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Vida de um Cinéfilo

Vida de um Cinéfilo

Stranger Things S1 – requisitar o irresistível supérfluo

No meio da oferta televisiva e cinematográfica de uma incontrolável escala que temos recebido nos últimos anos, para além de produzir ou assistir a conteúdo inteiramente visionário ou original, fica difícil para os espectadores se decidirem entre aquilo que escolhem para sessões de binge-watching. Sem grandes rodeios hoje, aquilo que apenas pretendo constatar é: todos nós gostamos de voltar à nossa infância.

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Quem é que pediu as sequelas dos filmes da Pixar? Quem é queria mesmo ver a sequela de “Trainspotting” ou o remake live-action de “Beauty and the Beast”? E quem é que está excitadíssimo para contemplar as versões em carne e osso de “Dumbo”, “Aladdin” e “The Lion King”. Ninguém. Absolutamente ninguém. No cenário atual composto pelo sucesso do cinema blockbuster auxiliado pela gradualmente emergente tecnologia das imagens computadorizadas, pela falta de efetividade das gigantes criações de estúdios cegamente apressados e pela rara aparição de novas e boas ideias, tanto a televisão como o cinema tendem gradualmente a recorrer a uma ferramenta estupidamente simples de reproduzir as vezes que forem precisas: nostalgia.

Não há nada como assistirmos a uma série ou a um filme que nos leve de volta ao período mais prazeroso da nossa vida, em que as preocupações eram escassas e o tempo livre era abundante. Portanto, nada como uma oferta televisiva ao nível de “Stranger Things”. Não sou descendente da cultura popular dos Anos 80, mas coleciono uns semelhantes gostos com os personagens principais da série dos Irmãos Duffer. São estes claramente filmes da década, sobretudo os de Steven Spielberg e de John Carpenter (perdoe-me, fãs de Stephen King, por nunca ter lido nada). Como qualquer bom cinéfilo, sou fã daquilo que se fez na década. Aliás, como não ser? No entanto, “Stranger Things” torna-se num recheado aglomerado não só daquilo que de melhor se fez no ramo do entretenimento e progresso cinematográfico nessa altura em específico, mas também daquilo que os nerds da altura futuramente descobririam.

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No território Steven Spielberg, observamos o olhar inocente, ingénuo e simples de um grupo de crianças maravilhadas com fenómenos sobrenaturais que interrompem a sua rotina constituída por passeios de bicicleta e sessões de jogos de tabuleiro; uma total indiferença e ignorância parental; a típica mistura de paranoia e medo da Guerra Fria; uma agência governamental secreta sedenta por explorar os fracos a favor da cruel e insensível vitória política. Tudo pincelado com múltiplas referências a “Jaws”, “Close Encounters of the Third Kind” e “E.T. the Extraterrestrial”.

No campo John Carpenter, recebemos uma panóplia cinematográfica da abordagem do monstro, acompanhada por outros clássicos do género. Isto é, se Steven Spielberg está presente em “Stranger Things” através do olhar infantil das crianças e da rara maturidade dedicada e bem-intencionada de alguns adultos, John Carpenter está presente não apenas nas referências a “Assault on Precinct 13”, “Halloween”, “The Fog” e “The Thing”, mas também na fotografia minimalista e ligeiramente poluída oitentista, na banda sonora eletrónica com pesadas batidas, no néon do próprio genérico e no tratamento do misterioso e aleatório terror. Aliás, tudo o que envolve o monstro (o chamado Demogorgon) é feito com uma mestria semelhante à de outros clássicos do género (“Alien”, de Ridley Scott, “Poltergeist”, de Tobe Hooper, “A Nightmare on Elm Street”, de Wes Carven, e “The Evil Dead”, de Sam Raimi). É mostrado o mínimo daquela bizarra criatura e, se não fossem alguns toscos efeitos visuais e cenas falhadas de green screen, a série seria uma exemplar obra do CGI moderno.

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No universo Stephen King, está a dissecação do lado negro individual; a angustiante rotina de crianças (realisticamente asneirentas, como aconteceria em “It”, de 2017) num ambiente no qual são constantemente vítimas de humilhações que lentamente progridem para ameaças e agressões e, como seria de esperar, os inevitáveis confrontos com figuras monstruosas simbólicas. Pequenos detalhes como a fonte da letra do logotipo da série e as figuras de ação do jogo preferido dos personagens são relativos a inspirações que os Irmãos Duffer desenvolveram. Marcas visuais dos filmes baseados em livros do escritor americano como “Carrie”, “The Shining”, “Firestarter”, “Stand by Me” e “It” são fortes presenças.

Com uma riqueza cultural inacreditavelmente extensa, “Stranger Things” podia ser já considerada uns dos trabalhos mais perfecionistas da Netflix. No entanto, como qualquer boa história, esta precisava de bons personagens. Mais uma tarefa cumprida. O trio principal é um dos melhores vistos nos últimos anos em televisão. As interpretações são naturais e os atores, claro, são extremamente dedicados. A química do grupo é irretocável, igualmente proveniente da dinâmica de grupos como os de “The Goonies”, de Richard Donner, e de “Explorers”, de Joe Dante, e particularmente característica de um amor notável pelos universos da Marvel, de “Star Wars”, do He-Man e de Dungeons & Dragons.

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O Finn Wolfhard é meritamente o líder do grupo, tem muito carisma e a relação entre ele e a Eleven é envolvente e uma ferramenta para ambos se redescobrirem e autoavaliarem. Comicamente, o Gaten Matarazzo é a alma não só do grupo central, mas também de toda a série, para além de igualmente uma frequente voz da razão. Em termos interpretativos, o Caleb McLaughlin é o melhor, o ator entrega-se inteiramente ao personagem e convence perfeitamente como um amigável, nervoso e sarcástico provocador. O Noah Schnapp faz o que deve com o tempo que tem. E a Millie Bobby Brown é facilmente o membro mais importante do elenco, muitas vezes sem dizer uma única palavra. Eu adorei a expressividade da atriz! A autenticidade do seu arco e personalidade é, sem dúvida, a chave da série e tudo o que envolve a manifestação das suas habilidades paranormais e aqueles flashbacks nos laboratórios é feito com extremo cuidado.

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Os melodramas típicos dos seios adolescentes são moderadamente bem feitos, ao contrário do que acontece na maioria dos filmes ou séries. Porém, o elenco, com duas exceções, não é nada de especial. Se apenas víssemos estas caras com menos frequência, a série seria mais prazerosa, pois acompanharia ainda mais as crianças, cuja história é a mais empolgante. O personagem do Joe Keery ganha profundidade no decorrer. Já a dupla Natalia Dyer e Charlie Heaton tem uma das sub-tramas mais interessantes. Acompanhar uma moça proveniente dos filmes do John Hughes a se atrair por um filho da cultura punk rock emergente dos Anos 80 é muito promissor e novamente relativa a clássicos contos sobre jovens casais desajustados. A Nancy é uma personagem inteligente e tem um carisma distinto. E o Jonathan é um ótimo acerto no que diz respeito ao desenvolvimento de adolescentes mais maduros que a sua própria geração no audiovisual contemporâneo.

A Winona Ryder está perfeita. Chega a ser até incómodo ver aquela mãe em tal desespero e isolação da comunidade, em específico quando duvida, inclusive, da sua capacidade de diferenciar o real do imaginário, enquanto corajosamente procura o filho desaparecido. A atriz superou-se e não seria descabido afirmar que esta é a melhor interpretação da sua carreira.

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E o David Harbour é um talento para as próximas décadas. O ator consegue transmitir toda a dor que o personagem carrega, mesmo debaixo daquela carapaça brincalhona de um duramente empenhado polícia de uma cidade pacata na qual nada de mau geralmente acontece. A sua motivação é claríssima desde o início, fazendo com que o público o acompanhe a 100%.

Já o Matthew Modine foi um desperdício. Mesmo sabendo que a série procura relacionar os eventos com a perversidade política do seu tempo, o personagem é raso e merecia mais profundidade. O Soldado Joker de “Full Metal Jacket” merecia mais.

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A Netflix começou esta aventura da produção de séries fictícias originais em 2013, com “House of Cards”, mas a verdade é que “Stranger Things” é certamente um dos seus pilares. O popular serviço de streaming expandiu-se no expansionista mundo do entretenimento e, até hoje, sai regularmente vencedora (uma vez que todas as empresas seguem os passos idênticos – planear mais enredos televisivos visionários). “Stranger Things” é uma enorme, detalhada e emocionante carta de amor à cultura dos Anos 80 e uma das mais honestas amostras daquilo que se pode construir em televisão, sem jamais apelar à superficialidade vista há uns anos atrás nos pequenos ecrãs. Com certeza, falarei sobre a segunda temporada.

 

Nota: B+

 

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