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Vida de um Cinéfilo

Vida de um Cinéfilo

Óscares - a perda de credibilidade

Em 2014, assisti pela primeira vez à cerimónia dos máximos prémios da Sétima Arte. A alegre e sarcástica Ellen DeGeneres foi a escolhida para liderar o evento e marcou a sua presença pela segunda vez, depois de segurar a noite de 2007. Ficou difícil não me afeiçoar ligeiramente àquela atmosfera. Porque é que desgostaria do que estava a ver? Tinha uma apresentadora minimamente audaciosa a largar pequenas provocações à plateia cheia de estrelas consagradas e seleções de cinco recomendações em cada categoria. Pesos pesados da indústria sentavam-se no habitual Teatro Dolby, em Los Angeles, e a noite revelava-se cada vez mais estimulante, mesmo com alguns galardões inapreciados ou surpreendentes. Muito me enganava.

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Em 2019, quando os movimentos #MeToo e #Time’sUp já começam a perder espaço nos holofotes hollywoodianos (porém, mantendo-se sólidos em qualquer comentário televisivo, sobretudo com um Jordan Peterson na mesa), a única possibilidade que as caras mais empáticas da indústria cinematográfica têm de se manifestar contra uns quantos comentários desagradáveis no recreio digital ou contra mais uma das muitas postas de pescadas (deploráveis ou minimamente sensatas) do presidente americano surge quando alguém ganha um prémio e sobe as curtas escadas até um microfone preparado para ser atingido com revoltados perdigotos. Aí, sim, aos olhos daquele país, têm todo o crédito do mundo para falar. E eles gostam muito de falar.

Ao contrário daquilo que se esperava, na passada cerimónia, que premiou Guillermo del Toro depois de uma carreira merecedora de milhares de aplausos e uma qualidade e ética profissional recentemente consolidadas com um romance fantástico sobre uma mulher que vai para a cama com um peixe, destacando a intemporalidade da magia do cinema mudo e os problemas sociais ainda presentes nas ruas do século XXI, a histeria que se prometeu nos meses anteriores tatuados pelos escândalos protagonizados por personalidades como Harvey Weinstein e Kevin Spacey não se verificou com o semelhante compromisso massificado. A sensação que a cerimónia apresentada pelo humor insípido e previsível de Jimmy Kimmel deixou foi a de quem “varreu o assunto para debaixo do tapete”. Curiosamente, até hoje, despachar ou encobrir uma polémica semanalmente passageira e esquecível ou um assunto realmente complexo e merecedor de comentários cuidados e refletidos nunca foi a especialidade da sociedade americana. Seja com a mais insignificante ou inofensiva amostra de humor negro que visa incluir todas as minorias ao invés de as menosprezar (como as vias de comunicação social perpetuamente querem fazer parecer), seja com a mais tóxica indignação de uma desportista a fazer uma birra injustificável perante uma derrota (pelos vistos) inesperada e revoltante, seja com uma cambada de pais a tentar proibir certos e determinados livros nos planos educacionais de leitura, seja com o mais sexual ou etnicamente “inadmissível” casting de elencos destinados precisamente a cumprir o seu trabalho – interpretar vidas diferentes. A América gosta de dar atenção àquilo que não merece.

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É completamente compreensível que os cineastas hoje em dia queiram tomar uma posição política ou socialmente ativa. Afinal, esse deve ser o papel de qualquer arte: provocar uma emoção, uma mensagem, um comentário, uma reflexão, uma marca que a torne memorável e importante. Mas controlemos a nossa sede de comentários políticos subjacentes ou de uma progressivamente enjoativa diversidade cultural forçada. Devemos adotar diferenças no cinema? Óbvio. Vamos dar mais oportunidades a mulheres? Vamos. Vamos escolher mais asiáticos, hispânicos, árabes ou pretos para compor os nossos elencos? Vamos. Vamos abraçar a diferença? Vamos. Vamos, através de meras obras de entretimento mainstream ou de peças autorais mais sérias e compromissadas, contribuir para um multiculturalismo benéfico, pacífico e humanitário? Vamos. Vamos procurar nomear objetivamente os melhores candidatos para cada categoria em cada cerimónia de prémios? Va…, bem, quem dera.

Com certeza, pessoas que leram o anterior parágrafo ficaram melindradas ao lerem a palavra “preto”. Mas, não se preocupem, não estão sozinhos. No outro lado do oceano estão pessoas que toleram (ou desvalorizam) a falta de controlo da venda de armas de fogo em ocasionais e humildes supermercados, mas que não admitem que a palavra “nigger” apareça de raspão nos seus ouvidos. Sim, os Estados Unidos é aquele país miseravelmente hipócrita que opta por fechar os olhos a casos de crianças sozinhas em casa que, brincando inocentemente com a pistola do pai, matam por acidente o irmão de 2 anos, e escolhem virar as suas atenções para tweets “desumanamente racistas, misóginos, sexistas, homofóbicos” e dignos de uma sentença profissional quase vitalícia. É este o melhor país do mundo.

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E, como seria de esperar, o cenário já esteve mais ausente em Hollywood, onde as fotografias da Oprah Winfrey e da Meryl Streep carinhosamente ao lado do Harvey Weinstein são (aí sim) varridas para debaixo do tapete e gradualmente substituídas por discursos motivacionais que alimentam a esperança do povo dos Estados Unidos de ser governado a partir de 2021 por uma apresentadora de um talk-show que se conecta com os seus espectadores de maneira básica. Se o cenário político americano está cada vez mais recheado de rostos do entretenimento que fervorosa e escusadamente lutam para alcançar credibilidade ativista e política assim que conseguem atingir independência nos estúdios de Hollywood, então conclui-se que a cultura da celebridade é uma das mais tóxicas dos nossos dias. Enquanto escrevo, Emma Watson e Jennifer Lawrence acumulam seguidores.

A pior coisa que se pode acusar um cidadão branco dos Estados Unidos pode até nem ser de assédio sexual, dada a incrível banalização que esse tema já sofreu, mas sim de ser um indivíduo que negligencia membros da sociedade. O Viggo Mortensen disse “nigger”. RACISTA! O (perfeito contraproducente) Kevin Hart fez piadas sobre gays. HOMOFÓBICO! O James Gunn fez piadas sobre violação. GROTESCO INSENSÍVEL!

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Qual é o remédio para tal preocupação obsessivamente vigilante? Fazer os possíveis para não nos apelidarem injustamente de qualquer que seja a característica que um comportamento minimente provocador (ou não) possa transparecer. A solução é sermos desajustados e, se for preciso, suspeita ou irrefletidamente distintos dos demais, refugiando as nossas crenças num canto seguro e vesti-las com a capa do politicamente correto. Em 2018, o Óscar de Melhor Realizador ia para 1 de 5 pessoas: os mestres Guillermo del Toro, por “The Shape of Water”, e Christopher Nolan, por “Dunkirk”, a grata surpresa Paul Thomas Anderson, por “Phantom Thread”, e os oprimidos Jordan Peele, por “Get Out”, e Greta Gerwig, por “Lady Bird”. Ora, nunca me ouvirão dizer que as nomeações são absolutamente desmerecidas ou que os trabalhos em questão não são bons. A questão aqui é a minha incapacidade de desassociar estas particulares duas atenções com o medo que a Academia secretamente preservava (e ainda preserva) de a população mais “exigente”, digamos, boicotar a cerimónia. “Lady Bird” é um ótimo filme, mas, em comparação com outros profissionais merecedores de uma simples nomeação naquele ano, Greta Gerwig tem ainda de amadurecer como realizadora. Até porque a única ocorrência que lhe deu, de facto, o prestígio daquela nomeação foi o comentário infantil da Natalie Portman, nos Globos de Ouro. Já o casamento de Jordan Peele com a sua comédia de terror e ficção científica foi uma das mais profundas e satíricas amostras do cinema de género que recebemos em 2017. Contudo, tenho receio que esta nomeação e a eventual aclamação na categoria de Melhor Argumento Original tenha sido uma jogada populista da Academia que intencionava transmitir a ideia de “Nós não somos racistas. Nós até premiámos o preto!”. Isto seria tão ou mais estúpido do que as vezes em que dávamos a mesma desculpa na escola primária quando nos perguntavam sobre a nossa relação com os nossos colegas afro-europeus.

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O que mais me preocupa é a verdade à volta da vitória de “Moonlight”. “La La Land” não era de todo o melhor filme do ano, mas, após a revolta do #OscarSoWhite, aquando a divulgação das nomeações de 2016, os queridos premiadores viram-se em maus lençóis e não viram outra melhor hipótese de se “redimirem” senão proporcionando a noite mais feliz a Barry Jenkins. Tenho a certeza de que, se Samuel L. Jackson ou Ryan Coogler tivessem sido nomeados por “The Hateful Eight” ou por “Creed”, “La La Land” certamente teria vencido na respetiva noite. Acho que nem vale a pena comparar a falta de coerência entre a vitória do Casey Aflleck e o caso (aparentemente esquecido) do James Franco. Pelos vistos, a resolução do problema foi fácil para a Academia. Nomearam o Daniel Kaluuya em vez do protagonista do “The Disaster Artist”. Resolveram dois problemas em um. Espertos…

Este ano, não me dei ao trabalho de consultar os nomeados. Aliás, não vi nenhum. Logicamente que a minha intenção não é a de me debruçar sobre se a respetiva qualidade é merecedora de aclamação na gala dos Óscares. Mas, depois de tanta noite de glamour com nomeações e premiações previsíveis em Janeiro, não é difícil de perceber donde vêm as nomeações de Spike Lee (que sempre teve uma má relação com a Academia e que anunciou o seu boicote à cerimónia em 2016), da dupla Yalitza Aparicio e Marina de Tavira (duas desconhecidas completamente ignoradas nas restantes cerimónias com a mínima relevância para “ditar os favoritos”) e de “Roma” em desnecessariamente duas categorias de “Melhor Filme”. Mas, enfim, a conversa sobre a exclusão dos “melhores filmes estrangeiros” e os “melhores filmes de animação” terá de ficar para outro dia. Tal como a incompreensibilidade de apenas 8 filmes serem nomeados, quando o número 10 já existe há algum tempo.

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Os Estados Unidos demonstram cada vez mais que não só estão a construir um caminho perigoso de uma suposta harmoniosa aproximação racial e/ou cultural, mas estão a se esquecer daquilo que deviam fazer – premiar pessoas talentosas. Com certeza, no passado terão existido casos em que o racismo disfarçado da organização prejudicou aquele que devia ser um claro vencedor. Mas a solução não está na simples seleção de uma amostra de cada etnia ou género, só para não deixar ninguém de parte. Convido-vos a adivinhar qual foi o primeiro artigo de indignação que me apareceu no feed do Twitter. Exatamente, “Não nomearam nenhuma mulher para Melhor Realização!”, no Daily Mail. Estou mesmo a ver que em 2021 nomeiam a Patty Jenkins pelo “Wonder Woman 1984” só para não correr riscos, caso não haja outra hipótese. É este o país do Tio Sam. Portugal pode ser muito desrespeitador, retrógrado, fechado, católico e conservador, mas pelo menos o Zé Povinho é honesto (ainda que na sua cruel falta de noção, instrução, educação e inteligência). Somos racistas e, por vezes, parece que ficámos parados no tempo. Mas, vá lá, não ficamos com o cu entre as pernas.

 

Sugerido:

The Disaster Artist (Um Desastre de Artista, 2017) - Crítica

Dunkirk (2017) - Crítica

Get Out (Foge, 2017) - Crítica

Phantom Thread (Linha Fantasma, 2017) - Crítica

The Shape of Water (A Forma da Água, 2017) - Crítica

 

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