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Vida de um Cinéfilo

Vida de um Cinéfilo

Menina – inquietado reconforto

O inconfundível chamamento maternal do outro lado da estrada não ilumina os olhos da pequena Luísa Palmeira da maneira como esta gostaria, da maneira como esta observa as mães das colegas, cidadãs francesas na sua íntegra, acolhidas pelos braços bem-dispostos e carinhosos de uma mulher abrigada com elegantes e sedosas peças de vestuário, a recolher as suas descendentes depois de um cansativo dia de trabalho, fornecido por uma sociedade europeia “mais à frente”, sempre enérgicas para socorrer (até à excessiva proteção, se for preciso) a luz dos seus olhos perante o mínimo desconforto físico ou psicológico. A atenção distraída de Luísa, interpretada pela estreante Naomi Biton, é obrigada a responder à impaciente e estafada ordem de Leonor Palmeira, sua mãe, interpretada por uma recatada e atribulada Beatriz Batarda, entre densos sacos de compras e de utensílios necessários para o aflito ofício de empregada doméstica. A ausência de toque, de um mero beijo na cara ou na testa, acompanhada por um seco “Luísa! Anda filha!” não transmite o amor que a protagonista, na sua inocência de criança de 8 anos, esperaria receber ao fim de uma vida conjugando as suas infantis vivências nas ruas francesas com os rígidos ensinamentos familiares portugueses. Dividida entre duas divergentes culturas, puxada pela naturalmente hábil inserção social, separada pelo insuprimível sangue lusitano, Luísa é a Menina, facilmente uma personagem original no seu direito, transportando, com razão e humildade, traços autobiográficos da realizadora lusodescendente nascida em França, Cristina Pinheiro, na sua primeira oferta cinematográfica.

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Abrindo com uma orgulhosa celebração “tuga” do 25 de Abril, com os emigrantes a festejar em amena noite de 1974, a recente conquista da liberdade, deixando para trás décadas de ditadura, entre garfadas, copos e cantigas patrióticas, eventualmente terminando com o fogo de artifício gritante das comemorações da Revolução Francesa, no dia 14 de Julho, “Menina” é 90% verdadeiro, oriundo das releituras das escondidas e acanhadas memórias da própria cineasta, em parceria com os guionistas Ghislain Cravatte e Laura Piani, encarregues da tarefa de contar a história de todos os portugueses para todos os portugueses. Os diálogos, cuidadosamente intercalados nos dois idiomas, estabelecem uma genuinidade única e insubstituível no cinema português, ainda que estejamos perante uma produção francesa. Mas, no que toca à oferta geral do mercado francês cuja disponibilidade se centra em contar histórias de emigrantes portugueses (tão bem ou mal compostos na sua sociedade), “Menina” será comparado com “A Gaiola Dourada”. Enquanto que a comédia de Ruben Alves, delicada e certeira, valoriza com um considerável peso as engraçadas e, para o desgosto de uns, apropriadas caricaturas do emigrante português, o filme de 2017 opta por contar uma história da maior simplicidade (no melhor sentido da palavra). O que se retém daqui é verdade, com as devidas oscilações de tom, como a vida real assim faz questão de produzir.

Com Nuno Lopes, de regresso com um exemplar trabalho, a empenhar a encarnação de uma figura paternal perdida nas irresponsabilidades de um homem desatento à educação dos filhos, abrigado no alcoolismo desenfreado, preso retrógrado na perceção de masculinidade e cujo sentido de autoridade incha após atos de violência doméstica intervalados com aleatórias demonstrações de amor para com a mãe frouxa, cujo dia termina com rebaixadas cantorias fadistas em cima do tricot. “Menina” apresenta a premissa de uma família lenta e levemente em rotura a partir do momento em que o secreto adoecimento do pai leva a sua avante face ao humilde trabalhador que lacrimeja as saudades de casa para fora de uns expressivos olhos robustos e que se refugia na silenciosa e aborrecida companhia da filha. Embora no escutar de uma banda sonora nostálgica, na lente da fotografia amena do Tristan Tortuyaux e na blandiciosa e perseverante edição da Isabelle Manquillet, o filme ainda se perde em algumas sequências oníricas e em diálogos repetitivos. Já disse e novamente é necessário afirmar – a língua portuguesa tem as suas intrínsecas particularidades que beneficiarão o seu cinema, sublinhando, melhor que as restantes línguas universais, os tormentos dos personagens. Porém, falando em personagens, aparte do insubstituível duo composto pela irretocável avalanche feminina da série “Sara” e do estrondoso talento do filme “São Jorge” – duas das melhoras ofertas de sempre do audiovisual do cantinho da Europa –, o filme sofre ainda lacunas consideráveis, nomeadamente o escasso aproveitamento do, digamos, universo dos restantes emigrantes portugueses, apresentado na forma de caras que aparecem e desaparecem convenientemente. Para além do núcleo escolar da protagonista, também ele subdesenvolvido e desorganizado.

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No entanto, face aos desacertos narrativos, o maior destaque, responsável pela consciente inferiorização de um carismático Thomas Brazete, é Naomi Biton, exatamente a mais importante peça do filme, a presença responsável pela enxurrada de sentimentos com que o público é arremessado, o olhar inocente e ingénuo contrastivo aos angustiados carizes dos pais impossibilitados de voltar para casa e de ver os entes queridos. Não merecedora de remendos (provenientes de uma eventualmente merecida longa carreira), no entanto, uma interpretação infantil como a que aqui nos é apresentada é digna de aplausos, apelando para o esquecimento do público sentado numa sala de cinema a ver uma “fingida” peça. “Menina”, relativamente abaixo de “A Gaiola Dourada” no que diz respeito ao aspeto global da obra, poderá não alcançar (já não alcançará) os merecidos números de audiência, pelos menos os minimamente atentos ao trabalho dos seus dois nomes de peso do elenco, dada a falta de hábito de quem consome dramas hollywoodianos abstento das possibilidades mais desavindas. Embora umas e outras falhas, merece ser visto e revisto, pois a maravilhosa complexidade de identidade e o inquietado reconforto do primeiro filme da Cristina Pinheiro forneceram-lhe umas valiosas cartas. Basta usá-las num degrau superior de audácia.

 

Nota: B

 

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