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Vida de um Cinéfilo

Vida de um Cinéfilo

The Mountain Between Us (A Montanha Entre Nós, 2017) - Crítica

     Baseado no best-seller homónimo de Charles Martin, lançado em 2010, o filme conta a história de Alex, uma fotógrafa, e de Ben, um neurocirurgião. Estes não se conhecem, mas decidem alugar um avião depois do seu voo ser cancelado. O avião despista-se e os dois devem lutar para sobreviver nas montanhas de neve.

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     O filme foi realizado pelo israelita Hany Abu-Assad. Não conhecia o seu trabalho e não foi com The Mountain Between Us que este deixou uma boa impressão. Descobri que dois filmes dele (Paradise Now, de 2005, e Omar, de 2013) foram nomeados nos Óscares, por isso vou ficar de olho nele. Talvez não ter tido mão nem na produção nem no argumento sejam razões por este não ter conseguido injetar uma possível visão autoral dos seus últimos trabalhos que superassem a artificialidade e genericidade desta história. The Mountain Between Us, apesar de alguns bons momentos de tensão e de interpretações, é um romance genérico e previsível.

   A começar pela própria situação dos protagonistas. Há uma tempestade, os voos são cancelados. Os dois desconhecidos decidem alugar um avião pilotado por um mero mecânico. Porque é que o avião cai? Por causa da tempestade, presumo. Nada disso, o piloto tem um enfarte aleatório. É isto que não percebo, não há justificação para esta escolha. Fora isso, tudo começava bem. Os personagens estabeleciam-se e gerava-se um interesse, sobretudo graças ao talento de um duo carismático e empenhado.

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   O Idris Elba tem o carisma de sempre, é um homem aparentemente seguro de si, introspetivo, reservado, altruísta e muito inteligente. É basicamente uma representação do “homem de sonho” das mulheres, pelo menos é essa a posição em que este se estabelece rapidamente. Já a Kate Winslet interpreta uma mulher não muito comum na sua filmografia. A personagem é sarcástica e brincalhona, tenta encontrar o humor das situações e, ainda assim, tem os seus momentos de maior desabalo emocional e tristeza devido à situação em que se encontra. Por alguma razão também há um cão. Sim, parece que agora todos os filmes têm de ter um cão aleatório e desnecessário que aparece e desaparece apenas para gerar momentos fofos.

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     Os dois atores têm uma boa química e tentam salvar o filme da mediocridade do guião. Sim, mediocridade. O romance que nasce não funciona por vários motivos. Aliás, ele meio que funciona, o problema é que há artifícios desnecessários que constantemente prejudicam aquilo que podiam ser um arco bem construído. Os dois têm pessoas fora dali que os prende e os “proíbe” de entrar numa relação com um desconhecido. Este pormenor podia ser perfeitamente excluído. Era muito mais benéfico que os dois fossem pessoas solitárias e infelizes, sem qualquer medo de se relacionarem com alguém. A relação ainda seria apressada, mas minimamente mais realista. Outro problema são os diálogos, que oscilam entre fracos, a artificias, a expositivos, a puramente medíocres, a lamechas e piegas. Os guionistas optam por mostrar os personagens a dizer há quanto tempo estão perdidos em vez de usar qualquer método de visual storytelling ou alguma montagem mais frenética.

     Para não falar dos típicos clichês sempre presentes nos romances e filmes de sobrevivência de hoje. Sempre vão haver filmes cobertos de clichês mal trabalhados. Não há nenhuma tentativa de construir algum atalho original para determinadas cenas, o caminho é exatamente aquele que se espera. Isto torna The Mountain Between Us num filme sem ambição.

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     O ato final é igualmente medíocre e/ou razoável e parece coisa de uma comédia romântica barata. Não vou dizer de que maneira é que acaba, mas nada nas últimas cenas nos faz saltar da cadeira. O filme acaba exatamente como todos nós esperamos. Mas o que mais incomoda é o melodrama, é a ausência de leveza e humor que esteve presente na maior parte do filme, vindo das piadas e da ironia da personagem da Kate Winslet.

     No entanto, nada é assim tão mau. O filme tem qualidades que poucos romances atuais têm preocupação em ostentar. Todo o voo (e queda) do avião é filmado com um ótimo plano sequência circular e inesperado. Infelizmente, o realizador não teve preocupação em elaborar planos cinematograficamente mais ricos. Nunca mais há nenhum plano surpreendente, o filme resume-se a close-ups e a panorâmicas. A maquilhagem das feridas e cortes é funcional. A fotografia da Mandy Walker, que trabalhou em Hidden Figures, do ano passado, realça muito bem a natureza simultaneamente selvagem, intimidante e bela daquelas montanhas. Nota-se que maior parte das filmagens evitaram os estúdios e foram feitas no local. O frio dos personagens e da paisagem é muito contagiosa. A banda sonora do Ramin Djawadi, que trabalhou em Pacific Rim, de 2013, mesmo com alguns momentos um pouco manipuladores e arrastados, acompanha bem o estado de espírito dos personagens e é agradável, graças àquele piano bem smooth.

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    The Mountain Between Us tem dois atores talentosos e dedicados, porém mal-aproveitados, uma fotografia muito bonita, e alguns bons momentos de tensão. No entanto, não resiste a apelar para alguns clichês do género e sofre de problemas que condicionam facilmente toda a história.

 

Nota: C+

 

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