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Vida de um Cinéfilo

Vida de um Cinéfilo

Sorry for Your Loss S1 – o Facebook sabe fazer séries

Fui, juntamente com metade do Mundo, uma das pessoas que torceu o nariz quando, em 2017, foi lançado o Facebook Watch – a plataforma da rede social de Mark Zuckerberg dedicada à produção de conteúdo televisivo original. Um total superior a 1 bilião de dólares foi o investimento, cujo 55% do lucro da publicidade seria para os criadores e os restantes 45% para a empresa. Não sendo nada disto relevante, a principal questão é: “A série é boa?”.

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“Sorry for Your Loss” trata-se de uma criação da guionista Kit Steinkellner. Entre os realizadores que trabalharam nos 10 episódios, o que se encarregou do maior número foi James Ponsoldt, lembrado recentemente pelo péssimo “The Circle”, de 2017. A série conta a história de Leigh Shaw, uma viúva com menos de 30 anos que simultaneamente recorda os momentos definitivos da sua relação com o marido e lida com problemas familiares. No decorrer, esta passa por um novo processo de autoavaliação.

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Sugerido: The Circle (O Círculo, 2017) - Crítica

Foi inicialmente descabido quando o Facebook decidiu iniciar a sua disputa contra a Netflix, tal como outras empresas. Mas a verdade é que, assim que saiu o trailer desta série, uma ligeira hype se formou na minha pessoa, que, curiosamente não vê tantas séries como maior parte da população global. No entanto, o que dizer de “Sorry for Your Loss”? Para já, a série é boa. A aposta de um dos bilionários mais jovens do mundo foi bem calculada. Sendo que o crédito vai inteiramente para a equipa por detrás de tudo. Com um elenco jovem e compromissado, um texto sincero e com algum ar fresco, realização competente, uma fotografia limpa e oportuna, uma banda sonora perspicaz e a ausência de necessidade de encher chouriços, “Sorry for Your Loss” foi uma agradável surpresa.

A começar pelos temas abordados. Para além de um honesto e inteligente retrato do luto individual (ou coletivo), o guião, mesmo transcrevendo exatamente aquilo que os criadores pensam sobre determinado assunto (suponha-se), nunca adota qualquer artificialidade. Os diálogos fluem bem com os respetivos personagens em diversas situações e aquela área moralmente cinzenta está presente, permitindo ao espectador desenvolver uma reflexão ou debate interior, uma vez distanciado dos conceitos do “branco” e “preto”, do “correto” e “errado”.

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Quando a trama não segue a protagonista no seu confronto contra a pesada tristeza provocada pela viuvez e na seguinte tentativa de se reinserir na vida social e profissional, navega entre a perspetiva dos personagens secundários sobre casamento, divórcio, família, alcoolismo, sexo, a falsa imagem que projetamos no meio social, a inútil necessidade de nos sentirmos universalmente apreciados, entre outros. A série é tematicamente rica não só graças ao guião, mas também, como é óbvio, às interpretações. A começar pela Elizabeth Olsen, que dá facilmente a melhor performance da carreira até agora.

Desta vez, com o protagonismo, a atriz revela o quão os seus dotes artísticos vão mais além do género dos super-heróis, exigindo que o público a leva a sério futuramente. Até porque o estudo de personagem é ótimo. Por muito desagradáveis, apáticas ou revoltadas que sejam as reações da personagem perante qualquer coisa, é difícil ficar contra ela, mesmo expostos todos os seus defeitos. Através de uma lágrima indesejada, um revirar de olhos provocador, um insulto repleto de ironia, um pequeno gesto corporal, um nó na garganta ou um simples silêncio, torcemos pela Leigh num dos processos mais duros da sua vida.

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O Mamoudou Athie devia ser considerado também protagonista da série, assim como a Elizabeth Olsen. Para além de muito talentoso e carismático, é ainda um dos personagens mais serenos, contrapondo-se à personalidade da Leigh. Devido à sua calorosa presença e à necessidade iminente do público de saber como e quando é que a sua morte ocorreu, a ausência deste nota-se muito facilmente. Para além disso, o personagem é igualmente um instrumento para se discutir um determinado assunto muitas vezes abordado de maneiras erradas na nossa praça.

Ao contrário do que a Internet esperava, a Kelly Marie Tran não é idêntica à sua prestação em “Star Wars: The Last Jedi”. Ao contrário da Rose Tico, a Jules Shaw é uma das personagens mais interessantes aqui presentes. Juntamente com uma genuína relação de irmãs, é através dos seus olhos que o público se consegue posicionar no lado de alguém que é constante e injustamente pisada pela miséria ou passiva-agressividade de terceiros. Uma pessoa bem-intencionada, um pouco azarada, mas sem o mínimo de ingenuidade, que acaba por ser consequentemente, por vezes, o alvo da chacota.

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Sugerido: Star Wars: The Last Jedi (Star Wars: Os Últimos Jedi, 2017) - Crítica

A Janet McTeer consegue simultaneamente injetar uma boa dose de humor, seriedade e uma das presenças maternais mais distintas dos últimos anos. Para além de uma mulher desesperadamente ansiosa por ver a filha feliz, é ainda uma mãe adepta de medicinas alternativas, tarot e consultas psíquicas, o que fornece um tom leve à série, proveniente dos diálogos mais ridículos. No entanto, no núcleo da personagem, algumas decisões estranhas forma tomadas, nomeadamente uma situação bem especifica e aleatória no sexto episódio. Para além disso, a atriz tem uma boa química com o Don McManus e com a Carmen Cusack, ambos competentes, mas subutilizados.

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Depois de “Fences” e de “The Leftovers”, o jovem Jovan Adepo continua a surpreender. Desta vez, com um pouco mais de tempo em cena, constrói um personagem muito de fácil de gostar. Compreendemos o seu lado, ouvimo-lo a discutir com a protagonista e esta interação é uma das mais interessantes da série, tendo podido muito bem dar para o torto, narrativamente falando.

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Os restantes problemas da série consistem principalmente noutros personagens. Primeiro, há um casal gay. Mas desenganem-se se acham que a série tenta fazer alguma coisa com eles tendo em conta alguns assuntos já mencionados. O casal gay amigo da protagonista apenas existe … porque sim. Porque aparentemente é sinal de homofobia não escrever nenhum personagem homossexual num filme ou numa série atualmente. Quero lá saber se tem ou não personalidade ou se contribui para alguma coisa na trama, desde que esteja lá. E, já que a série aborda as interações sociais por vezes difíceis dos personagens em questão, perdeu-se outra oportunidade – desenvolver uma amiga da protagonista que aparece no início e só volta no fim. É completamente desperdiçada. E digo isto como alguém que a desvalorizava quando a viu pela primeira vez e, assim que entendeu o propósito da sua existência, pensou imediatamente em 1001 formas de desenvolver ainda mais a personagem. Desperdício incompreensível.

Por fim, alguns podem se queixar dos últimos episódios, acusando-os de serem anti-climáticos, de não terem uma nota final diferenciada das demais. Mesmo inicialmente indeciso sobre o que recebi, eu acho que a série terminou exatamente onde devia. A história foi contada e deve acabar por aqui. Uma segunda temporada será irrelevante.

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“Sorry for Your Loss” está longe de ser uma das melhores séries do ano. Porém, com um elenco carismático e uma intimidade temática que capta a atenção e os demónios internos do público, consegue achar um lugar distinto na nossa memória.

 

Nota: B+

 

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