Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Vida de um Cinéfilo

Vida de um Cinéfilo

Queres ser ator? Mas para quê?

Vivemos numa altura fascinante da indústria audiovisual. Se há quarenta anos apenas um Ridley Scott ou um Woody Allen podiam comandar as suas produções hollywoodianas e fazer filmes com extrema frequência, beneficiados, lá está, pela falta de concorrência, hoje, já que temos todo o equipamento à venda ali ao lado e um mundo digital à distância de um clique onde nos é permitido disponibilizar os nossos trabalhos, vivemos na melhor altura para quem quer ser um guionista ou realizador. Aliás, o mesmo pode ser dito acerca de atores.

brando-apocalypse-now.jpg

Num dos episódios do recente podcast ‘A Cave do Markl’, apresentada pelo bem-disposto radialista e guionista, numa habitual conversa sobre o panorama televisivo atual, expressou a sua satisfação, mas também a sua exclamação – “Parem de fazer tantas séries. Nós não conseguimos acompanhar tudo!”. Concordo plenamente. Como um cinéfilo ainda em descoberta de tudo e mais alguma coisa, a televisão contemporânea em constante evolução é ainda um universo bastante adormecido na minha watchlist.

Porém, concluí: “Se cada vez mais jovens realizadores se podem expandir no meio tecnológico, através da divulgação das suas humildes (porém competentes e profissionais) curtas-metragens ou sketches, chegando a se consolidar numa Netflix, o mesmo se pode dizer sobre quem dá a cara num filme ou numa série.”. Acho que o comentário “Hoje em dia, são todos atores…” nunca foi tão bem situado como atualmente. Há quarenta ou trinta anos, se querias ser ator, tinhas de te expandir na televisão ou no teatro, ambos territórios extremamente hostis (dada a severa falta de oportunidades). Nesses períodos de evolução, sim, qualquer jovem podia timidamente praticar a sua expressividade à frente de um espelho ou entreter a família em habituais (e toscas) reuniões caseiras. Muitos são os atores da nossa praça que (risivelmente, até) afirmam terem começado com tenra idade a fazer teatrinhos para os pais, irmãos e tios. Hoje, no meio de tanta oferta, fica mais fácil para qualquer jovem se expandir no negócio. No entanto, não quero opinar sobre a falta de talento de determinados “veteranos” ou elencos adolescentes emergentes em conteúdos indistinguíveis da televisão portuguesa (o que seriam alvos de crítica interminável). Apenas manifesto a minha vontade em refletir um pouco sobre este ofício: representar.

b6685b23c63c452044d53168a003acf0.jpg

Na altura do primeiro ciclo da escola básica, na minha pura (e compreensivelmente escusada) ingenuidade, manifestei à querida professora que me acompanhou durante quatro anos a minha vontade em futuramente me aventurar no meio artístico, nomeadamente no campo do acting. Mais valia estar calado e não dizer asneiras. Sim, senhor, tratava-me de uma criança. Sim, senhor, a professora ofereceu mais um dos seus belos sorrisos ao rapazito característico de uma inocente, ainda que elétrica criatividade e imaginação. Sim, senhor, como qualquer outra pessoa, os ouvidos da professora deliciavam-se com o monólogo genuíno de um puto a expressar os seus interesses mais primitivos.

A palavra-chave aqui é “interesses”. O meu gosto por cinema e por histórias não nasceu ontem. Por acaso, ao contrário do Christopher Nolan, nunca terei a oportunidade de dizer que brincava com a câmara do meu pai e me divertia a fazer vídeos em stop-motion com figuras de ação. Ao contrário do Quentin Tarantino, não poderei afirmar que o meu gosto pela Sétima Arte é proveniente de um amor pelo cinema francês ou italiano. Tudo aquilo que ainda não consumi compõe uma mera falta de instrução. O meu gosto por ver personagens numa tela a interagir e a transmitir bons valores e lições apenas se afundou pelo meu cérebro adentro devido às suas imagens e narrativas estimulantes. Mesmo com a ótima educação que recebi (tanto familiar como escolar), o expoente máximo de conhecimento obtido no aborrecimento do dia-a-dia não era tão motivante como os mínimos minutos de entretenimento que um curto filme de animação (ou de qualquer outro género) me provocava quando chegava ao meu sofá e ligava a televisão e o antigo leitor de DVD. Parece clichê. É clichê. Mas é assim que as paixões de qualquer um nascem. A minha nasceu graças a esta incansável rotina.

rs-234401-american-psycho.jpg

Isto para dizer o quê? Tal como eu, na minha falta de noção ligeiramente comovente, qualquer outra pessoa (e eventualmente ator) terá manifestado a sua vontade de, na sua serena ou rebelde fase de infância ou adolescência, subir a um palco ou a um set de filmagens e encarnar a pele de uma pessoa cuja vida foi escrita num papel parido numa máquina de escrever ou num documento word. E aqui é que as coisas merecem ser esmiuçadas ao microscópio. Dada a frequência com que vemos milhares (quiçá milhões) de caras nas pequenas e grandes telas, fica difícil levar todas a sério. Afinal, o que motivou alguém a desejar aparecer à frente de uma câmara e fazer parte de uma ficção ou representação da realidade, ganhando dinheiro e estabelecendo uma vida através de tal (simples ou complexa) atividade? Quais são a(s) origem(ns) e a(s) finalidade(s) que provocam uma motivação artística e profissional num jovem desconhecido que se aventura numa série da Netflix ou num musical do Filipe La Féria? Afinal qual é que é o enorme prazer em interpretar personagens?

Infelizmente, achar estas respostas no panorama português é bastante fácil. A recente (e excelente) série “Sara”, da RTP, satiriza os “atores de Instagram”, como o próprio Nuno Lopes gosta de os descrever. São estes uns quantos narcisistas que se infiltram em banais, descartáveis, supérfluas, ainda que bem-intencionadas produções televisivas. Pessoas com a necessidade de satisfazer o seu desejo de aparecer e preenchimento de uma atenção possivelmente nunca correspondida. A necessidade de ser seguido e apreciado por diversas pessoas (ou sem critérios ou sem noção da tóxica cultura da celebridade). No entanto, desde os teatros gregos aos filmes do Marlon Brando, o significado de “ser ator” ganhou (e com todo o mérito) uma diferente significado. E qual ao certo?

Sugerido: Sara T1 - a monumental e definitiva sátira televisiva portuguesa

MV5BMTg1MzUwNDU4OV5BMl5BanBnXkFtZTcwNDA3Nzc3Mw@@._

No podcast “A Beleza das Pequenas Coisas”, a frase destaque do primeiro episódio com a convidada de honra (e que regressaria eventualmente duas vezes) Rita Blanco foi “Enquanto vivo outras vidas distraio-me da minha própria morte”. Nas variadas conversas entre a atriz portuguesa e o jornalista Bernardo Mendonça, o ofício da querida cara do cinema português originou diversos pontos de vista e reflexões promissoras para suscitar o interesse de qualquer puto no seu quarto a ouvir uma agradável conversa entre duas pessoas apaixonadas pelas suas profissões. Embora já não tenha o bichinho da representação, provavelmente admiro ainda mais o talento de alguns (ou de poucos) artistas que verdadeiramente exercem esta parte de um filme, de uma série ou de uma peça com a maior mestria. A resposta que mais rapidamente surgiria na nossa cabeça (daqueles que consomem (ou que pelos menos tentam) todo o tipo de arte) seria “Eles fazem isto porque é Arte. Estão apenas a se expressar, a tentar validar o seu ponto de vista sobre determinado assunto em determinado período histórico, político, social…”.

Sugerido: São Jorge (2017) - Crítica

28120-s__o_jorge_4-h_2016.jpg

De facto, é verdade. A arte sempre foi um reflexo da História, uma ferramenta para os seus criadores representarem um conflito coletivo do seu tempo ou simplesmente demonstrarem o quão certos estão através da partilha de determinados pensamentos retorcidos, fora da caixa ou visionários (partilhados ou espezinhados pela maioria), jamais recorrendo à obviedade e, sempre que possível, desenvolvendo humor e, logo, o cativante fator do entretenimento (os irónicos filmes dos Irmãos Coen ou as obras injustiçadamente ignoradas do Stanley Kubrick são exemplos significativos). Nesse aspeto, "A Clockwork Orange" acertou na mosca (como poucos, por sinal).

Ser ator, todavia, acaba por ser uma atividade egoísta (no melhor sentido da palavra) do que qualquer outra coisa. Quem tiver o talento e quem tiver a dedicação pode muito bem viver a vida de outra pessoa, testemunhando em primeira pessoa eventos que jamais ocorreriam na pacífica e insignificante existência do sujeito em si. Haverá coisa melhor do que a aprendizagem? Haverá coisa mais interessante do que a evolução moral e a exploração de uma mente? Já imaginaram os traumas com alguns atores ficaram depois de determinado trabalho? Quanto maior eles forem, com certeza que maior é a realidade que se imprime em cada cena. Já que estamos a calçar os sapatos de outra pessoa mais vale vermo-nos exatamente nos mesmos cenários. Bons ou maus. Glamorosos ou miseráveis.

Sugerido: Walter 'Heisenberg' White - violência e a perda da insignificância

Walter-White-Mercury-Fulminate-Scene-1160x786.png

No humor, em particular, a missão costuma ser bem específica. Isto pode parecer ser apenas um aparte, mas muitos são os humoristas e atores de comédia que declararam ao longo da sua carreira que gostam de fazer os outros rir principalmente devido à terapia que retiram daquele processo. A necessidade introvertida de fazer os outros rir depois de nós passarmos o tempo inteiro no nosso cantinho tímido ou num canto obscuro repleto de autodepreciação e falta de autoestima torna a simples atividade de palhaçada num autêntico laboratório de exorcização não só dos demónios daqueles que sobem para cima dos palcos ou de cenários, mas também dos pontos de vistas gerais de uma sociedade. Enfim, isso pode ficar para outro dia.

Sugerido: Uma Reflexão sobre "Actores", de Marco Martins

Regressando ao que interessa. Ser ator passa por diversas responsabilidades: a representação fiel de um personagem; a obediência para com o comandante de uma história (um realizador ou um encenador); a capacidade de transmitir os variados sentimentos, de preferência sem diálogos, lidando calmamente com a “máquina emocional” dentro de cada profissional (como a peça “Actores”, de Marco Martins, tencionou demonstrar) e a transformação física (muitas vezes obsessiva) do sujeito responsável por (voltar a) dar vida àquele personagem. Na minha opinião, a mais admirável componente de um ator é a vontade de modificar o seu aspeto. O galês Christian Bale e o respetivo mestre Gary Oldman têm o mesmo princípio: “O objetivo é olhar-me ao espelho e não me reconhecer.”. Se alguma vez me aventurasse neste meio, saberia perfeitamente que seria este o lema a adotar.

the-joker-movie.jpg

Sugerido: The Dark Knight - a frágil e falsa moralidade humana

A conclusão à qual chego é que a linha que separa a paixão pela arte da necessidade de cumprimento de um reles e insípido show-off é bastante lógica e fácil de identificar. Claro, apenas conversando com qualquer artista percebemos o miolo dentro da sua conduta profissional. Julgar não é algo inteiramente certo, mas é claramente uma ferramenta fácil para dissecar as pessoas e conseguir lê-las, descobrir os seus valores, os seus interesses, as suas opiniões (ou a falta de qualquer uma destas coisas). Não me venham cá dizer que uma personalidade não é definível por um determinado tipo de características ou atitudes.

Mas perceba-se onde quero chegar. Muito provavelmente perdi o interesse outrora fervilhante em interpretar pessoas diferentes de mim (quer para o bem da arte quer para espalhar entretenimento) apenas por, devido a inúmeras indesejadas experiências (porém benéficas a longo prazo, como se pode notar), me ter tornado neste bicho trombudo e incapaz de gostar de um desconhecido, seja a pessoa um típico people-pleaser ou um antipático semelhante a mim. Se bem que tendo sempre a simpatizar com quem diga mal de tudo e mais alguma coisa, tal como eu. Podia ficar aqui horas e horas a escrever aquilo que acho, já pareço o Alvy Singer, do “Annie Hall”.

30073998_4.jpg

A tarefa de me abstrair do meu ponto de vista em relação a individualidades alheias (sejam reais ou bonecos nas frases de um guião) é praticamente impossível. Evitar juízos de valor constantes até enquanto ando na rua e descortino os restantes membros da população que por mim passam não é uma das minhas especialidades. Ainda por mais, se levássemos isto para outro nível, aí sim, eu corria o risco de perder a minha identidade. Sei perfeitamente que esta atividade, quando levada a sério, é dificílima, é exigente de uma impecável concentração, disciplina, fisicalidade, expressividade e genuinidade. Só não gostava de ficar instável como o Jim Carrey depois do “Man on the Moon”. Abandonar a minha rotina e adotar outra? Procurar as mais complexas fontes para estudar o comportamento de um personagem verídico? Passar por brutais dietas? Talvez não. Talvez não. Antes ficar atrás das câmaras e dirigir atores. Isso sim sei que conseguiria. Conseguiria transmitir aquilo que queria. A não ser que estivesse a trabalhar com um João Nunes da vida. Aí, sim, teríamos problemas ou desistência da minha parte. Ou podia sempre torturá-los como fazia o Alfred Hitchcock. Divertir-me-ia.

 

Facebook - Twitter - Letterboxd

 

Comentar:

CorretorEmoji

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.