Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Vida de um Cinéfilo

Vida de um Cinéfilo

Phantom Thread (Linha Fantasma, 2017) - Crítica

     Por falar em Daniel Day-Lewis, vamos falar sobre um dos mais elegantes filmes do ano e a sua oferta de despedida! Na década de 50, em Londres, Reynolds Woodcock, um costureiro de renome fundador de uma firma de vestidos direcionada à nobreza, vê a sua vida descarrilhada depois de se relacionar profissional e pessoalmente com uma jovem modelo.

v1.jpg

     O filme foi escrito e realizado pelo Paul Thomas Anderson, um dos homens em atividade que exerce a sua profissão de maneira mais reservada e autoral, no melhor sentido das palavras. Contudo, é ainda um dos mais subvalorizados. A sua recente nomeação para Melhor Realizador nos Óscares foi uma enorme e agradável surpresa, assim como todas as outras nomeações que arrecadou para este filme. Com isto, não quero dizer que Phantom Thread não merecia as mesmas, longe de mim. Estamos perante um dos filmes mais elegantes do ano! É gratificante ver os verdadeiros artistas a serem lembrados!

     Algo que o Paul Thomas Anderson consegue ser o único a alcançar é a extração de uma agressividade de uma cena tão mundana como um pequeno-almoço ou de uma pequena sequência que progressivamente torna-se mais frenética. Isto graças ao aglomerado de acertos técnicos como a banda sonora simultaneamente pesada e suave do Jonny Greenwood, a edição desnorteante do Dylan Tichenor e o brilhante trabalho de câmara do realizador americano que a cada filme se torna mais competente e impressionante. Planos sequência estáticos, close-ups na expressão do Daniel Day-Lewis, tracking shots pelos corredores e movimentos circulares maravilhosos em volta dos magníficos vestidos. Por falar em vestidos, o filme, para além de ser um dos trabalhos mais exigentes do PTA, consegue originar dentro de nós um súbito interesse pela arte da costura, que tem muitas mais camadas que do parece, como qualquer outra arte.

MV5BNjk0MDE0MjQ4MV5BMl5BanBnXkFtZTgwNjI3NjgxNDM@._

    Visualmente falando, este filme é um espetáculo, é magia em movimento. Para além da esplêndida recriação de época, Phantom Thread tem uma magnífica construção dos próprios “bastidores” das oficinas de costura, desde as aulas introspetivas do protagonista até à dedicada turma de costureiras. O filme merece os Óscares de Melhor Guarda-Roupa e Melhor de Design de Produção, esta estética é uma joia rara! Desculpa, Luís Sequeira. Estava convencido que o diretor de fotografia Robert Elswit tinha trabalhado novamente com o PTA, depois de There Will Be Blood (ler crítica), até descobrir que o próprio realizador a compôs, o que foi uma grande surpresa!

7736b45a-ec27-11e7-b159-b015dc9fb9a6-780x520.jpg

   E, apesar do esforço obsessivo pelo visual, o realizador toma o mesmo cuidado pelas interpretações, que são todas impecáveis. O Daniel Day-Lewis é claramente o grande destaque! Sendo ele um dos atores metódicos mais compromissados de sempre, o seu sacrifício mental e físico para o investimento numa personagem é quase paranoico (suponho). Reynolds Woodcock, mesmo não sendo o seu papel mais exigente, não deixa de ser uma personalidade riquíssima, cheia de camadas e com uma filosofia fascinante. É um homem com um sorriso contagioso e apaixonado pela sua arte, dedicado, sério, ambicioso, obsessivo, exigente, teimoso (muito), irracionalmente orgulhoso e extremamente profissional. Os olhos dele brilham ao pé da câmara!

MV5BNzcxNDE0NTA3N15BMl5BanBnXkFtZTgwNTI3NjgxNDM@._

     A Vicky Krieps é uma interessante revelação e nunca se deixa ofuscar quando contracena com o Daniel Day-Lewis. A atriz tem a rara capacidade de o confrontar e de sair da sua sombra, especialmente durante as discussões e as cenas de costura, durante as quais os dois demonstram uma ótima química. Palmas para a luxemburguesa!

screen-shot-2017-10-24-at-10-07-40-am.png

     A Lesley Manville está sensacional e mereceu sem dúvida a sua nomeação ao Óscar! Ela está maravilhosamente arrogante e autoritária com a sua postura passivo-agressiva, os seus sorrisinhos forçados e maliciosos, os intermináveis revirares de olhos e as suas constantes provocações disfarçadas de elogios.

MV5BZWIyZGI0NzYtMGNlOC00OWVhLThkNzQtNDUzMzczMmVmNG

     Mesmo não sendo biográfico, Phantom Thread sofre de um problema comum – usar um voice over de uma conversa que, mais tarde, revela-se ser uma cena do ato final. São raríssimas as frases que dizem algo de novo. A narração torna-se repetitiva e é complemente dispensável perante toda a informação transmitida apenas pelos silêncios que ocorrem entre algumas cenas e as expressões faciais dos personagens. Felizmente, este erro dura pouco.

PHANTOM_THREAD_trailer_news_under_the-radar.jpg

     Phantom Thread é um dos filmes mais elegantes, charmosos e deliciosamente demorados do ano. É ainda maravilhosamente interpretado e composto e uma fascinante história sobre obsessão profssional, paixão pela profissão, amor e os consequentes sacrifícios, provocações e consequências de uma relação tóxica.

 

Nota: A

 

Também podes ler a crítica no Cinema Pla'net.

Aproveita para ver mais críticas de filmes de 2017 aqui.

 

Se estiveres a gostar do blog, não te esqueças de me seguir no Facebook, no Twitter e no Blogspot. Obrigado!

 

6 comentários

Comentar post