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Vida de um Cinéfilo

Vida de um Cinéfilo

Slender Man - sinistramente desnecessário, histérico e risível

Aconteceu com “The Amazing Spider-Man”. Aconteceu com “The Emoji Movie”. A Sony tem este sexto sentido de nos dar péssimos filmes que servem apenas para obter aquele cachê. Na última vez que verifiquei, “Indústria” não era sinónimo de “Cinema”.

O mais recente filme de terror da Sony Pictures Releasing decorre numa pequena cidade em Massachusetts e acompanha quatro amigas do secundário que ficam fascinadas com o Slender Man, um espírito assassino pertencente a um mito urbano da Internet. Depois de realizarem o tutorial de evocação do mesmo, estas envolvem-se numa luta pela sobrevivência.

O filme foi realizado pelo francês Sylvain White, responsável por episódios de “Hawai Força Especial”“MacGyver” e “The Americans”. Curiosidade: se quiserem verificar a sua página no IMDB, repararão que este nunca permaneceu muito tempo num projeto televisivo singular. O que poderá isto significar? Considerando “Slender Man”, provavelmente indica que o talento que este tem para adaptar o argumento de terceiros é tão grande como o que tem para desenvolver personagens. Para além de tremer a câmara em sequências de perseguição e de não extrair boas interpretações do seu elenco, é ainda incompetente no que diz respeito a narrativa, manifestação de terror e a lógica.

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O filme foi escrito por David Birke, responsável por (preparem-se!) “Elle”, protagonizado pela Isabelle Huppert, de 2016. Se um guionista tão inteligente e perspicaz passa de um drama quase perfeito para uma atrocidade quase total, alguma coisa decerto correu mal. Isto porque as virtudes de “Slender Man” são quase nulas. A exposição parece interminável. Em vez de nos deixarem absorver a (suposta) atmosfera sinistra do filme, deixam-nos testamentos repletos de informação que podiam ser perfeitamente mostrados, em vez de dialogados. A determinado momento do filme surge um voice over cujo único propósito é deixar tudo arrumado, para não se correr o risco do público idiota não perceber.

Mas para falar de idiotice, podemos ficar pelos personagens, que tomam decisão estúpida atrás de decisão estúpida. Até é dado um arco inicialmente à protagonista que, para além de ser incompreensivelmente adicionado à trama, é completamente largado. Pelos vistos, na Sony, na produção de um filme de terror, todos se esquecem do comportamento de um ser humano em determinadas situações. Até a própria personalidade e as crenças dos personagens são, por vezes, ignoradas só para a trama andar para frente. Fazer o contrário, por difícil que pareça, não é impossível. Existem filmes em que os personagens (cautelosos como são) tomam decisões inteligentes e, mesmo assim, dão-se mal.

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O filme começa como o high school movie mais cliché possível: amigos a tirar fotos, a combinar festas, a largar insultos e a seduzirem-se uns aos outros. Posto isto, eis que chegamos ao elenco. Há atores completamente descartáveis, tal como os seus personagens. Mas justiça seja dita. O elenco faz o mínimo. As meninas lá fazem as suas caras de assustadas, choram e riem quando lhes é ordenado. Mas num filme deste nível nunca esse esforço é suficiente. Há muito melodrama e histeria forçada, que arruínam constantemente as cenas e que dão vontade de rir.

O melhor elemento do elenco é a Julia Goldani Telles, que tem um historial na televisão e que faz aqui o seu primeiro trabalho no cinema (poor her…). Ela tem um carisma diferenciado do restante grupo principal, mas escusado será dizer que, sendo protagonista, sofre exatamente de todos os problemas já mencionados acima. Inclusive aquele namorado que aparece e desaparece.

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Para além das suas diversas falhas, o realizador é ainda incapaz de captar planos mínima e visualmente cativantes. Quando a enorme e densa floresta é exibida em largos shots, funciona. Mas, de resto, o filme é demasiado escuro para se perceber alguma coisa. É incómodo de tão horroroso que é. Pode ser que tenha sido apenas obra do diretor de fotografia Luca Del Puppo. Estamos a falar de um filme da Sony, o realizador pode, afinal, ter tido pouca liberdade criativa. Porém, de qualquer maneira, é um péssimo trabalho. Alguém que diga a estas meninas para ligar as luzes de casa.

Falando das pequenas virtudes. O próprio Slender Man funciona. Não que a sua manifestação seja boa. Aliás, o suspense e posterior terror do filme são criados à base de silêncio repentino e de um enorme barulho estridente, pesado e (claro) previsível. No entanto, ao contrário do que eu esperava, não nos é revelada ao pormenor a fisicalidade do espírito. Todas as suas sombras e pequenas aparições conseguem levantar um arrepio. Como já vimos em bons filmes, o melhor terror está no medo do desconhecido. Por isso, esperar até ao momento certo e calculado no terceiro ato foi, pelo menos, bem pensado.

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A entidade tinha o suficiente para fazer parte de uma boa história. Eu comprei toda a paranoia por detrás dos desaparecimentos e o meu interesse pelo fenómeno surgiu naturalmente. Há conceitos visuais interessantes (elevados por efeitos visuais convincentes) e uma conotação sexualmente agressiva que devia ser explorada. O Slender Man podia ser um ótimo antagonista, caso o filme fosse melhor. Eu vi potencial. Mas também vi uma empresa desesperadamente sedenta por popularização e aquisição apressada de direitos autorais.

“Slender Man” é exatamente aquilo que se aguarda. Um filme de terror desnecessário e absolutamente esquecível, que se leva a sério demais e que, em momento algum, é assustador. O visionamento tem simplesmente a utilidade de ser realizado com amigos, com quem nos podemos rir de tão mau que é.

 

Nota: D-

 

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