piloto automático. Um homem guiado precisamente pela falta de significado quotidiano, procurando preencher os milhares de vazios dentro do seu espírito envergonhado e anti-social através da constante, desvirtuosa, amargurada, irrefletida, indiferente e inconsequente criminalidade. A camada artística unicamente explosiva do Nicolas Cage revela-se uma perfeita complementaridade com o personagem, tornando o retrato até bem-disposto desta chata realidade numa das melhores e mais cuidadas ofertas na carreira do desvalorizado ator de “Leaving Las Vegas” e “Adaptation.”.

“Look, Doc, I spent last Tuesday watching fibers on my carpet. And the whole time I was watching my carpet, I was worrying that I, I might vomit. And the whole time, I was thinking, "I'm a grown man. I should know what goes on my head.". And the more I thought about it, the more I realized that I should just blow my brains out and end it all. But then I thought, well, if I thought more about blowing my brains out, I start worrying about what that was going to do to my goddamn carpet. Ok? So, that was a good day, Doc! And, and I just want you to give me some pills and let me get on with my life!”

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“Pygmies!”

Caso não aparecesse a “juvenil e inocente” Angela, nada se tornaria desigual. A permanente maravilha estampada no rosto usualmente amargurado, desconfortável e entediado de Roy é um deleite de observar. Nos dias normais, uma adolescente desconhecida escrever o número de telefone na mão asseada do recém-pai com uma usada e ruída caneta escolar seria um dos mais azarentos e doentios atos que provocaria no protagonista um dos seus recorrentes enjoos, dando-lhe mais uma de inúmeras razões para ficar invariavelmente enfiado em casa. Em vez disso, o germofóbico paranoico carrega para o dia de trabalho a tinta já distorcida pela água do banho matinal. E a Alison Lohman (na altura com 24 anos) cumpre perfeitamente a sua parte. As minhas primeiras reações foram a de um velho do Restelo que olhava para uma atriz que era tudo menos um retrato convincente de adolescência. Pensava no absurdo daquela escolha de casting. Mal sabia eu o que me esperava (não é surpreendente que um homem que não saia de casa não saiba identificar uma moça de 14 anos ou raciocinar acerca dos horários tardios de autocarros, dadas as suas fobias e absoluta inexperiência parental). Não só a atriz está a interpretar uma personagem também a interpretar outra vida, mas reproduz igualmente um ótimo e misterioso trabalho de manipulação, obrigando o espectador em visionamentos posteriores a caçar os genuínos momentos de companhia e feliz paternalidade, uma vez que nunca fica claro quando a Angela desenvolve um afeto pelo coitado e futuro burlado. O coitado e futuro burlado que se torna no homem mais afortunado do mundo quando sofre a maior queda profissional possível. Não fosse aquela ácida, provocadora, mal-educada… doce menina do papá, Roy nem conseguiria trocar aquelas diárias e desalegres latas de atum por um prato mais saudável ou outra refeição qualquer que o seu estômago não rejeitasse violentamente segundos depois. Nem isso nem se aproximar de uma mulher.

“If you’re gonna get wet, you might as well go swimming.”

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“-You mad at me?

-You didn’t take it. I gave it to you.

-It’s a funny way of looking at it.

-Well, I see things differently now.”

A música original, alegremente contagiante e fervorosamente elétrica do Hans Zimmer encaixa como uma luva ao equilíbrio entre humor negro, laço afetivo e arco de criminalidade. A embebida e desprendida edição do Dody Dorn acrescenta uma vivacidade aos acontecimentos mais mundanos e capta o olho do público na rotina do protagonista e no desenlace de tudo o que seja mais extraordinário neste inesperado presente no tapete de entrada. E um dos maiores, por sinal. Entenda-se um dos maiores plot twists do cinema no século XXI.

Sugerido: Unbreakable (O Protegido, 2000) - Crítica

Mais do que a reviravolta de “Fight Club” ou de “Unbreakable”, a de “Matchstick Men” encontra-se discutivelmente no pique daquelas que cujo cineasta já conduziu. A seguinte e discreta obviedade é uma das maiores armas do filme quando visto inúmeras vezes depois. Bruce Altman e Bruce McGill dão interpretações instrumentalmente culminantes, simbolizando a sua mentira através de um subtil plano no tabuleiro de xadrez e umas fabricadas gargalhadas e frases de efeito, respetivamente. Tudo é planeado com a maior das delicadezas. Desde uma construção da verdadeira Angela, que sugere um permanente sentimento de culpa, um constante olhar de auto-desdém e uma possível história de maus tratos e/ou carências parentais. Já Sam Rockwell está totalmente à vontade e desenha um simpático burlão debaixo de escudos como “Não penses que estou a fazer isto por ti. Tenho de pagar o carro.” e um sentido de oportunidade deliciosamente malicioso.

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“Matchstick Men” é uma marca do cinema de Ridley Scott – uma aceleração numa linha ilimitada, um olhar focado em contar boas histórias e construir bons personagens, despreocupado em criar um estilo milimetricamente autoral verificável em cada filme. O que mais pesa no espírito é, ao som de ‘Summer Wind’, de Frank Sinatra, ver Roy a chegar a casa do seu humilde trabalho numa acolhedora loja de carpetes, à espera do fim do dia para poder abraçar Kathy, a atual esposa e a simpática senhora do supermercado, a mulher que lhe dará um filho e uma oportunidade para recomeçar. Passado um ano, a fastigiosa bagagem emocional proveniente das responsabilidades de um futuro patriarca é superior à perda de milhões de dólares longamente recolhidos de uma laboração sem significado.

 

Nota: A+

 

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