Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Vida de um Cinéfilo

Vida de um Cinéfilo

Stranger Things S2 – a nostalgia avançou

A sociedade consegue ser macaca. Em 2017, reparei que toda a gente assistia a um drama lavado com temas cruciais como suicídio adolescente. “13 Reasons Why” era o nome. Uns adoravam, enquanto eu preferia manter a minha decência cultural e encarar aquilo exatamente como deveria ter sido em primeiro lugar: um melodrama desmerecedor. Antes de descarregar a minha vontade em iniciar longas sessões domingueiras de binge-watching (que eventualmente ocorreu com “Breaking Bad”), ouvia muito falar em “Stranger Things”, uma “encantadora carta de amor à cultura dos Anos 80”, diziam. Tal como pouquíssimas febres juvenis, o histérico movimento à volta daquela história pouco original (porém estupidamente atrativa) justificava-se minimamente. Os Irmãos Duffer safaram-se e, mantendo a viola no saco (resumindo-se àquilo que fizeram), demonstraram um potencial ascendente, juntamente com um amor relacionável pela Sétima Arte. As altas expectativas que aguardavam a segunda temporada abriram uma janela para a hipótese de todo aquele universo se transformasse na típica sequela espremida até ao âmago. Felizmente, não foi o caso.

thumb-1920-879599.png

A onda de hype à volta de “Stranger Things” tinha mais fundamento do que parecia. Devido ao meu ceticismo e ao meu amor incondicional por “Breaking Bad” (não perco uma única oportunidade para afirmá-lo, como se pode verificar), é-me difícil acompanhar cegamente uma série que me levasse até àquela tão comum (e irrefletida) exaustão idolátrica presente em específicas faixas etárias sem critérios de consumo ou de avaliação. Todavia, revi-me a rever a base dos meus gostos assistindo à continuação de uma boa história na qual a nostalgia apresentada na primeira temporada foi ligeiramente posta de parte e substituída por ótimos novos arcos. Os Irmãos Duffer têm um belo caminho enquanto storytellers modernos e aguçaram-me definitivamente o interesse em ver os passeios de bicicleta do grupo de amigos durante o verão de 1985.

Sugerido: 13 Reasons Why (Por Treze Razões, 2017) - Crítica S1

Inclusive, com mais uma banda sonora repleta de clássicos e um guarda-roupa reminiscente a uma inconfundível época, “Stranger Things” torna-se gradual e meritamente um dos mais importantes trabalhos originais de ficção (científica juvenil, digamos) da Netflix.

stranger-things-season-2-review_hsqb.jpg

A Sadie Sink foi uma virtuosa adição no grupo principal. A Max tem um sentido de humor ligeiramente ácido, mas uma doçura disfarçada por aquele cabelo ruivo despenteado constantemente a esvoaçar durante os rotineiros passeios de skate acompanhados por heavy metal. A vantagem que permite esta diferenciação é claramente a sua difícil aproximação com todos os membros, o que dita a maneira como certas relações são criadas. Para além de ser desenvolvido um inocente triângulo amoroso entre ela, o Gaten Matarazzo e o Caleb McLaughlin (ambos carismáticos e adequadamente provocadores de novo), o Finn Wolfhard é usado em menor escala, permanecendo um reflexo daquilo que parte do público pensa – a insubstituibilidade da Eleven. Já o Noah Schnapp tem mais para fazer. Se não aprendemos mais sobre a personalidade geral do Will (que vá além da de um rapaz timidamente talentoso), ao menos toda a reprodução de sequelas traumáticas e pesadelos consequentes dos eventos que sofreu é ótima (graças maioritariamente à iminência ameaçadora do obscuro shadow monster). A expressividade amedrontada, paranoica e verbalmente incapacitada do ator são exemplares para jovens elencos de filmes de exorcismo. Não fosse a descoberta de uma “habilidade” grotescamente conveniente perto da resolução final, o timing dos Irmãos Duffer seria irretocável.

O que é irretocável, na verdade, é a Millie Bobby Brown (aliás, mais uma vez)! A personagem continua atormentada pelo historial trágico e, depois de uma longa isolação, uma triste descoberta conduz-lhe para o seu próprio trajeto, no qual encontramos novas caras (um grupo liderado pela interessante, contudo insuficientemente utilizada Linnea Berthelsen). O David Harbour, em particular, é uma peça-chave neste processo. A relação quase involuntária de paternalismo tanto é o alívio num perpétuo peso na consciência e eventual oportunidade de redenção para o desafortunado Jim Hopper (entenda-se na sua perceção pessoal), como um amparo e recomeço para a fragilmente poderosa, solitária amante de eggos Jane Ives.

tmp_Cb6flc_446a26b9d6e21f76_ST_207-208_Unit_1110r.

A Natalia Dyer e o Charlie Heaton finalmente atingiram o inevitável e justo apogeu da sua relação, que se torna cada vez mais genuína e fundamental para a trama, relativamente à descoberta de certos fenómenos no campo dos esquemas políticos relativos à Guerra Fria, auxiliando-se com a nova (e surpreendente) conduta antagónica. O Joe Keery, uma vez distanciado da Natalia Dyer, tem mais espaço para acrescentar maturidade e uma desconfortada liderança ao Steve, procriando essas mesmas características no inesperado desenvolvimento de um buddy movie duo dividido com o Gaten Matarazzo. E o Billy Margrove (vivido comprometidamente pelo Dacre Montgomery) revelou-se um personagem bestialmente construído. Acrescentado ao comentário (desta vez mais reservado) sobre a perversidade política oitentista dos Estados Unidos, está uma subtil observação sobre maus tratos e as tóxicas consequências que caiem injustamente nos inocentes. Novamente realço a relevância da Sadie Sink.

dacre_montgomery_stranger_things.jpg

Sugerido: Stranger Things S1 - requisitar o irresistível supérfluo

E a Winona Ryder continua incrível, mantendo uma expressão agradavelmente alegre e leve, graças maioritariamente à presença brincalhona, desajeitada e bem-intencionada do Sean Astin. Durante diversos episódios e devido a determinados diálogos, fiquei convencidíssimo que um rumo desagradável e supostamente inesperado surgiria apenas para dar mais um fator de surpresa para o público. Felizmente, nada do que aguardava aconteceu. Discutivelmente, a nota na qual o Bob aparece pela última vez é bastante mais bem-vinda e necessária.

MV5BYzI0MGFlNmUtMDc1My00M2M1LTlmZWQtMDNmOGI4MjJiZm

E, desta vez, os efeitos visuais são certamente superiores. Talvez um erro ou outro foi omitido graças à ótima iluminação. Bastantes criaturas aparecem e interagem com o ambiente à sua volta de maneira convincente, permanecendo realistas e arrepiantes. Agora, “Stranger Things” focou-se no campo do terror, sobretudo a partir do penúltimo episódio, repleto de escuridão, planos focados na cara do elenco transpirado e na ameaça da vez (auxiliada por um design sonoro majestoso). A violência é mais gráfica e a sugestão lembra “Alien”, do Ridley Scott, ou “Jurassic Park”, do Steven Spielberg. Existe, inclusive, diversas novas homenagens, como seria de esperar, sendo a minha preferida a dos corredores da escola, cuja cena acompanha o Will numa das suas frequentes ligações à dimensão paralela a correr a toda a velocidade num caminho azul, frio e assombrado. “The Shining” ainda influencia muitos criadores.

stranger-things-2-wallpaper.jpg

Os Irmãos Duffer demonstram com “Stranger Things”, tal como John Carney, Kelly Femon Craig e Greta Gerwig fizeram com “Sing Street”, “The Edge of Seventeen” e “Lady Bird”, respetivamente, a presente vivacidade em contar histórias com núcleos temáticos de adolescentes, expandindo-se quando possível para outro género. Esteja o background pintado de ficção científica, terror, drama ou lições coming of age, a dupla criativa sabe o que faz e registou talento mais do que na sua entrada em 2016. Mal posso esperar por Julho!

 

Nota: A-

 

Facebook - Twitter - Letterboxd

 

Comentar:

CorretorEmoji

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.