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Vida de um Cinéfilo

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Molly's Game (Jogo da Alta-Roda, 2017) - Crítica

     Baseado na autobiografia de Molly Bloom, Molly's Game: From Hollywood's Elite to Wall Street's Billionaire Boys Club, My High-Stakes Adventure in the World of Underground Poker, Molly’s Game conta a sua história como uma decadente atleta olímpica e uma ascendente Rainha do Poker, responsável por uma das redes de jogo ilegal mais recorridas por celebridades nos EUA durante 12 anos.

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     O filme foi escrito e realizado pelo Aaron Sorkin, que depois de escrever excelentes filmes como A Few Good Men, The Social Network e Steve Jobs, finalmente inicia a sua carreira como realizador, que não podia ser de todo uma má decisão. Poucos são os directorial debuts tão poderosos e marcantes como Molly’s Game. Estamos perante um dos melhores guiões e filmes do ano! Primeiro, graças às palavras honestas e ambiciosas do realizador. Segundo, devido ao elenco fortíssimo com cenas marcantes, ofuscado ainda assim por uma atriz principal sem filtros ou receios. Terceiro, graças à ajuda da estética luxuosa e brilhante de Hollywood, realçada por uma fotografia dourada, mas não muito diferente de típicas biopics.

     O método de storytelling do Aaron Sorkin é impressionante. É claro que este está mais preocupado em contar a história do que em saber se o público regista tudo, por outras palavras: “Apanharam tudo? Não? Paciência …”. Se há problemas neste filme, falta de informação não é um deles. O filme divide-se em dois ritmos: um frenético e estupidamente acelerado, durante o qual todo o tipo de informação é despejado para cima do público, e um mais calmo e paciente usado exclusivamente para deixar o público “respirar” e para mostrar a evolução dos próprios personagens face aos flashbacks, sem deixar que a tensão desapareça. A banda sonora e a edição são dois fatores responsáveis pelo ótimo equilíbrio do aglomerado de cenas mais aceleradas. A música acha um tom agressivo e perfeito para conduzir os jogos de poker. Já a edição é uma das melhores do ano, desde o olho atento a detalhes até à montagem inteligente surgente dos planos objetivos e eficientes.

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     A Jessica Chastain não podia estar melhor, é assim que uma biopic deve ser conduzida. Primeiro, a atriz é uma mulher linda, atraente, sensual e sedutora (sem seduzir intencionalmente). Todos aqueles intermináveis decotes e vestidos curtos servem o seu propósito – distrair o público daquilo que realmente acontece no poker (e até no próprio filme), tal como ele funciona na vida real. Segundo, a caracterização gradual da personagem é perfeita. Inicialmente, a Molly é uma jovem indefesa e insegura, mas com fortes escudos provenientes da rígida, mas bem-intencionada difícil abordagem do pai e da distante relação entre os dois. Progressivamente, a personagem torna-se fria, mas não totalmente indiferente com os seus clientes ou com o seu dinheiro. No fim, é uma mulher fria, controladora e extremamente segura, ainda assim não deixando isentos alguns momentos de fraqueza ou vulnerabilidade. No futuro, a Jessica Chastain será uma das grandes. Uma nomeação ao Óscar será mais que justa.

     O Kevin Costner dá uma curta, mas excelente participação. Graças à rígida educação que proporciona, desde o ski, à cultura e ao curso de advocacia, compreendemos a origem da natureza apática da protagonista, mesmo que as intenções do pai sejam as melhores. Os dois têm uma cena que resume na perfeição todo o seu distanciamento e afeto.

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     O Idris Elba está novamente sensacional! A verdade é que, apesar de, por vezes, ficar ofuscado na sombra da Jessica Chastain, que rouba quase todas as suas cenas, este dificilmente se deixa abater durante os enormes e exaustivos (no melhor sentido da palavra) confrontos entre os dois. O ator inglês tem uma cena fortíssima, na qual eu pensei que uma nomeação ao Óscar não seria de todo inesperada.

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     Há também boas participações do resto do bom elenco: Jeremy Strong, Brian d’Arcy James, Graham Greene e Chris O’Dowd. Ainda assim, é-me muito difícil ver o Michael Cera como um antagonista. O personagem foi escrito como um jogador de poker temível, invejado e ameaçador … não convence, basta olhar para a cara do Michael Cera. Acho apenas que este ainda tem de amadurecer como um ator dramático e que esta não foi uma boa escolha de casting, apesar do seu inegável talento para comédias.

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     Como já disse, esteticamente o filme é muito rico. Devem também ser mencionados o design de produção, consistente em belíssimos e organizados cenários, e o guarda-roupa, composto pelos elegantes e provocadores vestidos da protagonista, que, em contraste com as suas roupas anteriores e o guarda-roupa dos restantes personagens, desenvolve uma certa hierarquia.

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     Molly’s Game é um filme único. Apesar de não ser o melhor argumento da carreira do Aaron Sorkin, é uma prova do seu talento como um futuro realizador de respeito. O elenco é composto por atores empenhadíssimos e com um talento invejável, no qual a Jessica Chastain encontra-se na sua melhor forma desde Zero Dark Thirty, de 2012. Fica aqui recomendado!

 

Nota: A

Também podes ler a crítica no Cinema Pla'net.

 

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