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Vida de um Cinéfilo

Vida de um Cinéfilo

Only the Brave (Só Para Bravos, 2017) - Crítica

  Arizona, EUA, Junho de 2013. Uma equipa municipal de bombeiros recentemente profissionalizada fica responsável por inúmeros incêndios decorrentes no país.

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    O filme foi realizado pelo Joseph Kosinski, responsável pelos apenas medianos Tron: Legacy e Oblivion. Apesar do aproveitamento genérico dos seus últimos trabalhos, desta vez, o realizado demonstrou ter talento e uma boa mão para construir uma história inspiradora surgente de um cenário catastrófico.

     Algo que o realizador fez muito bem foi desenvolver o ambiente de convívio e de trabalho dos bombeiros como se de um exército se tratasse. Quase todas as provocações e insultos que estes trocam são engraçadas e contribuem para se desenvolver uma equipa e um companheirismo muito confortável. O grupo funciona como um grupo e todo o elenco está à vontade. Contudo, sei o que já se disse sobre o desenvolvimento de personagens. Em parte, concordo com a falta de tempo que alguns atores receberam, mas algo que não podia ser feito era apostar em arcos próprios para cada bombeiro. No total, são 20, sendo que, apenas os mais importantes recebem a devida atenção. Se o contrário acontecesse, a narrativa ficaria demasiada inchada, aliás, mais inchada do que aquilo que já ficou.

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     O Josh Brolin é um ator ótimo. Aqui, mais uma vez, ele lidera um elenco enorme e sabe muito bem conduzir o seu personagem no caminho certo, de maneira a não ficar genérico demais. O personagem não é novo no seu currículo e daí se justifica a sua facilidade em interpretá-lo. Trata-se de um homem casmurro, rígido, mas inspirador e com um forte sentido de liderança. No entanto, a sua performance é reduzida pela Jennifer Connelly, o que não é um ponto positivo. A personagem desta não é interessante nem necessária. A atriz é talentosa e está bem como sempre, mas infelizmente eu nunca me encontrei investido no arco dela. Se todo essa sub-trama fosse excluída teríamos um filme mais concentrado e até com uma via fácil para se focar mais no Jeff Bridges.

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     As interações do Josh Brolin com o Jeff Bridges já são poucas e, quando finalmente acontecem, nunca são satisfatórias. O ator está cada vez mais a tornar-se numa paródia dele mesmo. São raros os filmes em que este não é apenas o texano cantor com sotaque e um copo de whisky na mão. Aliás, com a exceção do western Hell or High Water, são poucos os filmes que conseguem utilizar essa piada fora da caixa. Está na altura de o ator voltar a interpretar personagens e não constantemente um estereótipo cansativo e desgastado.

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     Apesar disso, o realizador consegue extrair algumas excelentes cenas entre Miles Teller e Taylor Kitsch. O duo improvável começa com uma rivalidade interessante que eventualmente se torna numa amizade carismática. É um arco previsível, mas é bem feito, que resulta sobretudo graças à química dos dois, com um especial destaque para o Miles Teller, que é, sem dúvida, o mais talentoso. As suas motivações são claras e o processo de mudança do personagem é muito bem construído.

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     Tecnicamente falando, a fotografia é excecional. O chileno Claudio Miranda, que trabalhou no extraordinário Life of Pi, captura vastas composições visuais que vão desde à mais bela paisagem de uma floresta até à mais temível imagem do fogo a alastrar-se na nossa direção, destacando principal e simultaneamente o amarelo da farda dos bombeiros. O fogo, aliás, é retratado quase como um monstro, como um personagem antagónico, o que funciona muito bem. O diretor de fotografia e o realizador metem-nos dentro do incêndio e a claustrofobia e o medo, causados pela rápida “perseguição” das chamas, pelo calor e pela falta de ar, são contagiosos. Tememos pela vida dos bombeiros e ficamos instantaneamente sensibilizados. Tal como o fogo, a natureza num todo é representada como um personagem. O personagem do Josh Brolin invoca a natureza como o quão poderosa ela é. O quão pode ser tão bela como tão perigosa.

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     Já a banda sonora desiludiu. É completamente genérica e esquecível. O que a salva é a escolha musical. O rock presente na casa dos bombeiros é apreciável e a letra das músicas são apropriadas para um combate às chamas, mesmo o presságio sendo ligeiramente óbvio.

     O ato final é exatamente aquilo que devia ser. Eu saí do cinema comovido, tocado e ligeiramente deprimido. Todos sabemos o que acontece, mas algo que o cinema consegue fazer particularmente é exaltar a violência do sucedido, enquanto simultaneamente nos inspira. Sim, começamos a prever e a contar as mortes, a roer a unhas com o coração nas mãos e a sentir o peso da enorme perda, mas, ao fim de alguma reflexão, percebemos que o simples ato de defender uma população voluntariamente e arriscar a vida todos os dias consegue ser o mais inspirador ato de heroísmo. Não é exagero quando se diz que os bombeiros são heróis nacionais.

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     Only the Brave merecia muitos acertos narrativamente, no que diz respeito ao seu foco e aos seus personagens secundários. Porém, felizmente, cumpre o seu propósito: alertar e o seu público. O filme acaba numa nota desconfortável, mas algo que poucos filmes de desastre conseguem fazer é comover quem o vê. Por isso, merece ser visto. Aliás, a situação dos incêndios dos últimos anos em Portugal é mais que suficiente para nos investirmos nesta história.

 

Nota: B+

 

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