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Vida de um Cinéfilo

Vida de um Cinéfilo

The Killing of a Sacred Deer (O Sacrifício de Um Cervo Sagrado, 2017) - Crítica

   Steven, um cardiologista de sucesso, vive tranquilamente com a família enquanto regularmente convive com o filho de um falecido paciente. Após algumas revelações, fenómenos inexplicáveis acontecem.

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     O filme foi escrito e realizado pelo grego Yorgos Lanthimos, responsável pelo bom The Lobster, de 2015. É um realizador muito autoral e criativo, com um enorme interesse em estudar a natureza fria, distante e insensível do ser humano. Se em The Losbter, era explorada a filosofia do amor humano com plano de fundo numa sociedade distópica e apática com regras incertas, em The Killing of a Sacred Deer, a ideia é desenvolver, com o mesmo background, temas como vingança, revolta juvenil, obsessão, sexualidade, desmoronamento familiar, culpa, desonestidade, hipocrisia, insanidade, morte e sacrifício (claro). Ao contrário da última oferta do realizador, que não é isento de momentos arrastados e provocadores de sono, este é disparado o seu filme mais interessante e compromissado. Maior parte da discussão tem inspirações pessoais do realizador, assim como na peça da Grécia Antiga Ifigénia em Áulide, o último trabalho de Eurípides.

     Como um drama de terror psicológico, o filme é desnorteante, bizarro e, por vezes, perturbador, ainda assim, assustador não é. A começar pela banda sonora estridente e irritante que jamais fica previsível. Pelo contrário, a música fala connosco, conta-nos a história e complementa a evolução (ascendente ou descendente) do estado de espírito dos personagens e dos seus respetivos arcos.

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     O trabalho de câmara engenhoso do Yorgos Lanthimos é lindíssimo, a começar pelos sensacionais tracking shots, que ostentam um cinema ainda subutilizado, mas extremamente eficiente na construção da atmosfera única do filme, claramente pegando outras muitas influências do Kubrick. A fotografia é limpa e objetiva e casa perfeitamente com a atmosfera e com os personagens, que são propositadamente quase isentos de sentimentos expressados facial ou corporalmente, sem deixar os diálogos demasiado monótonos ou monocórdicos. As emoções são genuínas e expressas através de pequenos e raros gestos e frases, mesmo os atores estarem desprovidos de emoções.

     O Colin Farrell está deslumbrante. Poucos são os atores que conseguem estabelecer a sua presença desta maneira. Há muito conflito introspetivo, o personagem passa por diversas experiências inesperadas e todo o desenvolvimento do personagem é honesto. É um médico tipicamente arrogante, teimoso e orgulhoso. No entanto, o temor pela sua família é genuíno.

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     A Nicole Kidman é o coração do filme. Apesar da sua igual falta de expressão, ela transmite rapidamente o seu medo e se estabelece como uma mulher emotiva. Ela e o Colin Farrell têm uma excelente química e a relação deles é credível e positivamente estranha.

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     A Raffey Cassidy e o Sunny Suljic são uma ótima dupla. Destaque para a Raffey Cassidy, que tem uma participação mais importante. A atriz ganha um protagonismo merecido e a personagem torna-se mais profunda e interessante gradualmente.

     Mas quem rouba todas as suas cenas é o Barry Keoghan, que está irretocável. Ele é imprevisível, misterioso, irrequieto, tenso e ameaçador. Tudo o que ele diz e faz gera dúvidas enormes. Nunca temos a certeza daquilo que ele quer, mas sabemos que o caminho até lá será cruel. Até já se começaram a criar teorias sobre o personagem.

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     O filme tem outros personagens secundários, mas que quase não passam de figurantes. Dentro do estudo do lado mais frio e distante daquela sociedade, era possível desenvolver algumas frases soltas e esporádicas e utilizar alguns personagens de maneira equilibrada sem deixar o filme arrastado.

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     The Killing of a Sacred Deer é bizarro, apático, tenso e essencialmente diferente e original. Certamente um dos melhores de 2017. Tal como Mother!, do Aronofsky, tem potencial para se tornar num futuro clássico subvalorizado, ainda assim sem gerar tanta controvérsia. É capaz de aborrecer muita gente, mas, no fim, ver algo inusual é sempre refrescante face aos filmes da Marvel e Star Wars.

 

Nota: A

Também podes ler a crítica no Cinema Pla'net.

 

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