Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Vida de um Cinéfilo

Vida de um Cinéfilo

Papillon - bons remakes podem acontecer

Remakes são a praga atual de Hollywood. Porém, raríssimas são as exceções que, não sendo, no entanto, obras-primas modernas, poderão ser colocadas nas prateleiras de bons filmes.

Ao serviço de criminosos de estatuto superior, Henri Charrière é um ladrão ativo em Paris. Em 1931, é enviado para a Guiana Francesa depois de ser injustamente acusado de assassinato. Ao conhecer o falsificador de arte Louis Dega, inicia diversos planos para fugir da cadeia.

MV5BMjI2N2ZmZDItMGM3OC00NThkLThmYzMtZTQ2ZWJiYzEwMD

Para fazer jus à descrição inicial e, como alguém que nunca viu o filme original de 1973, devo salientar que a minha opinião acerca do remake de 2018 decerto não seria idêntica se conhecesse devidamente o clássico protagonizado pelo Steve McQueen e pelo Dustin Hoffman.

O remake é, na verdade, uma readaptação das autobiografias Papillon e Banco, publicadas em 1969 e 1973 (o ano da morte do criminoso), respetivamente. Para além disto, o argumento do americano Aaron Guzikowski (responsável pelo do excelente “Prisoners”), foi também baseado no da dupla Lorenzo Semple Jr. e Dalton Trumbo. Posto isto, não se poderá considerar o “Papillon” de 2018 uma inocente reimaginação da história já contada (e bem, suponho) nos Anos 70, ao contrário de “Murder on the Orient Express”, de 2017. A versão moderna é indiscutivelmente um remake declarado. Mas, para minha surpresa, nada disto foi sinónimo de um mau filme.

MV5BZTBiODMyNGEtNTA3OS00YjFkLWIwZWEtMWNkODk0OGRlNj

O filme foi realizado pelo dinamarquês Michael Noer, cineasta que desconhecia totalmente. Se há coisa que este faz muito bem aqui (tal como a maioria dos remakes contemporâneos) é a boa utilização da devida estética e recriação do mundo representado. Toda a prisão tem uma atmosfera duramente áspera e opressora. Durante o tempo de viagem da França para a ilha, as cenas estabelecem que tipo de filme estamos prestes a assistir – um que inclui boas cenas violentas, com as doses certas de realismo, incómodo e sangue.

No entanto, ficou muito por contar acerca de Paris. O maior problema do filme é, sem dúvida, o pouco tempo que este perde a apresentar a premissa. Em outros filmes, tal podia até ser uma virtude. É grande a quantidade de filmes que se demoram para estabelecer a premissa básica. Em “Papillon”, acontece exatamente o oposto – a falta de desenvolvimento da cidade e das relações do protagonista com os envolventes da mesma dificultam o investimento no personagem. Não que esse problema afete o filme todo. Aliás, a interpretação do Charlie Hunnam consegue (e muito bem) transmitir o carisma certo para o público ficar vidrado no Papillon.

MV5BMjExNjRjYjUtYzI5Zi00ZWFkLWExOTAtNWU1MDJlMTVmOT

Falando nele, o ator inglês dá certamente uma das melhores performances na carreira. Os momentos de maior revolta e desordem podem saltar rapidamente à vista, mas são os seus momentos mais introspetivos, rancorosos e silenciosos que percebemos o quanto lhe passa pela cabeça, enquanto este se encontra com o mínimo de saúde. Por muito pouca que seja a comida, a água, a higiene e até a luz do Sol, o personagem torna-se fascinante devido à sua quase irracional luta pela sobrevivência. Devo também realçar que a transformação física do ator é impressionante. Tal ajuda sempre a ofuscar a falta de caracterização e maquilhagem.

Como já referi, o filme perde muito a não desenvolver mais Paris no primeiro ato. O guarda-roupa e todo o design de produção no interior das casas de strip, bares e as ruas onde o crime vive são subvalorizados, pois nem há tempo sequer para desenvolver o núcleo criminoso do protagonista. Muito menos ainda a sua relação com a prostituta Nenette.

MV5BZTU3MmU3YWYtYzliZi00ZTM3LTg4YTItNTMwMWYzZjAwOD

Porém, dentro da prisão estão as melhores interpretações do filme. Sendo uma delas a do Rami Malek, que poderemos ver futuramente a protagonizar “Bohemian Rhapsody”. Desconhecendo absolutamente “Mr. Robot”, sei simplesmente que este é considerado o seu melhor trabalho. Tenho elevadas expectativas para a biopic dos Queen, devendo admitir que estou bastante interessado no ator americano. Louis Dega é, para além de comicamente indefeso, um personagem completamente inexperiente no verdadeiro mundo do crime, assim como um homem frágil, ingénuo, fraco e moralmente inocente. São raras as cenas em que este não se coloca atrás de Papillon. A amizade entre os dois é fulcral para o avanço da trama e é impossível não desenvolver uma espécie de ternura quando os vemos a demonstrar respeito e afeição um pelo outro.

Há também boas interpretações do Roland Møller, que tem camadas e um ligeiro sentido de humor; e do Ian Bettie, que traz uma autoridade governamental diferenciada do restante presidente das prisões no cinema. Já o personagem do Michael Socha está no filme com um único propósito. É um típico personagem do género de filmes de prisão e não tem muito a oferecer. Tendo em conta as intenções que se tinham com ele, podia se até o ter usado como um cínico e pessimista alívio cómico. Porém, nem isso acontece. Não por falta de tentativas, mas sim porque o bom humor do filme não vem dele.

MV5BOTdjYzZmYmUtMTdkMi00NzNhLWFjYzktNTI3MmVmMWU1OD

“Papillon” não é um mau filme. Para quem não viu o clássico de 1973, será a partir do segundo ato que as maiores surpresas mais facilmente chegarão. Dentro daquilo que oferece, é um filme mais que satisfatório e memorável. Pois é, porque, uma vez imerso na realidade apresentada, o espetador fica preso, vidrado, chocado e espantado. Tanto graças à extraordinária história como aos personagens.

 

Nota: B

 

LINKS:

 

Facebook: https://www.facebook.com/VidadeumCinefilo/

Twitter: https://twitter.com/um_cinefilo

(Cinema Pla'net)

CRÍTICA: https://cinemaplanet.pt/critica-papillon-2018/

Site: https://cinemaplanet.pt/

Facebook: https://www.facebook.com/cinemaplanettv/

Twitter: https://twitter.com/CinemaPlanetPT

Instagram: https://www.instagram.com/cinema_planet/